Fuga para liberdade
6 Não sou obrigado a sorrir...
Notas iniciais
POV: O invisível
— Cadê o papai? Ele prometeu para mamãe que estaria aqui Perséfone!
O pequeno menino mostrava o quanto estava emburrado pelo atraso do pai, inconformado por ele prometer algo que não iria cumprir. Para extravasar balançava a perna é olhava de sua irmã para a babá deixando-as nervosas com seus movimentos constantes.
— Nico querido, pare! – Perséfone exigiu enquanto olhava distraidamente os médicos ou enfermeiras passarem pelo corredor apressados.
— Mas ele prometeu! – o menino disse exaltado,
— Ele não vem, sabe disso. – a voz de Bianca ressoou como um choque de realidade para o seu irmão caçula.
— Mas... A Hazel, ela vai nascer! Papai prometeu que estaria aqui! – a garota de dez anos olhou seriamente para o seu irmão e logo depois bufou.
— Papai promete muitas coisas, mas dificilmente cumpre uma. – disse vendo o semblante triste de seu irmão. – Agora para de nos chatear.
Minutos se passaram e Hades não apareceu, Hazel nasceu. Para a felicidade dos dois irmãos Hazel nascera forte e saudável.
Os mesmos encaravam com faces sorridentes a pequenina que se encontrava no berçário:
— Por que ela tem a cor diferente? – Nico indagou estranhando sua pequenina e recém-nascida irmã.
— Não seja bobo, ninguém é igual! Já imaginou se todas as pessoas fossem iguais a você? Seria horrível. – respondeu Bianca inocentemente.
Longe deles, Perséfone, a babá recebia uma noticia que abalaria a já tão fragilizada família Di Ângelo. Maria não resistira ao parto, mas segundo o médico fora forte o suficiente para pelo menos olhar para sua filha uma única vez.
Como a vida é dura não é mesmo? Em um momento estamos em um completo conto de fadas onde acreditamos em um lindo e magnifico final feliz, e em outro nossas asas são arrancadas e o chão se torna algo terrivelmente assustador. Pobre Nico, seu conto de fadas durou tão pouco que nem deu tempo de sorrir.
***
— Ai! Você me machucou Bi! – a voz de Hazel soara estridente e chateada com nossa irmã mais velha.
— Desculpe querida, mas você sabe que não é fácil arrumar seu cabelo. – a Bianca com seus cabelos mais negros do que a escuridão proclamou olhando pelo espelho a pequena Hazel a mesma continha bochechas infladas em um claro sinal de nervosismo.
Suspirei, mas continuei calado enquanto apreciava a aconchegante cama de casal que Bianca tinha (quando a mesma voltasse para a faculdade daria um jeito de surrupiar sua cama para mim). Ouvir as duas brigando por causa de cabelo ou qualquer outra coisa feminina era o cumulo para minha pobre pessoa, mas fazer o que? Eu tinha o desprazer de ser a pessoal mais antissocial possível, as duas e suas brigas constantes eram apenas uma das consequências causadas pelo meu palpável desgosto pela sociedade.
— Nico é muito melhor em pentear meu cabelo que você, sua bruta. – eu era um completo desastre, mas a baixinha fazia questão de provocar Bianca, o que sempre sobrava para o inocente aqui.
— Então mande Nico arrumar o seu cabelo, ou faça você mesma. – pude ver Hazel arregalar os olhos em desespero enquanto a única coisa que me coube a fazer foi gargalhar de sua careta.
— Agora ela te pegou pequena! – disse depois que os risos foram embora.
Eu sabia, Hazel sabia e Bianca sabia: nunca se deveria colocar um pente nas mãos dos Di Ângelos mais novos, a não ser que quisesse encher o mar com suas lágrimas.
***
Era possível escutar algumas risadas no andar de baixo, risos que diziam que a piada era muito “engraçada” e não dava mais para segurar, além das risadas violinos também eram ouvidos e a cada segundo odiava mais um pouco minha existência, a existência da alta sociedade e daquela maldita escada que eu deveria descer com minha irmãs ao meu encalço.
— Não sei por que ainda faço isso, ele nunca faz nada para ser um bom pai! – sussurrei para Bianca, não gostaria que Hazel ouvisse.
— Sabe muito bem que é para ele não encher o saco! Nem eu, nem você gostamos quando ele vem com aquele papo de não manchar o nome da família, de ser tão nobre quanto nosso sobrenome. – Bianca disse seguindo Hazel pela longa escadaria de nossa casa.
Após longas lufadas de ar finalmente consegui seguir minha irmãs, umas três escadarias atrás delas e muitas escadarias á cima de todas aquelas pessoas aquelas e seus sorrisos ridiculamente falsos. Todos aqueles convidados do meu pai não passavam de meros figurantes, figurantes que eu fazia questão de nunca decorar o nome ou prestar atenção para em suas entediantes conversas, mas entre aqueles considerados por mim deveras supérfluos tinha meu pai, com seu belo terno Armani e sua linda esposa a tiracolo ou considerada por seus três filhos, ex — babá.
Aparentemente o senhor Hades achou muito mais barato ter uma esposa do que uma babá, e como Perséfone não é boba nem nada do tipo, foi a primeira a se candidatar; a malandrinha nem deu direito para as concorrentes, pegou o velho e já foi gritando a quatro ventos que ele era seu. Estavam casados há dez anos, sim o cadáver de minha mãe nem tinha esfriado direito, e hoje infelizmente era o aniversário de casamento dos dois. Hades como um maldito empresário que era chamou todos os seus sócios, futuros sócios ou a concorrência apenas para mostrar como era abençoado. Tendo uma linda e jovem esposa, (que nem tivera passado das quatro plásticas, ainda) uma bela mansão com uma decoração mais cara que muitas lojas de grife por aí e seus três maravilhosos filhos que nunca manchavam o nome da família (mesmo que Hazel seja um fruto fora do casamento).
Sim, meu pai era um filho de uma avó maravilhosa que não merecia ter uma cria tão manipuladora, com toda essa família merecedora de capa de revista Hades iria se fortalecer com os antigos sócios, conseguir cair na graça dos futuros sócios e como diz Bianca: sambar na cara do recalque que é a concorrência.
Aquilo tudo não passava de um jogo de interesses, um detestável jogo em que eu participava desde meu nascimento, e eu o odiava profundamente.
***
O velho barrigudo dizia algo, eu mostrava um sorriso de bom ouvinte, mas a única coisa que eu queria fazer era dizer que sua peruca estava torta e que provavelmente ele seria motivo de chacota para todos daquela sala, só que eu não disse nada apenas sorri e concordei com o que ele dizia. No momento que o velho barrigudo se distraiu deu um jeito de escapar, foi para a varanda o local mais silencioso em que eu poderia estar.
Sem toda aquela falação no meu ouvido pude finalmente relaxar, algo muito difícil de fazer quando se tem predadores experientes em sua volta. Em certo momento comecei a olhar para o jardim cuidadosamente cuidado por Perséfone, minha mãe cuidava dele antes dela e depois que a mesma se foi Perséfone fez questão de manter do mesmo jeito, acho que no final das contas minha madrasta teve uma grande admiração por Maria Di Ângelo tanto que nunca tentara fazer com que eu e Bianca a chamássemos de mãe. Era isso que eu gostava de Perséfone, ela não agia como uma substituta, mesmo sendo uma.
Mas a questão é que naquele velho jardim onde eu brinquei tantas vezes tinha uma pessoa, acho que um ser muito mais solitário do que eu e mesmo com uma luminosidade precária pode ver quem era: a garota dos casacos. Para ser mais preciso Thalia Grace, a bastarda de Zeus. Sabia o do por que ela também fugir desses eventos: os pútridos olhares, aquelas pessoas que a menosprezavam como se culpasse a mesma por ser quem, Hazel também recebia, mas Bianca e eu fazíamos de tudo para que a mesma não percebesse. Mas diferente de Hazel, Thalia nunca tivera e nunca teria alguém para protegê-la e isso fazia com que eu tivesse compaixão pela garota.
— Te achei! – quase soltei um palavrão quando Hazel abraçou minhas costas, segurei-o com garra.
— Quer me matar de susto garota? – perguntei, mas apenas recebi um sorriso sapeca.
— Quem é ela? – olhei na direção que Hazel apontava, Thalia. – Você ficou um bom tempo encarando ela. – falou de modo acusador.
— Uma garota da escola! – depois que respondi um longo silencio se formou, até Hazel quebrá-lo.
— Ela deve ser igual a você pra tá se escondendo! Aposto que não sorri também. – falou convicta.
— Ela não é igual a mim, qualquer um se esconderia de música clássica e eu sorrio sim! – rebati.
— Sorri nada, seus sorrisos é a coisa mais falsa que existe, é muito raro ver o senhor sorrir de verdade. – falou já se virando para voltar à festa. – Tenho que ir, sabe como Bi vive atrás de mim nessas festas.
Após a saída da minha pequenina (muito esperta para sua idade) irmã, percebi que ela tinha razão.
Eu não sorria. E nem era obrigado a tal feito.
Depois de tanta pancada que a vida deu de graça para minha pessoa percebi uma coisa: eu não era obrigado a sorrir como aqueles seres completamente superficiais que estavam na minha sala.
Lancei um ultimo olhar para a garota dos casacos e voltei para a festa com pensamentos turbulentos: lembrei-me de hoje mais cedo, ela e seu jeito incisivo de afastar qualquer um fora do seu habitat natural e como parecia um bichinho encurralado quando questionada.
Tinha certeza de uma coisa: se eu não era obrigado a sorrir, Thalia Grace muito menos!
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