Full Moon
10 Fofoca do Dia
Notas iniciais
“Speak of the devil, and the devil shall appear. ”
― New Moon

“Alice?” Foi o que saiu da minha garganta, e eu tive que esperar um segundo para processar o que estava acontecendo. Minha mão agarrou o braço de Alice com força.
Aquilo não fazia parte do combinado, fazia? Bom, parando pra pensar, eu nem sabia qual era o combinado, já que havia me recusado a ouvir a conversa de Jacob e Sam com Alice e Carlisle no outro dia. Imaginei que apenas os dois iriam voltar!
Será que Jacob sabia sobre isso? Que os Cullens estavam de volta à escola? Que ele estava de volta? Não! Não era possível que Jake tivesse concordado com algo assim.
Eu me senti hiperventilar.
A imagem de Edward sentado à mesa, mexendo distraidamente na comida em sua frente, queimou em meus olhos. Ele observava cada movimento que eu fazia, e pareceu relaxar visivelmente quando encarou o meu rosto.
Parecendo notar minha respiração falha, Alice disse algo que eu não consegui escutar, apoiando a maior parte do meu peso, ajudando a sustentar meu corpo subitamente mole, e tentou me guiar para a mesa e me sentar. Quando notei que ela me levava para perto dele, despertei de meu transe com um baque, como se estivesse caindo, depois de flutuar por muito tempo.
“Uh, não... Eu tenho que...”
“Bella! Aí está você!” Escutei Angela chamar atrás de mim. “Desculpa, o professor me segurou. Venha, vamos sentar. Eu fiquei de te contar o que os gêmeos fizeram com o tapete branco do quarto dos meus pais.”
Angela me segurou pela mão e, antes de me arrastar para sua mesa rotineira, se dirigiu a Alice. “Oi Alice. Quanto tempo.”
Alice acenou de volta, com um pequeno sorriso no rosto.
Quase entorpecida, me deixei ser levada por Angela e nós nos sentamos a algumas mesas de distância, em completo silêncio, por alguns minutos. Eu podia ouvir pessoas fofocando ao meu redor audivelmente, comentando a minha reação ao ver que os Cullens estavam de volta. Eles já não tentavam nem disfarçar.
Eu tinha um milhão de perguntas a fazer para Alice. Por que ela não havia me avisado antes? Ela não sabia o quanto a presença de Edward me afetaria? Charlie havia dito para ela o que aconteceu antes, como ela poderia ter pensado que aquilo seria uma boa ideia?
A não ser… A não ser que ele tivesse intervindo. Aquilo faria mais sentido. Ele sempre fazia de tudo para ter as coisas do seu jeito. Ou talvez, o encontro no refeitório, com Angela ali para me ajudar, tivesse sido a melhor opção entre as visões que Alice tivera. Sinceramente, eu mesma não sabia como eu reagiria se encontrasse Edward sozinha.
“Bella…” Chamou Angela, seu olhar preocupado me despertou dos meus pensamentos. Eu tentei sorrir para ela.
“Está tudo bem, Ange.” Eu disse, balançando a cabeça e tentando voltar ao normal. “O que você ia me contar sobre os gêmeos?"
O rosto preocupado de Angela fez meu coração se aquecer, enquanto ela se esforçava para começar uma conversa em que eu praticamente não precisava dar respostas. Eu me forcei a participar, de qualquer maneira, sabendo que, o que aquelas pessoas queriam era, justamente, uma reação minha, para que pudessem sair por aí falando sobre a minha vida, como se fosse uma nova série de televisão.
Mas, durante o tempo todo que ficamos ali, eu sentia cada musculo do meu corpo tenso. Sentia como se, cada palavra que falavamos estivesse sendo vigiada e eu jurava que podia sentir seus olhos perfurando as minhas costas, um lembrete de que Edward estava aqui.
Edward estava aqui!
Oh, Deus, Edward estava aqui.
Eu não comi, e notei que Angela também não, apesar de ter pego o almoço. Imaginei que, talvez, ela não quisesse me dar tempo o suficiente para pensar, então manteve minha mente ocupada. Quando o sinal para a próxima aula bateu, eu senti nada além de alívio por poder sair dali.
O restante das aulas se passou tão rápido, que eu nem notei. Minha mente revirava, e a imagem de Edward, sentado distraidamente à mesa, repetia incansavelmente em minha mente. Eu não sabia o que sentir; não quando ele parecia estar tão bem, e não ter mudado nada desde a última vez que o vira. Como aquilo era possível?
Vê-lo ali, onde passamos tanto tempo juntos, era como se todos os outros meses desde setembro nem tivessem existido, em primeiro lugar. O mundo parecia estar de volta ao começo, como se eu tivesse, realmente, ficado louca, e todo aquele sofrimento fosse fruto da minha imaginação. Por dentro, eu estava apavorada. Agradeci, mentalmente, por Jasper já ter se formado, e não estar por perto.
Eu não era a mesma Bella de setembro. Ainda assim, não havia como negar que a presença de Edward na escola estava me afetando. Eu estava bem. Estava melhor junto a Jacob, e finalmente seguindo em frente. Por que ele tinha que aparecer pra estragar tudo, justo quando eu finalmente pude dizer que estava feliz?
Eu sentia um bolo em minha garganta se formando, apenas esperando eu estar longe o suficiente para cair em lágrimas.
Saí da última aula aos tropeços. Por mais que estivesse sozinha, meu coração batia forte em meu peito. Os outros alunos, conversando ao meu redor, não passavam de zumbidos em minha mente; eram apenas imagens borradas. A única coisa que eu via claramente era a porta de saída. Eu precisava sair daquele lugar o mais rápido possível.
Quando estava a apenas alguns metros das portas duplas, senti uma mão gelada segurando meu pulso, me impedindo de chegar até o fim do corredor. Um calafrio desceu pela minha espinha, minha respiração se trancou e foi como se gelo enchesse as minhas veias.
Eu me virei, e Edward me guiou até junto dos armários, para que saíssemos do meio do caminho dos demais alunos, que passavam por nós com olhos arregalados, cochichando entre si.
Tentei ignorá-los e focar nele, mas minha mente não parecia estar funcionando direito. O zumbido ficava cada vez mais alto, e minha visão continuava embaçada. Eu não estava bem.
“Bella.” Sua voz aveludada fez cada pelo do meu corpo arrepiar. Fechei os meus olhos, tentando controlar a minha respiração irregular.
“Edward.” Vomitei seu nome, como se estivesse entalado em minha garganta; minha voz quase não passando de um sussurro. “O que está fazendo aqui?”
"Eu-", ele respirou fundo. Sua voz não muito mais alta do que a minha. "Eu te devo desculpas. Não! Eu obviamente lhe devo muito, muito mais do que isso. Mas você precisa saber..." Suas palavras começaram a fluir rapidamente, como sempre acontecia quando ele ficava agitado, e eu tive que me concentrar pra entender todas elas, tamanha a velocidade com que ele falava. “Que eu não fazia ideia. Eu não tinha ideia da confusão que estava deixando pra trás quando deixei Forks. Eu pensei que fosse seguro pra você aqui. Não imaginei que Victoria poderia voltar. Admito que, quando eu a vi, daquela última vez, eu estava prestando mais atenção em James do que nela. Por isso, não imaginei que a conexão deles fosse tão forte, e que ela responderia dessa forma.”
Edward continuou a falar, sem notar que a cada segundo, falava mais e mais rápido, e que minha cabeça girava na mesma velocidade. Suas palavras quase não faziam sentido para mim.
“Não que isso seja uma desculpa para o que eu te fiz enfrentar, é claro.” Ele suspirou. “Quando eu vi o que você disse a Alice — e o que ela mesma viu; quando eu me dei conta de que você teve que colocar a sua vida na mão daqueles… lobos imaturos e voláteis; os únicos que poderiam ser piores do que a própria Victoria, eu... -" ele estremeceu e parou o dilúvio de palavras por um curto segundo.
"Pare.", eu aproveitei a deixa, quase gritando. As pessoas ao nosso redor nos olhavam ainda mais intensamente. “Você não precisa falar mais nada, Edward.”
Seus olhos dourados me sondaram e, pela primeira vez, eu tive coragem de olhar de volta. Meu coração se contorceu em meu peito e eu tentei encontrar o significado por trás do seu olhar angustiado. Aquilo que eu via culpa? Pena? Ele se sentia obrigado a ali?
“Bella, sei que vai ser difícil pra você me perdoar, mas eu vim tentar consertar as coisas, e eu queria que você soubesse disso.”
Encarei Edward por alguns segundos, tentando colocar minha mente no lugar. Meus pulmões tentavam, desesperadamente, absorver oxigênio suficiente, mas não conseguiam. As paredes pareciam estar se fechando ao meu redor, me encurralando, me empurrando para mais perto dele!
“Certo. Eu… Eu tenho que ir.” Dessa vez, não esperei por uma resposta. Apenas virei as costas, e caminhei o mais rápido que pude para longe, para as portas duplas que levavam ao estacionamento do colégio, que me libertariam daquele dia horrível.
Pensei que talvez estivesse sonhando. Talvez os pesadelos estivessem de volta, porque era a primeira vez que eu passava tanto tempo sem o Jake depois de tudo. Rezei para que fosse isso, porque, se fosse um pesadelo, eu precisaria somente acordar.
Mas, eu sabia que não era. Eu sabia, porque eu podia, literalmente, senti-lo me seguindo, poucos metros atrás de mim.
Sem ar. Eu estava sem ar.
Cambaleei pelas portas duplas, grata pelo ar gelado que atingiu minha pele. E aí eu o vi. Parado ao lado da minha caminhonete, com um olhar preocupado e braços cruzados no peito, estava Jacob. Instantaneamente, meu corpo criando vida própria, eu me joguei para frente, praticamente correndo até ele, sem nem me importar se seria atropelada por um dos carros que estavam no estacionamento.
Pela primeira vez desde o funeral, ele estava vestindo roupas completas, uma camisa branca, simples, e calça jeans rasgada, contando até com um par de botas e aquilo, teria me distraído em algum outro momento — até mesmo tendo me feito parar para observa-lo -, mas não agora. Não, agora eu precisava dele. Eu precisava senti-lo.
Quando me lancei em seus braços, foi como se eu entrasse em uma banheira quente depois de um dia longo. Senti o ar que me faltava, finalmente, preenchendo meus pulmões. Foi como se uma lufada de ar finalmente alcançasse os lugares que precisava, rapidamente. Tão rápido, que fiquei ainda mais desnorteada e, não fossem seus braços ao meu redor, eu teria caído de joelhos. Seu cheiro me acalmando e me preenchendo, seu calor me esquentando e meu coração deixando de apertar em meu peito, lentamente. Assim como no dia em que eu havia pulado do penhasco, Jacob trouxe de volta o meu ar.
Seus braços passaram ao meu redor, segurando-me com força, e eu o senti apoiar seu queixo no topo da minha cabeça. Eu me concentrei em respirar seu cheiro amadeirado, tentando fazer os tremores do meu corpo pararem.
Mas, ao mesmo tempo que eu me acalmava, eu pude perceber que Jacob ficava mais e mais nervoso. Seus braços tremiam, pude ver os pelos do seu braço se arrepiando, sabendo muito bem que não era por conta do frio.
Eu me forcei para fora da bolha que criara ao redor de nós.
“Jake,” eu achei minha voz, “Me tira daqui.”
POV Jake
“Eu não gosto disso.” Sam retrucou, pela vigésima vez, e eu me segurei para não revirar os olhos. A volta dos Cullen, e o aumento de rondas em Forks, estavam deixando-o paranóico. Nós havíamos passado a maior parte do dia anterior escolhendo rotas e correndo ao redor de Forks, procurando pontos fracos, tentando melhorar nossas defesas, apenas para ficarmos presos em discussões quase a noite toda com o resto do bando.
Hoje, não era diferente. Mesmo com as árvores para nos proteger, Sam não gostava do fato de, em alguns pontos, durante a ronda, ser necessário atravessarmos a estrada.
“Não é como se as crianças não fossem olhar para os dois lados antes de atravessar.” Comentei sarcástico, e ele me fuzilou com os olhos. “É sério, Sam. Nós vamos atravessar em locais desertos, no meio da estrada. É só dar uma olhada ao redor, e passar. Não leva mais do que um segundo. Os ursos atravessam ali o tempo todo.”
Ele balançou a cabeça, discordando.
“Não é com você, Paul, Jared e Embry que estou preocupado, Jacob.” Sua voz saiu dura. “Eu sei que vocês tomarão os cuidados necessários, mas Seth e Leah vão começar rondas agora. Não estão acostumados a ficar em alerta.”
“Então deixe-os rondando La Push. Os dois podem fazer o perímetro da reserva.”
Sam pareceu considerar minhas palavras.
“Pode ser. Mas temos que garantir que as rondas não atrapalhem Seth com relação à escola." Insistiu, e eu balancei a cabeça, concordando. Diferente dos outros, que já estavam perto de acabar, Seth ainda tinha alguns anos pela frente. Não era certo atrapalhar seu rendimento escolar.
“Ficaremos de olho. Além do mais, logo teremos destruído a sanguessuga.” Eu garanti, oferecendo um sorriso para ele. “O que você achou do acordo com a vidente? Acha mesmo que podemos confiar nela?”
Aquela não era a primeira vez que conversávamos sobre os Cullen, mas era algo que eu não conseguia tirar da minha cabeça. Algo me incomodava muito, toda vez que pensava sobre eles, e sua volta. E, desta vez, não era o fato de serem parasitas.
Sam estava prestes a responder, quando Embry apareceu. Seus olhos confusos e frenéticos nos fizeram levantar, imediatamente.
“Embry, o que houve?” Sam perguntou, sua voz mudando drasticamente da conversa mais relaxada em que estávamos, para o tom forte de alfa. O olhar de Embry revezava entre nós dois.
“Tem algo errado.” Ele nos encarou, franzindo o cenho. “Nós encontramos dois rastros de vampiros na escola, mas nenhum deles é da ruiva.”
Eu respirei aliviado e balancei minha mão, tentando acalmá-lo. “São os Cullens. O Doutor e a Vidente iriam estar de volta hoje, se lembra?”
Embry balançou a cabeça, lentamente.
“Não, nós passamos pelo rastro que achamos ser do Doutor Presas, perto do hospital. Um dos rastros na escola é da tal vidente — o mesmo que estava na casa da Bella -, já o outro, eu não reconheço.”
Meu coração afundou em meu peito.
Isso não era bom, de maneira alguma. Se não fosse um Cullen, Bella e todos os alunos da escola, estariam em perigo; Caso fosse um Cullen, então mais deles haviam voltado do que imaginamos, e Bella estaria naquela escola com dois Cullen ao seu redor. Aquilo fez meu sangue gelar.
Meu olhar encontrou o de Sam, um segundo depois.
“Pegue sua moto; tenha certeza de que Bella está segura, depois traga-a para cá.” Comandou. “Embry, você vem comigo. Nós vamos pela floresta.”
Ele não precisou falar duas vezes.
Em um piscar de olhos, eu já estava correndo até minha casa.
Troquei de roupa em tempo recorde — agradecendo aos céus por meu pai não estar em casa, já que não tinha tempo para explicações -, peguei a chave de uma das motos, e corri para a garagem. Em poucos minutos, estava acelerando em direção à Forks High, grato pela chuva não estar tão forte após o almoço.
Parei a moto antes de entrar no estacionamento, desligando o motor barulhento. Pensando rápido, empurrei a moto por entre as árvores que beiravam a escola, escondendo-a nas sombras. Assim, poderia pedir a algum dos meninos para recuperarem-na mais tarde.
Andando a passos largos pelo estacionamento, encontrei a picape de Bella facilmente. Quando me aproximava, tentando captar qualquer coisa no ar, ouvi o sinal da escola tocando e, lentamente, as pessoas começaram a sair pela porta principal.
Me encostei na caminhonete, esperando por Bella, ansioso. O cheiro de vampiro era forte e, assim como Embry havia nos informado, eu pude sentir dois rastros. Todos os músculos do meu corpo estavam tensos, e eu tive que me segurar para não entrar na escola e tirar Bella de lá, eu mesmo. Ser detido por invasão, porém, era a última coisa de que eu precisava, no momento.
Tentei prestar atenção nas pessoas que saíam; Estavam agindo como adolescentes normais, cochichando e fofocando entre amigos. Nada parecia estar fora do normal, então descartei a possibilidade de ser algum outro vampiro que não fosse um Cullen. Se um vampiro que não pudesse se controlar perto de humanos, estivesse lá, os demais alunos não estariam tão calmos.
Decidi focar na minha audição para tentar captar algo no mar de alunos que ainda estavam dentro da escola, mas, ao fim das aulas, com todos falando ao mesmo tempo, era quase impossível distinguir uma voz das demais, ou até mesmo a de Bella.
Quando um grupo particularmente grande de alunos saiu pelas portas duplas, deixando-a aberta por um pouco mais tempo do que o normal, o cheiro me atingiu como uma bola de demolição. Foi como levar um soco no nariz. Quem quer que fosse, estava muito próximo.
Pensar em Bella tão próxima de um vampiro desconhecido fazia meu coração bater cada vez mais forte em meu peito. Todos os meus instintos me diziam para largar tudo, e protegê-la. Eu estava quase desistindo, quando ouvi um dos alunos mencionar um nome.
“...ice e Edward mal voltaram e, claro, que a outra já se jogou pra cima dele.”
Eu congelei. O sangue em minhas veias pareceu ferver, enquanto meus braços começaram a tremer tanto, que tive de cruzá-los sobre o peito, para disfarçar. Ouvi o rosnado de um de meus irmãos vindo de não muito longe dali, na floresta.
A porta se abriu novamente, e eu a vi.
Seu rosto estava pálido como o de um fantasma, as mãos tremiam sem parar, e seu olhar estava completamente perdido.
Uma coisa que todos sabem sobre Bella Swan, e que sempre esteve clara, é que ela é um livro aberto. No momento em que passou pelas portas, eu soube exatamente tudo o que ela estava sentindo, e tudo o que deveria estar passando por sua mente.
Seu olhar encontrou o meu, e eu vi o alívio atingi-la de forma tão bruta, que pensei que ela fosse desmaiar ali mesmo.
Ela correu até mim, sem prestar atenção no tráfego de carros do estacionamento. Naquela curta distância, quase escorregou no chão molhado duas vezes, mas não pareceu nem perceber.
Quando se jogou em meus braços, seu coração batia acelerado contra meu peito, sua respiração estava descompassada, e ela estava fria. Apoiei meu queixo em sua cabeça, e passei os braços ao seu redor, tentando aquecê-la o máximo possível. Eu a apertei forte, grato por tê-la de volta. Eu poderia respirar aliviado, feliz por ver que ela estava bem, se não fosse pelo cheiro nojento de vampiro, grudado em suas roupas.
Levantei os olhos e, imediatamente, encontrei os dele. Estava igualzinho ao que eu me lembrava, da vez em que o encontrara no baile. Se Bella não estivesse em meus braços, era capaz de eu ter me transformado ali mesmo, e arrancado sua cabeça, sem me importar com todos aqueles adolescentes.
Como ousava aparecer ali? Como ousava aparecer perto dela, depois de tudo que havia feito? Ele não tinha o direito nem de olhar pra ela, quanto mais a estar perto dela. Ele já não havia feito o suficiente? Ela havia quase morrido diversas vezes por culpa dele, e agora ele simplesmente voltaria para bagunçar o quebra-cabeça de cacos que nós havíamos trabalhado duro para montar?
Senti meu estômago revirar com o nojo que senti; nojo este que logo se transformou no ódio que sempre me acometia quando pensava em sanguessugas, mas, dessa vez, mais forte. O lobo que residia dentro de mim grunhiu, pedindo; implorando, para sair. Ele sim seria capaz de dar àquele vampiro o que ele merecia.
Um meio sorriso brotou nos lábios do maldito, e eu senti cada pelo do meu corpo arrepiar. Ah, claro, ele sabia o que eu estava pensando; sabia que eu queria matá-lo; mas também sabia que eu não poderia fazê-lo, ali.
Sam, que ainda estava por perto, deve ter notado a minha intenção, pois grunhiu um aviso alto o bastante para eu ouvir. Ele sabia que eu estava pronto para acabar com a raça daquele filho da puta, e o tratado que fosse para o inferno.
“Jake,” Bella chamou. “Me tira daqui.”
Sua voz era tão fraca, tão desesperada, e seus braços me apertavam com tamanha força, que ela me tirou do transe que eu entrara. Senti meu coração partir ao ver seus olhos vermelhos, segurando as lágrimas, que eu sabia que iriam cair em algum momento.
Ignorando os olhares curiosos dos demais alunos, abri a porta da sua caminhonete, tirei a mochila de seus ombros e, quando me virei para perguntar onde estavam as chaves, Bella tirou-as do bolso do casaco, e me entregou.
Eu a enfiei no carro pela porta do motorista, não querendo deixá-la sozinha nem por um momento. Assim que me sentei, puxei-a para meus braços, novamente. Ela não olhava para mim; tinha o rosto enterrado em meu peito, e os braços frios ao meu redor. Tudo o que eu consegui pensar foi em tirá-la dali, o mais rápido possível.
Depois de quinze minutos, quando passamos pela divisa entre Forks e La Push, me permiti relaxar um pouco, porém ainda estava ansioso. Notei que Bella também não parecia tão rígida como antes, apesar de ainda estar agarrada a mim, como se eu fosse um colete salva vidas.
Apesar de estarmos naquela posição há vários minutos, suas mãos ainda continuavam frias, e seu queixo tremia. Me perguntei se ela estaria entrando em choque.
“Bells.” Eu chamei, baixinho, tentando não assustá-la. Demorou alguns segundos para que alguma resposta saísse dela.
“V-Você sabia?” Ela gaguejou. Sua voz ainda fraca, como no estacionamento. ”Você sabia que ele iria voltar?”
Um tremor forte passou por mim.
“Claro que não! Não teríamos concordado com nada se soubéssemos que ele viria junto. Merda, eu não teria deixado você ir para a escola, mesmo se Sam decidisse aceitar.” Eu bufei, transtornado, apertando-a mais contra mim com o braço livre. “Se eu soubesse que ele estava de volta, acredite, nós já não teríamos mais porcaria nenhuma de tratado com os Cullens.”
Demorou mais algum tempo para ela entender o significado das minhas palavras, de que eu teria caçado o maldito pessoalmente, e então ela se afastou de mim, com o olhar em pânico.
“Você não pode fazer isso, Jacob!” Exclamou ela, “Fazer os outros Cullen pagarem pelos erros do Edward, não está certo. Começar uma guerra com eles é a última coisa que eu quero que aconteça, ainda mais se for por minha causa!”
Eu ri pelo nariz, sarcástico. “Acredite, não seria apenas por sua causa.”
Em nenhum momento, meu coração parou de bater forte em meu peito, com a adrenalina passando pelas minhas veias. Mesmo naquele momento, em que já estávamos quase na casa de Sam, eu sentia como se estivesse pronto para me transformar, e voltar lá para arrancar aquele sorriso imbecil dos lábios dele.
“Eu nem ligo de ele estar de volta, Jake, honestamente.” Ela explicou, e eu não pude evitar lançar-lhe um olhar desacreditado. “Fiquei surpresa ao vê-lo, já não sabia que voltaria... Mas o que me incomodou mesmo foi ver que ele não mudou... nem um pouco! Eu fui até o inferno e voltei nos últimos meses, Deus, eu quase morri! E lá estava ele, sentado, como se fosse apenas mais um dia normal.”
Ela respirou fundo, parecendo tentar se controlar.
“Eu pensei que estava ficando doida, de novo, Jake. Nunca desejei tanto estar tendo um pesadelo na minha vida. Eu o vi sentado lá, e pensei que estivesse presa em algum tipo de loop temporal; ali estávamos nós, ele iria me levar para a floresta, terminar comigo, me deixar lá, e começariamos tudo novamente. Eu já podia sentir meu corpo começar a desligar, e eu não sabia o que fazer. Então ele veio falar comigo na saída, e eu…”
Olhei para Bella por um instante, sentindo meu coração doer. Eu entrei na pequena rua entre as árvores, que dava para a casa de Sam, e parei a caminhonete em frente à casa.
“O que ele disse?” Perguntei, tentando segurar os meus sentimentos o máximo que eu conseguia. Segurei suas mãos tentando esquentá-las, sabendo ela observava meu rosto.
“Ele me pediu desculpas.” Foi tudo o que ela disse. Eu sabia que não havia sido só aquilo, mas também sabia que ela precisava de tempo para absorver tudo, antes de me contar exatamente quais foram as palavras do sanguessuga. Então apenas abri a porta da caminhonete, e desci, ajudando-a, em seguida.
Eu não sabia quais eram as intenções reais de Edward, e ver o quanto Bella havia se abalado com a sua volta, só me fez temer que ela ainda amava-o mais do que eu esperava; mas se havia uma coisa que eu tinha certeza naquele momento era de que eu faria qualquer coisa para proteger Bella de cair nas garras daquele monstro novamente.
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