Notas iniciais
Olá leitores, tudo bem com vocês? Aqui é a Gi novamente com mais um capitulo novo e queria deixar claro que a Carol é prova do quanto eu odiei escrever cada palavra dele. Boa leitura!

“You can't trust vampires. Trust me.”

— Edward Cullen, New Moon

Pisquei, incomodada com a repentina claridade. Não me lembrava de ter ido dormir, mas meus músculos rígidos não me deixavam negar que sim, e por muito mais tempo do que de costume.

Me espreguicei, chutando as cobertas para longe, e me perguntando que horas seriam.

Nada poderia ter me preparado para o que vi, quando finalmente abri os olhos.

À minha frente, cobrindo uma parede toda, estava uma estante gigante, cheia de livros; O chão perfeitamente encerado, e a mesa imaculadamente arrumada no canto da sala não davam espaços para qualquer dúvida. Seria impossível não reconhecer aquele lugar com apenas um breve olhar.

Levantei apressadamente, tentando entender o que estava fazendo naquele cômodo, e como havia chegado ali.

Busquei em minha mente a última coisa que havia visto antes de apagar, porém, nada me veio, além de um dia normal na escola.

“Como você se sente, Bella?” Perguntou Carlisle, me assustando. Tive que me agarrar à maca para não acabar estatelada no chão.

“C-Carlisle.” gaguejei, tentando firmar minhas pernas. “Eu… Eu estou bem?”

Ele riu baixinho, se aproximando da maca desarrumada de seu escritório, que eu há pouco usava como cama. “Isso foi uma pergunta ou uma afirmação?”

Seu riso e a descontração de suas palavras, me ajudaram a acalmar meus nervos, que pareciam estar fervendo, naquele segundo. Coloquei a mão na cabeça, tentando dar algum sentido àquela situação.

“Me desculpe, Carlisle, mas… o que estou fazendo aqui?” Perguntei, sem conseguir deixar de observar que tudo parecia estar exatamente como eu me lembrava; Desde os quadros nas paredes, até as luzes — claras demais — que davam um ar de hospital para o ambiente.

Era quase como se nunca tivessem ido embora.

“Não se lembra do que aconteceu?” Ele franziu a testa, sinalizei que não, com a cabeça. “Talvez deva descansar mais um pouco.”

Ele apontou para a maca, como se quisesse que eu voltasse a me deitar, porém, eu hesitei, olhando para seus olhos gentis — estavam com um tom dourado brilhante, exatamente como os de Edward -.

Edward.

Minha mente foi preenchida com o olhar que ele havia lançado em minha direção na sala de aula, enquanto eu chorava.

Ah, é verdade!

Eu estava chorando por Jacob; estava com medo de encontrá-lo na saída da escola, e de ter que ouvir sua rejeição.

“L-lembro que Alice ia me dar uma carona até em casa.” Disse, tentando lembrar do restante. “Edward foi atrás dela e, depois disso…”

“Você desmaiou.” Completou ele, mexendo na pequena mesa ao lado da maca, parecendo procurar por alguma coisa. “Alice te encontrou, e te trouxe pra cá. Edward me contou que você estava muito… aflita, antes de apagar.”

Quando virou para mim, Carlisle segurava um medidor de pressão; eu me sentei, deixando que me examinasse.

Eu havia desmaiado? Busquei em minha mente, novamente, o que havia acontecido depois de Edward ter saído da sala, indo atrás de Alice, mas não me lembrei de nada. Tudo parecia embaçado depois daquilo.

“Quando foi a última vez que comeu?” Carlisle perguntou, enquanto apertava a bombinha do medidor.

“Ontem à noite." Eu disse, lembrando de ter comido meio pedaço de pizza após notar o olhar preocupado de Charlie.

“Sua pressão estava muito baixa quando chegou, então administrei soro enquanto dormia.” Contou, observando o aparelho que fazia pressão ao redor do meu braço. “Está melhor, mas ainda precisa comer. Passar tanto tempo com nada no estômago — ainda mais sob estresse — foi, provavelmente, a causa do desmaio.”

Ele desprendeu o aparelho do meu braço, e perguntou se minha cabeça doía, em busca de algo que indicasse uma concussão. Quando ficou evidente que eu estava bem, ele deu dois tapinhas em meu ombro, antes de começar a guardar seus equipamentos.

“Obrigada, Carlisle.” Sussurrei, me sentindo subitamente constrangida.

“Não foi nada.” Ele sorriu, e apontou para a porta. “Por que não desce? Esme passou a manhã toda preparando algo para você comer. Vou terminar de arrumar as coisas, por aqui, e já te sigo.”

Aquilo me pegou de surpresa. Apesar de saber que estava no escritório de Carlisle, na casa dos Cullen, minha ficha não havia caído de que os demais também poderiam estar ali. Ouvir o nome de Esme me fez hesitar por vários segundos, questionando se deveria, realmente, ir até ela.

Era óbvio que eu estava muito desconfortável por estar de volta àquela casa — a mesma que um dia sonhei compartilhar com todos -, mas, ainda assim, eu sentia falta deles. Eu não os havia visto por tantos meses, e, mesmo quando nos encontramos na clareira, durante a reunião, não havíamos realmente nos comunicado.

Seguindo o cheiro maravilhoso de frango assado, desci as escadas, lentamente, me perguntando se encontraria mais alguém no caminho até a cozinha. Todos os demais cômodos, entretanto, pareciam estar vazios. Não pude deixar de me perguntar onde estariam todos os demais membros da família.

Esme vestia um avental branco, impecável, e colocava um prato cheio de comida no balcão em sua frente, quando entrei na cozinha.

“Bella!” Exclamou, exibindo um sorriso caloroso, andando até mim, em seguida, para um abraço; seu cabelo macio, cor de caramelo, roçando em meu rosto. “Quanto tempo! Continua linda como sempre.”

Não pude conter o rubor de dominou meu rosto.

“Como está, Esme?” perguntei quando nos separamos. Ela continuou segurando minhas mãos entre as suas, parecendo analisar meu rosto como uma mãe verificando se sua filha diz a verdade.

“Ótima. Feliz em te ver; apesar de não ser a melhor das situações." Suas mãos frias apertaram as minhas levemente; seus olhos dourados se mostraram preocupados. “Se sente melhor, querida?”

“Sim. Carlisle cuidou de mim, como sempre.” Eu sorri, tentando confortá-la. O cheiro delicioso, somado ao seu sorriso quente, e ao ambiente relaxado, fizeram meu estômago roncar. Senti meu rosto esquentar, ainda mais.

Esme riu. “Por que não se senta? Carlisle disse que, provavelmente, estaria com fome quando acordasse.”

O prato à minha frente continha frango, grão-de-bico e purê de batatas, além de salada e alguns vegetais. O cheiro estava maravilhoso, o que fez com que minha boca salivasse antes mesmo de terminar de me sentar.

Como sempre, não me senti confortável ao ser a única a comer, mas, com algum incentivo de Esme, logo devorei o prato. Ambas ficamos em silêncio, enquanto ela limpava as panelas e potes que usara para cozinhar, e eu me deliciava com a refeição preparada.

“Está uma delícia, Esme.” Eu disse, ao terminar. Para alguém que não tinha motivos para cozinhar, ela era muito boa naquilo.

“Fico feliz em saber que está do seu gosto, querida.” Ela pareceu brilhar de felicidade com o elogio.

Carlisle logo apareceu na cozinha, e pareceu tão satisfeito quanto Esme ao ver que eu havia comido toda aquela porção. “Você estava mesmo com fome, hm.”

Ofereci a ele um sorriso amarelo, imaginando que, talvez, parecesse alguém que não via comida há dias. Me perguntei o porquê de tanta fome.

"Carlisle… que horas são?” questionei, notando — pelas janelas — que o sol já se preparava para se pôr.

Ele olhou o seu relógio de pulso. “São quatro e quarenta e nove.”

“Oh! Pensei que tivesse apagado por mais tempo” Comentei, rindo em meio ao alívio. Meu corpo relaxou um pouco, sabendo que não estive ali por muito tempo.

Esme e Carlisle trocam um olhar preocupado, antes de o mais velho voltar a falar.

“Hm, Bella, você dormiu o dia inteiro. São quatro horas da tarde de terça-feira.”

Meu sorriso morreu de imediato, e eu me levantei da cadeira tão rápido, que a mesma quase caiu para trás. “O quê?!”

Esme se apressou a me acalmar, colocando um braço em meu ombro. “Você não precisa se preocupar com nada, Bella! Edward e Alice cuidaram de tudo.”

Carlisle explicou que Edward havia levado minha caminhonete até minha casa, e deixado um bilhete para Charlie, — se passando por mim — dizendo que passaria o final da tarde com Alice, enquanto, na verdade, ela me levava até Carlisle.

Quando estava tarde, e perceberam que eu não acordaria tão cedo, Alice ligou para Charlie e, alegando que caí no sono depois de assistir a um filme, convenceu-o a deixar que eu dormisse em sua casa.

“Edward levou um atestado médico — em seu nome — para escola, hoje de manhã, para evitar que Charlie recebesse uma ligação da secretaria, questionando o motivo de não estar lá." Acrescentou, parecendo temer pela minha reação.

“Imaginamos que preferiria ser trazida para cá, do que ser levada ao hospital.” Complementou Esme, talvez para melhorar um pouco a situação.

Realmente, a última coisa da qual eu precisava era ser levada para o hospital; ainda mais por falta de descanso, falta de comida, e estresse excessivo. Aquilo somente faria Charlie se preocupar, e, se conhecendo-o bem, eu sabia que ele voltaria a ficar atento a tudo o que eu fazia, como havia feito durante todos os meses em que não fui eu mesma.

Se havia uma coisa que os Cullen faziam bem — e que eu poderia contar sempre com eles -, era cobrir a verdade. Suas histórias eram bem planejadas, que ninguém nunca ousaria questionar.

“Eu nem sei como agradecer. E não só por isso. Alice me contou que todos vocês estavam envolvidos em outros projetos e, ainda assim, voltaram para Forks, por minha culpa; por que Victoria está atrás de mim.“

“Não precisa agradecer, Bella.” garantiu Carlisle. “Victoria é nossa responsabilidade. É claro que voltaríamos, sabendo que você está em perigo. O que fizemos ontem é apenas o mínimo, por tudo que causamos a você."

Senti meu coração pular uma batida.

Dizer que eles voltariam ao saber que eu estava em perigo… Carlisle tinha coragem para sequer pensar em dizer algo daquele tipo depois de ir embora, e assistir eu me afundando na depressão sem fazer nada. Alice sabia muito bem tudo o que vinha acontecendo comigo nos últimos meses, e com certeza os demais estavam cientes, também.

“Olha se não é a Bella adormecida!” A voz estrondosa de Emmett me fez pular de susto, antes mesmo que pudesse responder ao comentário de Carlisle.

Ele entrou na cozinha com os braços abertos, pronto para me apertar em um de seus famosos abraços de urso, porém, com apenas um olhar, lançado à ele por Carlisle, ele se contentou com apenas um aperto de mão.

Logo atrás vinha Rosalie, que, para a minha surpresa, lançou um sorriso verdadeiro em minha direção. Ela nunca havia sorrido para mim daquela maneira; sempre me evitando a qualquer custo.

“Se sente melhor?” Perguntou, enquanto se aproximava de mim, e me dava um abraço, que eu hesitei em retribuir.

“S-Sim, Carlisle cuidou bem de mim.” Consegui formular uma resposta que não deixou transparecer o quão surpresa eu estava com o tom de sua voz, e com o fato de que parecia, realmente, querer uma resposta. “Hã… Ouvi que vocês dois passaram um tempo na África. Como foi?”

Emmett ficou mais do que feliz em responder àquela pergunta, lançando-se em uma longa história sobre como haviam encontrado diversos tipos diferentes de animais, e como ele estava orgulhoso de ter conseguido pegar um elande-gigante, que, aparentemente era a maior espécie de antílope da África.

Rosalie revirava os olhos para as palavras do marido, dizendo que, durante toda a viagem, teve que arrastá-lo para longe das áreas onde a caça era proibida. Emmett retrucou diversas vezes, alegando que a lei apenas falava sobre caça com armas de fogo e flechas, não sobre presas vampíricas; sendo assim, ele não estaria fazendo nada de errado.

Acabei rindo, achando engraçada a pequena discussão dos dois, apesar dela ser um pouco estranha, do ponto de vista humano.

Quando Edward passou pelo batente da porta, porém, meu riso morreu.

Estar ali, na cozinha de sua casa, rindo e conversando com sua família, com ele presente, trazia de volta memórias esquecidas de nosso passado, que me faziam apenas querer sair correndo.

“Foi bom vê-los, depois de tanto tempo.” Eu disse, me levantando novamente da cadeira; dessa vez bem mais lentamente. “Mas acho que está na minha hora de ir. Não posso submeter Charlie à tortura de dois dias seguidos com comida congelada para a janta.”

Para minha surpresa, Edward se ofereceu para me levar embora, sem nenhuma vez tentar insistir para que eu ficasse. Senti meus ombros relaxarem um pouco, percebendo que ele parecia estar respeitando meus limites e minhas decisões, e não tentando tomá-las por mim, como antes.

“Obrigada, Edward.” agradeci depois de alguns minutos de um silêncio estranho, enquanto ele dirigia.

“Não precisa agradecer, Bella. Eu te disse antes que farei o que quer que você precise.”

Meu corpo tencionou com aquilo, me fazendo lembrar do que ele havia dito, antes de sumir da sala para buscar Alice. Naquele momento, fiquei surpresa demais para respondê-lo, mas, sabia que deveria dizer algo para deixar — ainda mais — claro, os limites de nosso não-existente relacionamento.

“Sobre isso… Eu não acho que seja certo. Sei que os motivos de ter ido embora estavam relacionados ao meu bem, mas… Você não devia seguir sua vida preso a mim, desse jeito. Dizer que seria o meu tapete… Eu nunca faria algo desse tipo, e é estranho saber que pensa algo assim sobre mim.” Eu disse, observando seu rosto impassível, em busca de algum sinal de que discordasse. “Você deve ser o que quiser, seguir os seus sonhos. Seguir em frente.”

Um sorriso triste brotou em seus lábios. “Acho que meu plano de deixá-la seguir uma vida normal funcionou, afinal de contas. Quer dizer… apesar dos lobisomens e suas magias.”

Deixei todo o ar sair de meus pulmões, enquanto encarava o lado de fora, pela janela. “Sim. Apesar dos lobisomens e magias.”

“Bella, posso te fazer uma pergunta?” Questionou, meio segundo depois, me chamando a atenção com a repentina mudança de assunto.

“Sim?”

“O que aconteceu ontem? Por que estava chorando?”

Hesitei, notando que, apesar do tom controlado e relaxado de sua voz, seus olhos espertos prestavam atenção em cada um de meus movimentos, como se quisesse ter certeza de que não mentiria.

Mentir seria a opção mais fácil, ainda sabendo que não devia a ele explicação alguma, porém, não consegui tirar da minha cabeça o modo altruísta com que havia me tratado, no dia anterior. Ele havia me ajudado, mesmo sem saber o motivo do surto; havia feito de tudo para que eu não acabasse com problemas, seja na escola, ou com Charlie.

Não parecia certo ser desonesta com ele naquele momento.

Sem olhar para ele, expliquei, sem muitos detalhes, o que eu havia presenciado na casa da Emily na sexta-feira. O imprinting; como Emily havia reagido; e o modo como comecei a me sentir extremamente preocupada com aquela ‘magia’.

Ficamos em silêncio alguns instantes. Espiei pelo canto dos olhos, tentando notar sua reação, porém, não encontrei nada, além de sua máscara controlada.

“Eu pude vislumbrar um pouco dessa magia na mente de Sam, na última vez em que nos encontramos.” Ele confessou, sem tirar os olhos da estrada. “É mesmo tão poderoso quanto você descreve.”

Balancei a cabeça, concordando. Não havia dúvidas de que aquela magia era imutável.

“Quando me dei conta do que vi acontecer, bem na minha frente; que presenciei aquela magia acontecer, e o quão real ela é… Eu perdi a cabeça.” Foi a minha vez de confessar, encarando minhas mãos. “Sei que a minha reação não é justa com Jacob, e que isso está fora do nosso controle, mas…”

Deixei a minha voz morrer, sem saber como terminar aquela frase.

Edward suspirou, parando o carro em frente a minha casa, iluminada pelo pôr do sol. Minha caminhonete era o único veículo parado ali, deixando claro que a casa estava completamente vazia.

“Não há nada de errado em ter medo, Bella. Você não precisa se forçar a ser forte.” Edward garantiu, olhando em meus olhos pela primeira vez, desde que entramos no carro. “Use o tempo que precisar para entender seus sentimentos, e, se tudo isso for demais para suportar, saiba que há sempre uma outra saída. Tudo vai ficar bem, no final. Eu prometo.”

Eu sorri, e notei que, pela primeira vez em muito tempo, lhe lançara um sorriso que não era forçado.

“Obrigada, Edward.” Agradeci uma última vez; minha mão no batente da porta, pronta para abri-la. “Achei que nunca diria isso, mas é bom poder conversar com você, de novo.”

Edward ficou perplexo com minhas palavras. Seus olhos dourados se abriram, tão grandes que não consegui mais me mover, completamente hipnotizada.

Naquele milisegundo, enquanto nossos olhares estavam conectados, pude ver algo em seus olhos mudar. Em um momento havia apenas surpresa, no momento seguinte, era como se ele abrisse a porta de sua alma, deixando que eu visse o que ele vinha — cuidadosamente — escondendo, aquele tempo todo.

Sua dor e angústia me atingiram como um tapa na cara, me chocando de tal modo que tudo o que pude fazer foi encará-lo, embasbacada, enquanto comparava sua dos à minha; aquela que a qual eu havia lutado com unhas e dentes para escapar. Me perguntei como era possível que, mesmo sendo ele quem tivesse me deixado, ainda se sentisse daquela forma; Perdido, praticamente lutando para continuar vivendo…

Eu não o vi se aproximar. Apenas quando seus lábios tocaram os meus, roçando tão levemente que mal pude senti-los, foi que acordei. Puxei a maçaneta, e praticamente me joguei para fora do carro. Cambaleei por alguns momentos, tentando me manter em pé, enquanto tentava colocar o máximo de distância entre nós, o mais rápido possível.

Cobri a boca com a mão, sem acreditar que Edward havia, realmente, me roubado um beijo.

“Bella, eu…” Começou a dizer, se inclinando sobre o banco do passageiro para a porta aberta, mas eu não esperei para ouvir o que sairia de sua boca, em seguida. Fechei a porta com força, praticamente correndo até a casa, onde me tranquei, apesar de saber que ele poderia entrar se quisesse.

Ele pareceu entender o recado.

Charlie apareceu algumas horas depois, e me encontrou sentada no chão, não muito longe da porta de entrada.

“Bella? O que está fazendo aí no chão frio?” Exclamou. Tive dificuldade para me concentrar o suficiente para conseguir entender e responder à sua pergunta.

Charlie largou no chão as sacolas que carregava, e se aproximou de mim rapidamente, colocando as mãos sobre meus ombros. Encarei seu rosto, visivelmente preocupado, e tentei lhe lançar um leve sorriso, que deve mais ter parecido uma careta.

“Aconteceu alguma coisa, Bella? Você está machucada? Fizeram algo com você?” perguntou em tom urgente, seus olhos subindo e descendo pelo meu corpo como se procurasse algum ferimento.

“Pai, eu estou bem.”

“Não tente me enganar, Bella. Você está pálida como um fantasma.” Disse, e ele me ajudou a seguir até o sofá para me sentar. “O que foi?”

Tentei tomar controle sobre mim mesma, piscando fortemente, mas aquilo só fez com que lágrimas — que eu nem sabia que havia produzido -, escapassem dos meus olhos.

Quando notei, já havia começado a chorar, de novo. Mal conseguia respirar, devido a força que fazia para tentar segurar os soluços.

"Shh, vai ficar tudo bem, Bella." Charlie disse, me abraçando, e não consegui mais segurar.

Me agarrei em seus ombros, e deixei todos aqueles sentimentos presos dentro de mim escaparem pelos olhos. Deixei que as lágrimas lavassem minha alma, aninhada nos braços protetores de meu pai.

Ali, em seu abraço, encarei toda a confusão que sentia, assim como a insegurança e a tristeza. Deixei todos os sentimentos que havia reprimido — que havia bloqueado por uma barreira que eu mesma construí — escaparem.

Eles me tomaram da mesma forma como a água fria do mar havia feito, no dia em que pulei do penhasco; me empurrando para o fundo contra a minha vontade.

Me lembrava claramente de como me senti naquele dia; sufocando lentamente no fundo do mar, com a imagem do homem que amava em minha mente. Lembrava de pensar, no momento em que achei ser meu fim, que estava feliz.

“Pai, o que eu vou fazer?” perguntei; minha voz completamente embargada. “O que eu faço agora, pai? Eu não sei mais...”

Jacob havia mergulhado no fundo do mar, me agarrando, e me puxado de minha cova gelada, me trazendo de volta à vida. Ele havia expulsado a água de meus pulmões, e cuidado de mim. Quem faria aquilo por mim, desta vez?

Charlie me abraçou mais apertado, tentando me confortar, e eu deixei que ele acariciasse meus cabelos por vários minutos, até que meu corpo já não balançasse com os soluços.

Ele me ofereceu um copo de água, e eu o bebi, sabendo que me observava o tempo inteiro, preocupado.

Quando perguntou novamente o que havia acontecido, eu não consegui achar algo para dizer, além da verdade.

Estava cansada de andar pelos cantos, tentando esconder coisas dele. Já havia segredos demais entre nós dois — coisas que não eram minhas para serem contadas; coisas que o colocariam em risco, caso soubesse. Não era justo que escondesse dele até mesmo como eu me sentia.

Como poderia mentir, sabendo que tudo o que ele queria, era me ajudar? Mesmo que nenhum de nós fosse realmente bom em falar sobre seus sentimentos; mesmo sendo apenas parte da história…

“Eu estou com medo, pai.” Falei, achando uma coragem que não sabia que existia dentro de mim.

Ali, na casa escura, sentada no sofá da sala, contei a ele sobre o meu medo de perder tudo, de perder o que eu e Jacob tínhamos. Sobre não conseguir contar a ele sobre os meus sentimentos, e como, quando vi a dor de Edward, por um momento, eu hesitei. Claro que deixei de fora sobre o beijo roubado… mas aquilo também havia mexido comigo.

“Eu sei que Jacob me ama, e nada no mundo me faz mais feliz, mas, se ele me deixar… Se algo acontecer e Jake se for, o que vou fazer?” Perguntei, olhando para as minhas mãos. “Nós dois sabemos que eu não lido bem com separações; não quero voltar ao estado em que estava em setembro, pai. Não sei o que fazer.”

Charlie tomou minhas mãos na sua, “Você não precisa fazer nada, Bells. Você está se preocupando com o futuro; com algo que nem sabe se vai acontecer.”

Eu olhei para os seus olhos escuros, notando como, na luz fraca, as suas rugas ficavam ainda mais fundas.

“Olha, nós dois sabemos que não sou a melhor pessoa para dar conselhos, principalmente sobre isso, mas, se tem uma coisa que eu sei é, que Jacob é um bom garoto.” Disse, antes de pausar por um momento, repensando. “Claro que não posso prometer que ele não vá te machucar… Mas como vai conseguir viver, se não correr esse risco? Veja o seu velho, por exemplo. Trabalhar como policial tem os seus riscos, mas não há mais nada no mundo que eu faria. Todo dia há a possibilidade que eu não volte para casa, mas ainda acordo pela manhã, coloco a arma na cintura, e saio por aquela porta.”

Ele apontou para a porta da frente, seu tom orgulhoso. Quando deixou o braço cair, Charlie deu um longo suspiro.

“Agora sobre sentir… alguma coisa pelo Edward, realmente não sei o que te dizer. Na minha opinião, ele podia cair morto, e eu não me importaria.”

Tentei ficar séria após seu comentário, porém, era tão absurdo pensar em Edward caindo morto, do nada, que um risinho escapou de meus lábios.

“Estou falando sério!” insistiu. “Pegue sua mãe, como exemplo. Ela foi embora, e me deixou aqui sozinho. E pior, te levou junto. Apesar disso, houveram momentos em que tudo o que eu mais queria era que ela estivesse aqui. Depois de um tempo, toda aquela dor diminuiu, e eu pude ver que nosso relacionamento, realmente, não era pra ser; e que ficar juntos iria apenas fazer mal para os dois.”

Absorvi todas as suas palavras em silêncio, nunca tendo ouvido-o falar sobre seu relacionamento com a minha mãe, antes. Todo o sentimento que emanava do que dizia, me fez lembrar de como eu havia jogado sal naquela ferida, um ano antes, apenas para sair de casa, e ir para Phoenix, para “despistarmos” James.

Eu sou a pior filha do mundo.

“Bella…” Chamou Charlie, trazendo minha atenção de volta para si. “Se está pensando no que disse naquela vez em que saiu de casa, quero que esqueça isso, está bem? Está no passado, e águas passadas não movem montanhas. É isso que quero que entenda. Edward é passado. Você devia conversar com Jacob sobre tudo que acabou de me dizer, e… sabe, ser honesta. Tenho certeza que irão se resolver; aquele moleque está caidinho por você.”

“Pai…” resmunguei, sentindo minhas bochechas corarem. Estava demorando pra ele falar algo desse tipo, pensei.

Faziam exatamente quatro dias desde a última vez em que havia visto Jacob. Eu mesma não lembrava de termos passado tanto tempo longe um do outro, depois descobrir que ele podia se transformar em um lobo.

Charlie estava certo; eu precisava encarar aquilo de frente. Eu havia sido honesta com todo mundo naquele dia, até mesmo com Edward. Era quase como se, inconscientemente, estivesse dizendo para mim mesma o que precisava fazer.

Estava na hora de deixar de ser covarde.

Notas finais
THANK GOD a gente passou essa parte, não aguento mais falar do Edward ou dos Cullens. Acho que o dia que eu tiver que escrever mais uma cena Bella e Edward será o dia último dia como escritora. Deus me livre. Vejo vocês na semana que vem com o que eu espero que seja MUITO Jacob Black. Beijos!