Full Moon
31 Quil
Notas iniciais

“When do you think it will happen for you?” I asked quietly.
His answer was flat and immediate. “Never.”
— Jacob to Bella, about imprinting
Cortei mais um pedaço da carne macia, fazendo questão de saboreá-la completamente, antes de engolir. Apesar de ter quase terminado todo o conteúdo do meu prato, eu ainda não sabia dizer se realmente gostava de baleia cozida, ou não. Os temperos e o sabor eram, sem sombra de dúvidas, deliciosos, mas para mim, era como se estivesse comendo um cozido de carne de vaca normal.
Apesar de minhas expectativas quanto à baleia não serem realizadas, a comida de Emily estava, como sempre, excelente; a prova daquilo era o modo como todos que estavam sentados na mesa estavam ocupados demais com seus pratos para sequer conversar.
Elena — uma mulher de meia idade, morena, e de feições finas -, irmã de Emily, era uma das pessoas mais engraçadas que eu já havia conhecido em minha vida e, mesmo sem dizer muito, conseguia tirar um sorriso de todos os presentes. Suas filhas não ficavam para trás. Principalmente a mais nova, Claire, que não conseguia ficar parada por mais de um segundo.
A pequena, de apenas dois anos, não era nem um pouco tímida, e correu até a porta para abraçar a mim e a Jacob assim que chegamos, mesmo sem saber quem éramos.
Quando todos terminaram de comer, e sua mãe a colocou de volta ao chão, ela começou a correr em volta da mesa, sem parar, até que, quando estava na minha frente, tropeçou e teria caído de boca no chão, caso eu não tivesse conseguido pegá-la no último segundo.
“Você está bem?” questionei a mais nova, enquanto a sentava em meu colo.
Ter quase metido a cara no chão deve tê-la assustado, pois ela passou os braços ao redor do meu pescoço e ali se aquietou, ficando em silêncio enquanto todos voltavam a conversar.
“Essa tem energia.” Jacob comentou, sentado ao meu lado, sem tirar os olhos de nós. Ele tinha um brilho no olhar que eu nunca havia visto antes, e sorria sem parar.
“Sim, a única hora que ela fica quieta é quando está dormindo.” Riu Elena, chacoalhando a cabeça. Jade, sua outra filha, apenas concordou, em um tom quieto, acrescentando que, às vezes, nem quando estava dormindo a mais nova parava.
“Parece que ela gostou mesmo de você, Bella.” Disse Emily, notando como a garotinha — que agora havia se soltado do meu pescoço -, ainda estava sentada em meu colo, tentando pescar coisas da mesa para brincar.
Segurei sua pequena figura, me sentindo um pouco ansiosa. Nunca havia segurado uma criança antes — nenhuma nunca quis ficar perto de mais do que dois segundos-, então não foi surpresa nenhuma quando notei que estava com medo de fazer algo de errado e acabasse a derrubando, ou que ela acabasse se machucando, de alguma forma.
Depois de algum tempo com ela sentada em meu colo, distraída com talheres e guardanapos, enquanto conversávamos, notei os olhos de Jacob sobre mim. Eu tentava a distrair com alguns pulinhos, fingindo que ela estava montada em um cavalo, e Jacob não parava de me olhar com aquelas suas orbes brilhantes.
“O que foi? Por que está me olhando assim?” Cochichei, me sentindo, subitamente, embaraçada com os seus olhares.
Seu sorriso cresceu, tornando o seu rosto ainda mais lindo. Ele se inclinou na direção do meu ouvido.
“Acho que acabei de descobrir qual é o meu sonho.” Sussurrou, antes de se afastar.
Senti minhas bochechas esquentarem. Tinha certeza que estavam tão vermelhas quanto a toalha da mesa.
“Hmm que cheiro bom é esse?” Disse Embry, entrando na cozinha e surpreendendo a todos.
“Estão escondendo comida da gente, agora?” Perguntou Quil, aparecendo logo atrás.
Meus olhos dobraram de tamanho, enquanto assistia os dois seres, semi-nus entrarem na cozinha de Emily, prontos para filar a bóia. Imediatamente, meus olhos voaram para Elena, que parecia tentar assimilar o que aqueles dois estranhos faziam ali, sem terem ao menos batido antes de entrar.
Sam pigarreou.
“Embry, Quil, o que estão fazendo aqui?” Perguntou ele, não parecendo nada feliz. Seu tom deixava claro que a última coisa que ele queria era vê-los ali.
“Billy disse que Jacob foi convidado para o jantar quando paramos na casa dele mais cedo.” Disse Embry, se aproximando do fogão enquanto falava, e dando uma olhada nas panelas. “Achamos que vocês tinham esquecido de nos convidar.”
“Nem pense em relar em minhas panelas sem lavar as mãos, Embry Call.” ralhou Emily, levantando imediatamente, e correndo até o mais novo para empurrá-lo em direção a pia.
“Pensei que tivesse deixado claro que a comida desse fim de semana seria por conta de vocês.” Disse Sam, no mesmo tom de antes, causando arrepios até mesmo em mim, porém, Embry e Quil não pareceram sequer notar.
“Sam, não seja tão maldoso.” insistiu Elena, sorrindo lindamente, apesar de parecer visivelmente confusa. “Temos o suficiente para mais duas pessoas.”
Achei que Sam ia ter um síncope.
“Pelo menos deixe-me apresentá-los.” reclamou Emily, parando atrás da cadeira em que Sam se sentava, e Embry a seguiu, se escorando ao lado do balcão. Quil ainda estava encostado no batente da porta, e sorriu quando Emily fez menção de apresentá-lo.
“Esse é Quil Ateara, e aquele é, como você deve ter notado, Embry Call. São amigos próximos, e moram aqui na reserva.”
“Dá pra notar que são bem próximos.” Respondeu Elena, lançando um sorriso cheio de significados para a irmã. “Eu sou Elena, e essas são minhas filhas, Jade e Claire.”
Com a súbita entrada dos dois, Claire havia escondido o seu rosto entre os meus cabelos, parecendo, por alguma razão, estranhá-los. Não que eu pudesse culpá-la, ambos eram barulhentos, e pareciam armários de tão altos que eram, — não exatamente a figura mais calorosa do mundo -, mas não era nada que ela não tivesse visto homens de dois metros de altura antes.
Jade cumprimentou ambos, timidamente, e a pele escura de seu rosto pareceu avermelhada por um momento, antes dela voltar sua atenção de volta a seu prato. Claire, porém, não quis se virar para vê-los.
“Claire, fala oi.” Elena incentivou, tentando chamar a atenção da filha. Eu tentei virá-la gentilmente, também, tentando incentivá-la a cumprimentar os meninos.
Ela me olhou por um momento, seu rostinho bochechudo parecia em dúvida, e eu lhe ofereci um sorriso encorajador.
Devagar, de cabeça ainda baixa, ela virou em direção a porta.
“Oi.” Disse com a sua voz infantil, incerta, e sua mãe a elogiou por ser tão corajosa. Com a onda de elogios, a garotinha apareceu ganhar a sua confiança habitual e logo ofereceu um sorriso lindo de dentes quadradinhos para os dois.
Estática encheu a sala, de um momento para o outro. Senti os pelos do meu corpo se arrepiarem, e, pelo canto dos olhos, vi Jake tensionar ao meu lado. Meus olhos voaram pela sala, a procura do que quer seja que estivesse causando aquilo, mas não encontrei nada além de Jacob e Sam com expressões nada convidativas em seus rostos.
Jacob se levantou de súbito, fazendo a cadeira em que se sentava arranhar o chão, antes de cair para trás. Seus braços tremiam incontrolavelmente, e suas narinas dilatadas pareciam puxar o ar com força para seus pulmões.
Ele tinha o seu olhar mortal preso na direção da porta.
“Jacob.” Sam se levantou, colocando a mão no ombro dele. “Calma.”
“Você não se atreveria.” Murmurou Jacob, entre seus dentes trincados.
Eu segurei Claire com mais força, tentando me afastar dos dois, completamente confusa. Eles haviam ouvido alguma coisa? Algum vampiro estava aqui?
Meus olhos caíram em Claire, que estava sentada no meu colo, olhando para a cena, e em meio segundo, minha mente começou a fazer planos, imaginando os mais diversos cenários. Se algum vampiro estava se aproximando, todos nós estávamos em perigo. Me perguntei se seria Victória. Se fosse mesmo ela, a minha melhor opção era sair dali, o mais rápido possível. Talvez, se eu estivesse longe o suficiente, ela se contentaria apenas me seguir, deixando os demais ilesos. Eu não poderia viver se algo acontecesse com a preciosa família de Emily por minha causa.
Mas eu não tive tempo de me mover um centímetro, antes de Jacob se livrar das mãos de Sam e avançar sobre — para a minha surpresa — Quil. Ele o agarrou pelo pescoço, empurrando-o para fora da cozinha, e para longe de nossos olhares atônitos.
“Que merda você pensa que está fazendo, Quil?!” Jacob exclamou do outro cômodo, e Sam foi atrás dos dois logo em seguida, com Embry a seu encalço.
A cozinha foi engolida por um silêncio estranho. Emily começou a se desculpar imediatamente, tentando arrumar as mais diversas desculpas, mas eu pude ver que Elena não as estava comprando.
“Seu namorado está bem?” Perguntou ela a mim, e eu deixei que Claire saísse do meu colo para ir para o dela.
Eu sorri amarelo, sem saber o que dizer. Não tinha certeza se ele estava realmente bem e não havia uma desculpa que eu pudesse dizer sem revelar alguma coisa.
Não era preciso dizer que, depois disso, o jantar havia sido arruinado.
Não muito depois, Emily sugeriu que estava ficando tarde para as sobrinhas ficarem acordadas, e Elena seguiu para um dos quartos vazios da casa, começando a rotina de dar banho e colocar as garotas na cama.
Quando estávamos sozinhas, limpando a mesa e colocando as louças sujas na pia, não consegui mais me segurar.
“Emily, o que aconteceu?” Perguntei, sabendo que meu assombro ainda era visível em meu rosto. “Por que eles saíram daquele jeito?”
Ela parou o que fazia, antes de lançar um olhar para mim. “Você não notou?”
Quando eu chacoalhei a cabeça, sinalizando que não, Emily suspirou tão pesarosa, que fez aparecer vincos em sua testa.
“Quil sofreu imprinting.” Disse ela, em uma voz quieta, e eu achei, por alguns segundos, que havia ouvido errado.
“Quil… imprintou?” questionei atônita, antes de lembrar da expressão furiosa no rosto de Jacob, antes de arrastar o amigo para fora da sala. Ele não achava que…?
Emily chegou perto de mim, e segurou minhas mãos. Seu olhar era grave, prendendo meus olhos nos seus, e, imediatamente, eu não sabia se queria ouvir suas próximas palavras.
“Bella… Como se sente?” perguntou, ainda me encarando. Quando notou minha expressão confusa, acrescentou. “Está se sentindo… diferente?”
“Eu estou bem.” Afirmei, sentindo as palmas de minhas mãos começarem a suar. Um buraco no fundo do meu estômago se formou, enquanto eu olhava no fundo dos olhos da índia à minha frente.
“Mas como você se sente em relação ao Quil?”
Eu engoli em seco, tentando forçar minha mente — que parecia entorpecida — a funcionar. “Eu… Eu estou preocupada com ele. O que mais eu sentiria depois de ver Jacob arrastando-o pelo pescoço porta afora?”
Emily me olhou gravemente, e um flash de medo passou por seus olhos, antes dela se virar, e voltar a limpar a bagunça que havia sido deixada para trás.
Meu coração parecia estar batendo em meus ouvidos à essa altura.
“Emily, você não acha que Quil…”
Mas eu não consegui terminar a frase, porque logo ouvimos a porta de um dos quartos se abrindo, e eu sabia que não estávamos mais sozinhas. Elena apareceu, se juntando a nós na limpeza, e Emily começou a, obviamente, tentar me evitar enquanto pedia desculpas, de novo, a sua irmã.
“Brigas acontecem.” Elena deu de ombros, abrindo a torneira da pia, e começando a lavar algumas louças. “Só não sei bem se entendi o motivo.”
Emily riu curtamente, dando de ombros. “Você sabe como homens são.”
Eu ajudei a terminar de tirar a mesa e guardar a comida restante na geladeira, em completo silêncio. Elena e Emily conversavam, porém não tão animadamente quanto antes, e, quando anunciei que iria embora, Emily me ofereceu alguns potes com um pouco de comida.
“Leve um pouco para Charlie e para a sua amiga.” Ela disse, com um pequeno sorriso, mas seus olhos estavam preocupados demais para que me fizessem sentir melhor.
Quando cheguei em casa, agradeci aos céus por Charlie já estar na cama, porque meu coração ainda batia forte demais no peito para que pudesse fingir estar bem, e ter uma conversa normal.
Entrei embaixo do chuveiro fervendo, tentando me acalmar um pouco, porém, minha cabeça não parecia ser capaz de desacelerar.
Eu não sentia nada de diferente pelo Quil, certo? Ele era um dos melhores amigos de Jacob; quase um irmão. Mesmo que ele tivesse imprintado… eu ainda amava Jacob mais do que qualquer coisa no mundo, certo?
Me engasguei com meu próprio ar quando percebi que eu seria como a Emily.
Aquilo não podia estar acontecendo, eu simplesmente não aceitava fazer algo daquele tipo com Jacob. Aquela era a maior loucura pela qual eu já havia passado, em toda a minha vida!
Mas, algo estava errado. Eu me lembrava perfeitamente de Jacob me explicando que o imprinting era como amor à primeira vista. Eu já havia visto Quil diversas vezes depois que havia se transformado; não havia a menor possibilidade de aquilo ser verdade.
Certo?
Tive que me apoiar na parede para não cair, quando meus joelhos falharam.
Quando finalmente resolvo um problema, você me manda mais essa? Reclamei em minha mente, olhando para cima como se Deus pudesse sentir todo o meu desgosto.
Sentindo a água começar a esfriar, desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha e sentei sobre a tampa fechada da privada para tentar controlar minha respiração. Depois de apenas alguns momentos, me vesti, e saí do banheiro, temendo a noite que viria pela frente.
“Jake!” Exclamei, assustada quando o encontrei sentado em minha cama, alguns minutos depois. Eu fechei a porta atrás de mim, rapidamente.
“Ei, Bells.” Respondeu, olhando para mim de relance, antes de voltar a encarar as suas mãos. Seu pensamento estava distante; provavelmente no mesmo lugar em que o meu estivera há alguns minutos, quando quase tive um ataque de pânico, no chuveiro.
Me aproximei dele lentamente, e me sentei ao seu lado. Apesar de ter acabado de sair do banho, pude sentir minhas mãos começarem a suar de nervoso.
“Então… Pode me contar o que aconteceu mais cedo, com- com Quil?” Quase não consegui fazer a pergunta sair pela minha boca, morrendo de medo da resposta.
Não era possível que aquilo tivesse acontecido, certo?
Jacob observou o meu rosto por um longo momento com as sobrancelhas quase se tocando sobre seus olhos. Sua mão tocou meu rosto, acariciando a minha bochecha levemente,
“Me desculpa por ter perdido a cabeça, mais cedo.” Disse, abaixando os olhos. “Eu não devia ter feito aquilo na frente das meninas.”
Eu segurei a mão que estava em meu rosto, apertando-a ali, e o olhar de Jake encontrou o meu; seus olhos tristes só fizeram o buraco em meu estômago aumentar, e meus maiores medos, lentamente, parecem começar a se solidificar.
“Quil… imprintou?” Finalmente perguntei, segurando a minha respiração.
“Sim.”
Meu mundo pareceu desmoronar ao meu redor. Eu me vi, subitamente, amaldiçoando cada geração de transmorfos que já existira, e suas estúpidas magias. Como poderiam os espíritos serem tão cruéis? Seja lá quem fosse que decidisse sobre aquele negócio idiota chamado imprinting, tinha que ser algum sádico. Não era possível!
Cobri meu rosto com as mãos, me afastando de Jacob. Meu peito estava tão apertado, que senti dificuldade de respirar; Meus olhos ardiam, mas eu não conseguia ousar deixar as lágrimas caírem.
Aquilo não era justo!
“Bella, você está bem?” A voz preocupada de Jacob apenas fez meu coração doer ainda mais, e quando ele me abraçou, acariciando os meus cabelos, eu não pude mais me segurar.
Lágrimas lavaram o meu rosto, e soluços me chacoalharam.
“Ei, Bells, está tudo bem! Shh, vai ficar tudo bem!” Me consolou. “A situação é complicada, mas, com o tempo, ele vai ficar bem.”
“Bem? Como isso poderia ficar bem, Jacob?” Perguntei me afastando o suficiente para olhá-lo nos olhos. “Você não viu o que aconteceu com a Emily? Você não tem medo?”
Jacob me olhou de lado, negando. “Quil não vai a lugar nenhum. Tudo o que ele terá de fazer é esperar por algum tempo, mas logo vai ser tão feliz quanto ela é com Sam.”
Eu me levantei, saindo de perto dele. Meu estômago se revirou, e eu achei que fosse vomitar ao ver Jacob desistindo de nós tão facilmente. Não havia mesmo nenhuma chance de continuarmos juntos? Aquele era o nosso fim?
“Ser tão feliz quanto eles? Como você ousa dizer algo assim?!” Eu quase gritei, cobrindo meu rosto com as mãos, novamente.
Ouvi Jacob bufar. “Desde quando você julga tanto assim as pessoas? Eu sei que não é uma situação usual, mas ele nunca faria nada para machucá-la. Ele vai ser paciente, gentil, e o melhor irmão do mundo. Não há nada, absolutamente nada, de romântico nisso.”
“Jake, mas e você? E quanto a nós?” questionei exasperada. “Iremos, simplesmente, jogar tudo pelos ares?”
“Bella, mas que porra nós temos a ver com a situação? Não é problema nosso.” Exclamou, jogando seus braços para o alto e eu parei em sua frente, confusa.
“Espera. Por que parece que estamos falando de duas coisas completamente diferentes?”
“Eu estou falando do imprinting do Quil com a Claire.” Respondeu ele bufando. “Do que você está falando?”
O que? Quil… Quil havia imprintado na Claire?!
“Uh… Como assim imprinting com a Claire?” questionei sentindo que minha cabeça estava prestes a estourar. “Depois da sua reação na cozinha, Emily fez parecer que o imprinting foi comigo!”
A expressão no rosto de Jacob mudou completamente, passando de confusão para entendimento, para surpresa, e, por fim, ele começou a rir.
Não, ele não estava rindo, ele estava gargalhando.
Eu cruzei os braços sobre o peito, fechando a cara.
“Bom, a Claire estava no seu colo.” Comentou, ainda rindo um pouco.
“Não tem a menor graça, Jacob. Você sabe quão preocupada eu fiquei?!” Briguei, batendo o pé no chão.
Ele se levantou para vir em minha direção, porém, parou e olhou para a janela antes que tivesse a chance.
“Parece que as coisas ainda não se resolveram.” explicou. “Eu volto mais tarde, ok? Não se preocupe com isso. Depois conversamos mais.”
Eu assenti, quieta, vendo-o descer pela janela. Apesar de querer pedir para que ficasse comigo, eu sabia que Quil precisava do amigo, e que as coisas em La Push deveriam estar uma bagunça naquele momento.
Deitei em minha cama sabendo que não dormiria aquela noite, e estava certa.
Assim que minha cabeça atingiu o travesseiro, milhares de pensamentos não solicitados começaram a voar pela minha mente. Todos os acontecimentos daquela noite passaram pelos meus olhos, e, apesar de me sentir aliviada por Quil não ter imprintado em mim, não pude ainda me sentir ansiosa.
Jacob havia dito que ‘Não havia nada de romântico nisso’, e que ele seria apenas o melhor amigo dela, mas eu ainda me sentia assombrada. Talvez estivesse julgando demais a situação, sendo que nem entendia direito como funcionava.
A verdade era que eu tinha medo daquela magia.
Tudo o que bastou foi um olhar, um simples olhar e tudo mudou. Não notei o imprinting acontecer, mas, com certeza, senti algo naquele momento. Foi como se uma força invisível tivesse atravessado o ambiente.
Quando me explicou sobre o imprinting, Jacob disse ser uma ocorrência muito rara. Ainda assim, no entanto, ali estávamos nós. Eles eram um bando de oito lobos, e, até aquele momento, três já haviam encontrado sua outra metade. Quanto tempo mais levaria para que Jacob cruzasse com alguém que tirasse seu chão?
Lembrei do modo que Emily me encarou; seriamente, como se eu tivesse acabado de receber uma sentença de morte. Ela parecia ter certeza absoluta de que não havia algo que pudesse ser feito; que aquela magia, aquele sentimento que havia entre o lobo e seu imprinting, não podia ser alterado. Emily sabia, em primeira mão, o que um imprinting significava. Ela era a prova de que lutar contra isso só trazia sofrimento para todas as partes envolvidas.
E Jacob não havia imprintado em mim.
À partir daquele momento, um medo antigo — que eu havia me forçado a enterrar no fundo de meu coração — surgiu, e agora não podia mais ser ignorado.
Minha mente começou a dar voltas, e comecei a questionar se nosso relacionamento fazia sentido, afinal. Naquele momento, tudo pelo que lutamos tanto parecia estar simplesmente fadado ao fracasso. Se algum dia Jacob colocasse os olhos na garota destinada a ele… não haveria esperança que nos mantivesse juntos.
Destinada. Aquela palavra fazia meu peito se comprimir de tal forma que me causava dor física. Alguém por aí havia sido, literalmente, feita para ele. Eles foram feitos para ficarem juntos, e continuarem a linhagem dos lobos.
Aquele alguém não era eu.
Imagens nossas — todas as memórias que havíamos criado juntos — passavam por meus olhos, uma atrás da outra, e eu não sabia se estavam tentando me confortar, ou me trazer ainda mais sofrimento. Jacob havia demonstrado seu amor por mim incontáveis vezes, e eu sabia que, se ele fosse alguém comum, seria para sempre apenas meu. Eu confiava em seu amor mais do que qualquer outra coisa no mundo, mas aquela magia não parecia levar aquilo em conta.
Não importava o fato de que eu não poderia viver sem ele; Não importava que ele me amasse o tanto que amava. No momento que seus olhos cruzassem com os dela, tudo estaria acabado. Sendo Jacob, ele provavelmente tentaria lutar contra aquele sentimento; eu sabia muito bem quão teimoso ele poderia ser. Mas era óbvio que tal luta não poderia durar muito tempo.
Me enfiei embaixo das cobertas e me encolhi como uma bola, tentando segurar os pedaços do meu coração, que se quebravam naquele instante. Desejei ser levada pela inconsciência, a fim de esquecer o sentimento de vazio que havia se instalado dentro de mim, por pelo menos algumas horas. Mas é claro que aquilo não aconteceria.
Eu parecia estar realmente destinada ao sofrimento.
Talvez estivesse pagando por algum pecado cometido por uma outra versão de mim, em alguma outra vida.
xxx
O fim de semana chegou ao fim sem nenhuma notícia de Jacob, ou de qualquer um dos meninos. Eu não podia negar que estava curiosa, porém, mais do que aquilo, estava com medo de encarar qualquer um deles.
Tinha medo de que todos me olhassem com pena, sabendo que, apesar de ser uma intrusa, e de não estar destinada a pertencer ali, eu continuava voltando, adiando o sofrimento que certamente viria.
Pensei em ligar para Emily, mas, toda vez que pegava o telefone e discava seu número, imaginava que Jacob poderia estar por perto e me ouvir, e isso me fazia colocar o objeto de volta na base.
No sábado, fiquei ansiosa pela volta de Jacob. Queria que me abraçasse, e dissesse que tudo ficaria bem, mas, no domingo à noite, enquanto me enrolava nas cobertas buscando aquecer meu corpo frio, apenas senti medo de que viesse.
Eu sabia que não conseguiria encará-lo sem desabar. Qualquer parede que havia construído para me sustentar, para me manter positiva e viva, havia se quebrado completamente. Não havia sobrado nada.
Um dos muitos cenários que eu havia criado em minha mente nos últimos dias continuava a passar pela minha mente, repetidamente. Um onde Jacob aparecia em meu quarto, sorrindo como sempre, e eu o empurrava para longe. Ponderei se conseguiria me afastar dele antes que fosse tarde demais; tentar proteger o que restava de meu coração — que já estava em frangalhos — de alguma forma. Entretanto, não importava quantas vezes tentasse pensar em uma desculpa, tudo apenas soava como uma grande mentira.
Porque aquela era a minha covardia se fazendo presente; insistindo para que eu fugisse, antes que acabasse sofrendo novamente.
Quando entrei na picape segunda-feira, estava tão nervosa que acabei batendo a porta com mais força do que pretendia. Eu olhava sobre meus ombros constantemente, com medo de me virar e encontrá-lo ali. Nunca imaginei que, algum dia, eu teria tanto medo de vê-lo.
Apenas consegui respirar novamente depois de passar correndo pelas portas duplas da escola. Sabia que devia estar parecendo uma assombração em pessoa, com olheiras enormes, e mais pálida que o normal, mas não consegui me importar.
A minha aparência provavelmente só estava refletindo como eu me sentia por dentro.
Nunca imaginei que iria desejar que um dia de escola passasse o mais devagar possível, mas, naquele momento, era o que eu mais queria.
Eu já não sabia o que era pior, a possibilidade de Jacob não aparecer para me buscar — como sempre fazia -, ou a possibilidade de ele aparecer, e me dizer tudo o que eu havia imaginado no fim de semana.
Ponderei se estava pensando demais sobre aquilo, mas, toda vez que tentava criar um pingo de esperança, o rosto de Emily pulava em minha mente, assim como o olhar de devoção de Sam e, por fim, o corpo retorcido e ensanguentado de Leah.
Claro que não consegui prestar atenção em nenhuma aula naquele dia; apenas encarei minhas mãos a maior parte do tempo. Para a minha sorte, Angela não havia ido para a escola, e ninguém parecia inclinado a puxar conversa comigo. Eu devia estar mesmo parecendo uma assombração.
O sinal de fim de aula tocou, e todos os alunos se levantaram, jogaram suas coisas em suas mochilas e saíram pela porta, um a um, prontos para ir para casa. Suas conversas animadas apenas me fizeram lembrar ainda mais dos meninos, e eu me afundei em minha cadeira, querendo nunca mais sair dali.
O que aconteceria se eu passasse a noite na escola? Quanto tempo alguém levaria para aparecer, e me expulsar da propriedade? Ou pior, e se Jacob entrasse na escola à minha procura, depois de esperar por tanto tempo?
Meu estômago se apertou com tanta força que eu achei que iria vomitar.
Eu não queria vê-lo.
“Bella.” A voz de veludo de Edward me fez dar um pulo em minha cadeira. Ele estava parado ao meu lado; seus olhos, extremamente dourados, pareciam preocupados.
Coloquei a mão sobre o peito, bem em cima de onde o coração estava, tentando me acalmar. “Ah, é você. Me assustou.”
“Você está bem? Há algo de errado?”
“Só estou cansada.” Respondi. E não era mentira; eu realmente me sentia exausta.
“Hm… Talvez seja melhor reformular a pergunta.” Murmurou, antes de agachar ao lado da minha mesa. Seu rosto, inevitavelmente, preencheu meu campo de visão. “Você não está bem. O que aconteceu?”
O tom dourado de seus olhos, e sua voz macia e preocupada, apenas fizeram meu coração dolorido apertar com mais força. Respirei devagar e profundamente, tentando controlar o bolo de sentimentos que borbulhava dentro de mim. Entretanto, quanto mais nos olhávamos, mais era difícil lutar contra a onda de lágrimas que ameaçava me tomar.
Quando minha garganta se fechou, e meus olhos começaram a arder, eu soube que não conseguiria mais segurar. A última coisa que queria fazer era chorar na frente de Edward, mas, meu corpo não me deu escolhas.
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, sem permissão. Soluços começaram a escapar dos meus lábios e, quando vi, estava sendo reconfortada nos braços frio de Edward.
Aquilo era errado. Eu não devia estar ali, arruinando sua camisa bem passada, e chorando em seu ombro por algo que não havia sequer acontecido. Toda a lógica desapareceu de minha mente; meu coração parecia estar sendo destruído dentro do peito, a cada segundo que imaginava ir até Jacob e dizer que tudo estava terminado.
Como poderia fazer isso com ele? Como poderia fazer aquilo comigo mesma? Eu não era forte o suficiente. Não! Eu não conseguiria fazer aquilo, nem em um milhão de anos, mas… Por que, ainda assim, a incerteza doía tanto?
“Shhh, está tudo bem, Bella. Vai ficar tudo bem.” Edward murmurou em meu ouvido, enquanto acariciava meus cabelos. Aquilo me fez voltar um pouco à realidade.
Tentei acalmar meus nervos, o suficiente para parar de chorar. O cheiro doce de Edward entrou em meu sistema, me fazendo, por um segundo, lembrar de coisas que eu havia esquecido completamente.
Um calafrio desceu pela minha espinha.
Me afastei dele, de cabeça baixa, escondendo meu rosto — que devia estar mais vermelho que um tomate — em meus cabelos, e me amaldiçoando por ser tão fraca, enquanto limpava as lágrimas do meu rosto.
“Se sente um pouco melhor?” Perguntou, e eu apenas balancei a cabeça, não confiando em minha voz para responder sem falhar.
Alguns minutos se passaram, em completo silêncio, até que eu achei que eu pudesse me levantar sem acabar esparramada no chão.
“Acho que é melhor eu ir.” Eu disse, puxando minha mão para longe da sua, sem coragem de olhar em seus olhos.
“Espera, você tem certeza? Você pode ficar o tempo que precisar, se não se sente bem.” Edward insistiu, com preocupação envolta em sua voz.
“Eu estou bem.” Menti, virando o rosto para a direção oposta a que ele estava, e me levantando. Puxei a mochila do chão, antes de começar a andar em direção a porta da sala, sentindo como se estivesse andando em direção a minha execução.
Não cheguei a alcançar a porta. Edward apareceu em minha frente, tocando levemente em meu braço, e me parando por completo.
“Você continua uma péssima mentirosa.” Ele disse, buscando meu olhar, mas eu desviei, e encarei meus pés. Ouvi-o suspirar. “Olha, eu sei que nós não estamos em bons termos, e que você está em um relacionamento com Jacob-” Ele fez uma pausa, antes de continuar. “Mas, você precisa saber que ainda pode contar comigo.”
Demorei um minuto para conseguir assimilar o que ele dizia; minha mente ainda envolta em uma névoa densa demais para que pudesse entender completamente.
“Me importo com a sua felicidade, Bella, mesmo que não seja comigo ao seu lado. E faria qualquer coisa que pudesse, para te fazer feliz.” Ele continuou, e eu assisti sua mão subir lentamente até o meu rosto, como se quisesse ter certeza que eu a via.
Ele tocou meu queixo, e puxou meu rosto gentilmente para cima, para que eu pudesse encontrar seus olhos. Neles, encontrei algo que não esperava; uma dor, tão profunda e genuína, que me fez estacar.
“E, nesse momento, sei que não está feliz.” Declarou, ainda tocando meu queixo. “Algo aconteceu com-”
“Não. Nada aconteceu.” Eu interrompi, movendo meu rosto para longe de sua mão, e adicionando o ‘ainda’ mentalmente.
Desviei o olhar mais uma vez, sabendo que Edward analisava minha expressão. Engoli em seco, tentando mostrar decisão em meu rosto, e procurando forças em mim para sair dali.
Não queria enfrentar Edward naquele momento. Não quando me sentia tão frágil. Não quando minha mente estava em pânico imaginando o que Jacob diria quando me visse.
“Por que não te levo para casa hoje?” Perguntou Edward, me fazendo encará-lo, espantada com a sugestão. Fiz menção de abrir a boca para negar, mas ele foi mais rápido: “Ok, então que tal Alice te levar?
Franzi o cenho, “Alice?”
O nome de minha ex-melhor amiga soou estranho em minha boca, depois de tanto tempo sem vê-la.
“Tenho certeza de que ela não se importa de te dar uma carona. Assim, você pode tirar algum tempo para você mesma. O que acha?” Ele concluiu, ainda me olhando cuidadosamente.
Sabia que devia recusar; a última coisa que queria fazer era falar com Alice. Ainda não a havia perdoado, e não achava que trazê-la para aquela bagunça seria a escolha mais esperta a se fazer. Mas, naquele momento, entretanto, me vi hesitando.
Eu não precisava falar com ela. Ela me devia o suficiente para fazer pelo menos aquilo para mim. Seria como uma transação; um favor que ela me devia. Eu podia fazer aquilo? Eu podia usá-la daquele jeito?
Sacudi a cabeça, negando. "Jacob provavelmente já está lá fora, me esperando.”
“Você não precisa se preocupar com isso.” Respondeu, em um tom que deixou claro o quanto aquilo não importava. “Está estampado em seu rosto que precisa de um tempo, Bella. Você está hesitando agora porque sabe que é verdade, e que eu- nós podemos te ajudar com isso. Tudo o que precisa fazer é apenas dizer, e faremos de tudo para realizar, o que quer que você precise.”
Talvez eu fosse mais covarde do que eu imaginava, pois me vi procurando alguma razão em suas palavras. Eu tinha tanto medo assim de encarar Jacob? Imaginei que ele se sentiria traído caso eu deixasse-o plantado, mas, de novo, eu mesma me sentia traída naquele momento.
Não era como se eu estivesse fazendo nada de mais além de pegar uma carona com Alice… Eu iria para casa e me trancaria em meu quarto, alegando cólica, e teria mais tempo para pensar. Precisava de tempo para colocar a minha cabeça no lugar.
“Tudo bem.” As palavras escaparam da minha boca, para minha própria surpresa.
Um sorriso tomou o rosto de Edward, e seu rosto de mármore se iluminou; seus olhos pareciam brilhar. Era como se um anjo tivesse aparecido em minha frente.
“M-Mas isso não significa que algo mudou entre nós.” Me apressei a dizer. “E eu espero que você não arrume briga com Jacob.”
Aquilo não tirou o sorriso perfeito de seu rosto, apenas o fez aumentar.
“Bella… Quando você vai entender que eu não me importo com qual parte de mim você quer?” Ele disse, começando a andar em direção a porta. “Meu amor, meu dinheiro, meu ser… são todos seus. Se você quisesse me usar para o resto de sua vida; se me pedisse para ser o tapete que você limpa os pés antes de entrar em casa, eu aceitaria de bom grado, contanto que me deixasse ficar próximo a você.”
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