Full Moon

18 Romeu e Julieta


Notas iniciais
Boa leitura!

“Who's afraid of the big bad wolf?" — Jacob Black

A campainha da casa foi o que me acordou naquela manhã preguiçosa de sábado. Apesar do barulho, não consegui me forçar a sair da cama; apenas torci para que Charlie ainda estivesse em casa, e pudesse atender quem quer que fosse.

Ainda sonolenta, tentei prestar atenção nos sons vindos dos outros cômodos, e, após alguns barulhos e de a campainha não tocar novamente, assumi que Charlie tivesse atendido a porta.

Virando para o outro lado, tentei voltar a dormir — sem qualquer interesse na visita inesperada -, até que ouvi passos pesados subindo as escadas, lentamente. Segurei o ar, desejando que, quem quer fosse, não viesse ao meu quarto, porém, não mais do que dois segundos depois, duas batidas pesadas soaram em minha porta.

Ela se abriu em seguida — antes mesmo que eu respondesse -, iluminando meu quarto escuro. Cobri a cabeça com as cobertas e grunhi, incomodada com a luz repentina em meus olhos.

“Bells, acorda, você tem visita.” Charlie chamou e eu resmunguei, irritada.

“Fala que não estou.” resmunguei, ainda com a cabeça coberta. Charlie não pareceu gostar daquilo.

“Eu já falei que você estava em casa.” retrucou. “Anda logo, ele está esperando na sala.”

Charlie fechou a porta logo em seguida, impedindo-me de tentar convencê-lo a me ajudar. Suspirei profundamente, desistindo de qualquer sono extra que poderia conseguir, e me espreguicei, antes de me levantar.

Notando que Charlie não havia dito quem era, apenas disse “ele”, desci as escadas com mais rapidez do que normalmente faria, sentindo a curiosidade vencer a preguiça. Quando cheguei a sala, ainda de pijamas, e com o cabelo todo bagunçado, dei de cara com ninguém menos que Seth Clearwater.

Ele abriu um grande sorriso quando me viu, “Bom dia, Bella!”

Eu pisquei por alguns segundos, coçando os olhos mais uma vez, para ter certeza de que não estava vendo coisas.

“Seth? O que está fazendo aqui…” perguntei, sem conseguir conter um bocejo. “...a essa hora?”

“Vim te buscar para estudarmos, o que mais?” ele respondeu, sua voz um quarto mais alto do que eu gostaria. “Lembra que você me prometeu, ontem à noite?"

Charlie, que parecia ouvir tudo da cozinha, falou alto: “Prometeu mesmo. Eu ouvi.”

“Obrigada pela ajuda, pai.” Respondi, azeda, frustrada com a sua interferência. Eu dei um grande suspiro, ainda sem acreditar, mas incapaz de rejeitar, o que parecia ser, o meu destino. “Hã, ok, Seth, só… me dê uns minutos para me vestir.”

“Tranquilo.” Respondeu ele, no mesmo tom animado de sempre.

Enquanto subia as escadas, ouvi Charlie chamá-lo para a cozinha, mencionando ovos e bacon.

Menos de meia hora depois, saímos de casa na caminhonete, ao mesmo tempo que Charlie, que pretendia sair para pescar com Billy. Eu até tentei seguir a viatura durante o percurso, porém, a minha caminhonete era muito mais lenta, então logo ficamos para trás.

Eu me virei para o lobo ao meu lado, o olhando com suspeita, “Agora falando sério, Seth. Por que você apareceu em casa tão cedo? Está tão ansioso assim para estudar?”

Seth sorriu desajeitado, bagunçando os cabelos com a mão por um momento.

“Quando conversei com Sam sobre você me ajudar com os estudos, ele me pediu para te arrastar para La Push o mais rápido possível. Assim, além de eu estudar, você estaria segura, sem termos que nos dividir com os Cullen para as rondas.” Explicou, rapidamente. “Sei que está cedo, mas, como ele me pediu...”

Demorei alguns segundos para absorver o que ele disse, antes de eu resmungar: “Obrigada, Sam.”

“Ah, vamos lá, Bella, animação!!” Insistiu Seth. “Todo mundo sai ganhando desse jeito! Eu não preciso fazer ronda no fim de semana, você pode passar o dia em La Push, e menos gente precisa ficar de olho na ruiva doida.”

“Ah, agora sim faz sentido!” exclamei, finalmente entendendo o seus motivos. “Você está tentando me usar para escapar da ronda! Deixa só o Sam ficar sabendo disso.”

Os olhos de Seth se arregalaram de uma maneira quase teatral, e eu por pouco não caí na risada.

“C-claro que não! Eu estou muito preocupado com a minha carreira escolar. Só isso.” Resmungou, olhando para fora da janela. Pude ver um leve avermelhado subir para suas orelhas, entretanto.

“Que bom, porque agora eu vou fazer você estudar até o cérebro escorrer pelo nariz.” ameacei, rindo logo em seguida da cara que ele fez. Talvez Seth se arrependesse de ter me usado como desculpa para fugir das rondas.

Quando eu parei em frente à sua casa e me movi para tirar o cinto de segurança, Seth me parou.

“Na verdade, Bella, se importa se formos estudar na casa da Emily?” perguntou “Sam me pediu para não ficar muito tempo sozinho com você, sem um dos caras por perto.”

“O quê? Por que não?” perguntei, surpresa.

Seth deu de ombros. “Por precaução, acho. Supostamente, eu não deveria nem ficar perto da minha mãe por mais umas duas semanas — pelo menos -, mas ele abriu uma exceção para Leah e para mim, por conta de tudo o que aconteceu…”

Seus olhos desfocaram por um momento, e, pela primeira vez desde o funeral, vi seu rosto contorcer-se em uma expressão de quase tristeza. Meu coração apertou em meu peito, e notei que, apesar de saber, no fundo da minha mente, que ele não devia estar bem, aquilo era muito fácil de esquecer, já que ele estava sempre sorrindo.

“Ah.” Foi a melhor resposta que eu consegui formular e aquilo foi o suficiente para voltar à si.

“Eu só vou buscar minhas coisas, e já volto.” ele disse, abrindo a porta do carro e disparando para dentro de casa, tão rápido, que mal pude acompanhar seus movimentos. Em menos de dois minutos ele estava de volta, carregando uma mochila laranja neon, que parecia estar cheia além da sua capacidade de carga.

Logo nos vimos na cozinha de Emily; Seth visivelmente mais animado do que eu. “Oi, Emily!”

“Ah, oi, Seth. Bella! Como você está?” cumprimentou Emily, não parecendo surpresa em me ver por ali. Ela tinha as mãos ocupadas, mexendo uma panela gigante sobre o fogão.

“Bom dia, Emily.” cumprimentei, me aproximando para espiar dentro da panela, curiosa. “O que está fazendo? Tem um cheiro tão bom.”

"Caçarola francesa.” respondeu, com um meio sorriso que parecia quase cansado, porém orgulhoso. “Pensei em começar cedo, já que leva horas para ficar pronto.”

“Emily, você não se importa de usarmos a sala para estudar, não é?” perguntou Seth, sem nem esperar a resposta antes de ir em direção à mesma.

“Podem ficar à vontade. Só não sei se vão conseguir se concentrar. Logo logo os meninos começam a aparecer para o almoço.” Ela respondeu, mesmo que Seth não estivesse mais lá. Eu apenas a agradeci por deixar nós usarmos a sua casa, antes de segui-lo.

Emilly tinha razão sobre aquele não ser o lugar mais adequado para uma sessão de estudos. Eu sabia como todos no bando poderiam ser barulhentos quando queriam. Olhando para o lado de fora pela pequena janela, notei como as nuvens pareciam firmes.

“Seth, o que você acha de estudarmos lá fora? Aproveitar o tempo estável?” sugeri, vendo que ele já abria a mochila para tirar as coisas de dentro.

“Hmm não é uma má ideia.” disse, antes de fechar a mochila novamente e levantar-se. “Tem uma mesa atrás da casa que podemos usar. Deve estar seca o suficiente; não chove desde de ontem.”

“O milagre.” brinquei, o seguindo para fora da casa.

Nós encontramos a mesa mencionada, na parte de trás da casa, perto de um cortador de grama que parecia ter sido usado recentemente, por conta do cheiro forte de grama cortada.

Puxando um dos bancos que, apesar de um pouco húmido, serviria para o trabalho, Seth despejou o conteúdo inteiro da sua mochila sobre a mesa. Encarei a pilha de livros com capas amassadas, cadernos usados e papéis rabiscados, boquiaberta.

Cavando na pilha como se fosse um cachorro fazendo um buraco na terra, Seth parecia procurar por algo específico. Depois de alguns momentos, ele levantou um livro pequeno, usado, na altura dos meus olhos; um que eu reconheceria a milhas de distância.

“Romeu e Julieta?”

“Yep, Romeu e Julieta. Eu te disse ontem que nós estamos aprendendo sobre clássicos na aula de Literatura, e eu fiquei sabendo hoje que a prova é, principalmente, sobre esse livro.” Informou, balançando o livro com uma mão.

Eu sorri, satisfeita. Romeu e Julieta era um dos meus livros favoritos, e eu o amei imediatamente quando o li pela primeira vez, no primeiro ano. Eu lembrava de nem ter precisado estudar para tirar nota máxima, no teste daquele semestre.

“Então esse teste vai ser fácil! Podemos fazer apenas um recap sobre o que você leu do livro, assim você tem os acontecimentos frescos na sua memória, e depois focamos nos problemas de álgebra que você comentou ontem.”

Sorrindo para ele, esperei que ele abaixasse o livro e começasse a procurar pelo livro de álgebra, porém Seth não o fez. Ele me encarou por vários segundos, com o mesmo sorriso de antes congelado no rosto.

“Uh… Bella. Só tem um probleminha…” Ele disse, depois de um longo momento. “Eu… não li o livro.”

Eu senti meu olho direito tremer por um momento.

Horas se passaram desde que havíamos começado. Eu sabia, pelo barulho que vinha da cozinha, que os meninos estavam chegando aos poucos, mas nós não paramos até a hora do almoço.

Dizer que estava chocada com quão pouco Seth tinha conhecimento sobre a história de Romeu e Julieta, era pouco. Eu não consegui me contentar com apenas deixá-lo estudar um resumo do livro, então nós acabamos por lermos juntos, fazendo pausas constantes para que ele tirasse dúvidas.

Em defesa de Seth, ele era um bom aluno. Não reclamou nenhuma vez, e parecia realmente muito interessado na história, mesmo quando eu interrompia em certas partes, para que pudesse frisar alguns pontos importantes, que provavelmente seriam abordados na prova.

Em certos momentos cheguei a me questionar se ele realmente precisava da minha ajuda. Me perguntei se ele era daqueles que estudava melhor com outra pessoa ao seu lado. Não ousei tirar sua concentração da leitura para perguntar o motivo de ter adiado tanto estudar para as provas, quando parecia ser tão bom em pegar o conteúdo.

“Seth, Bella, venham comer!” chamou Emily, abrindo uma janela — que parecia ser de seu quarto — para falar conosco no quintal.

“Já estamos indo.” respondi, ao mesmo tempo que Seth fechava o livro com força em meio a um suspiro, e espreguiçando-se em seguida. Tirei o livro de suas mãos imediatamente, frustrada com o modo como ele o tratava.

“Esse livro não é tão chato quanto pensei seria.” comentou, e eu segurei a vontade de acertá-lo na cabeça com o livro. “Estou curioso para ver o que vai acontecer.”

“Você já saberia se tivesse lido o livro quando a professora pediu.” resmunguei, sem conseguir me segurar, e ele deu de ombros.

“Vocês dois vão ficar sem comida se não vierem logo!” Insistiu Emily. “Paul está agindo como um animal, e logo vai acabar com tudo.”

Nos apressamos a entrar na casa, e conseguimos, por algum milagre, encher dois pratos com a caçarola francesa que Emily passou a manhã preparando.

O ambiente estava quente e apertado, com o movimento constante de alguém tentando se aproximar do fogão para repetir. As risadas, provocações, e o sentimento familiar que apenas uma refeição na casa de Emily traziam, me faziam sentir como parte daquela família.

Participei da conversa casual do grupo, que me incluía até mesmo em suas piadas internas já existentes. Boa parte do tempo, porém, eles passaram comentando sobre suas rondas, e Paul reclamou — constantemente -, do plano que ele mesmo havia criado, insistindo que era tortura não poder simplesmente arrancar a cabeça da psicopata de uma vez.

Assim que Seth pareceu satisfeito com a quantidade — absurda! eu nunca iria me acostumar com aquilo — de comida que decidiu ingerir, me levantei, apressando-o para voltarmos ao jardim. Ele não parecia muito disposto, e estava prestes a começar a resmungar, quando Emily lhe lançou um olhar cortante. Ele se levantou imediatamente, e me seguiu.

“Nós mal chegamos a metade do livro, Seth.” eu relembrei. “Se você realmente quiser passar no seu teste, temos que terminar esse livro ainda hoje, assim teremos tempo para focar na outra matéria.”

Demorou um pouco mais para que, depois do grande almoço, Seth conseguisse focar novamente. O livro não era considerado uma leitura fácil e, às vezes, tínhamos que reler a mesma passagem várias vezes, para que ele entendesse o que Shakespeare queria dizer. Notei que, apenas depois de a casa ficar silenciosa, começamos a ter, realmente, algum progresso. Imaginei que, apesar da audição extra ser uma das habilidades mais impressionantes dos lobos, devia ser, também, muito inconveniente.

Aprender a controlar suas emoções e a todos esses novos sentidos em tão pouco tempo, não era algo fácil, e achei que poucas pessoas conseguiriam fazê-lo com um sorriso constante, como Seth fazia.

Desde a primeira vez que li Romeu e Julieta, nunca, em toda a minha vida, eu me senti tão satisfeita por terminá-lo. Todas as vezes que o terminava, tudo o que eu sentia era uma grande tristeza, por não ter mais conteúdo. Porém, naquele momento, ver Seth fechar o livro depois de ler o último parágrafo, me trouxe uma felicidade tão grande, que senti todos os meus músculos relaxarem.

O sol já estava atingindo o horizonte quando terminamos, e minhas pernas estavam rígidas por ficarem na mesma posição por tanto tempo, naquele banco duro de madeira. Por mais que tivéssemos tirado alguns minutos durante a tarde, para esticar as pernas, foi um alívio quando, finalmente, pudemos levantar.

Seth parecia orgulhoso de si mesmo. Tinha um sorriso enorme no rosto, enquanto voltava a guardar o livro na mochila, com os demais. Tudo o que pude ouvir ao redor, naquele momento, foram os passarinhos, que começavam a voltar para seus ninhos. O vento fresco que balançava levemente as árvores ao nosso redor, era revigorante.

Pensar no silêncio, me fez lembrar de quando os meninos chegaram para o almoço e como Seth tinha perdido a concentração. Eu podia ouvir suas vozes, mesmo que estivéssemos do lado de fora.

“Seth, posso te perguntar uma coisa?”

“Depois de ter passado a tarde inteira lhe fazendo perguntas, você nem precisa pedir.” Seth riu, fechando o ziper da sua mochila.

“Eu só estava curiosa sobre os seus… sentidos de lobo.” Eu meio que ri, considerando as minhas palavras. “Quero dizer, sei que vocês têm uma audição aguçada, mas o quão aguçada estamos falando?”

Ele pareceu considerar as minhas palavras por um minuto, antes de responder.

“Hmm, eu consigo ouvir o coração da Emily dentro de casa, as ondas quebrando na praia, e crianças rindo em algum lugar. Além, é claro, de lobos correndo pela floresta.” foi a vez de Seth rir. “Se eu me transformasse agora, eu provavelmente poderia ouvir coisas ainda mais distantes, mas, pensando melhor, talvez você não devesse me usar como comparação. Pelo que eu saiba, eu sou o que tem melhor audição de todos os lobos.”

O modo como ele estufou o peito, orgulhoso, me fez quase rir. Tentei esconder o meu sorriso. “Então o seu ‘superpoder’ é ouvir melhor que os outros? Não me parece tão impressionante…”

“Mas claro que é!” Exclamou, obviamente ofendido com a minha brincadeira. “Se algum vampiro pensar em chegar perto de La Push eu consigo ouvir! Outro dia mesmo, fui eu quem alertou os outros de que a ruiva estava por perto.”

Eu fiz a minha melhor cara de impressionada, antes de rir do alívio visível que ele deixou transparecer. “E você não se sente… sobrecarregado? Eu só consigo imaginar como deve ser ruim ouvir tanta coisa ao mesmo tempo.”

“A princípio, quando me transformei, foi mesmo meio confuso, mas os caras me ensinaram alguns truques.”, ele deu de ombros, “Se eu me concentrar o suficiente, consigo bloquear bastante coisa, como se estivesse baixando o volume da TV, mas eu não gosto muito de fazer isso… a não ser que esteja tentando dormir. Depois que nos transformamos, acabamos nos acostumamos com todas essas coisas novas, então é estranho ficar sem por muito tempo.”

Balancei a cabeça, pesando suas palavras. Era enorme a quantidade de coisas que eu ainda não sabia sobre os transmorfos e, apesar de achar que poderia ser um pouco aterrorizante ser capaz de fazer tudo o que eles faziam, eu não podia deixar de me sentir curiosa. Talvez, ver alguém tão novo quanto Seth passar por aquilo sem se abalar, quando eu havia assistido Jacob sofrer tanto durante as primeiras semanas, tivesse mexido comigo.

Quando olhei para Seth novamente, porém, notei que seu rosto não estava tão animado quanto antes. Uma sombra escura parecia cobrir os seus pensamentos, e eu me senti culpada por ser a pessoa que tirou o sorriso do seu rosto, com seja lá o que passava em sua mente.

“Seth, porque a gente não vai dar uma volta na praia? Você merece depois de passar tanto tempo estudando.” Ele coçou a cabeça por um instante, não parecendo muito inclinado a aceitar, então eu continuei, “Vamos, lá! Eu te compro um sorvete.”

O sorriso grande de sempre preencheu o seu rosto infantil enquanto ele pulava do seu assento, prontamente.

Depois de comprarmos sorvetes no restaurante perto da First Beach, estacionei a caminhonete próxima ao fim da praia, perto da escola, de forma que estávamos perto o suficiente da água para ver até a Ilha James, bem na nossa frente.

Seth me ajudou a abrir a carroceria da caminhonete, que estava emperrada, e nos sentamos ali, olhando para as ondas que quebravam nas pedras. O mar não estava tão agitado quanto em qualquer outro dia, e havia várias pessoas aproveitando a praia.

“Obrigado pelo sorvete.” Agradeceu Seth, terminando-o em poucos minutos. Eu ri, me achando idiota por estar, de novo, surpresa por ele terminar de comer tão rapido.

“Não precisa agradecer. Você merece, depois de perder seu sábado inteiro estudando.”

“Perder o meu sábado? Você que gastou o seu só para me ajudar. Eu que devia estar pagando um sorvete para você”

“Eh, você pode me pagar tirando uma nota boa na prova.” Empurrei-o com o ombro e ele riu, concordando.

“Sinto como se não viesse aqui há meses, quando na verdade não faz mais do que uma semana desde a última vez.” Comentou ele, olhando para as ondas na água.

Eu concordei, observando as ondas por um longo minuto, em completo silêncio. Eu sempre gostei do mar, do modo como o barulho da água se movendo me acalmava e clareava a minha mente. Nos últimos meses, eu havia passado tempo o suficiente na praia para me sentir quase aborrecida quando passava muito tempo longe.

Talvez eu devesse considerar comprar uma casa perto do mar, no futuro.

Passei mais alguns momentos em silêncio, devaneando sobre o futuro, quando notei um senhor de idade, que andava por entre as pedras, parado de costas para a água, olhando em nossa direção.

Eu olhei sob meus ombros, tentando ver se havia alguma coisa atrás de nós para a qual o homem olhava tão atentamente, porém não encontrei nada. Nós éramos os únicos parados naquele estacionamento, então, eu só pude assumir que ele estava nos observando.

Saber daquilo, por algum motivo, fez um arrepio subir pela minha espinha.

Um grito de uma criança que brincava na praia me tirou do transe que eu entrara, e eu pisquei fortemente, olhando para longe. Por um momento, me senti envergonhada por ter passado tempo demais sem falar nada, então eu me virei para recomeçar a conversa com Seth.

Porém, nenhuma palavra conseguiu sair da minha boca.

Congelada em meu lugar, encontrei o rosto retorcido de Seth, e seus olhos cheios de lágrimas.

Ele encarava o oceano com um sentimento parecido com raiva em seus olhos. Suas narinas estavam infladas, e seu queixo tremia. Parecia estar lutando para que suas lágrimas não caíssem, mas pude ver que era inevitável. Seus olhos estavam inundados, e logo iriam transbordar.

Puxei-o para os meus braços, em um abraço apertado, e Seth enterrou seu rosto em meu ombro, imediatamente. Soluços sacudiam o seu corpo, e consequentemente o meu; o modo como soava tão triste e torturado, fez com que eu mesma chorasse.

"Está tudo bem, Seth" sussurrei, tentando acalmá-lo, enquanto passava a mão levemente por suas costas.

“Desculpa, é que...” murmurou, entre soluços. “É a praia. Eu costumava vir aqui com ele e... É tão difícil. Eu...”

“Você não precisa se explicar… Ninguém devia passar pelo o que você está passando.” eu disse, ainda tentando fazê-lo se acalmar. “E eu sei que está tentando ser forte por sua mãe, e pela Leah, e isso é ótimo; mas você vai acabar sufocando se continuar a ignorar o que você mesmo sente. Ninguém vai culpá-lo por chorar” Insisti.

Alguns instantes se passaram, enquanto seus soluços diminuíam e eu continuei a abraçá-lo. Seth parecia um pouco mais controlado quando murmurou: “As duas já tem problemas suficientes. Eu não quero ser mais um. Por isso eu tento…“

Quando ele não continuou, soluçando audivelmente e eu concluí sua frase, com um suspiro: “Parecer sempre feliz.”

O modo como ele estava engolindo todo aquele sofrimento me fez lembrar de como eu havia me sentido meses atrás, quando me tranquei dentro de mim mesma. Assim como Seth fingia que estava tudo bem, para não preocupar sua família, eu havia feito o mesmo. Escondi todos os meus sentimentos, e empurrei todos ao meu redor para longe, sofrendo as consequências depois, ao ver que só havia prolongado o sofrimento para minha família. Eles apenas se preocupavam mais e mais.

Me afastei de Seth, segurando suas mãos nas minhas, antes de continuar.

“Eu entendo que não queira preocupá-las, mas… fingir que está tudo bem não vai fazer isso desaparecer, Seth. A sua família vai se preocupar, quer você queira, ou não. Todos os caras do bando são seus irmãos, e estarão ao seu lado, não importa o que aconteça.” insisti. “Eu tenho certeza que eles irão te apoiar, sem julgá-lo por falar dos seus sentimentos. Bom… talvez não tente falar com o Paul primeiro, porque ele tem a escala emocional de uma pedra.” brinquei, feliz ao ver um sorriso surgir em seu rosto, novamente.

“E quero que saiba, que eu também estarei sempre aqui, Seth, caso precise conversar. Sobre qualquer coisa.” garanti. “Você é tipo meu irmãozinho hiperativo e, às vezes, até meio irritante.”

“Obrigado, Bella.” ele riu, revirando os olhos “Isso é muito reconfortante.”

Mais calmo, ele passou os próximos minutos desabafando, e me explicou que costumava ir à praia com o pai quase todo final de semana para pescar. Ele havia passado todo o tempo desde o funeral sem voltar aqui, e estar de volta o fez lembrar de tudo.

Seth precisava daquele momento, depois de passar tanto tempo sendo forte por sua família, e mantendo tudo para si. Eu estava satisfeita por saber que, depois de tirar aquilo do seu peito, ele parecia muito mais leve e relaxado.

“Seth?! Que porra você está fazendo aqui, garoto??” A voz brava de Jared me pegou de surpresa, e eu pulei no lugar. Ele estava a alguns metros de distância, e andava — ou devo dizer marchava? -, rapidamente em nossa direção

“Jared!” Seth levantou rapidamente, trocando olhares nervosos comigo, como uma criança que foi pega fazendo coisa errada. “O que está fazendo aqui?”

“O que eu estou fazendo aqui? O que você está fazendo aqui?!" Retrucou ele, irado. “Sam vai fazer picadinho de você, quando souber!”

Jared nos alcançou, parando ao lado da caminhonete com seus braços tremendo. Seu rosto, antes moreno, estava vermelho, enquanto lançava a Seth um olhar severo. O mais novo apenas baixou o olhar para os próprios pés.

Confusa, eu me levantei, “Souber do quê? O que ele fez de errado?”

Ele não me respondeu, continuando a ralhar com Seth. “Você acha que só porque Sam abriu uma exceção, você pode sair fazendo o que quiser?! Por acaso você pensou no perigo em que está colocando todo mundo? A Bella?!”

Jared apontou para mim quando mencionou meu nome, e eu calei a enxurrada de perguntas que eu estava prestes a fazer, tentando fazer sentido no que ele estava falando.

“Eu nem sei o que Sam tem na cabeça de deixá-la perto de você, depois do que aconteceu ontem. Você quase se transformou na frente da sua família, Seth! Se Jacob não estivesse lá, o que teria acontecido? Quem você teria machucado?!” Sua voz dura subiu uma oitava por um momento, antes de ele se calar, frustrado. Jared trocou o seu peso de pé, respirando profundamente, tentando se acalmar.

Um momento de silêncio se fez, onde tudo o que podíamos ouvir era o vento, agora gelado, do mar batendo em nossos rostos. Seth não se moveu um centímetro, ou falou nada, de ombros caídos e cabeça baixa.

“Jared, foi minha culpa. Eu o convidei para vir e-” Eu comecei a dizer, porém Jared levantou uma mão no ar, me parando.

“Ele sabe as regras, Bella.” respondeu, balançando a cabeça. “Mesmo que você o tenha amarrado e trazido-o à força, não há desculpas para a irresponsabilidade dele.”

Foi a minha vez de abaixar a cabeça, sob o olhar duro de Jared.

Sabia que estávamos, tecnicamente, quebrando as regras ao sairmos da casa da Emily sozinhos. Mas se a regra era que não podíamos ficar sozinhos, então, em tese, não a havíamos quebrado. Haviam várias pessoas na praia.

Não havia necessidade para Jared ralhar com Seth daquela maneira. A falta de confiança que todos tinham nele, só porque era o mais jovem, fez meu sangue esquentar; e eu achei que aquilo não era justo.

“Você tem sorte que fui eu quem te encontrou, porque se fosse Paul, você não sairia daqui antes de levar uma coça.” concluiu ele, com um tom mais suave. “Anda. Vamos para casa.”

Seth apenas concordou, pronto para segui-lo para a floresta, de onde Jared havia saído. Eu dei um passo à frente, tentando pará-los.

“Jared-”

“Bella, você sabe voltar para casa daqui, certo?” Ele me cortou novamente, e sem esperar uma resposta, virou as costas, marchando para longe e me deixando ali, sozinha.

Notas finais
Ahhh, eu me sinto como uma criança que foi pega fazendo o que não devia heheh Não vou ousar pedir desculpas pela demora na postagem, porque não tem desculpas além de que eu e a Carol não trabalhamos no capitulo por vários dias. 4 mil palavras foi o que nos prendeu tempo demais na produção desse capitulo. Obrigada pela paciência >.