Fuga

3 The Man Who Sold the World


Notas iniciais
ATENÇÃO!!!

Eu troquei nomes. Peço desculpas. No primeiro capítulo, os que leram "Fred" podem checar, o nome correto é "Jean". Já fiz a correção no texto.

Fred só aparece depois. Vocês verão.

A voz rouca, os riffs e solos elaborados, o som alto, o barulho das bolas de sinuca batendo umas nas outras, o cheiro leve de bebidas quentes, o estalo de lábios encontrando-se e separando-se de leve, bem como o riso alto de bons amigos, e as cores e as luzes e o pisca, pisca, pisca.

Esse era o Blue.

Um lugar intimista, aconchegante, que talvez não acomodasse mais de cinquenta pessoas, muito apertadas.

O dono, um senhor, já no fim daquela terra-de-ninguém chamada meia-idade, era meio amigo de todos os habituais frequentadores. Ao contrário de outros bares, o Blue não era um centro de pegação e azaração, como se dizia nos meios envolvidos; na realidade, quando alguém chamava outra pessoa pra ir pro Blue, geralmente já tinham algo. E quando se conheciam lá, não era por lá que as coisas começavam.

O Blue era diferente por que era sutil. Vendia vinhos bastante suaves, embora não caros; Vendia aperitivos bem leves, que não enchiam a barriga; Arranjava olhares ao invés de amassos.

E era justamente por causa de um olhar que o rapaz sorria.

Ele usava uma camisa preta, lisa, e uma bermuda com riscos de caneta que formavam palavras irreconhecíveis e desenhos variados.

E o sorriso.

Era um sorriso claro, limpo, desses que só se dá por um motivo realmente verdadeiro. Ele respondia uma garota que, ao que parece, notara ele. Era uma garota bonita, corpo bem-feito, arrumada para parecer bonita. Ela estava acompanhada por um rapaz que a abraçava, de costas para ele. E ele, sem pudor algum, lhe sorria, e ela parecia assustada e empolgada com esse rapaz estranho que devolvia olhares com sorrisos.

*

Vou me divertir hoje...

Tudo está perfeito. O som e a luz e o cheiro e o local. A garota é até bonitinha, o otário que está com ela provavelmente deve ser muito incompetente.

Já é tempo dela conhecer um bom homem...

Simplesmente por que o mundo é assim: injusto. E eu não vou ser o injustiçado, não vou mesmo. A sucessão de fatos que se repetirão em minha vida serão, definitivamente, prazerosos.

*

Ele levou uma ombrada. Olhou para baixo, se deparando com um mar de cabelos negros perdidos em grandes ondas. No meio deles, um rosto o encarava.

-Fred, imbecil, você não tem conserto, não é?

Ele sorriu amavelmente. – Julia, minha querida. Que boa surpresa encontrá-la aqui. Do que você está falando?

Ele tomava as mãos dela enquanto falava.

-Eu vi pra quem você tava olhando.

-E...?

Ela balançou a cabeça. Ele sorria gentilmente pra ela. Ele era bonito, ela reconhecia, bonito demais pro gosto dela. Os cabelos negros lisos arrumados há dois séculos, os olhos escuros, a pele branca, parecia saído de um filme, quem sabe.

Ele balançou a cabela. Ela era tola. Olhava com um misto de raiva e admiração para ele. Ela era bonita, ele reconhecia, embora não a mais bonita que já tivesse visto. Os olhos cinzentos eram exóticos e belos, mas ele sabia o poço que se meteria.

-Querida Julia... Não sei se você está à par disso, mas vou citar Jean, mesmo que ele me deteste: “o inferno são os outros”. Bem, exceto para mim mesmo, eu faço parte do grupo “os outros”. Não tenho culpa se as pessoas são incapazes de se defender com dignidade. Me faz bem. Se não faz à elas...

-Você é podre. Venha, ao invés de ficar estragando a vida de pessoas inocentes, vamos no balcão.

*

Sento no balcão com Julia dos olhos exóticos.

Ela pede um vinho, eu peço uma dose de uísque. Não gosto de beber muito, mas ia sentir o bom gosto de um bom uísque.

Julia era fraca, e eu sabia disso ao olhar em seus olhos.

Havia algo em seu coração que era fraco, apesar de sua determinação e sua coragem. Uma corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco, e portanto, Julia, apesar de ser praticamente um encouraçado, não era mais forte que ninguém, pelo contrário.

Por quê você não para com isso? Ora, Não há um porquê, cara Julia. Simplesmente é assim. Eu apenas exponho as opções, são as pessoas que escolhem vir para perto de mim. Você vendeu sua inocência, não foi? Não, não. Vendi tudo, dei de graça a mim e ao mundo. Agora sou só eu e minha habilidade de viver bem. E você se orgulha de ser assim, não se orgulha? Com certeza, bela. Muito me orgulho, sim. Em um mundo de caça e caçador, eu sou o caçador. Em mundo de injustiçados, eu não faço parte da maioria.

Tenho nojo de você.

Hah. Eu também tenho nojo de você. Sua idiota, fraca, e você vai cair.

*

-Enfim... O que você faz aqui? Pensei que você não frequentava mais o Blue.

A garota parecia estremecer enquanto cheirava seu vinho. – Eu não vinha mais aqui. Más lembranças, sabe. Mas não importa mais. Eu estou a fim de me divertir um pouco, só isso...

-Papinho de gente normal, Julia. De gente medíocre. Você é mais que isso.

-Tá, tá. Eu só queria repassar um pouco. Sei lá. Nostalgia. Lembra quando esse lugar abriu?

-Sim, lembro. Viemos todos aqui, não é? Quem mesmo...

Ele percebeu uma boa oportunidade de testar ela. – Eu vim, e Jean... – Sem reação. – Veio Alice... – Mexeu um pouco a sombrancelha, mas ele achava que ainda era pouco. Ela olhou-o de soslaio. – Vincent... – Nada. – E você.

-Isso mesmo. – Ela falou. O tom era amargo. Talvez ele tivesse deixado algo escapar... Ela era muito boa. Pra escapar de seus olhos, só mesmo uma perfeita atriz.

-Isso foi há tanto, tanto tempo atrás...

-Muito.

-Não sabíamos nem pra onde íamos. Acho que nada estava nos nossos planos, não é? – Ele ainda a encurralaria.

-Sem dúvida. – Ela já estava na defensiva.

-Quem diria que Jean viria a me detestar.

-Anham.

-Que você ia herdar uma bolada. – Riu de leve.

-Não é? – Ela também sorriu, mas logo desfez o sorriso e deu um longo gole no vinho.

-Que Vincent ia sumir.

-O que você quer, Fred? Acha que eu sou idiota?

-Opa, calma... O que você quer dizer?

-Eu não vou cair no seu joguinho barato. Pare de tentar me encurralar, ok? Não tenho pendências com meu passado. Você devia me deixar em paz.

Ele olhou para o outro lado. Ela era dura.

Mas ele não esperava ver Jean. O rapazote magrelo, branco de doer, com os cabelos pretos arrumados, dardejava-o com seus olhos, de uma mesa solitária. Não eram olhos de ódio, não, o pequenino Jean não era capaz de entregar-se ao ódio. Ele era mais um cheio de normas e regras. Era um olhar desconfiado, típico daquele que sabe que a armadilha está sendo montada, mas não imagina como.

Ele estava com cara de poucos amigos.

-Julia, cara, por que não vamos à outro lugar?

*

A garota hesitou, mas acabou cedendo.

Você realmente não presta, não é? Não, não presto. Só pra mim mesmo. Fred, você não está pensando em...? Em o quê? Não sei direito. Você é um vagabundo, sabia? Sou o vagabundo que falta na sua vida. E na de muita gente. Ha ha. Tão engraçado. Eu sei.

Sento no banco do táxi: vamos para a Ponte dos Desejos. Ela fica quieta por uns instantes. Eu não hesito, mas reflito sobre o que estou fazendo: Julia é uma velha conhecida. E por mais fraca que seja, talvez não merecesse isso. Mas quem sou eu pra julgar isso? Se assim procedo, então sou tão moralista e idiota quanto os outros. E isso eu não aceito ser.

Vamos dividir? Não, não, senhorita. Que é isso. Não quero que torre o dinheiro que você com tanto suor conquistou. Ela torceu a boca para a ironia.

Andando, galgamos pouco a pouco, degrau, escada, até chegar no mirante. Ela olha para a frente, eu olho para o céu. É uma noite bonita. Perfeita para casais apaixonados. Há um porquê pra se insinuar isso? Não sei. Será que alguém sabe?

Fred, você acha que eu sou idiota, né? Não. Pelo menos não mais que a média. Você está achando que eu não saquei qual é a sua? Que você vai me tratar como trata todas as outras? Eu não vou te tratar como trato todas as outras. Pra você tem algo de especial guardado. Ha ha, até parece que acredito. Pois acredite. Vou te deixar como deixo todas as outras, mas pra você, será uma noite especial.

E se eu não quiser?

Faz diferença?

A arrogância é tão engraçada.

Então, olhamos para frente e vemos a lua refletida nas águas. Sorrimos. A vida é tão irônica, e o tempo sempre a fazer milagres.

*

-Fred.

Ela quebrou o silêncio sagrado que só era cortado pelas águas que moviam-se preguiçosamente.

-O que o tempo fez conosco?

-O mesmo que faz com tudo, minha cara. A essência das coisas é a decadência. Vamos viver e reviver essa decadência para sempre. Pouco importa o que o tempo fez conosco. Nós temos de nos libertar do bem e do mal, do moralismo imbecil que permeia nossas vidas.

-Meu deus, onde é que o tempo vai nos levar...?

-Deus está morto, minha pequena Julia. Fomos nós que o matamos. E há muito tempo. Agora, só nos resta viver a nossa vida mais intensa e positivamente quanto pudermos, por que nossa vida é o único fato que vai eternamente retornar até nós.

-Isso inclui se divertir sadicamente com uma amiga de infância?

-Talvez. Quer descobrir?

*

Noite, lua, estrelas, céu, horizonte, terra, asfalto, aço, cimento, pelos, pele, carne, veias, sangue, ossos, cérebro, olhos, cores, boca, sabores, língua:

Com tudo isso se fez o beijo.

Talvez um beijo errado.

Mas, talvez, apenas um começo.

A noite seria longa.