Full Moon
13 Pesadelo
Notas iniciais
“We’re a pretty messed-up pair, aren’t we? Neither one of us can hold our shape together right.”
― Jacob Black, New Moon
Estava na floresta novamente. A mata fechada cobria o céu de maneira sufocante, enquanto eu assistia Edward virar as costas para mim, e desaparecer no escuro da noite. Eu sabia que momento era aquele; ele estava me deixando.
De novo.
Comecei a andar na direção em que o vira partir, apesar de saber que não o alcançaria. Vivi aquele momento diversas vezes desde que ele partira, e sabia, de cor, tudo o que iria acontecer; mesmo assim, não conseguia parar.
Eu me sentia como Alice Kingsleigh, caindo em um buraco sem fim, e sem alternativa de fuga.
Alguns detalhes estavam diferentes, entretanto. A floresta parecia estar mais densa do que o normal, e uma leve névoa se espalhava pelo chão, dificultando minha caminhada; O ar estava muito mais frio do que eu me lembrava. Rajadas de vento sopravam em minha direção, fazendo meus cabelos soltos voarem em todas as direções. Eu me senti perdida.
Em poucos minutos, comecei a ficar paranóica. Aquela era a parte em que eu ficava sozinha — havia ficado sozinha por um longo tempo, antes de Sam me encontrar -, porém, naquele momento, passos soavam de todas as direções. Girei no mesmo lugar diversas vezes, tentando ver a quem os passos pertenciam, mas não consegui ver mais ninguém na escuridão que se instalava.
Era um pesadelo. Eu sabia que era. Tinha que ser. Mas por que parecia tão real? Por que eu não conseguia respirar direito? Em nenhum dos meus pesadelos anteriores eu senti um medo tão profundo como aquele, que parecia estar congelando meus ossos, dificultando meus movimentos.
Ouvi passos novamente, muito mais próximos desta vez, e pude jurar que senti um sopro de respiração tocar minha nuca.
Virei rapidamente, e, para meu desespero, vi um vulto passando por trás das árvores, a alguns metros de mim.
Aquele foi o estopim. O medo já estava em um nível tão alto, que eu simplesmente me virei e corri, mesmo sabendo que, qualquer coisa que conseguisse se movimentar na floresta com tanta facilidade, não teria dificuldades para chegar até mim. Tentei gritar, mas minha voz não saiu.
As raízes das árvores pareciam enroscar em meus pés de propósito, fazendo com que eu caísse a cada poucos segundos. Apesar disso, tentei correr mais rápido, mas isso pareceu apenas me deixar mais devagar. Pude sentir, quem quer que fosse, chegando cada vez mais perto; sua mão gelada roçando em meu braço.
Gelada.
Como se uma lâmpada acendesse em minha mente, eu imediatamente soube o que estava me perseguindo. Só havia um tipo de ser que podia ser tão frio, mas a pergunta era: quem?
Desisti de correr, sabendo que não iria adiantar em nada. Minhas mãos já estavam completamente raladas; ardiam e sangravam. Correr era inútil.
Girei em meus calcanhares novamente, até escutar uma leve risada atrás de mim, que eu reconheci imediatamente.
Ver Victoria tão perto, fez meu corpo congelar novamente. O que estaria ela fazendo ali? Ela não fazia parte daquele sonho; havia se tornado uma preocupação para mim apenas alguns meses depois.
Aquele pesadelo estava todo errado.
“Você realmente consegue fazer a caçada muito mais divertida.” Sua voz fria soou alta, no silêncio da noite.
Sua mão fria entrou em contato com o meu pescoço, e ela me atirou para o lado sem nenhum esforço. Senti meus punhos protestarem, ao segurarem todo o peso de minha queda.
Victoria sorria.
“Você vem dificultando tanto as coisas para mim.” Ela reclamou. Sua voz suave e macia parecia envolver meu corpo, me impedindo de me mover. “Sempre rodeada por aqueles cachorros imbecis.”
Tentei me arrastar para trás, mas ela me seguiu, pisando em meu calcanhar para me impedir de me mover.
Imediatamente, lembranças de Phoenix, onde James fez exatamente a mesma coisa, invadiram minha mente. A dor foi instantânea, e o grito que, finalmente, saiu de minha garganta, também. Não era possível que aquilo fosse apenas um pesadelo. A dor era tão real!
Seu sorriso pareceu triplicar de tamanho. Ela se divertia.
“Estive esperando tanto tempo por isso.” Informou, quando finalmente tirou seu pé de cima do meu. “Depois de tanta expectativa, não podemos deixar que o show acabe tão rápido, não é?”
Ela se abaixou e pressionou as duas mãos para baixo, uma em cada uma de minhas coxas, até que dois estalos altos se fizeram presentes, e a dor, novamente, me atingiu, tirando um outro grito agudo da minha garganta. .
“Claro, que não podemos desperdiçar nenhuma gota do seu sangue.” Afirmou, levantando e andando ao meu redor, enquanto eu tentava controlar meus soluços. “Afinal, ele é tão precioso, que foi a causa da morte de James.”
Ela sorriu maliciosamente, enquanto colocava o pé sobre meu torso.
“Pode deixar que eu vou aproveitar cada gotinha, e sua morte não terá sido em vão.”
Ela me encarou por um momento, antes de pressionar seu pé contra meu estômago. Minha cabeça girou, e ouvi gritos soarem pela floresta, tão desesperados e loucos que fizeram meu sangue gelar novamente.
Apenas quando os gritos cessaram, percebi que quem gritava era eu.
A dor dos soluços profundos foi o que me acordou. Lágrimas desciam pelo meu rosto copiosamente; o oxigênio parecia não conseguir entrar em meus pulmões; Minhas mãos tremiam sem parar.
Senti braços pesarem ao meu redor, reconfortantes e protetores, e imediatamente soube de quem eram.
Me deixei ser abraçada por Charlie, que apenas afirmava, constantemente, que eu estava segura. Apoiei minha testa em seu ombro, tentando, por vários minutos, recuperar o fôlego e parar de chorar.
“Um dia.” Ele suspirou profundamente, enquanto ainda me abraçava. “Um dia foi o que bastou para você voltar a ter pesadelos.” Charlie murmurou, mais para ele mesmo do que para mim.
Minha mente ainda estava grogue, enquanto eu me recuperava da minha crise, mas consegui focar o suficiente para entender do que ele estava falando. Imaginei que não demoraria muito para Charlie descobrir sobre a volta dos Cullen, isso se já não soubesse há algum tempo.
Ele ficou comigo por um longo momento, apenas passando a mão em minhas costas, até que eu, finalmente, voltei a respirar normalmente.
Quando se levantou para deixar meu quarto, depois de eu garantir várias vezes que ficaria bem, parou por um segundo ao lado do batente da porta, me olhando atentamente, antes de fechá-la atrás de si.
Assim que a porta fechou, meu corpo voltou a tremer. Desejei não estar sozinha no escuro, pois o pesadelo ainda estava fresco em minha mente. Ainda assim, não consegui formar palavras para pedi-lo para ficar. Paralisada, fiquei deitada embaixo das cobertas, com os olhos presos no teto do quarto.
Um ruído estranho soou, e me perguntei se tinha caído no sono novamente; se estava de volta ao pesadelo. Não, eu tinha certeza que estava acordada, dessa vez. Sentei-me na minha cama, e encarei a escuridão, tentando descobrir de onde o barulho havia vindo.
Um baque surdo sou e eu soube que aquele era o som da minha janela abrindo. Aterrorizada, não me permiti ao menos respirar.
Um braço moreno, que eu reconheci imediatamente, passou por ela, e logo a cabeça seguiu, olhando ansiosamente ao redor do meu quarto. Deixei todo o ar que segurava em meus pulmões sair, chorando de alívio ao ver Jacob.
“Bella.” Sua voz rouca me chamou, ao mesmo tempo que ele se empurrava para dentro do quarto, com facilidade. Levantei imediatamente, e me joguei em sua direção. Uma nova onda de soluços me assolou.
“Jake, e-eu acho que eu estou quebrando de novo.” Solucei, segurando-o com força. “Eu não quero…”
Jacob me abraçou, envolvendo-me em seus braços de tal forma, que não senti mais meus pés tocarem o chão. Ele me carregou até a cama, segurando-me com tanta delicadeza e cuidado, que apenas me permiti chorar.
“Shh… Está tudo bem, você não está mais sozinha. Nada vai acontecer com você, Bells.” Sussurrou, me aninhando e acariciando meus cabelos. “Eu estou aqui.”
Envolvida em seu abraço, e sentindo seu toque quente em minha pele, consegui fazer minha respiração voltar ao normal, novamente. Eu precisava tanto de Jacob naquele momento, e estava tão extremamente grata por tê-lo ali. Me agarrei mais forte a seu torso, querendo ficar ali para sempre; me sentia segura, como se nada pudesse me atingir, como se estar em seus braços fosse o único lugar seguro no mundo.
Jacob estava, mais uma vez, me resgatando de mim mesma. Não havia julgamento em seus olhos. Nunca houve. Ele apenas estava ali por mim, e me aceitava como eu era, mesmo estando praticamente louca e quebrada. Eu sabia que poderia sempre contar com ele. Por mais que brigássemos e quebrássemos nossas promessas, nada nos impedia de voltar para onde estávamos naquele momento: nos braços um do outro.
Aquela foi a maior prova de que Jacob era, e sempre seria, o meu porto seguro.
Depois de alguns minutos naquela posição, quando minhas lágrimas haviam parado de cair e eu já estava mais calma, ele finalmente falou.
“Acho que perdi dez anos da minha vida, esta noite.” Ele sussurrou, com um riso baixo que não parecia achar graça alguma. “Acho que nunca tive tanto medo.”
Confusão passou por um momento, antes que eu entendesse o que ele queria dizer. Eu o havia assustado, e feito-o ir até o meu quarto no meio da noite, porque não conseguia controlar minhas emoções.
“Eu sinto muito, Jake.” Respondi, sentindo meu coração bater forte em meu peito. “Sabia que estava em um pesadelo, mas não conseguia acordar.”
“Você não tem que se desculpar por ter pesadelos, Bella.” Ele garantiu, sua mão acariciando as minhas costas. “Eu estava a apenas alguns metros daqui. E estou feliz por poder estar aqui quando você precisa de mim.”
Inconscientemente, abaixei a cabeça para esconder o meu rosto, mas, apenas por um segundo, antes que ele colocasse dois dedos em meu queixo para que eu olhasse para ele novamente. Ele levantou a sobrancelha, como se me encorajasse a dizer o que estava na minha mente.
“Jake, tudo que fizemos… Tudo o que construímos juntos; o que você me ajudou a entender… parece estar caindo aos pedaços, e eu não sei se tenho forças para segurar tudo junto.” Confessei, sentindo a vergonha me preencher. “Eu estou com tanto medo de voltar a ser como era antes.”
Jacob sustentou meu olhar por alguns segundos e, quando falou, sua voz soou confiante.
“Não tem como você voltar a ser como antes porque, desta vez, eu estou aqui com você. Charlie está aqui e a alcatéia também.” murmurou ele, prendendo nossos olhares. “Você tem muitas pessoas que se importam com você, e nenhum de nós planeja sumir, em momento algum. Iremos te proteger… mesmo que seja de si mesma.”
Um soluço traiçoeiro me chacoalhou. “Mas a Victoria… Eu sonhei que ela tinha…” Eu parei, sentindo meu corpo estremecer.
“Falamos demais sobre ela, hoje. Ela conseguiu entrar na sua cabeça, não foi?” Suspirou, parecendo triste. “Nós temos sete lobos e sete vampiros atrás dela, Bella. Ela não vai chegar perto de você.”
O modo confiante que ele havia dito aquilo fez com que meus nervos se acalmassem. Deixei que sua confiança me dominasse, sem lutar contra, antes de assentir. Eu realmente precisava fazer minha mente entender que os lobos — e agora os Cullen — iriam me proteger. Ainda assim, algo cutucava o fundo da minha mente, me importunando, como uma torneira que não parava de pingar.
Como se pudesse ler meus pensamentos, Jacob continuou, “Eu vou fazer tudo o que eu puder para que você não se sinta infeliz; Vou te mostrar que, enquanto estivermos assim, juntos,” ele me apertou mais forte em seus braços, “nada é impossível de superar.”
“Mas e amanhã?” Perguntei, minha voz tão pequena que eu mesma quase não conseguia ouvi-la. “Amanhã, eu vou precisar ir para escola e… ele vai estar lá.”
Um tremor balançou a cama por um longo momento e eu fiquei quieta, apenas ouvindo a respiração de Jacob acelerar por alguns instantes, antes dele voltar a se acalmar. Sua reação me fez me sentir a maior idiota do mundo, desejando não ter falado nada, ainda mais quando eu tinha consciencia do quão inseguro ele se sentia também.
A verdade era que nós dois estávamos no mesmo barco. Um tentava ser forte para o outro, ser confiante sobre o futuro e todo o resto, quando, na realidade, ambos nos sentíamos do mesmo jeito: aterrorizados.
“Eu também vou estar.” Finalmente disse, e eu o encarei, confusa. Ele acariciou a ruga que provavelmente se formaria entre minhas sobrancelhas. “Eu posso não ser permitido dentro da escola, mas nada me impede de ficar do lado de fora.”
“Jacob!” Exclamei, me afastando. Seu rosto parecia brincalhão, e ele sorria, mas eu sabia o que ele escondia debaixo daquela máscara. “Não, eu não posso deixar você fazer isso! Só de pensar que você está… está gastando o seu tempo, apenas porque eu sou uma covarde-”
Seu dedo parou em meus lábios, me impedindo de continuar.
“Psiu, pode parar por ai!” Seu tom era ainda brincalhão. “Honestamente, Bells… você é muito tonta se acha que eu a deixaria entrar no mesmo lugar que ele, sem ter certeza de que poderia… cuidar da situação, caso algo acontecesse.”
Senti meu corpo estremecer, perturbada com o modo como as suas últimas palavras eram carregadas de ódio. Eu não podia culpá-lo por se sentir daquele jeito, mas, ao mesmo tempo, eu não gostava daquilo.
“Eu não quero que você se meta em problemas por minha causa, Jake.” Fui honesta e ele apenas sorriu em minha direção, arrumando alguns fios de cabelos que caíram em meu rosto.
“Não há outro tipo de problema que eu queria me meter.” Retrucou baixinho, apenas para, alguns momentos depois, soltar uma risada baixa, provavelmente da cara que eu tinha feito. “Não se preocupe, eu apenas troquei as minhas rondas com Embry. Eu quero estar por perto quando você estiver por lá, só por precaução.”
Eu o analisei, tentando ver sob a máscara relaxada que ele continuou a usar. Não havia dúvidas que era mais do que uma simples troca de lugares. Não havia mundo onde, passar o dia perto de Edward, era considerado “okay” para ele.
Mas Jake não disse mais nada.
Ele estava, mais uma vez, tentando ser forte; estava tentando me confortar, mesmo que nós dois estivéssemos no mesmo barco.
Deixei minha cabeça cair em seu peito novamente, abraçando-o com força, prometendo para mim mesma que, apenas daquela vez, eu fingiria que acreditava nele.
Jacob começou a acariciar meu cabelo e, logo, me senti sendo puxada para a inconsciência novamente. Desta vez, consegui dormir a noite inteira, sentindo o calor de seu corpo contra o meu, e seus braços ao meu redor, me protegendo.
Charlie não parecia muito mais animado para o dia do que eu, quando apareci na porta da cozinha, pela manhã. Ele tinha a testa franzida, e me senti horrível por saber que a preocupação que ele sentia era por minha causa.
Eu queria pedir desculpas por tê-lo acordado, na noite anterior; por fazê-lo se preocupar novamente, mas não achei as palavras no momento, dominada pela vergonha de ter, mais uma vez, escorregado para o buraco que jurei para mim mesma nunca mais cair.
Era estranho. Eu havia passado por aquela situação antes, e pensei que, se acontecesse novamente, seria mais fácil de sair dela, mas percebi como estava errada. Charlie me observou, receoso, enquanto eu preparava algo para o café da manhã, assim como fez nos meses em que estive ‘fora de mim’.
Eu precisava dizer algo para ele.
“O-Obrigada por me acordar, pai.” Gaguejei, juntando alguma coragem dentro de mim. Charlie pareceu ser pego de surpresa. “Eu não sei o que eu faria se você não estivesse lá.”
“Você não tem que agradecer, Bells.” Respondeu, parecendo sem jeito. “Mas não posso dizer que não estou preocupado. Por mais que Carlisle tenha garantido que Edward não será um problema, eu não gosto dessa situação.”
Minha cabeça se levantou, rapidamente, e eu o encarei.
“Você falou com Carlisle?”
Ele assentiu, tomando um longo gole de café.
“Sim. Pode-se dizer que tivemos uma… conversa, quando soube que eles voltariam.”
“Oh, pai.” Eu não sabia se me sentia grata ou envergonhada.
“Eu me preocupo com você. Não quero que passe por aquilo de novo. Não quero nem que ele pense em chegar perto de você.” Seu olhar era sério e eu sabia que ele estava sendo honesto, mas não pude deixar de pensar em como, em poucos minutos, mesmo que Charlie quisesse Edward longe de mim, eu logo o veria na escola.
Charlie pareceu estar na mesma linha de raciocínio que eu, pois acrescentou: “Talvez você devesse ficar o resto da semana em casa. Descansar por um tempo antes de voltar para escola.”
“Pai, eu não posso ficar fugindo para sempre.” Respondi, olhando para o meu cereal, sem qualquer vontade de comê-lo. “É uma cidade pequena. Uma hora ou outra, vou esbarrar nele."
Charlie pareceu não gostar daquela informação tanto quanto eu.
“Não sei, Bella. Ontem a noite…” Sua voz morreu, quase como se ele tivesse medo até mesmo de mencionar o que aconteceu. Eu ofereci um sorriso para ele.
“Eu preciso enfrentar isso, pai.” Afirmei, tentando soar tão confiante quanto Jacob na noite passada. “Dessa vez vai ser diferente. Eu não estou sozinha.”
Senti minhas bochechas esquentarem, e desviei o olhar, percebendo o duplo sentido que aquela frase podia ter, e torcendo para Charlie não ter percebido.
Mas era verdade. Eu ainda podia sentir o calor dos braços de Jake ao meu redor. Parecia estar gravado em minha pele, e eu me sentia segura mesmo sem ele por perto.
Charlie pigarreou, me tirando dos meus pensamentos.
“Você e Jacob, então…?” Falou, deixando uma pergunta no ar, e eu quis me esconder em um buraco. Aquela não era a conversa que eu tinha imaginado ter logo cedo.
Eu apenas assenti para Charlie, me levantando de súbito da mesa, levando a louça para a pia e decidindo que eu a lavaria quando chegasse em casa. Tudo o que eu queria fazer era sair dali o mais rápido possível.
“Oh! Que bom, filha.” Ele respondeu às minhas costas, sem disfarçar o seu contentamento. Que tipo de pai era aquele que parecia tão grato por sua filha ter um namorado? “Estou muito feliz por você, de verdade. Jacob é um bom garoto”
“Obrigada, pai. Estou saindo.” Anunciei, quase correndo para a porta. Charlie se despediu com um “Tome cuidado” e eu escapei de suas perguntas, que pareciam quase incessantes, naquela manhã fria.
Me perguntei o que havia acontecido com o Charlie de antigamente, que era tão taciturno e quieto. Eu podia até visualizar a sua próxima conversa com Billy sobre aquilo. Os dois iriam fofocar por horas, como duas velhas aposentadas.
Sentada em minha caminhonete, no estacionamento de Forks High, encarei o carro prata estacionado do outro lado, como se ele fosse desaparecer se eu o fuzilasse por tempo suficiente. Eu não estava preparada para enfrentar aquela dia, mesmo tendo dito exatamente o oposto para Charlie, apenas alguns minutos antes.
Qualquer coragem que as palavras de Jacob tinham me dado na noite anterior, havia desaparecido naquele momento, sentada ali, sozinha. Pelo menos o pensamento de que Jacob estava por perto, em algum lugar entre as árvores, me confortava. Mesmo assim, só consegui me forçar a sair do carro quando percebi que o sinal estava prestes a tocar, e que eu chegaria atrasada para a aula, caso não me apressasse.
Meus maiores medos se confirmaram quando, sendo a última a entrar na sala, no mesmo momento que o segundo sinal tocou, encontrei Edward sentado na mesa ao lado da minha.
Eu não consegui me mover. Seus olhos dourados estavam cravados em mim, entrando na minha alma e me pregando ao chão. Pisquei fortemente, quebrando o contato, quando o professor pediu para que eu me sentasse.
Lutando contra as minhas próprias pernas e forçando-as a andar, segui em sua direção, e me sentei em meu lugar habitual. Por conta do meu estado “zumbi” nos meses anteriores, a maioria das pessoas não ousava tomar o lugar que Edward deixou vazio quando foi embora, então não era exatamente surpresa vê-lo ali, já que era o único lugar vago na sala. Ainda assim, eu não conseguia acreditar em meu azar.
Joguei meu cabelo para o lado, usando-o como uma cortina, bloqueando minha visão, e me impedindo de vê-lo. Xinguei mentalmente quando, enquanto esperávamos o professor começar a aula, vi algumas garotas nos observarem, como urubus ao redor de carniça.
Repeti mentalmente o que eu havia dito para Charlie, mais cedo. Não adiantava ficar fugindo. Uma hora ou outra, nós iríamos nos esbarrar, ainda mais estando no mesmo ano escolar.
Ele quis voltar para Forks e ajudar com na captura de Victoria porque se sentia culpado; Isso era óbvio, e bem fácil de entender. Mas para quê voltar à escola? Não era como se ele precisasse estar ali! Os lobos vinham me protegendo há muito tempo. Edward não precisava se forçar a olhar para minha cara todo dia, assim como não precisava me forçar a olhar para ele.
Aquele vazio em meu peito, que, apesar de ser conhecido, era apenas uma fração do que um dia já foi, surgiu novamente, enquanto eu lembrava da expressão impassível e tranquila em seu rosto, quando disse ‘Eu não te quero’, naquele dia.
Me puxei para fora do buraco negro em que minhas memórias estavam guardadas, e me forcei a prestar atenção nas palavras do professor. Eu só precisava aguentar uma hora. Sim, eu podia fingir que ele não estava ali por apenas uma hora, até a aula acabar.
Tentei me convencer disso, até notar que, na aula seguinte, ele também estava lá. Tinha o mesmo olhar calmo e angelical em seu rosto. Seus olhos de ouro derretido me observavam, e ele exibia um sorriso que, se eu fosse a Bella do passado, teria me derretido em um instante.
Deixei meu corpo cair na cadeira. Minha ficha, caindo junto.
Eu teria a maioria das minhas aulas com ele, assim como em setembro do ano passado, antes dele ir embora. Ele tinha voltado para as suas aulas antigas! Nós passariamos a maior parte do tempo juntos!
Seria aquele algum tipo de castigo? Teria eu sido uma pessoa ruim na minha vida passada?
No almoço, Edward sumiu, e eu encontrei Alice esperando por mim com um sorriso de orelha a orelha. Eu tentava ignorar as fofocas e olhares curiosos sobre nós, quando seus braços se envolveram ao meu redor em um abraço, tão rápido, que quase não tive tempo de retribuir. Quando ela se afastou, percebi que seu nariz estava retorcido, e eu quase revirei os olhos para sua careta.
Cheirar mal agora seria uma rotina para mim?
“Bella! É tão bom te ver! Da última vez, não tivemos a oportunidade de conversar direito!” Ela exclamou, seu braço enganchando ao meu, arrastando-me para uma das mesas do refeitório.
“Oi Alice.” Respondi. Apesar de estar feliz em vê-la novamente, não consegui demonstrar o mesmo entusiasmo que ela; Aquela manhã havia drenado, completamente, minhas energias. “Como você está?”
“Ótima! Bom, na maior parte, pelo menos. Tenho tido tantas coisas a fazer nos últimos dias. Sempre que termino de resolver uma, outra aparece.” Reclamou, e eu a deixei me puxar para sentar. “Só de pensar na pilha de papéis que tenho de preencher para a faculdade quando chegar em casa…”
“Faculdade?” Perguntei, confusa. Essa era a preocupação dela? E eu começando a me preocupar por estar dando muito trabalho a ela, com aquela história da Victoria… Balancei a cabeça, sem acreditar que aquele era o motivo da sua reclamação.
“Mas é claro! Com a mudança para Forks, tive que aplicar para outras faculdades, de última hora. Ainda há algumas aceitando novas inscrições.” Alice sorriu docemente para mim. “E você? Qual você acabou escolhendo?”
Minha mente ficou em branco, perdida por um momento enquanto eu olhava para o seu rosto angelical. Honestamente, com a cabeça tão ocupada com Victória e, antes disso, com meu estado mental, escolher uma faculdade não passou pela minha mente. Mesmo que tivesse passado, estava longe de ser prioridade.
Quando abri a boca para respondê-la, Angela chegou, hesitante, como se não tivesse certeza se poderia estar ali, e parou ao meu lado.
“Ei Bella! Não nos falamos essa manhã…” Ela mordeu o lábio inferior, e eu tentei sorrir para ela, encorajado-a.
“É, eu cheguei em cima da hora. Não vai se sentar?” Perguntei, indicando a cadeira ao meu lado, e Angela olhou para Alice por um momento, em dúvida. Eu não cheguei a ver o que Alice fez, mas ajudou, pois Angela relaxou visivelmente, antes de tomar seu assento.
“Que bom que você chegou, Angela. Estávamos conversando sobre nossos planos para a faculdade.” Alice iniciou, ignorando completamente o clima estranho que se instalou na mesa. “Você já sabe para onde vai?”
Angela pareceu pega de surpresa com a pergunta.
“Ah, sim, eu fui aceita em algumas.” Respondeu ela, “Mas… Bella, eu pensei que você não fosse para a faculdade no semestre que vem.”
Eu suspirei internamente, desejando que Angela não tivesse falado nada.
“Como assim não vai para a faculdade?!” Questionou Alice, surpresa. “Pensei que estivesse animada para sair de Forks?!”
“Bom… tudo mudou bastante nos últimos meses, e eu pensei em tirar um semestre para colocar as coisas em ordem por aqui, antes de decidir para qual faculdade ir.” Dei de ombros.
Alice ficou em silêncio por um momento, como se a notícia tivesse realmente deixado-a chocada. Ela não falou sobre faculdade de novo, durante o almoço. Angela, como sempre, se saiu muito bem lendo o ambiente, e mudou o assunto rapidamente, assim que percebeu que ambas estávamos desconfortáveis.
Alguns minutos depois, Ben — namorado de Angela — chegou, e contou, em detalhes, sobre uma gosma nojenta que seu grupo foi capaz de criar na aula de química, e como o professor ordenou que todos tomassem um banho no vestiário, antes de irem para o almoço.
Para meu alívio, Edward não apareceu em nenhum momento. Ver que ele não estava ali, me deu até um ânimo para participar de todas as conversas loucas que Angela e Ben começavam. Surpreendentemente, Alice não falou muito durante o almoço inteiro, me fazendo questionar se ela tinha ficado, de alguma forma, chateada. Quando eu pensei sobre isso, porém, não consegui achar um motivo para que ela ficasse chateada por eu tirar um tempo antes de decidir o que queria fazer com a minha vida.
Quando o sinal tocou, Angela levantou prontamente, sorrindo, enquanto me esperava fazer o mesmo. Nos despedimos de Alice, e seguimos em direção à próxima aula, que tínhamos juntas. Eu sabia que aquela seria mais uma aula com ele, e, eu não tinha certeza se teria energia o suficiente para enfrentar mais uma hora daquela tortura. Olhando para Angela, que andava ao meu lado, por um momento, uma ideia passou pela minha cabeça.
“Angela, posso te pedir um favor gigantesco?” Perguntei, mordiscando a parte interna da minha boca. Ela me olhou curiosa. “Você poderia, por favor, trocar de lugar comigo?”
“Trocar de lugar?” Perguntou, confusa, por alguns segundos. “Claro, mas por que?”
Nós chegamos em frente à porta da sala de aula, naquele momento, parando por alguns segundos, enquanto ela analisava o ambiente. Vi quando seus olhos encontraram Edward, que sentava na mesa ao lado da minha — de novo -, lendo um livro qualquer, e seu rosto se iluminou em entendimento.
“Oh.” Foi tudo que ela disse e eu assenti, sem tirar o sorriso cansado do meu rosto. Sim, exatamente. Aquele era, oficialmente, o dia mais longo da história.
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