Full Moon
15 A Conversa
Notas iniciais

“It’s a wolf thing.”
“It’s a Jacob thing. You are just warm.”
― Bella to Jacob
“Quem ela pensa que é?” riu uma garota qualquer, olhando em minha direção. Sua amiga trombou em meu ombro quando passou por mim, quase me mandando para o chão.
Mordi a língua — tentando não deixar que a raiva tomasse conta de mim -, enquanto caminhava até minha última aula do dia, à passos largos, ansiosa para acabar logo com aquele sofrimento.
Eu não sabia se depois da conversa com Jéssica, havia ficado mais consciente das pessoas que me olhavam com desgosto, ou se eles haviam apenas decidido que não precisavam mais esconder seus sentimentos a meu respeito.
Havia algum assunto — além daquele que Jéssica havia mencionado — rondando a escola. Até aquele momento, não havia chegado a mim, mas eu podia dizer, com certeza, que era sobre como eu havia deixado Edward plantado na escola, e ido em direção a outro cara no estacionamento.
Não que eu quisesse que o burburinho chegasse até mim, de qualquer forma. Eu não tinha interesse no que quer que estivessem falando.
Não pude evitar, porém, de pensar sobre o fato de que Edward, com certeza, sabia tudo o que estava sendo dito sobre nós, e não estava movendo um músculo para fazer com que parasse. Apertei minha mandíbula, tentando me manter calma, mas foi em vão. A raiva da garota que quase me derrubou ainda borbulhava em minhas veias, ardendo, junto com a raiva de Edward Cullen.
O fato de ele pensar que poderia voltar, depois de todos aqueles meses, achando que eu cairia em seus braços, como se nada tivesse acontecido, me fazia fulminar. Agora, além de tudo, deixar que fofocas rondassem a escola, apenas para que eu me sentisse incomodada o suficiente para voltar a falar com ele, era infantilidade demais.
Minha língua chegava a coçar, pronta para deixar saírem as palavras que estavam presas em minha garganta.
Se ele ousasse chegar perto novamente; Se ousasse dirigir a palavra a mim…
Eu estremeci, e não por causa do frio.
Quando passei por Edward, no fim da aula, não foi nenhum sacrifício ignorá-lo. Na verdade, usando minha renascida raiva como combustível, consegui me convencer de que ele nem estava presente, o que aliviou parte da minha angústia. Mal sabia ele que suas próprias ações estavam me empurrando cada vez mais para longe de si.
No estacionamento, quando nossos olhos nos encontraram, por apenas um segundo, lancei-lhe o olhar mais gelado que consegui.
No caminho até a caminhonete, os olhares de ódio ainda me atingiam com força, mas, ao contrário do que pensavam, eles não me intimidavam; apenas aumentavam ainda mais minha raiva.
Ver Jacob encostado na porta do motorista, com uma camiseta preta toda amarrotada e com estampa de banda, foi, novamente, como ver uma luz no fim do túnel. Ele notou meu humor imediatamente, e abriu a porta para que eu entrasse, sem nem precisar que palavras fossem ditas.
Quando fechou a porta atrás de si, ele me encarou por alguns segundos.
“Preciso matar alguém?” perguntou. Sua expressão era divertida, mas ainda pude ver traços de preocupação em seus olhos.
“Não, mas preciso que você me tire deste estacionamento, antes que eu seja expulsa por socar a cara de alguém.”
Não sei se foi a expressão em meu rosto, ou o tom sério de minha voz — que raramente fazia uma aparição -, mas seus olhos arregalaram levemente enquanto ligava a caminhonete, que fez um barulho sofrido quando ele, finalmente, pisou no acelerador.
“Precisamos dar um jeito de te arranjar um carro deste século.” resmungou, enquanto seguíamos a um ritmo lento, apesar de ele estar com o acelerador pisado até o fim.
Eu ri fraco, mas sabia que ele estava certo. A caminhonete não estava em seu melhor estado, e logo, provavelmente, me deixaria na mão. Claro que eu sempre poderia contar com Jacob para consertá-la, se precisasse, mas pensar em ter um meio de transporte que não gritasse quando precisasse ir um pouco mais rápido era muito interessante.
“Então…” Começou Jacob, virando para olhar para mim, quando paramos em um semáforo. “Vai me dizer agora o que aconteceu? O que o sanguessuga fez, desta vez?”
Eu suspirei pesadamente, olhando pela janela. Sua presença havia me ajudado a diminuir a raiva latente que borbulhava em minhas veias, mas eu ainda me sentia irritada. Imaginei se era uma boa ideia contar tudo a Jacob, sabendo que sua reação seria algo similar a minha, se não pior.
Seus olhos escuros, grandes e pidões, porém, inutilizaram qualquer dúvida que eu tinha. Eu já não conseguia mais esconder algo de Jacob
“Ele não fez nada desta vez. Bom… não diretamente, pelo menos. Aparentemente não sou mais tão popular, segundo as fofocas da escola.” murmurei, dando de ombros, como se o assunto não incomodasse o tanto que realmente me incomodava.
Uma das sobrancelhas de Jacob se ergueu, claramente vendo através de minhas palavras vazias. “Você está nas fofocas da escola?”
Eu o encarei de soslaio.
”Você realmente achou que não iam fofocar, depois de verem você e Edward se encarando no estacionamento, aquele dia?”
Jacob deu de ombros. “Para falar a verdade, nem passou pela minha cabeça.”
“Pois agora você sabe.” Eu bufei, cruzando os braços sobre o peito. “Só não esperava que tantos tomassem o lado dele.”
Contrariando todas as minhas expectativas, Jacob latiu uma risada alta, quase fazendo a caminhonete toda tremer, enquanto dirigia. “Então é por isso que você está tão irritada? Por que os alunos estão do lado drácula de araque, nessa história?”
“E como não estaria, Jacob?! Ele volta, depois de seis meses, sorrindo, como se nada tivesse acontecido, e, quando eu não dou bola e tento seguir em frente, eu que sou a errada?!” Eu grunhi, sentindo a irritação voltar com força. “E ele não faz nada! Apenas deixa os rumores se espalharem. Agiu como vítima, e agora a escola inteira me odeia por quebrar o coração do principezinho.”
Olhando pela janela, revirei os olhos. A ideia de um vampiro precisar de um bando de garotas adolescentes para protegê-lo era ridícula. Eu sabia que os Cullens eram populares, mas, não sabia que eram tão populares a ponto de terem fã clubes!
"Ele é um imbecil, Bella. Acha que vai ganhar algo ao se fazer de coitado.”, respondeu, sua voz se tornando dura. Pude notar que ele estava tão incomodado quanto eu. “Deve estar esperando você ir falar com ele.”
“Há! Ele que espere sentado, então, se realmente acha que vou cair nessa.” Cuspi. “Não estamos no jardim da infância.”
Jacob riu baixinho, chamando a minha atenção. Sua mão alcançou o meu rosto e ele acariciou as minhas bochechas. “Você fica ainda mais linda com raiva.”
Eu corei, sendo completamente desarmada por seu comentário.
Pela primeira vez naquele dia, foquei em seu rosto prestando atenção em todos os detalhes. Ele estava obviamente cansado; provavelmente por não ter dormido muito na noite anterior. Notar aquilo foi o suficiente para me fazer esquecer todos os meus problemas. Virei-me para ele, abraçando-o de lado, como costumava fazer todas as vezes que ele dirigia, sentindo seu calor preencher-me instantaneamente.
Seu braço passou ao meu redor, e ele me abraçou de volta. Depois de tê-lo abraçado sem barreiras por tanto tempo, sentir sua camiseta entre nós foi um tanto estranho, para dizer o mínimo. Sorri para mim mesma, achando engraçado o modo como tínhamos as coisas misturadas daquele modo. Que outro casal acharia mais estranho estarem ambos vestidos, do que o contrário?
"Jake! Onde foi que conseguiu essa camiseta e os sapatos?" Perguntei. "Achei que você não fosse mula de carga, ou algo assim."
“Você preferia que eu aparecesse para te buscar só de bermuda?” Ele sorriu de lado. “Por mim, sem problemas. Apenas pensei que você não quisesse chamar atenção na escola. Se não considera toda a falação sobre você suficiente, é só falar. Posso aparecer lá na escola com o banco todo.”
“Deus me livre. Imagine o que chegaria nos ouvidos de Charlie.” Apenas o pensamento me fez tremer. “Só…fiquei curiosa, já que, na quarta-feira, você também estava completamente vestido quando foi me buscar na escola, e não estou acostumada a ter ver… assim.”
Eu segurei a sua camiseta com dois dedos e Jacob riu, “Assim.” repetiu ele com um riso desacreditado. “Pode ser difícil acreditar mas, apesar de ter destruído a maior parte do meu guarda-roupas, ainda tenho roupas suficientes para ir buscar minha garota na escola.”
Imediatamente, me lembrei de algumas semanas atrás, quando Paul e Jacob se transformaram bem na minha frente, deixando as suas roupas em frangalhos, e em como Embry e Jared fizeram piada com o fato de que teriam que andar descalços, se não parassem de destruir seus sapatos.
Eu quis perguntar para Jacob se ele realmente tinha roupas suficientes, e se precisava de algo, mas a caminhonete encostou em frente a minha casa, e não pude deixar de notar a viatura de Charlie já estacionada ali. Fiquei confusa por um momento, enquanto tentava fazer sentido Charlie já estar em casa tão cedo, apenas para, um segundo depois, lembrar da tal ‘conversa’ que ele queria ter comigo.
“Charlie já está em casa.” Anunciou Jacob, e eu apenas balancei a cabeça, assentindo e suspirando longamente.
“Eu te convidaria para entrar, mas acabei de lembrar que Charlie disse ter algo pra conversar comigo.” Eu disse, chateada.
Jacob desligou o carro, antes de se virar para mim, e me envolver em um abraço completo, dessa vez. “Não tem problema. Estou feliz em poder ter te visto pelo menos um pouco, hoje.”
Eu escondi meu rosto em sua camiseta, inalando o máximo do seu cheiro.
“Talvez você pudesse voltar mais tarde.” murmurei, com a voz saindo abafada.
Jacob riu.
“Talvez.” respondeu, colocando a mão no meu queixo e levantando meu rosto. Nossos olhos se encontraram por um momento, antes de seus lábios cobrirem os meus, gentilmente.
Não haveria momento em minha vida, onde eu me acostumaria com o choque gerado com o toque nossos lábios, todas as vezes. A diferença de temperatura era tão grande, que fazia arrepios surgirem por todo meu corpo, e eu perdia a linha de raciocínio facilmente.
Sua língua passou por meus lábios, como se os experimentasse, por um momento, antes de eu recebê-lo em minha boca, usando a minha própria língua para sentir a textura da sua. Em poucos segundos, eu estava derretida em seus braços, beijando-o entre suspiros, e me deixando ser completamente dominada por ele.
Foi Jacob quem quebrou o beijo, fazendo-me resmungar com a falta de contato.
Ele riu baixinho, “Eu sei. Também não queria parar, linda, mas acho que vi Charlie espiando pela janela. É melhor você entrar.”
Contra a minha vontade, me afastei dele e concordei. Puxei minha mochila do banco ao meu lado, antes de pendurá-la no ombro, e sair do carro, com Jacob em meu encalço. Nós paramos, um em frente ao outro na calçada, e eu lhe dei um último longo abraço.
Quando entrei em casa, Charlie estava sentado em frente à televisão, como sempre. Respirei fundo, tentando criar coragem para seja lá qual fosse a conversa que ele queria ter.
“Oi, pai.” Cumprimentei, entrando em seu campo de visão, e me sentando na poltrona ao seu lado. “Como foi o seu dia?”
O modo como Charlie fingiu surpresa em me ver ali quase me fez gargalhar. Ele tinha a televisão ligada em um canal completamente aleatório que transmitia uma novela mexicana, e parecia sem fôlego, quando respondeu: “O mesmo de sempre. Como foi a escola?”
Ele, obviamente, havia corrido para ligar a televisão e fingir que estivera assistindo a ela todo esse tempo, e não espiando pela janela.
Senti meu rosto esquentar.
“O mesmo de sempre.” Respondi, copiando sua resposta, e me levantando com o intuito de deixar minhas coisas no quarto, mas ele me parou, rapidamente.
“Bella, por que você não se senta para termos aquela conversa?”
Deixei meu corpo cair novamente na poltrona; dessa vez sentindo cada músculo do meu corpo se retesar. Lá vamos nós, pensei.
Vendo que eu não diria nada, ele se apressou para começar.
“Bom… Notei que você e Jacob estão… cada vez mais próximos e, uhm, mais sérios em seu, hã, relacionamento.”
Eu gemi em protesto, deixando a cabeça cair para trás, no encosto da poltrona.
“Ah não, pai. Você realmente me chamou aqui, em plena sexta-feira, para ter uma conversa sobre… meninos? De novo?”
Ele ajeitou a postura, tentando parecer mais sério, mas pude ver como aquela conversa o deixava tão desconfortável quanto a mim.
“A última vez que conversamos sobre isso foi há mais muitos meses.”
“E uma vez por ano já não é o suficiente? Eu tenho certeza que tudo ainda funciona da mesma forma.” retruquei, olhando em seus olhos.
“Bella…” Censurou ele, por um momento, antes de dar um grande suspiro. “Mesmo que a nossa última conversa tenha ido bem, e você tenha sido… responsável, isso não significa que as coisa não mudaram desde então.”
Eu cobri meu rosto com as mãos, “Está tudo igual, pai! Eu juro para você. Nós não precisamos falar disso, especialmente em uma sexta-feira à noite!”
“É exatamente por ser sexta-feira que quero falar sobre isso, Bella.” afirmou. “Sei que está com Jacob, e, levando em consideração tudo o que vem acontecendo, irá querer passar mais tempo em La Push do que antes. Acredite, eu estou mais do que feliz por isso, mas…”
“Sem ‘mas’, pai.” interrompi. “Eu estou te dizendo, você realmente não precisa se preocupar com esta parte do meu relacionamento, ok?”
Ele parou por alguns segundos, como se considerasse o que eu dizia, e eu abaixei minhas mãos para encontrá-lo visivelmente mais relaxado. “Ok, acho que você pode falar com sua mãe sobre isso mais tarde, então.”
Eu estaquei, você contou a ela sobre Jacob?"
“Ela ligou mais cedo, e eu não sabia que você não tinha comentado.” Ele deu de ombros, não parecendo nem um pouco culpado pela fofoca. “De qualquer forma, ela disse que você precisava ligar para ela porque está na hora de marcar o seu checkup anual e, ela, uh, sugeriu, talvez, um ginecologista…”
“Tá bom! Pode deixar. Eu vou ligar para ela agora mesmo! Apenas mude de assunto, pelo amor de Deus.” Exclamei, me levantando, pensando em sair correndo daquela conversa humilhante, mas ele me parou novamente.
“Ok, ok! A pior parte já passou, eu prometo.” garantiu, levantando as mãos em sua defesa. “Eu só queria dizer que, apesar de ter dito antes que estou muito feliz por você e Jacob, quero que saiba que estarei sempre aqui por você. Mesmo que eu adore o garoto, e que seja filho do meu melhor amigo, isso não vai me impedir de dar um tiro nele, caso seja necessário.”
Dessa vez eu não consegui segurar a minha risada. “Billy ficaria muito feliz em ouvir você prometer dar uns tiros no caçula dele.”
“Não me importo com o que Billy pense. Minha filha é minha prioridade.” Charlie deu de ombros. “Falando em Billy, se você não tiver planos, ele nos convidou para jantar em sua casa, hoje, com os Clearwater.”
Charlie me olhou de lado, como se esperasse por alguma reação minha ao contar aquelas notícias, e confesso que tive que me segurar para não exibir um sorriso gigante. Limpei a minha garganta, garantindo que minha voz estivesse estável, antes de responder que não tinha planos para aquela noite.
Há! Jantar na casa de Jacob? Não precisava pedir duas vezes.
“Ok, sairemos às seis. Assim você tem tempo suficiente para ligar para Renée.” Ele finalizou a conversa com um sorriso satisfeito no rosto, e eu me limitei a assentir e sair da sala, grata por aquela tortura ter terminado.
Inevitavelmente, acabei pendurada no telefone da cozinha por mais tempo do que eu gostaria, pois minha mãe tinha muito a dizer. Eu não estava errada ao imaginar que Renée estaria andando em círculos depois de ouvir as notícias vindas de Charlie, esperando minha ligação. A enxurrada de perguntas que me atingiu foi tão, se não mais, constrangedora quanto as que Charlie tinha aludido mais cedo.
Eu sentia que tinha perdido alguns anos de vida, tentando cochichar ao telefone, para que Charlie não ouvisse as respostas que eu dava a ela. Diferente de Charlie, Renée não tinha vergonha nenhuma de entrar em detalhes, e não deixava o assunto de lado até estar completamente satisfeita com minha resposta.
Antes de desligar, ela disse que já tinha marcado médico para mim na semana seguinte, e que ligaria depois para saber como tudo tinha ido. Meu rosto provavelmente parecia um tomate quando, finalmente, subi as escadas em direção ao banheiro, com a intenção de tomar um banho gelado.
Aquela não tinha sido a conversa que eu esperava ter.
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