Fuga para liberdade
3 Não sou obrigado a ser gentil...
Notas iniciais
POV: Bad Boy
O volume da televisão estava ao máximo, mas mesmo assim não tinha potência nenhuma para abafar os gritos da mãe do garoto, ele apostava que até sua vizinha escutaria a voz aguda de Sally Jackson, mas sua mãe tinha todo o direito de gritar, afinal seu pai se esquecera novamente de outro torneio.
Para Percy isso não seria novidade, para sua mãe era menos uma gota de esperança que ela colocava em Poseidon. Teria a esperança de sua mãe morrido completamente?
Provavelmente sim, os xingamentos direcionados ao seu pai eram mais do que resposta.
Em determinado momento Percy parou de escutar e tentou começar a prestar atenção no desenho que passava na televisão, mas aparentemente sua mãe ficara rouca e parara de gritar para que segundos depois o som de vidro se quebrando fosse ouvido por toda casa. O pequeno Percy se desesperou e de modo desajeitado desceu as escadas apena para encontrar sua mãe com os cabelos bagunçados e lágrimas nos olhos.
— Mãe? – a voz do garoto soara baixa no recinto enquanto olhava de modo acusador para o pai que parecia muito calma para alguém que estava em uma briga.
— Percy, faça suas malas! – foi à única coisa pronunciada por sua mãe.
— Por que?
— Porque seu pai tem uma nova família, agora faça o que mandei!
E foi assim que uma vida não tão boa de Percy Jackson se tornou uma vida detestável. Ela nunca foi muito boa, mas até aquele momento Percy nunca achará que poderia piorar.
***
— Senhor Jackson. Senhor Jackson!
Juro que aquela linda garota de olhos esmeraldinos que me que me entregava o belíssimo troféu por ser o melhor nadador de todos os tempos, possuía a voz grossa e roucamente entediante do meu professor de física.
— Senhor Jackson! – me sobressaltei olhando para os lados e vendo que eu não me encontrava mais junto com a garota e o troféu e sim na sala de aula com todos os meus colegas rindo disfarçadamente do meu estado, enquanto o rosto entediante do meu professor quase se colava ao meu rosto assustado. – Sai da sala!
— O quê? – indaguei incrédulo.
— Se retire da minha sala agora senhor Jackson!
— Vai me tirar da sala só porque é um péssimo professor que não sabe manter os alunos atentos em sua matéria?! – falei enquanto via sua carranca ficar mais carrancuda ainda. – É muita ousadia do senhor. Sr. Smithers, como ficaria nosso esplêndido diretor ao saber o quão péssimo professor ele tem no colégio? O velho ficaria arrasado.
— Pra diretoria. Agora! – o rosto do Smithers se encontrava rubro de raiva enquanto o mesmo apontava seu dedo gorducho para a porta.
Bufei e comecei a pegar minhas coisas para me retirar de sala, mas antes mesmo que eu desse o primeiro passo para saída o professor fala:
— Senhorita Chase, leve o senhor Jackson para a diretoria. Não confio nele! – revirei os olhos e nem esperei a loira, voltando minha caminhada.
***
— Deveria mudar o seu comportamento! – Annabeth ainda insistia em manter algum tipo de conversa durante a maldita ida para a diretoria, isso era irritante. – Não entendo! Você é um bom aluno, tira notas boas, é o atleta de destaque da escola e mesmo assim insiste em ser um rebelde sem causa que sai das aulas praticamente todo o dia e que adora insultar e menosprezar os professores.
— Olha aqui senhorita perfeitinha, não pedi pra você entender e muito menos para tentar manter uma conversa mais que inútil entre a gente. – disse enquanto parava na porta da secretaria. – Agora se me der licença tenho que ir pra minha conversa semanal com o Sr. D
Virei-me prestes a entrar e começar a conversar com Julie (secretaria do diretor) enquanto esperava pelo o Sr.D, quando Chase continuou a falar:
— Ele não vem pra sua competição. Aparentemente teve que viajar a negócios para uma cidadezinha. – a voz de Chase era melancólica e baixa. – Sinto muito!
Sem me virar para encará-la falei:
— Não sinta Chase. Faz mais de dez anos que eu escuto o “ele não vem” e “viajem de negócios”. Parei de sentir a muito tempo. E a propósito, mande um beijo pro Tyson e um dedo do meio para a senhora destruidora de lares.
— Vai pro inferno!
Deixei um meio sorriso escapar e finalmente entrei na secretaria, sentei em uma das cadeiras e encarei a velha senhora na minha frente.
— Deveria ser mais gentil com a mocinha! – falou de modo repreensivo.
— Por que deveria? A mãe dela não foi o gentil o suficiente com a minha quando abriu as pernas pro meu pai! – Julie arregalou os olhos desviando rapidamente enquanto balançava a cabeça de forma negativa.
Eu não era obrigado a ser gentil, muito menos com a cria da maldita que acabou com minha família. Não seria só sorrisos e abraços com Atenas e Annabeth Chase, por causa delas minha mãe quase entrou em depressão e por causa de Atenas a vida de merda que eu tinha ficou muito pior.
Então não, muito obrigado. Mas serei tudo, menos gentil!
***
— Ele não vem! – falei ao ver minha mãe olhando á procura de alguém!
— Sim, eu sei! – disse com tom de descaso.
Estranhei, em todos os meus torneios Sally Jackson fazia questão de se decepcionar um pouquinho mais com Poseidon, e todas às vezes ela fazia a mesma coisa: olhava para os lados por alguns minutos, depois olhava em seu celular para ver se possuía alguma ligação, bufava; ficava na ponta do pé á procura de alguma cabeleira conhecida e por fim olhava para o chão e se sentava como se quisesse não mostrar sua tremenda decepção.
— Então por que esta olhando pros lados? – indaguei a procura de uma resposta.
— Não estava procurando se pai Percy...
A mesma foi interrompida por meu treinador.
— Vá para sua raia Percy, esta quase para começar! – Paul disse sorridente.
Olhei para os dois em minha frente e vi que os mesmos possuíam olhares cúmplices. Bom, já estava mais do que na hora da minha mãe esquecer o traste de marido que teve.
***
Eu já estava preparado na minha raia, só a espera da largada, meu coração batia rapidamente por causa da adrenalina enquanto minha respiração era calma e controversa de tudo que eu estava sentido.
Então a largada soou, o mundo evaporou e os gritos de euforia se dispersaram. Tudo que existia agora era eu e a água, a água e eu.
A sensação de entrar na água era simplesmente magnifica, ao perfurar a superfície da mesma me sentia atravessando um espelho apenas para entrar em outra dimensão, ao nadar eu sentia leveza, ao ponto de nem sentir meus músculos, era como se toda aquela água me acolhesse para um único abraço, um caloroso e perfeito abraço.
A adrenalina me tomava e de repente pensar era algo muito complicado de se fazer, eu me esquecia do meu pai, dos meus problemas e dos meus medos.
Mas como tão rápido chegara, rápido se ia.
O bater das mãos na chegada era a volta da realidade, um sentimento desesperador me possuía só de saber que aquele mundo em que eu estava era apenas temporário e o que me esperava era duradouro.
Eu não desejava sair, não desejava pisar no solo e encarar todos os meus medos.
Sim, eu era um tremendo de um covarde, mas não me importava, aquele era meu mundo, o mundo em que nada é lembrado, um mundo em que você é abraçado e em que a única coisa que você sente é a mais pura leveza.
Isso me dava certeza que muito dificilmente me afogaria na água, mas em compensação em terra firme eu era constantemente asfixiado.
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