Full Moon
45 Morte
Notas iniciais

"I can't bring myself to regret the decisions that brought me face to face with death."
— Bella Swan
Meus olhos abriram sem que eu tivesse ao menos percebido que os havia fechado. Vozes vindas de algum outro comodo me chamaram a atenção, mas não consegui me concentrar o suficiente para distinguir o que diziam.
Todos os meus sentidos pareciam perdidos em meio a alguma espécie de névoa, que me deixava confusa e não me permitia focar em nada individualmente.
Nada, a não ser a dor incômoda que parecia irradiar por todo o corpo.
Todos os meus músculos doíam como se tivesse sido atropelada por um ônibus. Não pude deixar de me perguntar há quantas semanas estava desacordada para conseguir me mover tão facilmente. Eu havia, afinal, sido arremessada contra uma árvore, e tinha certeza que Victoria havia me machucado o suficiente para me deixar em uma cama de hospital por meses. Naquele momento, entretanto, tirando a sensibilidade em meus músculos, e a boca seca como se tivesse passado meses no deserto, não sentia nenhum outro desconforto.
Bom, pelo menos não sentia como se alguma parte de mim estivesse realmente quebrada, e, acredite, aquela era uma sensação que eu conhecia muito bem.
Fechei os olhos e respirei fundo; quando os abri novamente, finalmente consegui focar o suficiente em meus arredores para perceber onde estava.
O pequeno quarto de Jacob Black nunca havia me parecido tão acolhedor. Sua pequena cama, na qual tínhamos que nos espremer ao deitarmos juntos, nunca me pareceu tão confortável. Ali, deitada em seu espaço, e abraçada pelo conforto, comecei a me lembrar de tudo que havia ocorrido em meu sonho. Se é que poderia chamar aquilo de sonho.
Eu morri.
Simples assim. Havia sentido o meu corpo desligar completamente, enquanto a sensação sufocante de perder a consciência ao dar meu último suspiro, me tomava. A única razão para não ter continuado morta era porque havia — em outra vida, assim como nessa — me sacrificado para salvar alguém da tribo.
Um calafrio desceu por minha espinha ao lembrar daquilo. Eu sabia que aquela sensação horrível estaria para sempre gravada profundamente na minha mente, mas eu passaria por tudo novamente, se pudesse salvar a vida de algum deles.
Me senti tonta por um momento, tentando assimilar tudo.
Eu havia vivido outra vida há muito tempo. Era estranho pensar que fora outro alguém; crescido em outra família, com outros amigos e outro amor. Nunca havia pensado muito sobre a morte, e o que havia após ela, mas reencarnação não era uma das primeiras coisas que vinha em minha mente quando se tratava do assunto.
Além de tudo isso, havia sido o imprinting de Taha Aki.
Será que aquele era o motivo de, nessa vida, eu não ser o imprinting de Jacob? Eu o amava desesperadamente, como imaginava que um imprinting amaria, e, sem dúvidas, havia uma conexão muito mais forte do que apenas um amor convencional entre nós. Ainda assim, a magia parecia diferente da que ligava o lobo e sua imprintee.
Chacoalhei a cabeça, tentando tirar aquele pensamento de minha mente. A última coisa de que precisava era começar a — novamente — ficar paranóica com pensamentos de imprinting.
Eu não podia dizer que lembrava de algo sobre ser um imprinting, além do que havia visto naquela clareira. Senti meu coração se apertar pelo homem chorando ao lado do corpo da terceira esposa, mas não consegui sentir nada além de empatia por ele. Aquela era outra vida, outra pessoa, e, apesar de ter sido ela em espírito, eu não sentia qualquer conexão com o homem que naquela vida ela amou.
A cada segundo pensando sobre aquilo, mais eu percebia que minha outra vida realmente não importava. Ela havia feito suas escolhas e amado quem havia sido destinado para ela naquele momento. Eu só desejava focar em meu destino com Jacob, e em estar com ele pelo resto dos meus dias.
Poderia até morrer novamente, se significasse salvá-lo de qualquer mal que pudesse ocorrer à ele.
Afinal, eu escolhi voltar. Voltar para Jacob, para Charlie e para os lobos. O ancião mesmo disse que a escolha era minha, assim como havia sido na vida passada, onde escolhi seguir meus filhos para a morte. Nesta, entretanto, escolhi voltar para casa e cumprir com o chamado da Luna.
O Primeiro Quileute havia recebido meu sacrifício, e me designado meu papel no bando, e parecia ter certeza de que não seria em vão. Ele pareceu confiar cegamente em mim, como se eu realmente pudesse fazer o trabalho de uma Luna, e aquilo fez meu corpo ser tomado por um sentimento profundo de orgulho. Era como se eu finalmente tivesse encontrado meu propósito.
Sorri para mim mesma com esse pensamento. Agora que havia voltado, eu faria de tudo para manter o bando unido, e o mais seguro possível. Assim que conseguisse tomar um relaxante muscular, é claro.
Levantei o tronco para me sentar lentamente, com medo de sentir tontura, entretanto, o movimento foi mais fácil e simples do que previ. Era como se não fosse necessário qualquer esforço. Em um segundo, eu já estava sentada, e me perfeitamente bem. Claro, o incômodo ainda estava lá, mas a sensação de músculos rígidos que previ vir com ela, não ocorreu.
Era como se estivesse em um corpo novo, recém saído da fábrica. Me levantei normalmente, confusa com a facilidade que senti para me mexer. Sempre fui assim tão ágil? O quarto de Jacob sempre foi assim tão claro? Não que estivesse reclamando, mas, definitivamente era uma surpresa acordar da morte me sentindo melhor do que antes dela.
Saí do quarto, rindo de meus pensamentos absurdos, e louca por um copo d’água.
Assim que abri a porta, a confusão de vozes que soava detrás dela parou totalmente. Devido a tanto barulho, imaginei que haveriam muitas pessoas na pequena sala de estar dos Black, porém, apenas Jake, Billy, Quil e Embry estavam presentes. Isso evitou o sentimento de vergonha que eu provavelmente iria sentir tendo todos olhando pra mim ao mesmo tempo.
A cena em minha frente não poderia ser mais diferente do que eu havia imaginado.
Quil tinha o queixo caído, me dando uma visão perturbadora do que quer que estivesse comendo antes de eu abrir a porta; Embry estava em choque; seu rosto branco, como se estivesse vendo um fantasma; e Jacob… bom, seu rosto molhado por lágrimas me fitava com incredulidade, quase como se eu fosse fruto de sua imaginação. Até mesmo Billy, sempre tão controlado, me encarava como se tivesse crescido uma segunda cabeça.
Nós cinco ficamos parados no lugar por vários minutos, todos parecendo tentar absorver a situação. Depois de um tempo, entretanto, meu desconforto deve ter acordado Billy de seu estupor, pois, sendo o que estava mais próximo de mim, empurrou sua cadeira até que estivesse diretamente à minha frente, e pegou a minha mão.
“Bella…”
“Oi, Billy.” Sorri, enquanto todos continuavam a me encarar. “O que eu perdi?”
“Você… Você morreu.”
“Ah, sim, isso eu sei. Quis dizer depois. O que aconteceu com Victória?”
“Ela se foi.” garantiu Billy. Os outros três pareciam ainda não ter recuperado a voz. “Mas, Bella, como… Você está bem.”
Aquela não era uma pergunta. Assim como eu, ele parecia extremamente confuso com o fato de, bom, eu conseguir me levantar.
“Eu também não entendo.” expliquei. “Imaginei que nem conseguiria me mover, mas… estou bem.” Virando para os demais, acrescentei: “Vocês podem parar de me encarar como se estivessem vendo um fantasma.”
“Um fantasma, não, um zumbi.” esclareceu Quil, voltando a mastigar normalmente. “Caso não tenha notado, tem mais sangue sobre você do que nos bancos de doação da América toda, somados.”
Eu o olhei, confusa, até baixar o olhar para minhas roupas e notar o sangue seco que as cobria. Girei nos calcanhares, pronta para correr para o banheiro e me limpar, mas um par de braços quentes, que eu sabia serem de Jacob, me envolveram por trás, impedindo que eu escapasse.
Quando me virei, meus olhos foram, imediatamente, atraídos para os seus, que ainda pareciam desacreditar que eu estava realmente ali.
“Bells.” Ele sussurrou, sua voz grossa falhando enquanto se embargava com o choro. “Bells…”
Ele me tirou do chão. Seus braços me apertaram em um abraço apertado, como se quisesse fundir nossos corpos em um. Seu rosto se escondeu em meu pescoço, e eu pude apenas ouvir, enquanto aquele homem enorme soluçava em meus braços, como uma criança.
Eu o envolvi, passando os dedos pelas mechas escuras de seu cabelo, tentando acalmá-lo, enquanto sentia meus próprios olhos encherem de lágrimas. Por um momento — por mais curto que tenha sido — ele havia realmente me perdido. Eu teria partido deste mundo, e ele teria ficado para trás…
“É você mesmo. Você está aqui comigo.” murmurou, agarrando-se as minhas roupas, e me apertando como se quisesse sentir que aquilo era real. “Seu coração está batendo.”
“Apenas por você, meu amor”. Sussurrei em seu ouvido, e depositando um beijo longo em seu cenho, apenas para sentir seus dedos apertarem ao redor de minhas roupas ainda mais, como se não quisesse mais soltar.
“Achei que tinha te perdido para sempre. Achei que teria de viver em um mundo sem você.” Ele fungou, afastando o rosto para poder me olhar. “Você tem noção do mar de dor em que me deixou?”
As lágrimas em seus olhos negros fizeram meu coração se torcer no peito.“Me perdoa, meu amor. Eu nunca quis te machucar.”
Ele me apertou mais uma vez em seus braços por um longo momento, ainda fungando em lágrimas, e eu o abracei de volta, acariciando seus cabelos e suas costas, tentando imaginar o que devia ter sentido enquanto eu estava apagada.
“Por quanto tempo eu…”
“Tempo demais.” Jacob me cortou, me abraçando um pouco mais, mas logo se afastando novamente para olhar em meus olhos. “Eu não sei o que aconteceu, mas sou grato por estar viva novamente, respirando, com o coração batendo, e em meus braços.”
“E vou estar pelo resto da vida, Jake.” Sorri, acariciando o seu rosto, limpando o resto de lágrimas de seus olhos. “Mas, antes disso, eu realmente preciso de um banho. Um copo de água também não cairia mal.”
Um copo de água, um banho quente, e uma camiseta emprestada de Jacob depois, fui colocada no sofá como se fosse de porcelana. Nenhum deles acreditava que eu estava realmente bem, apesar de ter estado morta poucas horas antes, e ter tossido meio litro de sangue poucos minutos antes daquele único copo d’água.
Embry puxou o meu braço, procurando pelo corte que eu havia feito ali, anteriormente. “Como isso é possível?” exclamou, enquanto o girava de um lado para o outro, buscando qualquer resquício de que eu estava machucada.
Quil estava de pé, no canto da sala, de braços cruzados, emburrado, me encarando, como se ainda não acreditasse que eu estivesse viva. Talvez achasse que eu fosse começar a caçar por cérebros para me alimentar, a qualquer momento.
“Então o que? Devemos começar a chamá-la de Jesus, ou algo assim?” Perguntou, em um tom mais ácido do que eu esperava.
Jacob lançou a ele um olhar pesado, mas não parecia surpreso com a atitude do amigo. Estranhei; Quil nunca havia sido menos que gentil comigo.
“Longe de mim!” Eu ri, tentando aliviar o clima. “Mas agora vocês não podem mais dizer que são os únicos protetores de La Push.”
Aquilo pareceu desarmar sua carranca, e Billy, que até então apenas assistia tudo quieto de sua cadeira, praticamente pareceu querer levantar dela para ouvir o que eu tinha pra contar.
Explicar o que aconteceu foi mais fácil do que pensei que seria. Enquanto falava, percebi quão difícil seria acreditar que algo daquela proporção tivesse acontecido nos poucos minutos em que havia estado morta, mas, àquela altura do campeonato, todos eles já haviam visto coisas sobrenaturais o suficiente para não duvidarem da minha história.
“Luna? Isso significa que você vai se transformar em lobo também?!” Exclamou Embry, de repente, muito empolgado. “Meu Deus, você vai finalmente conseguir ouvir as coisas pervertidas que o Jacob pensa durante a patrulha!”
“Cala a boca, imbecil! Não penso em nada pervertidas, não.” exclamou Jacob, que estava sentado ao meu lado. Suas bochechas assumiram um tom avermelhado adorável, e eu não pude deixar de corar, também, tendo seu pai presente na sala. Tenho certeza que teria batido no amigo, se eu não estivesse no caminho.
“Não acho que eu seja tão especial a esse ponto, Embry.” Ignorei o seu comentário. “Para falar a verdade, não tenho certeza de que consiga fazer algo diferente, mas, mesmo que consiga, não acho que seja virar um lobo.”
“Nós temos lendas sobre a Luna, mas são tão antigas que nem mesmo eu lembro muito bem sobre elas.” Comentou Billy, com o olhar distante. “Talvez o velho Quil tenha uma memória melhor do que eu.”
“Podemos fazer uma reunião com todos os anciões para descobrir mais sobre isso.” Sugeriu Jacob, “Mas uma coisa é certa, você, com certeza, adquiriu algum tipo de regeneração rápida igual a nossa. Porque de jeito nenhum conseguiria estar andando, se não tivesse.”
Dei de ombros, realmente sem saber. Eu me sentia bem, mas será que aquele negócio de me curar rápido não era apenas passageiro? Talvez funcionasse apenas daquela vez, como um presente dos espíritos para começar a minha ‘jornada como Luna’ estando bem?
Só havia um jeito de descobrir, e eu não estava exatamente muito ansiosa para testar.
“Luna. Quem diria, não é?” Comentou Quil, ainda em seu tom ácido, e eu não aguentei mais.
“Algum problema, Quil?” Perguntei diretamente “Desde que passei por aquela porta, você está com essa cara. E pelo jeito que vem falando, parece até que preferia que eu tivesse continuado morta.”
Embry cobriu a boca e Jacob quase se levantou, como se para confrontar o amigo, mas eu o segurei pelo braço.
“É claro que não!” Respondeu, parecendo mais irritado ainda por eu ter sugerido tal coisa. “Apenas… Cara, você estava morta há não muito tempo! Todos nós estávamos chorando por você.”
“E agora não estou mais. Eu estou bem, Quil, não entendo por que isso é uma coisa ruim.”
“Não é isso que eu quis dizer.” Ele passou a mão pelo rosto, demonstrando extremo cansaço. Percebi, naquele momento, que na verdade, todos eles estavam sujos e cansados. Não fazia muito tempo que estavam cheios de adrenalina, correndo pela floresta, desesperadamente. Não foi uma situação fácil para nenhum deles, e esperar que me recebessem com sorriso nos rostos não era justo de minha parte.
Me levantei e caminhei até onde ele estava, parando à sua frente e segurando sua mão entre as minhas. Quil olhava para baixo, respirando fundo, quase como se lutasse contra uma corrente de lágrimas.
“Me desculpa, Quil. Me desculpa se te machuquei de alguma forma.” Disse, com sinceridade. “Obrigada por ter ido me salvar hoje. Eu acho que devo um pedido de desculpas e um agradecimento a todos vocês, por terem feito de tudo para me ajudar.”
Ele apertou a minha mão de volta, sem me olhar, em silêncio, e eu soube pelo jeito que seus ombros perderam a tensão aos poucos, que ele já não estava mais tão mau humorado.
“Mas que porra…” A voz de Sam veio da porta da frente, que eu nem tinha notado ter sido aberta. “Bella? Como raios você está de pé?!”
Eu sorri amarelo, percebendo agora que o Quil não seria o único que poderia ter uma reação difícil ao fato de eu ter voltado a vida tão facilmente. Havia ainda um bando inteiro para o qual eu teria de repetir minhas explicações.
“Sam, você não vai acreditar!” Exclamou o Embry, pulando para o seu lado e apontando para mim “A Bella agora é um transmorfo!”
“Não sou não!”
“Quando você vai parar de falar merda, Embry?” Perguntou Jacob, já se levantando do sofá para ficar ao meu lado.
“Como está com os Cullen?” Billy perguntou, se juntando ao grupo e eu o olhei confusa.
“Os Cullen?” Perguntei, olhando para eles. “O que eles têm a ver?”
Todos os quatro olharam acusadoramente em direção à Jacob, que coçava o pescoço com um sorriso amarelo estampado no rosto. “Eu meio que… comecei uma guerra com eles?”
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