Full Moon
12 Encontro
Notas iniciais
“I saw that—I can see in your eyes what it does to you when I say their name.”
— Jacob Black, New Moon
Jacob riu novamente, quando tropecei em outra raiz de árvore, e quase caí. Lancei um olhar fulminante em sua direção, e ele apenas levantou as mãos para o ar, como se se rendesse. “Eu disse que seria mais fácil se eu te carregasse.”
Apenas bufei para o seu comentário, tentando enxergar qualquer coisa em minha frente. Se não fosse pelas mãos de Jacob me segurando e me guiando, eu já estaria estatelada no chão há muito tempo.
Claro que o local de encontro tinha que ser no meio da floresta.
Senti o suor escorrer pelo meu pescoço, mesmo com o ar gelado da noite. Engoli forte, com desgosto. Talvez eu estivesse sendo mais cabeça dura do que o necessário.
Suspirando, me dei por vencida. Abri meus braços em um convite mudo, que Jacob entendeu imediatamente, antes de soltar sua risada estrondosa. Era estranho como ele ficava tão à vontade em meio a floresta densa, no breu da noite.
Com um único movimento, seus braços passaram ao meu redor, e meus pés deixaram o chão. Ele me segurou em seus braços, no estilo noiva, me aninhou em seu peito, e, mesmo no escuro, eu sabia que ele exibia um grande sorriso.
“Tão teimosa.” Murmurou, plantando um beijo na ponta do meu nariz, antes de começar a, praticamente, correr floresta adentro. Eu não conseguia ver mais do que um palmo à minha frente, mas aquilo não perturbou Jacob, que desviava de árvores e galhos como se conhecesse o lugar como a palma da sua mão.
Eu não podia dizer que não estava impressionada.
“Sabe do que isso me lembra?” Perguntou depois de alguns minutos, e eu o olhei inquisitiva. “Daquela época em que passávamos o dia todo fazendo trilha.”
Aquilo parecia ter sido há uma vida atrás, e não apenas há alguns meses. Escondi o meu rosto no seu pescoço, não querendo que ele o visse naquele momento. Eu não havia contado a ele o real motivo de querer ir fazer trilha, e eu não queria que ele lesse em meu rosto, porque, enquanto aquela memória era algo que ele tinha como um bom momento entre nós, para mim, era apenas cheia de vergonha por tê-lo usado para tentar achar a clareira.
“Estamos muito longe?” Tentei trocar de assunto, sem deixar transparecer meu desconforto. Pelos segundos de silêncio que se passaram até a sua resposta, eu sabia que, de algum modo, eu não havia o enganado, mas ele não comentou.
“Quase lá.” Respondeu.
Quando entramos na pequena clareira, a pouca luz vinda da lua foi suficiente para que eu pudesse ver que fomos os últimos a chegar. De um lado, seis lobos gigantes, com seus corpos tensos, em frente a seu inimigo. Do outro, parecendo separados por uma linha invisível, estavam todos os sete Cullen, calmos e relaxados.
Imediatamente, os músculos de Jacob tencionaram sob minhas mãos, e ele segurou meu corpo mais forte contra o seu. Nós paramos ao lado de um dos lobos, que imaginei ser Seth, pelo tamanho menor, comparado aos demais.
Jacob olhou em meus olhos por um segundo, parecendo dividido, antes de me soltar, e voltar para as árvores mais distantes. Imaginei que ele precisasse se transformar assim como os demais.
Lembrei de suas palavras enquanto estávamos na caminhonete, mais cedo, e entendi o maior motivo de sua hesitação. Ele tinha medo de que Edward fosse tentar tirar-me dele em qualquer oportunidade e, apesar de saber minha posição, ele ainda sentia que eu estaria em risco, apesar de todos os seus irmãos estarem ali.
Me senti como um animal de zoológico. Todos os olhares, inclusive os dos lobos, pareciam estar focados em mim, como se esperassem alguma reação; Era como estar de volta aquela manhã, na escola, com todos me observando. Respirando fundo, eu encarei a família de vampiros à minha frente.
Todos eles estavam exatamente como eu lembrava. Fiquei espantada com como minha memória não fazia justiça a sua beleza, e como, ao mesmo tempo que eram magníficos, na meia luz que a noite provinha, pareciam mais intimidantes do que eu lembrava.
Senti os olhos de Edward sobre mim a todo momento, porém, me recusei a olhar em sua direção, focando no sorriso amável de Esme ao seu lado. Lancei-lhe um sorriso leve em sua direção, e o dela pareceu aumentar, como se estivesse feliz por eu não tê-la ignorado. Passando meus olhos primeiro por Alice, para depois continuar para Jasper, então Emmett e por fim Rosalie, eu notei que a última não parecia estar muito feliz de estar ali quanto os demais. Emmett parecia estranhamente animado.
Nos poucos segundos que Jacob demorou para se transformar e voltar à clareira, Carlisle deu alguns passos à frente, pronto para iniciar a conversa pela qual todos estávamos ali. Vi que Edward havia murmurado algo para ele, alguns segundos antes, porém eu estava longe demais para ouvir. Me perguntei o que ele teria dito.
“Boa noite a todos. Obrigado por aceitarem nos encontrar aqui; sabemos como a situação deve ser desconfortável para vocês. ”
Vi a cabeça de Sam assentir, e percebi que Edward, do outro lado, falava algo para os demais membros de sua família. Como eu estava muito distante, não consegui decifrar o que quer que ele estivesse falando, mas depois de alguns minutos, eu entendi o que estava acontecendo. Edward estava lendo os pensamentos de Sam e repetindo para Carlisle.
Nos minutos que se seguiram, Carlisle descreveu todas as características de Victória, algumas de que nem eu tinha conhecimento. Mencionou que ela não possuía um dom em si, como Edward, Alice e Jasper, porém, possuía um grande instinto de autopreservação. Assim sendo, se percebesse que estava em desvantagem, seu primeiro pensamento era correr, e tentar novamente mais tarde, em uma melhor oportunidade. Alice também comentou sobre suas visões, que não eram muito úteis naquele momento, apesar de ela ainda ter alguns flashes sobre as intenções que Victoria tinha de voltar.
“Eu não consigo ver muito do que vai acontecer, por conta da presença da alcatéia, e acho que ela tem alguma consciência disso, de alguma forma.” Explicou ela. “Venho tentando ficar de olho nela, mas ela parece saber exatamente como desaparecer das minhas visões.”
Depois disso, um longo momento de silêncio se fez, antes de Edward começar a falar novamente, e percebi que aquela era a vez de Sam contar o que os lobos sabiam sobre Victória, e o que vinha fazendo nas últimas semanas. Me perdi na conversa quando Carlisle começou a mencionar horários e dias da semana. Eles discutiram por vários minutos sobre aquilo, até que Sam assentiu com sua grande cabeça de lobo, parecendo estar de acordo com o que haviam discutido.
“Com certeza.” Respondeu Carlisle “O que vocês precisarem.”
Os Cullens moveram-se lentamente, formando uma linha reta, todos lado a lado, e eu apenas encarei-os, confusa. Todos tinham expressões sérias no rosto, e entraram naquele estado inumano de imobilidade, que sempre me deixava um pouco incomodada.
Em seguida, como se aquilo fosse o sinal que ele precisava, Sam se moveu, andando tão devagar que parecia estar tentando não fazer movimentos bruscos.
Para a minha surpresa, ele avançou em direção aos Cullens.
Outro dos lobos seguiu logo atrás, e Jacob foi o terceiro da fila. Naquele mesmo ritmo, todos os lobos andaram, um atrás do outro, até a família vampira do outro lado da clareira. Sem saber o que fazer, me apressei a segurar os pelos da perna dianteira de Jacob, e andei ao seu lado. Quando Sam finalmente alcançou Carlisle, que era o primeiro da fila, inalou profundamente, antes de dar alguns passos para o lado, e fazer a mesma coisa com Esme.
Eu fiquei confusa por mais um momento, antes de me lembrar o que Jacob havia dito anteriormente, sobre os lobos precisarem saber identificar o cheiro dos Cullen, para que não ocorresse nenhum acidente no futuro.
A fila continuou. Um por um os lobos passaram, parando, brevemente, em frente a cada um dos Cullens, e captando seu cheiro. Alguns deles pareciam soltar um leve espirro, de vez em quando, aparentemente incomodados pelo cheiro.
Seguindo ao lado de Jacob, esperei até que ele tivesse terminado com o cheiro de Carlisle, antes de cumprimentá-lo com um sorriso, que ele retribuiu levemente, não querendo se mover. Esme me lançou um olhar carinhoso quando passei por ela, e Alice deixou óbvio em seu rosto que o que queria, mesmo, era me puxar para um abraço. Eu não quis interferir no que eles estavam fazendo, então me limitei a apenas andar ao lado do lobo gigante avermelhado, e sorrir para cada um deles.
Quando a vez de Edward chegou, porém, não consegui olhar em sua direção. Sabia que ele me encarava intensamente, e era fácil de notar que se segurava para não dizer alguma coisa.
Seus olhos estavam grudados em mim, observando cada passo que eu dava e, enquanto eu segurava com mais força do que necessário os pelos de Jake, e passava por ele sem uma palavra, me senti estranha. Meu peito ameaçou abrir-se em dois e me fazer desmoronar. Meus passos se tornaram pesados, e tive que usar toda minha força de vontade para continuar andando.
Eu não podia fraquejar naquele momento. Não enquanto Jacob me observava… Enquanto ele me observava!
Puxando o máximo de ar que meus pulmões me permitiam, tentei focar apenas em andar; no movimento de colocar um pé após o outro. Assim, quando finalmente me permiti pensar em qualquer outra coisa, nós já estávamos longe, do outro lado da clareira.
Tentei estabilizar minha respiração e acalmar meu coração, que havia começado a bater forte no peito. A grande cabeça de lobo de Jacob, bloqueou a minha visão dos demais, como se soubesse que eu precisava de algum tempo para me recuperar.
Se eu pudesse, eu teria sorrido para ele, grata.
Quando finalmente me senti melhor, o último lobo terminou, e todos voltaram a seus lugares na clareira, onde os Cullens relaxaram. Alice aproveitou a deixa para acenar para mim, e eu tentei sorrir de volta, pensando em como eu seria bombardeada com seus comentários no dia seguinte, na escola.
Me perguntei se ela havia contado aos demais sobre tudo o que se passou nos últimos seis meses. Suas expressões eram as mesmas de sempre, as mesmas que eu lembrava ver, toda vez que estava próxima deles, mas, de alguma forma, aquilo não me trouxe conforto como costumava trazer. Seria porque eu já não era mais a “garota-vampira”? Porque eu estava desse lado da clareira, e não ao lado deles?
Mais uma vez naquela noite, eu me senti estranha.
Percebendo que aquele era o fim da reunião, e que tanto os vampiros, quanto os lobos começavam a se afastar lentamente, tomei a frente como havia planejado, me separando de Jacob.
Ele abaixou sua cabeça de lobo para que seus olhos estivessem em nível com os meus, e pareceu estar me perguntando o que eu estava fazendo. Eu quis rir por seus seus olhos serem tão expressivos, mesmo quando estava naquela forma.
Dando dois tapinhas nele, dei alguns passos à frente me afastando e indo em direção ao Cullen.
Era estranho pensar que eu, um dia, havia considerado-os minha família. Fantasiei tantas vezes em passar a eternidade ao lado de todos eles; as risadas e brincadeiras que poderíamos compartilhar para sempre… Todos aqueles sentimentos eram muito irreais, quase como se fossem parte de um sonho. Ali, eu podia sentir uma grande parede invisível nos separando.
Por mais que ainda fossem receptivos comigo, eu pude perceber que tudo estava diferente.
“Obrigada por terem voltado para Forks para ajudar com a Victória.” Elevei minha voz, deixando que ressoasse pela clareira e eu fui retribuída com alguns sorrisos.
“É nossa responsabilidade, Bella. Nós começamos essa bagunça, então nada mais justo que ajudarmos a limpá-la.” Foi Jasper quem respondeu, suavemente, e eu fiquei surpresa de ouvir a sua voz, depois de tanto tempo.
Eu apenas assenti para ele, por mais que discordasse.
“Foi bom vê-la de novo, Bella.” Disse Carlisle, sorrindo antes de sumir. Alice também acenou antes de desaparecer diante dos meus olhos; seu rosto era brincalhão, e eu me perguntei se ela estava tramando alguma coisa.
Cautelosamente, um por um, os Cullens se afastaram, assim como alguns dos lobos. Inevitavelmente, meus olhos caíram em Edward e, desta vez, eu sabia que não conseguiria desviar ou quebrar a conexão que eu havia adiado por tempo demais.
Mesmo tão longe, e no escuro, pude ver claramente sua expressão tranquila, e seu sorriso, igual ao de tantos meses atrás. Seus braços estavam levemente estendidos, como se estivesse me convidando a me aproximar, e mergulhar ali. Como se ele me quisesse ali.
Fique, era o que seu rosto dizia, por favor.
Minhas pernas ameaçaram ceder, como se tivessem vida própria. Minha garganta secou e eu tive que me concentrar para respirar. Um olhar dele; Seus olhos dourados cheios de adoração que ansiava por mim, aquilo era tudo que ele precisava para me deixar perdida daquele jeito.
Perguntei-me se aquele sentimento era ainda fruto do nosso antigo amor, ou apenas atração por sua beleza excepcional. Me lembrava com tanta clareza o quanto meu coração doía; como me sentia vazia e inútil, sem vida com mais vivacidade do que gostaria… E o motivo estava ali, parado em minha frente sorrindo, com olhos doces.
Minhas pernas tremeram mais uma vez e eu achei que dessa vez, eu caíria.
Ergui minha mão, tateando cegamente, tentando achar algo em que me apoiar, e encontrei os pelos macios e quentes do lobo ao meu lado. Tocar Jacob foi o suficiente para me tirar do transe para o qual havia sido puxada, e tive que piscar por vários segundos para entender exatamente o que estava acontecendo.
Quando meus olhos pousaram em Edward novamente, ele já não olhava mais para mim. Encarava profundamente o lobo ao meu lado, e tinha uma expressão de angústia estampada em seu rosto.
Edward parecia estar sentindo dor, como se Jacob tivesse lhe dado um soco no estômago, apesar de estar do outro lado da clareira. Segui o seu olhar para Jake, mas nada pude ver além do lobo avermelhado que observava-o com cautela.
Um calafrio desceu pela minha espinha ao mesmo tempo em que Jacob começou a rosnar, baixinho. Meu corpo todo se tensionou e a única coisa que consegui pensar foi que nós precisávamos sair dali antes que uma briga começasse.
Eu não me dei ao trabalho de olhar para como Edward reagiria ao rosnado, mas eu sabia que não tinha ficado calado, já que cada pelo do corpo de Jacob se erriçara.
Puxando os pelos de Jake um pouco mais forte, tentei fazê-lo deixar de encarar Edward e me seguir para dentro da floresta, na mesma direção que os demais foram. Achei que eu teria que colocar toda a minha força no movimento, puxando ele para fora de lá, mas, quando um rosnado diferente, no meio da floresta, se fez, Jacob parou o seu próprio. Ele não ofereceu mais resistência, e apenas me seguiu.
Quando eu virava as costas, indo na direção oposta, achei que, por um segundo, eu ouvira a voz de Edward me chamando, mas empurrei o pensamento de lado. Olhar para ele era a última coisa que eu queria naquele momento.
Alguns instantes após passarmos pelas primeiras árvores, Jacob parou. Seu focinho apontou para uma árvore grande antes de seus olhos voltarem para mim e apontarem para o chão. Eu concordei, soltando os seus pelos e me virando de costas.
Menos de um minuto depois, Jacob voltou, vestindo apenas seus shorts rasgados. Seus braços envolveram meu corpo, e ele me apertou tão forte contra si, que eu perdi o ar por um momento.
“Está tudo bem.” murmurou ele, acariciando meus cabelos. “Está tudo bem.”
Suas palavras de conforto, e o modo como parecia tentar me acalmar quando, embaixo das minhas mãos eu sentia que seu coração batia forte no peito, me fizeram ficar a beira das lágrimas.
Eu não o merecia.
Eu não merecia aquele homem que me segurava como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, quando, há poucos minutos, eu quase havia me perdido nos olhos do vampiro do outro lado da clareira. Como aquilo era justo com ele? Como eu poderia aceitar aquilo sem fazer nada?
Segurei minhas lágrimas, não me permitindo chorar.
Jacob me segurou em seus braços pelo o que pareceram horas, e eu me deixei ficar, grata pelo calor que protegia meus pensamentos, e me acalmava. Quando nos separamos, ele me pegou pelos joelhos, e me carregou pela floresta, novamente.
Seus olhos se revezavam entre o caminho à sua frente e a mim. Havia algo quase selvagem em seu olhar, que eu não soube identificar; mas Jacob não falou nada. Suas mãos acariciavam minhas costas, e sua bochecha estava encostada na minha, como se estivesse tentando me confortar e esquentar, ao mesmo tempo.
O calor de seu corpo, somado ao ritmo de sua caminhada silenciosa, foram suficientes para me fazer cair no sono, algo que eu vinha precisando muito. Apesar de ter a cabeça fervendo, eu já não tinha forças para ficar mais um minuto acordada.
Quando abri os olhos novamente, Jacob me olhava. Eu olhei ao redor, desnorteada, por alguns segundos, até entender que estava dentro da minha caminhonete, parada em frente à minha casa.
Eu estava completamente enrolada nele, parecendo um coala, e, assim que o soltei, resmunguei, descontente pela imediata falta que senti de seu toque. Acho que eu poderia dizer que estava viciada em seu calor contra a minha pele.
“Você devia entrar e tentar dormir. Sabe que está precisando.”
“Não quero que você vá embora.” Resmunguei como uma criança, e ele riu.
“Eu não vou, lembra? Alguém tem que te manter segura, hoje a noite.” Ele respondeu, sorrindo no escuro da caminhonete. “Não se preocupe, eu vou te buscar amanhã.” Foi sua resposta, antes de grudar nossos lábios mais uma vez; dessa vez por mais tempo e com mais força.
Aquele sentimento de culpa se apossou de mim, novamente, e eu tentei afastá-lo rapidamente. Não podia deixar que aquela noite, ou pior, Edward, nos afetasse daquele jeito. Eu prometi a ele que não afetariam.
Eu não sabia se Jacob tinha percebido o que se passava pela minha mente, mas ele não tentou aprofundar o beijo. Acariciou meu rosto por um momento, antes de abrir a porta da caminhonete e me ajudar a descer.
Deixando todos os meus pensamentos de lado, não querendo transparecer a confusão que eu sentia, me recompus, antes de entrar em casa.
Eu resolveria meus problemas depois de lidar com Charlie, garanti a mim mesma.
Tentando fazer pouco barulho, para não assustar o meu pai, abri a porta da frente cuidadosamente e fechei-a assim que passei. A televisão ainda estava ligada, porém, a cabeça de Charlie pendendo para o lado entregava que ele havia caído no sono.
Sorri com o sentimento reconfortante que encheu meu peito, sabendo que ele havia esperado por mim, mesmo estando tão cansado do dia de trabalho. Caminhando até ele, toquei o seu ombro com cuidado, e acordei-o.
“Pai, eu já cheguei. Você devia deitar na cama, ou ficará com dor nas costas.” Comandei, enquanto ele acordava, um pouco confuso.
“Bella! Eu.. hã… Só estava descansando os olhos.” Explicou, em seu estado grogue. “Como foi na casa da Emily?” Charlie perguntou, sem parecer estar realmente interessado na resposta. De fato, não parecia nem escutar, enquanto procurava o controle da televisão entre as almofadas do sofá. Eu pude apenas rir daquela versão confusa do chefe de polícia.
“Foi ótimo.” Respondi, tentando não transparecer que ‘ótima’ não era exatamente a palavra que eu usaria para descrever aquela noite. Estava mais para um “pelo menos ninguém morreu”, mas meu pai não precisava saber daquilo.
Ele assentiu, finalmente achando o controle e desligando a televisão. Deu um tapinha em meu ombro quando passou por mim, em direção às escadas. “Deixei algo para você comer na cozinha.”
Eu agradeci, e lhe desejei boa noite, enquanto ele cambaleava escada acima, e desaparecia pelo corredor, em direção ao seu quarto.
Novamente, eu estava sozinha.
Caminhando sem vontade, entrei na cozinha, encontrando um prato coberto com papel alumínio no balcão. Espiando por baixo do papel, vi uma massaroca irreconhecível, que parecia ser algum tipo de macarrão que foi cozido por tempo demais, e algumas almôndegas ao lado. Eu encarei o conteúdo do prato, me sentindo mal por ver tantos ingredientes destruídos, em sua tentativa de preparar alguma coisa para o jantar.
Nem havia passado pela minha cabeça mais cedo, quando liguei para dizer que ficaria na casa da Emily, que ele teria que arrumar o seu próprio jantar. Suspirei profundamente, chateada comigo mesma por ter negligenciado Charlie novamente.
Apesar de não estar com muita fome, levei o prato até o microondas, para esquentar a comida, e tentar comer um pouco. Esbarrei no balcão do armário, e algo caiu no chão com um som alto. Quando me abaixei para verificar o que era, encontrei uma barra de chocolate que, apesar de ainda estar na embalagem, agora encontrava-se partida em vários pedaços.
Olhei para o chocolate tentando entender o que aquilo fazia ali, sabendo muito bem que Charlie não era muito fã de doces. Como se uma lâmpada acendesse em minha cabeça, eu entendi.
Era para mim.
Charlie havia comprado chocolate para mim!
Mas… por que? A não ser que fosse meu aniversário, ou natal, Charlie não costumava deixar presentes. Então qual o motivo para ele ter ido até o mercado, apenas para me comprar aquilo?
Parando para pensar, naquela manhã nós não havíamos interagido realmente, já que eu estava cansada demais até mesmo para começar uma conversa. Será que aquele foi o motivo para o súbito presente? Talvez ele pensasse que eu estava de mau humor?
Ri, baixinho, sem acreditar.
O gesto carinhoso fez até a “comida” descer mais facilmente.
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