Fuga para liberdade
2 Não sou obrigada a ouvir...
POV: Depressiva
— Vamos papa, tente me pegar! – a garota corria entre os campos deixando seus cabelos esvoaçarem por causa do vento, atrás dela um homem de porte forte e saudável corria tentando pega-la, a frente dos dois uma linda mulher agitava os braços e chamava por sua filha.
— Vamos Clari você consegue! Corra!
A menina se esforçou para aumentar a sua velocidade e agarrar logo em seguida as pernas de sua mãe para se salvar da brincadeira.
Vitoriosa agarrava mais forte ainda as pernas de sua mãe e dava pequenos pulinhos de alegria.
— Não é justo! Ela se escondeu em cima da árvore! – falou o homem com um tom emburrado, mas brincalhão.
— Viu querida papa não sabe brincar! – a menina inclinou o rosto para ver o rosto de sua mãe. – Mas mesmo assim ele pagará sua aposta. – a mulher disse risonha.
— Sim mama. Mas agora vamos cuidar de suas flores e deixe papa pagar a aposta.
Menina e mãe foram de mãos dadas paro o canteiro enquanto o pai as encarava com orgulho, amor e simplicidade.
Esse era um mundo perfeito para Clarisse La Rue, um mundo que se ruíra em pedacinhos, mas que fora belo enquanto durou.
***
O preto, o aperto de mão, os abraços e as palavras reconfortantes. Não era isso que eu queria o que desejava. Queria que as pessoas de vestes negras desaparecessem com seus abraços,que as palavras e as mãos afagando minhas próprias mãos sumissem e principalmente desejava voltar a ser a garotinha de seis anos correndo pelos campos floridos da fazenda, brincando de pique esconde com seu herói.
Mais nada é para sempre, querendo ou não um dia tudo acaba, o meu acabara quando as flores começaram a murcha, do meu herói quando sua donzela veio a falecer.
Heróis não são indestrutíveis, eles têm um ponto fraco. Percebi isso quando as flores murcharam e minha mãe nunca mais voltara para nossa fazenda, percebi também que o homem que considerava meu maior herói era apenas meu pai, um homem qualquer com uma filha para criar e sem ninguém para ajudar.
***
Ares La Rue
Um grande homem
Um eterno apaixonado
E pai imensurável
As palavras entalhadas na lapide de meu pai eram fortes, bonitas, mas não eram sobre quem foi meu pai. Certo que ele foi um eterno apaixonado, mas isso o levou a perdição, um pai imensurável apenas em metade da minha infância e um grande homem ele deixara de ser no momento que enterrará minha mãe.
Um maldito alcoólatra, isso que ele era. Em sua cabeça perturbada a dor que ele sentia por uma perda ninguém nunca sentiria, então para acabar com ela o álcool era o seu amigo mais confiável, mas Ares La Rue se esquecera de mim, sua filha que também partilhava da mesma dor que ele sentia, ele foi egoísta o suficiente para ir para o seu mundo fantasioso e temporariamente feliz, deixando-me sozinha na maldita realidade.
Então não, não sou obrigada a ouvir o tão conhecido “meus pêsames” acompanhado de “sinto muito”. São palavras vazias saindo de bocas que nunca sentiram nada o que eu senti, não quero ouvi-las, entende-las e muito menos senti-las.
***
O padre já tinha falado suas palavras reconfortantes sobre a morte e como supera-la, o caixão já tinha sido colocado a sete palmos do chão e pessoas desconhecidas por mim e provavelmente conhecidas por Ares me lançavam olhares piedosos como se isso fosse acalentar minha dor, eu as ignorava esperando que logo fossem embora para suas casas e continuassem suas vidas de onde pararam e esquecessem a menina órfã que vira no cemitério.
Eu não sabia o que faria com minha vida, na verdade desconfiava de que nunca tivera uma. Ares tinha começado a se tornar alcoólatra no ano em que eu fizera oito anos, depois disso minha única preocupação era em que bar ele estava, se a casa não tinha sido destruída em seus ataques de raiva, até mesmo saber onde eu poderia me esconder enquanto os ataques não terminavam. Na escola eu mal prestava atenção nas matérias preocupada demais com o que acontecia em casa, logo minhas notas não eram uma das melhores, então tinha que me desdobrar em cuidar da casa, melhorar as notas e tomar conta do meu pai. Nada disso adiantou muito, Ares se endividou e para quitar a enorme divida tivemos que vender a fazenda e alugar uma casa pequena, fora muito difícil tanto para mim quanto para Ares, as memórias que tínhamos da minha mãe estavam todas na fazenda, vende-la era como acabar com o que restava Catherine La Rue.
Mas tudo tinha acabado, a pequena casa em que morávamos pararia de feder a cerveja, os gritos agonizantes no meio da noite não seriam escutados nunca mais, as olheiras em meus olhos sumiriam e as poucas vezes em que meu pai estava lúcido nunca mais aconteceriam.
Por um lado eu estava feliz, Ares finalmente teria seu descanso ficaria com sua amada por toda eternidade. Mas por outro, me encontrava sozinha no mundo, sem ninguém, era triste, solitário e extremamente melancólico.
Olhei para os lados e percebi que não tinha mais nenhuma alma viva no cemitério além de mim e pássaros cantando alegremente sem saber o que estava acontecendo em sua volta, mais uma vez vi que o mundo continuava sua trajetória sem se importar com minha dor. Olhei para lápides dos meus pais e disse adeus internamente, não voltaria nunca mais. Afinal minha trajetória nesse mundo ainda não terminara.
***
Minha casa, a casa que meu pai alugara e que passamos a morar depois do mesmo gastar o resto do dinheiro da fazenda com bebida, era pequena, fedia mofo e cerveja. Mas ainda sim era a única coisa que poderia chamar de minha.
A televisão se encontrava ligada enquanto eu esquentava qualquer porcaria instantânea no fogão, podia-se ouvir a briga que um casal vizinho tinha, choro de bebê e cachorro latindo, a vizinhança era realmente detestável mais pelo menos ninguém tentava ser o amigo vizinho de todas as horas que esperava qualquer defeito seu para sair fofocando, aqui era cada um por si e de certa forma já estava acostumada.
A campainha tocou e estranhei, qualquer pessoa que eu poderia conhecer ou que Ares conhecesse estivera no enterro, mesmo com esse empecilho fui abri-la. Ao abri-la me deparei com um homem desconhecido e de terno aparentemente importado.
— Aqui que se encontra a senhorita Clarisse La Rue? – o mesmo encarava a rua com um pouco de receio e a cada cinco e cinco segundos encarava seu carro de fisionomia muito caro.
— Sim, esta falando com ela. O que deseja? E quem é você? – o mesmo me encarou um pouco surpreso e retornou seu olhar para o carro.
— Poderíamos entrar? A conversa que desejo lhe direcionar tem que ser em particular.
— Não! Fale aqui, ninguém dessa vizinhança se importara!
— Muito bem! Sou o seu padrinho e como é menor de idade sua guarda foi passada a mim. Prepare suas malas e morara comigo até que complete os estudos e se torne maior de idade! – encarei o desconhecido assustada com as revelações ditas por sua boca deixei-o entrar para me explicar melhor essa história.
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