Fuga para liberdade
4 Não sou obrigada a ser sã...
Notas iniciais
POV: Bastarda
Os pés descalços recebiam leves choques ao encostar-se ao piso liso e gélido daquela casa gigantesca, mas mesmo assim a jovem garotinha de cabelos escuros não se importava, na verdade até gostava. Fingia ser uma espiã que deveria entrar no campo inimigo na mais completa surdina.
Afinal, ela estava mesmo no campo inimigo, a dona da casa odiava que ela e seu irmão ultrapassassem os limites posto pela mesma, ou seja, se torne um fantasma que esta tudo bem.
Mas a garotinha era curiosa e gostava de andar pela casa toda pomposa a procura de um tesouro.
— Eu já disse pra você escolher! – a voz vinha do escritório do chefe de sua mãe, Zeus. – Ou nossos filhos e eu, ou aqueles malditos bastardos e a mãezinha deles.
Thalia não sabia o que significava bastardos, mas pelo modo feroz que a senhora Hera havia dito com toda certeza era algo horrível.
— Tudo bem Hera! Conseguiu o que queria. – a voz rouca de Zeus soara sem vida e cansada. – Satisfeita?
— Muito mais que satisfeita!
Mas o que os três não sabiam era que a resposta de Zeus traria consequências irreversíveis, consequências que a pequena Thalia desejaria para o resto de sua vida nunca terem acontecido.
***
— Eu não sei como você consegue ficar com essas blusas de frio até mesmo no verão Thalia! – a voz odiosa de Hera penetrava os meus ouvidos enquanto a linda família “feliz” tomava o seu café.
— E eu não sei como você consegue fazer tantas plásticas! Sabe que nenhuma vai funcionar! – Ártemis e Apolo seguravam suas risadas enquanto encaravam a careta que sua mãe fazia, Jason apenas me olhava com censura e o digníssimo Zeus se encontrava ocupado demais com o jornal.
— Como ousa falar isso? E você Zeus, não vai falar nada? Sua filha esta me insultando! – Zeus apenas a ignorou se despedindo de todos e saindo rapidamente da mesa sendo seguido por Ártemis e Apolo.
— E você Hera, como ousa tentar salvar aquilo que já não tem salvação! – falei sorrindo sarcasticamente, mas apenas o que recebi foi um olhar gélido e sarcástico.
— Tem razão querida, não por quê ainda tento com você. – sua voz era odiável, sua presença era repugnante e sua falsidade era deveras hedionda. – Agora vão embora vocês dois! Não vão querer se atrasar para a escola, não é meus amores? – apenas lancei um olhar de repulsa e segui os passos duros e robóticos do meu irmão.
***
Quando eu era pequena desejava ter muitos amigos para brincar, mas as únicas crianças com quem me envolvi durante minha infância foi com meus irmãos, lembrando que dois deles eu nem poderia chegar perto que logo uma dondoca maldita corria aos gritos para me afastar deles, sendo uma mãe zelosa que nunca foi e nunca seria. Mas a questão é que eu sempre fui muito sozinha e essa solidão só diminui um pouco quando conheci Annabeth Chase. Ela não era nem um pouco parecida comigo, mas era a única que parecia me entender, a única que foi capaz de estender a mão e era por isso que eu a admirava, porque ela foi capaz de fazer algo que ninguém nunca faria.
Me deu um pouco de vida.
— Você chegou cedo. – falei sorrindo para Annie ao mesmo tempo em que passava o olhar pelo campus da escola, vendo caras amassadas e emburradas chegarem na escola. – Você nunca chega cedo!
— Meu padrasto recebeu um telefonema, teve que sair correndo. – ela falou enquanto começava a andar do meu lado. – Acabou tendo que viajar as pressas, resolver alguma coisa de um amigo. – terminou dando os ombros.
— Hoje não tem o torneio do Jackson? – sabia muito bem o que Annie enfrentava em casa, ela sempre vinha desabafar comigo toda vez que alguma coisa entre o babaca filho e o babaca pai e acontecia.
Annabeth apenas arregalou os olhos como se já previsse uma tempestade fenomenalmente mortal em seu em calço.
E era por isso que eu gostava da Annabeth Chase, ela era prova viva de que minha vida não estava totalmente fodida, ainda.
***
Cabular.
Eu vivia cabulando as aulas. Não era como se eu tivesse pais atenciosos que se preocupavam com o futuro o meu futuro, longe disso, eu tinha a futilidade encarnado de madrasta e um pai ganancioso que faltava levar o seu dinheiro pra dormir com ele.
Eu tinha uma família perfeita, só que não. Então para compensar minha falta de sorte de não ter uma família legal eu cabulava as aulas.
E era isso que eu estava fazendo quando vi Annie passar como um raio de tão rápida, mesmo assim era possível escutar os palavrões nem um pouco bonito que ela falava.
— Será que ela perdeu á aula? – perguntei pensativa.
— Não!
A voz rouca atrás de mim me fez pular de susto e me virar rapidamente para ver quem era o intrometido.
— Não o que? – perguntei ríspida.
— Ela não perdeu a aula.
— Como você sabe Di Ângelo?
— Estava passando pela secretária quando vi ela e o Jackson brigando pela aparentemente falta de decoro do pai do Percy em relação a ir às competições de natação. – suspirei, era mais do que provável que isso aconteceria, apenas esperava que Annie estivesse bem. – Esta de blusa de frio!
— E daí? – perguntei arisca.
— E daí que estamos no verão. – Nico apenas me lançou um sorriso torto como se dissesse que sabia o que eu estava escondendo por baixo da blusa, virou-se e foi embora com seus passos sorrateiros e seus olhares de um predador experiente.
Nico Di Ângelo era um garoto assustador, sorrateiro como um gatuno passava despercebido por todos, fazendo com que o mesmo soubesse de um podre de cada um dessa escola. E o mais assustador ainda é que ninguém sabia nada sobre dele, fazendo com que todos especulassem e fizessem lendas em sua volta.
***
E lá estava eu, novamente em meu secreto ritual.
Eu não era uma pessoa sã, disso tinha certeza, mas eu não desejava a cura, pra mim aquilo era a cura, o meu único modo de escape.
A pequena lâmina brilhante passava por minha pele branca, deixando o vermelho se libertar de modo lento. Era doloroso, mas mesmo assim me trazia um alivio que não poderia ser explicado com palavras simples.
Eu não era uma pessoa sã, estava longe de ser, mas mesmo assim não desejava ser normal.
O som do chuveiro, a água caindo e o sangue manchando o piso era a etapa final, era temporariamente o fim daquele ciclo vicioso e enquanto a água limpava o escarlate do meu corpo também deixar as lágrimas serem limpas.
Eu não era sã, disso tinha certeza. Mas se ser uma pessoa sã é enfrentar seus piores medos, de modo heroico e com os valores intactos, então não, eu não seria sã.
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