Notas iniciais
Olá leitoras e leitores, como vocês estão? Espero que tenham tido um bom fim de semana. Boa leitura!

"I miss that. The way it used to be so easy... uncomplicated."

— Jacob Black, Eclipse

POV Bella

O sol batia em meu rosto quando acordei, na manhã seguinte, para uma cama vazia. Encarei a janela do quarto por vários minutos, antes de finalmente entender que o dia estava ensolarado pelo que parecia a primeira vez naquele ano.

Quando desci para tomar café naquela manhã, Charlie não parecia diferente de qualquer outro dia. Me perguntei se iria me dar uma bronca, ou se me pediria para voltar mais cedo para casa, para termos outras das suas conversas, mas ele não disse nada quando sentei em sua frente com a minha tigela de cereal.

Achei que seria melhor se eu iniciasse a conversa.

"Pai, sobre ontem-" Comecei, porém Charlie me cortou, rapidamente.

"Você não precisa se explicar, Bella." Ele disse, sem tirar os olhos do seu jornal. "Eu sabia que, em algum momento, vocês teriam que se resolver."

Ele respirou fundo antes de abaixar o jornal, e lançar um olhar irritado em minha direção.

"Mas quero deixar claro que ele continua não sendo bem-vindo aqui, e nunca será." Resmungou. "E da próxima vez, precisa dizer aonde está indo. Você pode até ter dezoito anos, mas ainda mora sob o meu teto."

Eu apenas concordei, tentando assegurá-lo de que não aconteceria novamente. Quando já era hora de ir para a escola, o clima tenso havia aliviado significativamente entre nós, e Charlie até mesmo tentou fazer uma piada sem graça sobre eu aproveitar o sol e tentar pegar uma cor quando me despedi dele.

O tempo que passei longe de vampiros deve realmente ter mexido com a minha cabeça, pois apenas quando parei a caminhonete no estacionamento, foi que notei que nenhum Cullen iria aparecer por ali, naquele dia ensolarado. A vaga em que o carro prateado geralmente ficava estava completamente vazia.

Não que quisesse ver algum deles, pelo contrário! Eu estava mais do que contente por conseguir evitar um confronto com Alice, tendo em vista que não sabia o que diria, caso a mesma tentasse falar comigo.

Aparentemente, a previsão era de sol para a semana toda, então, eu não precisaria me preocupar com nenhum deles por alguns dias.

Pela primeira vez desde que os Cullen haviam retornado, senti como se estivesse de volta à minha vida normal. O sentimento era até estranho, levando em conta que, desde Setembro, minha vida fora uma mistura de depressão, abandono e alucinações.

Naqueles poucos dias em que o sol brilhou mais do que o usual para um dia de primavera em Forks, me senti completamente contente com a minha rotina, sem passar por grandes acontecimentos, além das visitas casuais de Jacob; Torcia para que aquela fosse uma prova de que eu havia, finalmente, superado a fase sombria da minha vida, e estivesse seguindo em frente.

Me senti feliz por já não estar mais afundada naquele poço de desespero, e desejava, com todo o meu coração, nunca mais voltar àquele estado.

A cidade de Forks, porém, não poderia ser abençoada por muito tempo, e, na sexta-feira, a chuva torrencial costumeira estava de volta.

Alice provavelmente previu que nosso próximo encontro não seria amigável, já que, apesar de ter certeza que ela estava na escola, notei que a mesma me evitou a todo custo, como se fosse a peste negra. Não a vi em nenhum momento durante todo o dia.

Edward, porém, não podia ser evitado. Nós ainda tínhamos as mesmas aulas, e o único lugar vazio continuava sendo ao meu lado; sendo assim, não demorou muito para que nos encontrássemos.

Nossos olhares se encontraram apenas uma vez, e me orgulho de dizer que tive forças suficientes para desviar rapidamente, desejando que uma barreira surgisse entre nós. Ele parecia ansioso para dizer alguma coisa, porém, não o fez.

Talvez não fosse tão impossível ignorar sua presença quanto eu pensara, mesmo quando ele me encarava durante todo e qualquer período em que estivéssemos juntos.

O sinal que indicava o fim da última aula do dia tocou, ao mesmo tempo em que eu terminava de escrever a última resposta no meu teste surpresa de espanhol. Baixei o lápis, puxei minha mochila do chão e segui para a porta, parando somente para deixar o papel na mesa da professora, que não poderia parecer mais entediada.

Segui, ansiosa, em direção a saída mais próxima do estacionamento, sabendo que Jacob estaria me esperando. Ele havia ido me buscar todos os dias naquela semana, depois da aula. Eu não podia reclamar. Amava vê-lo sempre que podia, e contava as horas para nosso próximo encontro, porém, eu tinha a impressão de que ele não estava fazendo aquilo apenas porque queria me ver.

Quando o questionei, alguns dias antes, ele disse que fazia sentido, e era fácil, já que o fim de sua ronda acontecia ao mesmo tempo que o fim da minha última aula. Pelo jeito que falava, e pelo modo como ficava tenso quando mencionava o assunto, porém, ficava claro que era mais do que isso.

Nos primeiros dois dias, várias pessoas ainda o encarava quando passavam por ele na saída da escola, indo em direção a seus carros. Seus dois metros de puro músculo não podiam deixar de ser notados, especialmente por aquele que gostavam de saber todos os detalhes sobre a vida de cada pessoa na cidade. Na quarta-feira, entretanto, ele pareceu se tornar peça comum no dia-a-dia de todos, assim como do meu. Até mesmo Ben e Tyler começaram a cumprimentá-lo quando passavam por ele.

Apressei meu passo, praticamente correndo pelo corredor. A sala de espanhol ficava na parte do prédio mais distante do estacionamento, então, quando finalmente cheguei perto das portas de saída, não fiquei surpresa ao encontrá-las abarrotadas de pessoas querendo sair ao mesmo tempo. O que me surpreendeu, na verdade, foi Edward ter surgido na minha frente, do nada, bloqueando meu caminho como uma parede.

Eu estaquei, quase batendo o rosto em seu peito. O movimento foi tão súbito, que uma garota que vinha logo atrás de mim tropeçou em meus pés, e quase caiu.

Edward me puxou pelo braço, nos girando com um movimento rápido para fora do fluxo de pessoas que tentava sair da escola.

"Me desculpe, a culpa foi minha." Ele disse para a garota, que parecia pronta para gritar comigo por parar tão abruptamente. Assim que viu Edward, porém, pareceu reconsiderar. Suas orelhas ficaram vermelhas, e ela apenas assentiu rapidamente, antes de dar as costas para nós.

Eu cruzei meus braços sobre o peito, encarando-o. "Qual é o seu problema?!"

"Me desculpe, mas eu preciso muito falar com você." Edward disse, seus olhos dourados brilhando em minha direção.

"E precisava de tudo isso? Não podia apenas ter me chamado?"

"Você teria parado se eu tivesse?" ele perguntou, e, quando não respondi, apenas continuou. "Achei que seria mais fácil falar com você se te parasse antes que fosse embora."

Eu suspirei. "E o que é tão importante que não podia esperar?"

Edward olhou ao redor, para as pessoas que passavam a poucos passos de nós.

"Será que podemos conversar em outro lugar...?" Ele começou a perguntar, mas quando voltou seu olhar para mim, respondeu a sua própria pergunta: "Acho que não. Ok, eu tinha planejado falar isso de outra forma, mas... Acho que vou ter apenas que ser direto."

Levantei uma sobrancelha, inquisitiva.

"A Alice não consegue ver nada sobre depois da escola. Como é minha vez de... ficar de olho em você, eu queria que soubesse que não precisa ir para a reserva; vai estar segura se ficar em casa." Informou, parecendo lutar para encontrar as palavras certas, enquanto encarava as pessoas que passavam perto demais de nós, tentando ouvir algum segundo da nossa conversa.

Demorei alguns segundos para entender o que ele quis dizer. E mais outro segundo para acreditar que ele, realmente, achava que eu só iria para a reserva porque não me sentia segura em casa.

Eu segurei uma risada.

"Obrigada pela preocupação, mas... acho que a decisão é minha." Respondi, tentando dar o fora dali; ele deu um passo para o lado, ficando na minha frente novamente.

"Bella." Seu tom era baixo, porém eu podia ouvir o aviso ali. "A sua casa é o lugar mais seguro para você, no momento. As suas visitas à reserva apenas dificultam os nossos esforços para te manter longe de qualquer perigo."

"Não entendo porque dificultariam. O objetivo é me manter segura, não competir pra ver quem consegue me proteger melhor." ralhei, cansada daquela conversa. "Achei que tínhamos deixado claro, em nossa última conversa, que tomo minhas próprias decisões. Eu confio neles, e isso é o suficiente. "

Ele comprimiu os lábios em linha, como eu o havia visto fazer diversas vezes no passado, quando não gostava de uma das minhas respostas. Desta vez, não esperei para ouvir o que diria em seguida.

Aproveitando que o fluxo de pessoas havia diminuído, eu dei a volta em Edward, rapidamente, alcançando a porta em dois passos. A chuva ainda caía, do lado de fora, porém eu não diminuí o ritmo.

Meu olhos voltaram-se para a minha caminhonete, automaticamente, em busca da pessoa que eu mais queria ver naquele momento. Como sempre, Jacob estava parado ali, de braços cruzados sobre a camisa preta, à minha espera.

Eu sorri, pronta para correr em sua direção — mesmo que correr em superfícies molhadas fosse contra todas as recomendações -, entretanto, não consegui dar mais de três passos, antes de sentir algo gelado em meu pulso, e meu corpo ser virado em um solavanco.

A mão de Edward envolvia meu pulso, firmemente, e ele tinha uma expressão suplicante no rosto.

"Bella, por favor, me escute..." murmurou. Eu estava prestes a puxar meu braço para longe, quando ele mesmo o soltou. O vampiro deu um passo para trás, afastando-se de mim, rápido demais. Seu rosto endureceu como o de uma estátua, e seus olhos focaram em algo atrás de mim.

"Como se atreve a tocá-la desta maneira?" Jacob rosnou, aparecendo ao meu lado silenciosamente; eu nem o havia visto atravessar o estacionamento até nós. A ira, em sua voz soando como os trovões daquela tarde chuvosa. Suas mãos tremiam levemente, quase como se estivessem vibrando, e eu me apressei a segurá-las entre as minhas, com medo que ele perdesse o controle e acabasse se expondo a todos os alunos que ainda populavam a escola.

"Jake." Eu disse, em tom de aviso, tentando puxá-lo para longe, sem sucesso; ele não se moveu nem um centímetro.

"Eu nunca a machucaria." Edward afirmou, respondendo à algo que não fora dito.

"Não foi o que pareceu, quando você quase arrancou o braço dela fora." Jacob rosnou, antes de passar o braço ao meu redor, protetoramente "Só porque lhe dei um tempo para terminar de tentar mantê-la longe de La Push, não significa que você tem o direito de tocá-la."

"Ela não é sua para poder decidir isso."

"Quem disse que não?" Retrucou Jacob, apertando com mais força o braço ao redor da minha cintura.

Dessa vez, foi Edward quem rosnou ao ouvir a resposta rápida de Jacob, dando um passo para frente, em seguida.

"Vocês dois, parem agora mesmo!" Mandei, batendo o pé no chão, e colocando uma mão no peito de Jacob, empurrando-o para longe de Edward. Tudo o que me faltava era que Edward começasse algo que Jacob teria que terminar, arruinando tudo para todos os lobos. "Não sei se notaram, mas nós ainda estamos na escola!"

"É, cachorro. É melhor se acalmar antes que se exponha... ou machuque alguém." Alfinetou Edward. Seu olhar deixava óbvio que ele queria que Jacob perdesse o controle.

"A única coisa que sairia machucada é a sua cara nojenta." Jacob cuspiu. "Que, aliás, merecia ter sido reorganizada no fim de semana passado."

"Por que? Te incomoda tanto saber que ela passou a tarde comigo? Pensei que tivesse mais confiança em si mesmo. Talvez ela não esteja mais tão na sua..."

"Como se atreve...", eu fechei os olhos e respirei fundo para me acalmar, notando que o diretor estava, agora, parado em frente à escola, observando nossa interação.

"Será que não deixei claro na nossa última conversa? Você está aqui por causa de Victoria. Ponto final." Insisti. "Eu sei decidir o que é melhor para mim mesma, Edward. Não se lembra do aconteceu na última vez que pensou saber o que era melhor para mim?"

Nós três ficamos em silêncio por um momento; Pessoas se reuniam em pequenos grupos ao nosso redor, cochichando entre si, enquanto observavam o espetáculo que era aquele encontro. A chuva começou a cair um pouco mais forte, e eu estava começando a ficar encharcada.

"Algum problema por aqui?" A voz do diretor se fez presente, tirando-nos de nosso estupor.

"Problema nenhum." Garanti, com um sorriso falso no rosto, enquanto recolhia minha mochila de onde havia caído, no chão. "Eu e meu namorado já estávamos indo embora."

POV Jacob

Nada poderia superar a cara de idiota do parasita, quando Bella deixou claro, lindamente, e na frente de todos, que eu era o namorado dela, e não ele. Fui praticamente arrastado para o carro, em seguida, e não hesitei em segui-la, sem conter o sorriso que surgiu no canto dos meus lábios.

Eu havia lutado contra meus instintos durante toda aquela interação com o sanguessuga, tentando controlar minha voz, e me manter calmo, mesmo que tudo dentro de mim quisesse apenas explodir e arrancar a cabeça do desgraçado. Tenho que admitir que fiquei surpreso com como havia conseguido lidar com a situação sem perder a cabeça.

Deixei que Bella entrasse na caminhonete, antes de me acomodar no banco do motorista. Seu coração batia descontrolado no peito, apesar de ela exibir uma expressão calma e determinada em seu rosto. Aquela conversa devia ter sido tão difícil para ela, quanto foi para mim.

Manobrei para fora da vaga, e dei a volta pelo estacionamento, antes de seguir em direção à rua.

Passei o meu braço ao redor do seu corpo, puxando-a para mim.

"Você está bem?" Perguntei. Ela se ajeitou em meus braços, apoiando seu rosto em meu peito, como sempre fazia quando estávamos naquela posição.

"Claro, porque não estaria?" ela resmungou, com ironia. "Não é como se tivesse sido humilhada na frente da escola inteira, ou algo assim."

"Humilhada?" Perguntei, confuso. "Bells, você acabou dele. Foi a coisa mais sexy que eu já vi na minha vida!"

Ela se remexeu em meus braços, claramente envergonhada. Eu poderia beijá-la naquele momento, se não tivesse que prestar atenção na estrada.

"Eu não fiz nada." Ela insistiu. "Só disse a verdade."

"Você se impôs. Defendeu não só a você, mas também a mim." Comentei, orgulhoso. "E quando você disse que eu sou seu..."

Deixei a minha voz morrer, sentindo meu estômago dar cambalhotas, enquanto relembrava suas palavras. Bella me deu um tapinha, enquanto suas bochechas começavam a avermelhar.

"Aquela conversa toda... e é só dessa parte que se lembra?" Reclamou. "Aliás, o que quis dizer quando falou que tinha deixado—o me convencer? Você estava escutando desde que ele me parou, dentro da escola?"

Dei de ombros. "Eu sabia que ele tentaria falar com você hoje, já que voltou para a escola. Ele, com certeza iria notar que eu estava te esperando, então, quando começaram a conversar, eu soube que seria sobre algo desse tipo."

Ela se afastou de mim por um momento, olhando para o meu rosto. Eu tentei segurar o meu sorriso ao ver a sua cara fofa de irritada.

"Você sabia que ele iria fazer algo assim, e simplesmente deixou acontecer? Que tipo de namorado é esse, que quer ver o sofrimento do próximo?!"

Eu revirei os olhos para o seu antagonismo exagerado.

"Eu tinha certeza que você conseguiria se defender. Quis te dar a chance de resolver sem mim. Eu estava prestando atenção, e não levaria um segundo pra chegar até você, caso precisasse." Comentei, alcançando a sua mão e a acariciando. "Você é mais forte do que pensa."

Bella pareceu satisfeita com aquilo, pois voltou para o seu lugar em meus braços, escondendo o seu rosto em mim.

"Obrigada, Jake." Murmurou, ela, depois de alguns minutos. Sua voz abafada por minha camiseta. "Apesar de ter odiado cada minuto, e desejar que nunca tivesse acontecido."

Dessa vez eu ri.

"Não foi nada, an..."

Antes que eu pudesse terminar a frase, um longo uivo soou, alto e torturado, vindo da floresta que rodeava a estrada, da direção mais afastada da reserva. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram de imediato.

Por instinto, meu pé se enfiou no freio, e o carro cantou pneu até parar bruscamente. Eu apertei o braço ao redor de Bella, segurando-a para que não fosse jogada em direção ao parabrisa.

O uivo durou muito mais tempo do que eu esperava. Meu coração começou a bater em meus ouvidos, enquanto eu tentava reconhecer de quem era aquele sinal.

Minha mente ficou em branco por alguns instantes, antes que eu finalmente entendesse. No segundo seguinte, eu já me atirava porta afora, retirando a camiseta no processo, e jogando-a dentro do carro.

"Jake?" Sua voz soou amedrontada, e notei que Bella se preparava para sair do carro e vir atrás de mim.

"Vá para a casa da Emily!" Exclamei, antes de correr em direção a orla da floresta, tirar a bermuda, amarrá-la na perna de qualquer jeito, e me transformar.

Assim que minhas patas atingiram o chão de terra enlameado, coloquei toda a minha força nelas, impulsionando-me para frente, em direção ao uivo. Minha mente foi inundada por pensamentos caóticos e confusos, além, da gritaria e do sentimento de ser queimado vivo, que vinham com a primeira transformação.

"Se acalme", eu pensei, tentando soar o mais estável possível, apesar de sentir tudo menos estabilidade naquele momento.

"Que porra está acontecendo?!" berrou, contorcendo-se no chão, enquanto os ossos de sua mão quebravam, um por um, dobrando de tamanho e sendo substituídos por patas.

Eu tentei correr mais rápido, procurando em sua mente o local onde estava. Eu podia notar que ele estava próximo a uma casa, talvez no quintal, mas nada era muito claro além da dor incessante que sentia. Meus próprios ossos começaram a doer.

Senti outra mente alerta juntar-se a nós, e mais uma, todos imediatamente correndo para a mesma localização que eu.

"Jacob, você vai chegar primeiro. Se transforme e tente tira-lo de lá, imediatamente." Sam comandou e eu concordei, imediatamente.

"ARGHH" gritou, e eu não pude deixar de arfar, sentindo, em segunda mão, a dor que se alastrava, agora, por suas costas.

Sam estava certo, eu já podia ouvir os seus ganidos não muito distantes de onde estava. Eu conhecia aquela parte da floresta muito bem; era próximo às casas dos anciãos da tribo e não demoraria muito antes que eu o alcançasse.

"Já sabe quem é?" perguntou Embry, correndo no flanco direito de Sam, com determinação. Ambos vinham da casa de Emily.

"Não, mas pela localização..." comecei, mas outra mente se junto a nós, cortando a minha linha de raciocínio. Desta vez, bem mais ansiosa do que as demais.

"O que está acontecendo? A ruiva está atacando?!" perguntou Seth, desesperado, e Sam latiu para ele calar a boca.

"A última coisa que precisamos agora é de mais coisas passando pela cabeça dele." Sam ordenou e Seth ganiu, começando a correr logo em seguida. "Assim que chegarem nele, se transformem, para ele poder se acalmar."

"Quem está falando?! O que está acontecendo?!" gritou o novo lobo, em um breve momento de calmaria.

"Não se preocupe, nós vamos te ajudar." disse Embry, tentando soar calmo.

Eu comecei a diminuir a minha velocidade, parando próximo a orla da floresta por um momento, para identificar exatamente onde o novo transmorfo estava. Naquela parte da reserva, as casas não eram tão afastadas umas das outras, por isso eu não tinha muita visão além dos quintais, e algumas cercas.

"Eu vou ter que me transformar para poder procurar por ele." disse, enquanto me perguntava se ele poderia estar perto da rua, ou em algum lugar em que outras pessoas poderiam vê-lo, facilmente.

"Se houver alguém por perto, tire-os de lá primeiro. Não precisamos que ninguém se machuque" Sam coordenou, e eu apenas concordei, antes de me transformar. Puxei meus shorts do elástico, e vesti-o rapidamente, antes de sair correndo por entre as árvores.

Atravessando o quintal das duas casas mais próximas da floresta, tive que pular uma cerca, antes que pudesse seguir para a direção em que eu o ouvia se contorcendo e ganindo; era como se alguém estivesse espancando um cachorro. Eu podia ouvir seus ossos estalando, como pedaços de madeira se partindo, quando finalmente alcancei a rua.

Naquele momento, se eu tinha alguma dúvida sobre quem se transformava naquele momento, essa havia se evaporado. Eu corri em direção à casa do Velho Quil, onde parecia ser a fonte dos barulhos. A casa deles não era tão perto da orla da floresta, e tinha duas casas vizinhas, não muito longe do quintal dos fundos.

Olhei ao redor, procurando por qualquer pessoa que poderia ser idiota o suficiente para sair de casa depois de ter ouvido um uivo de lobo tão perto, e fiquei aliviado por não haver ninguém, além de uma senhora que olhava de um lado para o outro pela janela de sua casa.

Passei pelo jardim da frente da casa do Velho Quil em poucos passos, me esgueirando pelo espaço entre a sua casa e a do vizinho, antes de finalmente alcançar o jardim dos fundos, onde um lobo marrom chocolate se contorcia na grama, destruindo um barraco que havia ali no processo.

Perto da porta dos fundos da casa, o Velho Quil estava parado, de braços cruzados, observando tudo. Ele só me notou quando chamei seu nome.

"Jacob, finalmente! O garoto está retorcendo há uns cinco minutos." Disse ele, apontando para Quil com a cabeça.

"Sam está vindo com os outros. Você sabe se alguém mais o viu?"

Ele sacudiu a cabeça. "Não, mas não vai demorar muito antes do vizinho começarem a aparecer para ver o que está acontecendo."

Eu balancei a cabeça, concordando, antes de tentar me aproximar de Quil. Seus ossos haviam parado de estalar, porém, ele ainda se retorcia, como se seus músculos estivessem tendo espasmos. Ele não parecia ser muito maior do que Embry, porém eu duvidava que podia o mover sozinho.

"Quil?" chamei, torcendo para que sua mente não estivesse tão imersa na dor, que o impedisse de me ouvir.

Um dos seus olhos se abriu por alguns instantes, antes de se fechar com força, e ele voltar a tremer. Eu suspirei, me perguntando se seria melhor se me transformasse para tirá-lo dali.

"Eu sei que está doendo, mas preciso que venha comigo." Disse, me aproximando lentamente. "Eu vou te levar para um lugar seguro."

Não pude identificar se ele me ouvia, ou não. Estendi a mão, planejando puxá-lo para trás, para longe das casas, porém, assim que minha mão tocou a parte de trás do seu pescoço, ele ganiu alto, antes de dar um pulo.

Logo, ele estava nas suas quatro patas, cambaleando de um lado para o outro, enquanto tentava fazer todas elas funcionarem ao mesmo tempo.

Levantei as mãos para o alto, tentando sinalizar que eu não iria fazer nada contra ele. "Ei, está tudo bem! Você está indo bem!"

O lobo de Quil olhou para mim com olhos entreabertos, com os pelos da nuca eriçados. Sua figura ainda tremia ao redor, como se não soubesse ainda ao certo que forma tomar. Uma luta entre humano e lobo.

Eu ouvi passos rápidos se aproximando, e logo Sam e Embry se juntaram a nós no pequeno jardim. Quil não pareceu gostar da presença deles, recuando lentamente para longe.

Troquei olhares rápidos com Sam e Embry, os alertando para que não se aproximassem. Ambos pararam próximos ao Velho Quil.

"Quil, irmão, iremos explicar tudo em um minuto." Garantiu Embry, tentando o acalmar. "Mas você precisa vir com a gente primeiro."

O lobo marrom o olhou de lado, como se dissesse algo como "Até parece." Eu quase ri como modo que, mesmo naquela forma e com dor, Quil ainda conseguia ser sarcastico com Embry.

"Ok, se você não acredita nele, acredite em mim." Eu ofereci, e Quil me encarou. "Todos os ossos do seu corpo se quebraram e mudaram de forma. Agora, você tem quatro patas e um monte de pelo. O que acha de sairmos daqui antes que alguém te veja e lhe dê um tiro?"

"Jacob!" Chamou Sam, claramente me dizendo para calar a boca. Eu dei de ombros.

O lobo chocolate ganiu, dando mais um passo para trás, tentando se afastar.

"Quil, logo sua mãe chega em casa. Você não pode ficar perto dela sem ter controle. Você não quer que ela se machuque, certo?" insistiu Embry, apontando para o barraco todo que Quil havia destruído durante a sua transformação.

Quil encarou a grande pilha de escombros por alguns minutos, parecendo não acreditar que tivesse sido ele quem tivesse feito aquilo. Ele olhou ao redor, ansioso e confuso, murmurando ganidos como se tentasse se explicar, antes de notar que nenhum de nós o entendia.

Nós continuamos a incentivá-lo, tentando o tirar dali. Eu sabia que não tinhamos muito tempo, já que ele não parava de fazer barulho. Se ele se recusasse a cooperar por mais tempo, nós teriamos que o tirar dali a força, o que não seria nada bonito.

A menção de sua mãe, porém, pareceu ajudar a tirá-lo do seu estupor inicial, o que não me surpreendeu, já que Quil sempre foi ligado a sua mamãe, e faria de tudo para protegê-la.

Ele deu alguns passos em direção à Embry, cambaleando antes de, finalmente, se firmar em suas pernas, que tremiam. Imaginei que todos os seus músculos deviam estar em chamas, a cada passo que dava.

Sam deixou que Embry o guiasse por entre as casas, em direção à floresta, o encorajando a cada passo lento.

"Obrigado, Sam." Agradeceu o Velho Quil, entregando um par de calças de moletom pertencentes ao neto, para o alfa. Ele segurou a sua mão. "Por favor, cuide bem dele."

"Não se preocupe. Ele vai ficar bem." Sam sorriu por um momento, antes de seguirmos os outros dois.

"Então finalmente aconteceu." Eu murmurei, minha voz quase não saindo, mas Sam ouviu de qualquer forma. Ele balançou a cabeça.

"Quil se juntou ao bando." Anunciou ele, com tanto pesar na voz quanto eu.

Embry tinha feito um bom progresso em pouco tempo; Ele e Quil já haviam passado alguns metros da orla, floresta adentro, quando os alcançamos.

O ar ao meu redor pareceu mais gelado e todos os pelos do meu corpo se arrepiaram novamente quando outro uivo cortou o céu de La Push. Esse, eu podia facilmente reconhecer como sendo de Seth. Quil travou no lugar; suas orelhas abaixaram e grudaram em seu crânio; sua cauda se encolheu entre as pernas.

"Ugh, o que foi agora?" questionou Embry, ainda mantendo uma das mãos apoiadas no tronco de Quil, para que o mesmo soubesse que tinha apoio.

Sam trocou um olhar comigo, confuso por um momento, antes de mais um uivo se juntar ao de Seth. Aquele era Jared.

Aquilo só poderia significar uma coisa.

"Embry, você fica com o Quil. Tente o levar para a Emily." Instruiu Sam, com urgência em sua voz, entregando o par de calças de Quil a Embry. "Eu dou um sinal caso precise de você."

Embry assentiu, relutante. Eu podia ver que ele não gostava de ser deixado de fora, mas, ao olhar para a forma assustada de Quil, a determinação voltou aos seus olhos.

Eu corri por entre as árvores, deixando-os para trás. Logo minha bermuda estava amarrada em minha perna, novamente, e deixei meu lobo tomar conta de mim.

Sam também se juntou à confusão, que era o link do bando.

"Sam, finalmente!", Seth disse, grato.

De um lado, Quil não parava de fazer perguntas para Embry, que não fazia ideia de que ele estava perguntando qualquer coisa, pois não estava transformado; do outro, Jared, Leah e Seth corriam pela floresta, com toda a força.

Demorou um segundo até que eu entendesse o motivo de todo o alvoroço e correria. A figura ruiva da vampira psicopata pulava de árvore em árvore, como um macaco, provocando-os.

"Porra, hoje é o dia." Amaldiçoei, correndo com toda a minha força para me juntar aos demais, enquanto Sam gritava ordens a torto e a direito, tentando arrumar a desordem que havia se instalado.

Quil choramingou em nossas mentes.

"Onde raios está o Paul?!" , perguntou Jared, notando a sua falta.

"Eu juro que se ele estiver dormindo, enquanto eu caço essa psicopata na minha folga, eu vou castrá-lo!", prometeu Leah, enquanto ganhava a dianteira na caçada, com facilidade.

"Conte comigo." Eu concordei.

"Foco, vocês dois! Nós lidamos com ele mais tarde." ordenou Sam; o timbre Alpha dominando sua voz. "Vamos acabar com essa parasita hoje!"

"Sim!" concordamos, em unissono.

O som de nossos rosnados ecoou pela floresta.

Notas finais
Eu e a Carol, juntas, lemos mais fanfics do que se pode contar e muitas delas, nas quais, as escritoras tentaram descrever uma transformação e nenhuma, nunca realmente me satisfez. No livro, Jacob sempre deixa claro como a primeira transformação é dolorosa e descreve como a coisa mais dolorosa que passou. Assim, espero que tenha conseguido transmitir o quão desorientador e confuso essa situação foi para Quil. Como sempre, obrigada pelo apoio e comentários! Eu vou tentar respondê-los assim que tiver um tempinho livre, então não se desencorajem! Beijos, Gi.