Fuga para liberdade
10 Não sou obrigada a ter fé...
Notas iniciais
A menina nunca gostara de branco, sempre achara a cor irritante e naquele momento estava em um quarto onde o que mais tinha era a cor branca, até o relógio pendurado na parede era branco. Isso a irritava; irritava também saber que todas as mulheres que entraram naquela porta, até agora, ignoravam suas perguntas e lhe lançavam um olhar que não lhe agradava nenhum pouco.
Bufou e recostou sua cabeça naquele travesseiro esperando que mais alguém entrasse por aquela porta, ignorasse suas perguntas e olhasse com olhos temerosos pra cima dela. Nem se passara alguns minutos e a porta se abrira novamente, Thalia abriu os olhos, mas não encontrou aquelas mulheres que considerava jovens com cara de velhas rabugentas e sim uma senhora com cabelos grisalhos e um sorriso amigável no rosto.
— Quem é você? Que lugar é esse? Onde esta minha mãe e meu irmão? – bombardeou a velha com perguntas que ninguém lhe respondera anteriormente.
A senhora fez barulhos de negação, enquanto se aproximava alegremente da menina para mexer naqueles estranhos aparelhos que estava do lado da cama.
— Tantas perguntas, e não se dispuseram a respondê-la. – falou a senhora de modo cantarolante, assustando um pouco a morena. — Eles não entendem, mesmo que não respondam não mudara nada! – disse de modo repreensivo. – Mas não sou eles, pergunte-me doce criança, mas tem que ser uma pergunta de cada vez, esta bem? – Thalia acenou. – Mas saiba menina, certas perguntas desejara nunca ter feito!
— Quem é você?
— Gosta de historias menina? – Thalia apenas acenou mesmo estranhando. – Meu nome é Moira, homenagem às trigêmeas que determinavam o destino dos guerreiros e seus deuses. – sorriu levianamente e acenou para a garota continuar.
— Que lugar é esse?
— Ora sua tolinha. Ainda não entendeu? Esta em um hospital! – a velha sorriu novamente enquanto via Thalia esbugalhar seus olhos tempestuosos.
—Onde esta minha mãe e meu irmão?
Proferiu sua pergunta com a voz embargada, esperando ver aquela velha senhora sorrindo como antes, algo que não viera acontecer.
— Não se lembra, não é? Uma pena, se você lembrasse seria muito mais fácil lhe responder agora. – Moira passou as mãos no cabelo e voltou seu olhar para a parede branca e sem graça. – Um acidente, foi isso que aconteceu menina, seu irmão ainda se mantém no mundo de Morfeu, mas creio que sua mãe nunca voltará de lá.
Infelizmente Thalia já havia estudado sobre deuses gregos, e mais do que nunca quisera estar na ignorância naquele momento, pode sentir lágrimas e escutar gritos de desespero sair de sua garganta. Queria ver o sorriso de sua mãe, sentir seu abraço e escutar sua voz, maldição, como queria sua mãe.
Moira vendo que o desespero preencheu o coração da menina lhe sedou, e viu pacificamente os gritos se transformarem em um olhar perdido, o choro se transformar em fraqueza e a dor consumir a pobre criança.
— O que eu faço? – a pergunta veio como sopro.
— Apenas tenha fé, doce Thalia!
Moira se foi no momento que Thalia entrou no mundo de Morfeu, onde poderia pelo menos uma ultima vez ver o sorriso daquela que lhe deixara para sonhar eternamente.
***
— Fé! No dicionário fé é descrita como uma convicção intensa e persistente em algo abstrato que, para a pessoa que acredita, se torna verdade. Ou simplesmente um sistema de crenças. Mas a fé é muito mais que isso, é um sentimento que não pode ser descrito em um simples dicionário. – Héstia falava com sua voz melodiosa encantando toda sala com sua presença. – Fé é ter esperança, é acreditar. Não estou falando de religião, afinal até mesmo um ateu tem fé na não existência de Deus. Acredito eu, que este sentimento esteja morrendo pouco a pouco. A cada dia que se passa perdemos a fé nas pessoas, na humanidade e deixamos de acreditar que em um futuro próximo podemos viver em harmonia. Ao mesmo tempo em que vocês são privilegiados, não são: não vivem em um mundo de guerra e autoritário, mas vivem em um mundo de violência e impassibilidade.
— Então o mundo que vivemos atualmente é muito pior que antigamente, onde a violência já existia, junto com escravidão, perseguição, guerra, autoritarismo e o ideal de raças, tudo por que não temos mais a tão famosa fé? – perguntei já não aguentando o discurso da minha professora de filosofia.
— De certa forma sim, Stra. Grace. Acha que escravos na época colonial não possuíam fé? Que aqueles caçados no nazismo deixaram de acreditar que um dia voltariam á sorrir? Que em governos autoritários as pessoas simplesmente abaixariam suas cabeças e deixariam de lado o poder de escolha? – odiava quando a mesma rebatia com perguntas que já possuíam resposta. – Vocês têm tudo e o nada Thalia: são livres, possuem liberdade de expressão e não são caçados como animais. Mas mesmo assim não possuem fé em si mesmo, não acreditam que algo de bom possa acontecer e já são impassíveis á violência.
O alarme tocou avisando para mim e meus colegas que deveríamos sair daquela sala de aula, mas ninguém se moveu, estávamos esperando nossa avoada e sorridente professora terminar com o que para muitos seria mais uma de suas aulas expiradoras, mas para mim seria apenas palavras soltas ao vento.
— Tudo e nada crianças, é o que vocês têm! — sorriu minimamente e balançou as mãos em um sinal para levantarmos. – Agora vão depressa, não estou muito a fim de escutar o treinador Hedge me chamando de bruxa e me repreendendo por hipnotizá-los!
***
Olhava minha irmã de modo repreensivo enquanto a mesma me olhava de modo divertido e continuava a se arrumar, odiava quando Ártemis colocava algo na cabeça, era impossível faze-la mudar de ideia.
— Ela não vai gostar de saber que você saiu! – tentei mais uma vez.
— Desde quando se importa com que minha mãe diz, fala e pensa Thalia? – seu modo divertido de responder estava me irritando profundamente, assim como seu vestido branco.
— Não me importo e nunca me importarei o que dona Hera diz, fala e pensa, mas toda vez que você ou Apolo fazem merda sobra pra minha pessoa aqui! – falei exaltada. – Não estou muito a fim de escutar mais um discurso de sua mãe dizendo de como eu sou um câncer para essa família e de como Zeus deveria me mandar para um reformatório.
— Devia parar de escutar por trás das portas maninha. Isso sempre te machuca! – disse enquanto mexia em suas madeixas e olhava sua boca pintada de vermelho para ver se possuía alguma imperfeição.
— Não me importo de me machucar de vez em quando. – falei displicentemente. – Ainda acho que não deveria ir!
***
Mamãe dizia que chorar era algo muito nobre de se fazer, que as lágrimas eram o modo mais puro de se mostrar o que estava sentindo e que quem fazia era uma pessoa forte.
Naquele momento eu discordava plenamente da minha mãe, ver minha irmã chorar como um bebê não era algo nobre, ver suas lágrimas não traziam um sentimento belo e ela muito menos parecia uma pessoa forte, seu estado era deploravelmente melancólico e agoniante.
Não que eu seja egoísta ou algo assim, mas Ártemis nunca seria uma pessoa que chorava, ela emanava alegria, e vê-la assim era tão contraditório e errado para mim.
Nunca desejei algo branco como agora, como eu queria ver seu vestido branquinho e limpo novamente ao invés de um sujo e rasgado, como eu queria ver sua maquiagem perfeita ao invés dessa coisa borrada que deixava aquela cena mais desesperadora possível.
“Leve-me para casa, por favor, irmã!”
Foi o que ela disse quando á encontrei no beco escuro que me indicara por telefone, nunca em toda minha vida senti tanta raiva como naquela hora. Raiva de Ártemis por não me escutar e raiva de quem fizera aquilo com ela. Depois chorei junto com minha irmã, chorei por vê-la daquele jeito e chorei por não ter sido útil para impedir aquela situação.
— Quem fez isso com você?
Há muito tempo estávamos em casa, protegidas de quem fosse meu quarto agora era nosso forte. Me encontrava sentada na cama e minha irmã sentada no chão com a cabeça apoiada no meu colo.
— Não sei! Eu não sei, era um cara tão bonito Thalia! – disse entre soluços. – Ele era tão simpático, me oferecera bebida. – levantou seu rosto pra mim e encarou-me de modo perdido. – Uma hora estava conversando com ele e em outra eu estava correndo para um beco escuro apenas para me proteger dele, como eu fui burra minha irmã! – por fim voltou a chorar novamente.
— Claro que não! – defendi-a de si mesma. – Foi esperta para correr e se esconder, mais esperta ainda por ter ligado para mim! – disse acariciando seus cabelos desarrumados. – Agora levante-se, alguém precisa de um banho!
***
Venha caixeiro viajante!
Venha nessa minha terra contar!
Contar sua bela historia!
E deixe sua lagrima rolar!
— Eu me lembro! – a voz roca de Ártemis ecoou pelo meu quarto, me fazendo parar de cantar.
— Lembra de que? – virei-me para encarar seu rosto que era coberto um pouco pela minha coberta
— Lembro-me de sua mãe cantando essa historia pra gente, fazendo com que mamãe a odiasse mais um pouco por ter uma voz tão bela. – sorri ao lembrar-me das cenas que Hera fazia e pôde ver minha irmã acompanhar-me com um sorriso singelo. – Não pare, sua voz me lembra-me á dela!
Sua voz vai penetrar os mais duros corações!
E lagrimas, sua voz roubará!
Venha meu caixeiro viajante!
Venha roubar meu coração!
E deixe-me cantar essa sua bela canção, com a alma do coração!
No fim daquela antiga cantiga, Ártemis já dormia como uma criança que foi acalentada por sua mãe em uma noite chuvosa, por um fio sua vida não fora destruída completamente e quase inconscientemente eu me lembrava de Héstia e sua aula sobre a fé.
Eu não concordava com muitas coisas ditas por ela, mas uma coisa ela estava certa, os jovens de hoje são desprovidos de fé.
Não somos sonhadores, não somos a esperança de um mundo melhor, afinal em um tempo não muito distante nossos pais foram á esperança e falharam assim como eles também falharemos.
Ter fé é algo impossível, não para todos, mas para mim.
Acho que me recuso a ter fé!
Tudo e nada é o que eu possuo. Tudo e nada é o que eu possuirei.
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