Full Moon
20 Port Angeles
Notas iniciais
"You should be angry with me."
— Edward Cullen
Como aquilo havia acontecido? Como eu havia me colocado naquela situação?
Talvez estivesse alucinando. Eu tive febre apenas alguns dias antes; Talvez seja um efeito tardio ou algo assim, tentei me convencer.
Mas quem eu estava querendo enganar?
Eu estava sentada no banco de trás do Volvo prata, que seguia a toda velocidade pela estrada, em direção à Port Angeles. No banco do passageiro, Alice cantarolava com perfeição a música que ela mesma havia colocado para tocar; Ao seu lado, dirigindo sem ter aberto a boca uma única vez, estava Edward.
Mais de cem vezes, me perguntei se estava tendo algum tipo de alucinação, ou se estava presa em um pesadelo. Não seria a primeira vez, mas o fato de que, não importa quantas vezes eu beliscasse minha perna, eu não acordava, me fez acreditar que era real. Eu estava mesmo ali.
Como podia Alice ter feito aquilo comigo? Não havia a menor possibilidade dela não saber como eu me sentia em relação a Edward — eu mesma a havia dito quando nos encontramos, algumas semanas antes -, então, porque raios ela havia criado aquela situação completamente desconfortável e insuportável?
Obviamente, eu estava tensa; tão tensa que temia que as veias de minha cabeça fossem estourar a qualquer momento. Entretanto, parecia ser a única infeliz, entre os três. Edward tinha uma expressão serena e um olhar tranquilo — que em nenhum momento desviou da estrada -, enquanto Alice continuava com sua cantoria, ignorando, completamente, as adagas que eu lançava em suas costas com o olhar.
Ela havia aproveitado o meu momento de choque ao ver Edward dirigindo para me enfiar no carro, antes que eu tivesse a chance de formular qualquer frase de protesto. Quando finalmente saí de meus devaneios, já era tarde demais; o carro já atravessava a cidade de Forks a toda velocidade, e tudo que podia fazer era me deixar ser levada pelo plano de Alice.
Talvez, se eu ainda fosse a mesma Bella de algumas semanas antes, teria até cogitado me jogar do carro, mas eu já não tinha a menor vontade de colocar minha vida em risco.
Alice, com certeza, havia planejado tudo aquilo muito bem. Apareceu desavisada, sem carro; não me deu nenhum momento para arranjar uma desculpa para não sair com ela… Tudo saiu exatamente do jeito que ela queria.
Prestando atenção, até mesmo minhas roupas faziam parte do seu plano. Ela havia escolhido a blusa azul, que, um dia, Edward havia garantido ser sua preferida em mim — e que eu havia, há muito, escondido no fundo da gaveta mais baixa da cômoda.
Mordi o lábio com força, quase arrancando sangue do mesmo, mas me parei no último segundo, lembrando com quem estava, e que o assunto sangue era perigoso demais para vir à tona, ainda mais confinada em um carro em movimento.
Como se soubesse o que eu estava prestes a fazer, o olhar de Edward caiu sobre mim, pelo retrovisor. Seus olhos dourados prenderam-se aos meus por um momento, preocupados, antes de voltar a se focar na estrada, como se nada tivesse acontecido.
Estremeci, virando para a janela ao meu lado, e abrindo-a até o fim, para que o vento gelado acalmasse minha mente agitada.
Eu faria Alice me pagar. Mal podia esperar para que tivéssemos um momento sozinhas, para que eu pudesse despejar sobre ela tudo o que estava acumulando em minha garganta, durante todo aquele percurso. Desejei, com todas as forças, que ela tivesse uma visão de quão “divertido” seria nosso dia, sabendo o quanto eu a estava odiando pelo que fez.
Imaginei que, talvez, se eu pensasse várias vezes em fugir para encontrar Jacob, suas visões ficariam embaçadas o suficiente para deixá-la frustrada e irritada. Pelo menos, daquela forma, eu poderia contar com algum tipo de vingança imediata.
Quando paramos em frente ao restaurante — que eu nunca havia visto antes, e que parecia ser novo -, Alice e eu fomos as únicas que saíram do carro, antes de Edward começar a dirigir novamente, deixando-nos para trás.
“Isso faz parte do seu plano?” questionei, sentindo o sarcasmo escorrer por entre minhas palavras, evidenciando minha irritação. “Por que ele está indo embora?”
“Por que não entramos e nos sentamos, primeiro, Bella?”, comentou, andando em direção à entrada do restaurante, sem nem ao menos olhar para mim. “Eles têm uma vista magnífica, no segundo andar!”
Aquilo só serviu para me fazer ficar ainda mais irritada.
“Não, Alice!” exclamei, sem sair do lugar. “Eu quero saber que tipo de brincadeira sem graça você acha que está fazendo?! Achei que tivesse deixado claro para você que não quero ter mais nada a ver com ele. Quem você acha que é para achar que pode fazer isso pelas minhas costas? Ótima amiga.“
“Eu sei que está brava comigo, e não tiro a sua razão, mas por que nós não nos sentamos primeiro?”, perguntou ela com uma expressão grave, indicando algumas pessoas que pareciam prestar atenção à minha explosão. “Eu prometo que irei explicar tudo.”
Ela me lançou um longo olhar, que parecia cheio de mensagens subliminares que, em meio a raiva, eu não conseguia decifrar completamente. Aquilo, somado às pessoas ao nosso redor, que estavam, realmente, nos encarando, me fez marchar restaurante adentro sem dizer mais nenhuma palavra, ignorando-a e pisando com mais força do que o necessário, sabendo que ela viria atrás de mim.
O restaurante parecia ser de alta classe, já que o hostess, que esperava na porta, vestia roupas extremamente formais, e que pareciam ser mais caras que o meu carro — não que ele valesse muito -.
Tal formalidade, me fez perder a coragem — que havia ganhado nos instantes anteriores -, de despejar meu ódio e frustração sobre todo e qualquer um que passasse em minha frente, e eu tive que pensar por alguns segundos no que diria, quando ele me perguntou em que nome estava a minha reserva.
Claro que um restaurante como aquele exigiria reserva.
Revirei os olhos, murmurando “Cullen”, em seguida.
Ele sorriu grandiosamente, e informou que uma mesa com uma ótima vista havia sido preparada no segundo andar. Antes mesmo que ele virasse, para que o seguíssemos, porém, insisti que preferia uma mais simples, no primeiro andar, mesmo.
O sorriso de Alice — que estava parada ao meu lado — pareceu afetado, e falhou, por um breve momento, antes de voltar ao que era.
Ainda querendo que aproveitássemos a “ótima vista do pier”, o hostess nos guiou até uma das mesas ao lado das grandes janelas, deixou um menu na frente de cada uma, e saiu rapidamente, parecendo perceber a tensão entre nós.
Eu encarei Alice, furiosa — meu pé batia no chão incansavelmente — , enquanto a mesma puxava o cardápio para si, fingindo olhar as opções seriamente, como se realmente as estivesse considerando para o almoço. Eu ri em escárnio.
“Você nem come, por que se dar o trabalho?”, cuspi, cruzando os braços sobre o peito. “Gosta tanto assim de jogar comida fora?”
Ela suspirou, como se eu fosse a pessoa mais insuportável do mundo, e fechou o cardápio. “Eu estava escolhendo para você, Bella, é claro.”
Eu abri a boca para protestar, porém, um momento depois, o garçom estava de volta, e Alice sorriu presunçosa, fazendo o seu pedido em seguida.
“E para a senhorita?” perguntou ele, virando-se para mim. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Alice interveio:
“Ela quer o mesmo.”, disse rapidamente, devolvendo o cardápio para ele com um sorriso. Eu quis socá-la.
“Na verdade, eu vou querer…” adicionei, impedindo que o garçom saísse. Olhei para o cardápio rapidamente, e disse o nome do primeiro prato em que meus olhos focaram. “...o risoto de vieiras, por favor.”
Assim que o garçom saiu do nosso campo de visão, recomecei: “Então? Qual é a sua explicação para toda essa palhaçada? E para o seu próprio bem, espero que seja muito boa.”
A expressão de Alice transformou-se lentamente, primeiramente seus olhos ficaram extremamente tristes, e então o seu rosto inteiro se contorceu. “Sei que não existe uma desculpa que eu possa dar para te convencer de que não fiz isso para te irritar, Bella, mas, você pode, pelo menos, me ouvir por alguns minutos? Juro que só estou pensando no seu bem.”
“No meu bem? Como me enganar para entrar em um carro com a pessoa de quem eu mais quero distância é pensar no meu bem, Alice?”, eu bufei, “Se tem alguém em que você está realmente pensando, é no seu irmão, não em mim.”
“Não, você está enganada! Eu estou fazendo isso por você!” Sua voz saiu um pouco mais alta do que o normal, e ela logo se recompôs. “Desde que voltamos para Forks, minhas visões sobre o seu futuro não têm sido claras o suficiente para que eu pudesse entender, mas tem algo de errado acontecendo, Bella. Algo de muito errado!”
“Espera, o meu futuro? Achei que você tivesse dito que não estava tentando xeretar no meu futuro ou algo assim.”, a olhei confusa. “E além do mais, você sabe que passo todo o meu tempo livre na reserva, de qualquer forma. Por que tentar? Você só vai arranjar uma dor de cabeça para si mesma.”
“Venho tentando ver por conta da Victoria, é claro! Tenho mantido minhas visões focadas em você, para o caso de ela conseguir te alcançar de alguma maneira — e sim, eu tenho tido dores de cabeça horríveis -. Porém este não é o ponto, Bella. Algo… muito ruim está para acontecer, e eu não consigo ver completamente porque os lobos estão envolvidos!”
Ouvir aquilo me tirou do eixo, tirando o meu foco completo da raiva que eu sentia. A expressão no rosto de Alice era tão grave, que senti medo, por um momento.
“Do que está falando? O que você viu? ”
“Eu tenho tido… flashes, da mesma cena, toda vez que tento ver algo sobre o seu futuro.”, disse, lentamente, “Como sabe, as minhas visões são subjetivas; se a pessoa muda de ideia, minhas visões mudam. Desde sexta-feira, tenho tido a mesma visão. Eu não entendo, há tantos buracos que só posso assumir que um dos lobos esteja envolvido, porém a mesma coisa sempre acontece.”
Ela respirou fundo, antes de continuar.
“Eu vejo… você, caída no chão, chorando. Suas roupas estão rasgadas; Você tem três cortes fundos que vão do começo do seu ombro até o seu antebraço.” Seus olhos desfocaram enquanto ela falava, e sua testa se enrugou, como se estivesse tentando, com todas as forças, ver alguma coisa. “E… Edward está ao seu lado. Morto.”
Segundos se passaram em completo silêncio, onde eu incapaz de reagir, tentando processar o que ela estava me dizendo.
“Eu… Eu não tenho certeza do que isso significa, ou como isso aconteceria. O lugar não é nenhum que eu reconheça, mas é na floresta, e eu consigo ouvir o mar, então tudo o que eu posso fazer é apenas assumir. As marcas em seu braço não parecem ter sido feitas por algo humano, e, o modo como o corpo de Edward está em pedaços irregulares me leva a pensar que tenha sido um… bom, um dos lobos.”
“Não.”, eu respondi, minha voz dura, não querendo ouvir mais nada do que ela tinha a dizer. “Eles não fariam isso.”
“Como eu disse, eu só estou assumindo.” Sua voz não passava de um sussurro, e seus ombros se encolheram. “Por isso, eu precisava conversar com você, e te perguntar se algo mudou desde sexta; algo que poderia causar uma briga entre Edward e algum dos lobos.”
Tentei vasculhar minha mente, sentindo-me zonza com a montanha russa de emoções que eu havia enfrentado em tão poucos minutos. Algo que aconteceu na sexta-feira?
“As únicas coisas que aconteceram foram aquelas fofocas e rumores idiotas.” Eu disse. “Eu fiquei brava com Edward por não ter feito nada para parar todo aquele falatório na escola. Só isso. Eu não vejo como isso pode afetar qualquer coisa.”
Alice colocou a mão em seu queixo, parecendo estar focada enquanto pensava.
“Então você ficou brava com Edward… e você, por acaso, contou a algum dos lobos sobre isso? Você disse algo que poderia fazer um deles — Jacob, talvez — querer matá-lo?"
Encarei-a como se uma cabeça extra tivesse crescido em seu corpo. “Jacob nunca faria algo assim só porque fiquei irritada com algumas fofocas na escola, Alice! Na verdade, ele até achou graça. Isso não faz sentido algum!”
“Talvez todos os rumores não sejam a causa, então, mas sim o fato de Edward estar envolvido.” ela continuou, dando ênfase em cada palavra. “Até você tem que admitir que é possível que Jacob perca a cabeça e cause uma situação em que os dois acabem se enfrentando, Bella.”
Um gosto azedo subiu pela minha garganta, e eu não consegui respondê-la, desviando meu olhar para a janela.
“Você quer que eles acabem se enfrentando?”
Voltei a olha-la, rapidamente, estranhando sua pergunta.
“É claro que não! Como você pode me perguntar uma coisa dessas?” respondi rapidamente, “A única coisa que eu quero é que Victoria seja pega.”
Sua expressão se suavizou, como se eu tivesse dito exatamente o que ela quisesse ouvir.
“Então, talvez, você deva considerar acabar com essa briga que existe entre vocês dois. Está mais do que na hora de você e Edward terem uma conversa.” Concluiu, ao mesmo tempo que o garçom apareceu, com um prato em cada mão.
Eu fiquei em silêncio enquanto ele colocava os pratos à nossa frente, e pensei no que ela disse, enquanto Alice agradecia o garçom com um sorriso educado.
“Por isso decidi trazê-la até aqui, onde eu poderia ter certeza que não seríamos interrompidas, seja por Charlie, ou por um dos… lobos. Assim, vocês podem resolver essa situação de uma vez por todas.” Ela finalizou depois que o garçom se retirou.
Cobri meu rosto com uma mão, apertando meus olhos, e, com a outra, voltei a beliscar a perna, torcendo para acordar daquele pesadelo. Aquilo, com certeza, deixaria hematomas, mas, no momento, estava me ajudando a ficar sã.
“Era mesmo necessário tudo isso, Alice?”, perguntei, me sentindo cansada. “Você poderia apenas ter, sei lá, me ligado, ou conversado comigo de algum jeito que não incluísse me raptar! Precisava mesmo ter me enganado e me trazido até aqui, apenas para me convencer a ter uma conversa com o seu irmão?”
“Eu disse que iríamos almoçar em Port Angeles, e estamos almoçando em Port Angeles, Bella. Te enganei sobre qual parte?” perguntou, em tom brincalhão, e eu a encarei, inconformada. Alice suspirou, percebendo que eu não havia achado graça alguma. “Ok, eu omiti a presença do Edward, e, por isso, eu peço desculpas. Mas falei a verdade quando disse que queria passar algum tempo com você; então, porque não juntar o útil ao agradável? Edward teria de ficar de guarda hoje, de qualquer forma. Assim, ganhei um motorista, e você pode se resolver com ele.”
Por longos segundos, apenas continuei encarando-a. Ela cortava sua comida em pedaços minúsculos, como se realmente considerasse comê-los em algum ponto. Minha comida jazia esquecida no prato, e eu não tinha a menor vontade de comê-la. Meu apetite havia ido pelos ares, no momento em que Alice havia me enfiado naquele carro.
Não pude deixar de pensar que Alice estava fazendo aquilo mais para ajudar a Edward do que para resolver nossos problemas. Não importava o quanto ela negasse. Ela não se importava com o contexto da visão; o que, realmente, a amedrontava, era o fato de Edward estar em pedaços ao meu lado.
Ela provavelmente nem teria mencionado os arranhões em meu braço, se não quisesse um motivo para culpar os lobos. .
Mas… Eu não podia culpá-la por querer proteger seu irmão. Se eu estivesse em seu lugar, claro que teria feito a mesma coisa. Mesmo assim, aquilo não fazia a situação mais confortável.
Eu queria virar as costas e ir embora. Sabia que se pedisse ao garçom por um telefone, Jacob viria me buscar no mesmo segundo que eu pedisse , sem dúvidas... Mas então, e depois?
Ele saberia no mesmo instante que Edward também estaria ali. Poderia pará-lo se perdesse a cabeça? Não havia como ter certeza se ele iria limitar-se a apenas me tirar de lá, e a possibilidade dele acabar se expondo no meio da cidade me fez estremecer.
Mesmo que conseguisse acalmá-lo, e voltássemos para casa em seguida, nada o impediria de entrar em uma briga com Edward — ou Alice — depois. Aquilo poderia até mesmo fazer se realizar a visão que a Alice tinha acabado de me contar.
Não, eu tinha que lidar com isso eu mesma.
Suspirei profundamente.
“Ok, eu vou conversar com ele. Mas que fique claro que não gostei de ter sido enganada por você. Não pretendo esquecer, e não tenho a intenção de te perdoar caso isso ocorra uma segunda vez.” informei, cruzando os braços sobre o peito, novamente. “Antes de ser a ex-namorada do seu irmão, eu fui sua amiga, Alice. E não vou aceitar que você use essa amizade para favorecê-lo.”
Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, acrescentei.
“Além disso, caso não tenha entendido ainda: eu não tenho a menor intenção de voltar a ter um relacionamento com Edward.” finalizei. Meu tom não deixava dúvidas de que eu falava sério.
Alice bufou.
“Não é como se eu estivesse tentando forçá-la a ficar com ele, Bella. Eu só quero que vocês se tratem civilmente, nada mais.” Ela deu de ombros, antes de prosseguir. “Não precisa virar melhor amiga dele, mas continuar com essa briga só vai trazer problemas para todos nós. Se quisermos pegar a Victoria, temos que fazer isso juntos; e não dá para fazer nada se estivermos focados em brigas paralelas.”
Mesmo que eu soubesse que havia sentido no que ela falava, eu não quis admitir em voz alta. Eu nem sabia se eu seria mesmo capaz de me manter civil perto dele.
Meu corpo estremeceu.
“Você entendeu que eu não quero que se meta mais nisso, certo, Alice? Preciso que você me prometa que vai me deixar tomar as minhas próprias decisões daqui para frente.” insisti, tentando fazer com que meu ponto entrasse em sua cabeça.
“Palavra de escoteira.” Ela sorriu, erguendo uma das mãos no ar.
Eu revirei os olhos.
“Você nunca foi escoteira, Alice.”
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