Fuga para liberdade
5 Não sou obrigada a admitir...
Notas iniciais
POV: Queridinha
Os sons predominantes naquela pequena praça arborizada eram os rangidos dos brinquedos e as risadas das crianças. Mas mesmo assim a pequena garotinha de olhos acinzentados e cabelos dourados não se encontrava brincando com as outras crianças de sua idade, na verdade ela se encontrava um pouco afastada, sentada em um banco de madeira á espera de seu amigo.
Em um de seus suspiros irritadiços pela a espera, seus olhos foram tapados por mãos gorduchas enquanto uma voz brincalhona invadia seus ouvidos.
— Adivinha quem é! – sem ao menos responder a garota já tirava as mãos que cobriam seus olhos e se virava para encarar o garoto com reprovação.
— Você demorou! – falou de forma acusadora enquanto cruzava os braços.
— Mil desculpas milady, não foi a intenção deste nobre cavalheiro lhe deixar esperando. – o menino fez uma reverencia exagerada e logo depois se sentou ao lado da garota.
A menina apenas revirou os olhos e se manteve calada, voltando a prestar atenção no parque.
— Minha mãe esta estranha! – revelou após uns minutos de silêncio.
— Como assim estranha Annie? – indagou o amigo ao mesmo tempo em que a encarava de forma avaliativa.
— Ela anda muito sorridente, mamãe nunca sorri muito. A casa anda cheia de flores e ela agora vive comprando um monte de roupas.
— Besteira, minha mãe também faz isso!
— É, deve ser só besteira! – disse Annabeth.
— Annie?!
— O que?
— Eu... Eu vou me mudar! – falou o menino rapidamente enquanto desviava seus olhos dos da amiga.
— Como? – Annabeth se mostrava em choque. – Você vai se mudar de cidade? – falou com os olhos marejados.
— Não, apenas de bairro! Mas vou continuar na mesma escola, ainda vamos nos ver. Mas só não vai ser com tanta frequência. – disse tentando acalentar o coração da amiga.
— Promete que não vamos nos separar?! – o garoto assentiu. – Que não vamos deixar de sermos amigos?! – novamente veio à afirmação. – E que... Vamos nos casar e ficaremos velhinhos juntos?!
— Prometo Annie!
O amor de todas as formas é lindo, e uma garota sonhadora como Annabeth Chase sabia disso. Mas o que ela não sabia é que nem todos os amores duram, assim como nem todas as promessas são cumpridas.
***
Os dedos batucando no mármore da bancada da cozinha era a prova que minha mãe estava extremamente irritada com Poseidon.
— Eu não acredito que você vai viajar! – sua voz tinha um tom de incredibilidade e raiva. – Vai perder o fim de semana com seus filhos!
— Entenda meu amor, ele era meu amigo. Teve grande importância na minha vida. – Poseidon falava com calma enquanto se concentrava em sua gravata.
— Se era tão importante assim por que eu nunca ouvi você falar dele? – minha mãe não desistiria com facilidade, faria perguntas e mais perguntas e Tyson e eu seriamos apenas meros espectadores desse questionário estilo Csi Miami.
— Perdemos contatos! – estava na cara que Poseidon não abriria o jogo enquanto as “crianças” estivessem no mesmo cômodo.
— Tyson e Annabeth já para carro! – minha mãe disse percebendo a relutância de seu marido de falar sobre o tal amigo.
— Mas eu não terminei de comer! – reclamou Tyson.
— Come no carro! – disse minha mãe com um tom displicente.
Depois de alguns minutos deveras tediosos sentados no carro uma cabeleira loira e vista por mim e pelo meu irmão, mamãe atravessava o jardim de nossa casa com passos rápidos, encarei seu rosto, mas não consegui identificar nenhum sentimento tubuloso.
— O que Poseidon disse? – indaguei quando a mesmo se sentou ao meu lado.
— Nada! Hoje vou levar vocês pra escola. – disse impedindo que o assunto continuasse.
***
Eu tinha muitos amigos, não eram os amigos mais verdadeiros que uma pessoa poderia ter, mas mesmo assim eu continuava tendo muitos amigos.
No decorrer do tempo esses “muitos amigos” passaram como uma leve chuva de verão por minha vida. Foram assim como a chuva de verão: imprevisíveis, acolhedores, mas terrivelmente passageiros, eu não gostava de nada passageiro.
E em torno desses amigos estilo chuva de verão conheci Thalia Grace, ela não era uma mera chuva de verão, ela era um vendaval constante que me fazia cair na real, assim como me fizera lembrar do torneio do Jackson.
Percy Jackson.
Foi e ainda é uma das poucas exceções em que eu desejei me tornar amiga, em um curto momento eu quase consegui esta proeza, mas o escândalo familiar envolvendo nossos pais o fizera se afastar de nossa possível amizade.
Se Thalia Grace era um vendaval, Percy Jackson era um tornado. Ele podia na completa e mais singela calma vir a desestabilizar qualquer ser racional que não soubesse enfrentar alguém como ele. Do mesmo modo que ele esta fazendo agora.
— Vai me tirar da sala só porque é um péssimo professor que não sabe manter os alunos atentos em sua matéria?! – posso jurar que vi os alunos que não estavam dormindo pararem de respirar. – É muita ousadia do senhor. Sr. Smithers, como ficaria nosso esplêndido diretor ao saber o quão péssimo professor ele tem no colégio? O velho ficaria arrasado.
Eu tinha quase absoluta certeza que a existência inconsequente de Percy Jackson era apenas para aquilo, mostrar para as possíveis autoridades o quão cega e tolas elas são.
Mas confesso que seria algo mais adorável de se apreciar quando não se é chamada para ser escolta do tão generalizado rebelde sem causa.
***
Era algo comprovado, Percy Jackson era o ser mais acéfalo que tive o desprazer de conhecer. Aquela cria de mentecapto não consegue ao menos superar algo que ocorrera com nossos pais a mais de sete anos e além disse tem o prazer de ser um brutamontes comigo, uma pessoa igualmente inocente quando se fala do caso de Atenas e Poseidon.
Mas mesmo sabendo da minha inocência e da total culpa de minha mãe eu ainda me enfurecia com as palavras sujas proferidas com tanto ódio pelo babaca filho como diz Thalia, e era por meu total enfurecimento que eu zanzava desnorteada pela escola, esquecendo completamente da aula do Sr. Smithers.
— Meu Deus! É possível que eu esteja tendo ilusões ou que a digníssima Annabeth Chase esteja mesmo cabulando aula? – virei-me repentinamente para o ser masculino que com um sorriso boçal. – Olá Chase!
— Castellan! – falei com rispidez enquanto cruzava meus braços em forma defensiva.
— Que isso Annie, é assim que você trata um velho amigo? – disse enquanto se desencostava da pilastra e dava mais de seus sorrisos estilo gatuno.
— É assim que eu trato você Luke! – lancei meu olhar de desdém, mas a única coisa que ele fez foi fazer uma cara de ofendido.
— Você era muito mais gentil quando menor, Annie. – seu olhar era ressentido.
— Você era mais humano quando pequeno, Luke. – rebati irônica.
Luke me encarou seriamente, de cima a baixo como se quisesse descobrir muito mais que meus pensamentos, mas logo solta mais um de seus costumeiros sorrisos fazendo com que sua cicatriz ganhasse certo contraste que a deixava, charmosa.
— Você tá... Muito feia!
— Oras miserável, desde quando ficou cego ou seu narcisismo esta tão alto que não consegue nem ver mais algo belo? – tenho a mais plena certeza de que aumentei alguns decibéis de minha voz.
— Meu narcisismo não esta alto, só meu gosto que ficou mais rigoroso. – como eu queria socar aqueles dentes branquinhos. – Preferia mil vezes mais a antiga Annabeth, ela era muito mais verdadeira. Essa nova Annie é apenas uma casca vazia.
Ele nem me deu tempo de responder algo, também nem sei se conseguiria rebater. Em um minuto ele estava na minha frente, me insultando e no outro já estava na metade do corredor. Suspirei, fechei os olhos e chamei o seu nome, ele se virou e por fim pode dizer:
— Você também é uma casca vazia!
— Eu sei, mas a diferença é que eu admito. Não tenho medo de dizer o que me tornei, ao contrario de você.
Luke me deixou sozinha, com apenas o silêncio como companhia.
Parada lá, me lembrei da leve chuva de verão. Luke Castellan era uma tempestade há muito tempo esperada, mas ainda sim muito temida.
Tempestades eram fortes, longas e destrutíveis. Tudo ao contrário de uma chuva de verão, mas mesmo assim uma tempestade para mim era mil vezes mais atrativa.
Eu era um solo seco há espera de um tornado para retirar o podre da minha terra.
Eu era um solo sem vida a espera de um vendaval para avisar que a temida tempestade chagara.
Eu era um solo árido desesperado por água, então me contentava com chuvas leves de verão.
Luke era verdadeiro demais, admitia o que era e de certo modo isso era corajoso.
Eu não era corajosa, eu não era Luke. Então eu não era obrigada a admitir que talvez, só talvez eu tenha me tornado uma casca vazia.
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