Fuga
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O Blue continuava sendo o que sempre fora, um lugar interessante.
A garota falava com uma fluidez inexplicável para quem já havia bebido tudo aquilo. A outra ouvia atentamente. Fora estranho, aquela garota que sentara ali, ao seu lado, perguntando se podia beber na mesa, já que as outras estavam ocupadas.
Ela agora ria, se divertia, e não percebia que estava falando com alguém que tomara muita coragem líquida.
*
Jean aproximou-se cuidadosamente da mesa. Era ela? Parecia ser. O que ela fazia aqui? Será que todo mundo resolveu vir ao Blue no mesmo dia?
Já lhe bastava ter visto Fred. Ele estava com Julia, e ele não sabia como as pessoas ainda não haviam notado que aquele homem havia se tornado um sanguessuga maquiavélico.
Sim, era ela.
-Alice?
*
Eu sorria sem porquê e falava bobagens. Eu já não controlava meu corpo ou minha língua: havia um outro alguém falando por mim.
A garota na minha frente era bonita. Meus sentidos ainda não estavam afetados, a despeito da quantidade de bebida que eu já tinha tomado. Era apenas como se eu assistisse à um filme, até que...
-Alice?
Olhei. Ninguém mais, ninguém menos que Jean!
-Jean, meu querido! O que você faz aqui?
Ele me olhou. Filho do diabo, ele sabia. Sabia que não era eu quem falava.
-Você não acha que está na hora de ir pra casa?
-Mas...
A garota olhou para cima. – Quem é ele? – Não é possível que essa maluca estivesse achando Jean bonito. O magrelo era muito legal, mas definitivamente, não bonito.
-Você sempre sabe, não é?
-É
-E o que vai fazer? Você não dirige, eu não dirijo, e estou bêbada.
-Bêbada?
-Ela já estava aqui há muito tempo. – Tão didático! – Bebendo.
-Mas você disse que...
-Tá, gente. Eu vou pra casa. Você arruinou minha noite, Jean. Satisfeito? – Eu sorri amargamente.
-Só estou com medo de algo de ruim aconteça com você. – Ele olhou um olhar cheio de significados pra mim.
Eu balancei a cabeça. Estava com raiva daquele idiota, mas não podia fazer nada. Não era eu quem estava no controle. E ele estava certo.
-Eu te ajudo. Faço questão.
Que mocinha educada!
Fui levada pelos dois para casa. Que saco.
*
Jean girou a chave na porta.
-Aí está, Alice. Sua casa.
Ela sorriu. Ser escoltada de táxi para casa por uma bela garota e por um dos rapazes mais iluminados que ela conhecia, bem, bem, isso não era pra qualquer um.
-Por que vocês não entram? – Disse Alice, em seu tom excepcionalmente sóbrio.
Jean olhou-a, com os olhos tortos. – Pra que?
-Sei lá. Vocês não estão com fome, sei lá... Eu sou uma boa cozinheira, sabiam? – Sorriu.
Outra garota, umagarota pálida, de boca carnuda, nariz achatado, olhos grandes e um belo e grande sorriso, sorria divertidamente. – Pode ser.
Jean não tinha certeza se entendia ou não. O que ela estava tentando fazer? Alice estava bêbada. Ele sabia disso, por que ela estava sóbria demais para não ter bebido.
Mas ele entrou. Tinha medo do que ela poderia fazer. Quando chegou na sala de estar, a garota já estava ligando o forno. – O que é isso?
-Lasanha. Fiz mais cedo. – Ela sorriu.
A outra garota sentava no sofá. – Posso chamar uns amigos?
-Preciso ver se minha companheira de apê tá dormindo. Se não, pode até ser...
Ela dirigiu-se para o corredor e entrou num quarto. Jean a seguiu, e fechou a porta atrás de si.
*
Planos, planos, todos tão perfeitos!
Não era meu estilo, mas era o que eu podia fazer...
Jean bateu a porta atrás de mim. Mas o que diabo ele queria?
-Alice, o que diabo você quer?
-Como assim?
-Alice, por favor. Você mora sozinha.
*
Alice saiu do quarto.
A garota sorria, enquanto Alice sentou-se ao seu lado.
-E então...?
-Ah, ela está lá. É uma quadrada, não gosta de sair, está dormindo.
-Ah, que pena... Bem... – A garota parecia incerta agora.
-Bom, eu acho que você não tem nenhuma vontade de ficar sozinha aqui em casa. Então, vou só comer aqui e saímos de volta pro Blue, OK?
-E seu amigo...?
-Não se preocupe com ele, ele foi no banheiro e já deve estar de saída. Quando ele sair, a gente vai de novo, ok? – Sorria seu sorriso de derreter bronze.
A garota olhava para a tal Alice. Ela própria já não estava muito sóbria, isso que dá sair para bares sem um acompanhante. Beber, beber, beber e nada. A outra lhe parece uma garota legal, conversaram sobre quase tudo que havia para se conversar e parecia que ela a conhecia há eras.
Mas essa menina tinha algo de diferente, de estranho. Além de sua beleza estonteante, seus olhos azuis belíssimos, os cabelos castanhos, sua pele pálida, seu rosto fino, parecia feita de mármore. Algo além de tudo isso...
-Não tô a fim de passar mais um sábado sozinha. – Foi o que aquela boca divinamente esculpida disse.
-Sozinha? Mas uma garota bonita e legal como você deve ter muitos amigos, ou pelo menos amigos o suficiente.
Os olhos azuis se perderam no horizonte.
-Não?
-Mais ou menos... É que às vezes eu sinto como se tudo fosse de mentira, sabe? Minhas amizades falsas, todo esse clima de “azaração”, sinto como se tudo isso fosse falso. – Seu rosto corava enquanto ela falava isso, baixinho, aproximando-se da interlocutora como se contasse um segredo, e não quisesse que nenhum ouvinte inconveniente tivesse facilidades. – É como se na verdade eu fosse uma rejeitada, e usasse essas festinhas e bares pra fugir. Aí eu bebo até ficar fora de mim e... – Seus olhos já brilhavam, e seu rosto estava tomado de um vermelho súbito, como se a vida aflorasse de dentro dela. – E eu só queria mesmo alguém que me aceitasse, pra eu dividir o que sinto. Só isso. Aí quem sabe eu não fosse uma imprestável fujona.
A garota estava impressionada com a revelação da outra, que agora olhava nos seus olhos intensamente. Ela estava confusa, não mais sorria, era como se a outra estivesse lhe entregando os grandes segredos de sua vida, e ela não sabia o que fazer com essa responsabilidade.
Até que a outra aninhou a cabeça no ombro dela, e ela sentiu pequenas lágrimas frias tocarem seu ombro.
-Calma, calma... Todo mundo se sente assim de vez em quando, é normal... Shhh... olha pra mim... – Ela levantou o rosto da bela, e beijou seu rosto de leve. – Não fica assim...
Tudo era muito estranho e inverossímil. Encontrara uma garota sóbria, mas um amigo dela afirmara que estava bêbada. Ela, que já não estava completamente em si, se ofereceu para acompanhá-la até em casa, e acabou dentro da sala de estar dela, confortando-a. Era tudo muito estranho... Como uma grande mentira em que só um grande tolo acreditaria.
Até que ela devolveu o beijo no seu rosto uma, duas, três vezes... E aproximou-se de sua boca. E sua respiração acelerou e seu coração bateu forte e seu corpo suou e suas pupilas dilataram e suas mãos tremeram e o instinto de lutar ou fugir tomou conta dela.
A bela beijava sua boca.
*
Mais uma vez derrotada.
Como uma aranha que tece com cuidado os fios, só para ver uma mosca zombar dela enquanto foge da teia.
Será que eu devia ficar sozinha? Seria meu destino, excluída, sozinha, pra sempre?
Toda vez era igual. Eu querendo calor, mas era a cerveja e o vinho que procuravam pra mim. E o álcool não mentira: tudo era falso, tudo era de mentira, tudo era perda de tempo...
Agora era Jean que me confortava e era grande a tentação de tomar seus lábios com fúria. Mas de que adiantaria? Eu sabia que Jean não nutria por mim mais simpatia do que aquela garota sem nome que tanto me machucara agora.
-Viu? Eu disse que não ia dar certo... Por que você continua fazendo isso? Só pra se machucar?
Eu olhei-o com os olhos molhados. – Eu não tenho esse direito? Eu sou obrigada a ficar sozinha? Eu acho que não, mas as circunstâncias vivem me dizendo que sim... Eu não sei por quê, Fred sempre consegue o que quer, e eu só me machuco mais e mais...
Ele torceu o nariz para o nome do seu desafeto. – Você tem de entender que Fred usa o que a pessoa tem de mais frágil ou de mais sujo contra ela própria. Ele apenas desencava o que a pessoa quer com as ferramentas certas, e usa isso a seu favor. Você não, você quer convencer as pessoas de algo que elas não queriam, e isso é muito mais difícil.
-Mas será? Será que eu não posso? Eu tenho mesmo de ficar sozinha, rejeitada?
Ele sorriu ironicamente. – Não seja dramática, Alice. Você vive nesse seu mundinho por que quer. Você sabe que existem milhares de pessoas que não são heterossexuais e nem por isso vivem sozinhos e loucos. Existem bares gays por aí, você pode facilmente encontrar alguém por lá...
Eu sorri mais ironicamente ainda. – É. Eu acho engraçado como todo mundo achava um absurdo que antigamente existissem bares, bancos e bebedouros só para negros e só para brancos, e acham normal que hajam bares para gays e bares para heteros...
-Não é a mesma coisa...
-É sim! Qual a diferença? As pessoas que não se permitem. Vivem nesse mundinho sempre-igual deles, e mesmo quando se sentem atraídos por algo diferente do que estão acostumados, se reprimem em nome de uma moral imbecil! E não digo isso dos heteros, dos homos ou de qualquer outro em específico. Digo isso em relação a todos! Por isso fazem “bares” separados, por terem medo, receio ou repressão ao que podem vir a sentir...
Ele ficou em silêncio por uns segundos. – É até verdade. Mas você não pode passar mal em função do mal dos outros. Todos sabemos que o inferno são os outros, mas você não pode correr atrás do inferno. Procure quem te quer bem, minha filha. Tome conta de sua vida, pare de reclamar dos outros...
Eu olheio-o. Era um olhar nostálgico, como se olhasse para sua face e visse os tempos em que ele se dava tão bem com Fred, era o melhor amigo de Vincent e gostava de Marselle. Quando ele não era nem tão magrelo nem tão branco, quando seu rosto não parecia tão cavado e marcado como uma escultura velha.
-Jean... O que aconteceu conosco? Nós... Nós estamos perdidos, não é? Nós ficamos iguais a todo mundo. Talvez piores. Somos dominados por nossa dor e nossos rancores, não é? Ficamos como todo mundo, presos à pequenas coisas, à rotina, à nossas dores mesquinhas... Logo nós, que éramos tão melhores...
-Não, não, por favor, não... Nós que nos embebedamos no poder da juventude com muita força. – Ele balançou a cabeça. – Achávamos que o néctar duraria pra sempre. Não dura. Deveríamos ter sido mais cuidadosos. Fomos intensos demais, verdadeiros demais, bons demais para o mundo. E o mundo não tolera quem é bom demais...
-Você está sendo arrogante...
-Não, por que eu acho que todo mundo é assim. A diferença é que nós sabíamos os caminhos a seguir, e erramos na escolha. Agora chegamos num lugar indesejado.
-Somos escravos de nossas mesquinhas dores...
Ele sorriu pra mim.
“ Não precisamos ser.”
Pare de reclamar, sua idiota... Você sabe disso. Vive em seu mundinho das maravilhas por que quer... Há muito que eu já havia lhe dito isso, mas você não me ouviu, ninguém me ouviu. Preferiram se render ao seu carrasco, sentir a dor, se perder num mar de ódio. Você sabe. Sempre soube, e eu também avisei.
Uma pessoa, quando não se conforma com seu carrasco, pode tornar-se uma grande mestra de sua dor.
Agora pare de ser covarde.
*
-Mas não foi isso que você fez, não foi?
Jean mirou olhos raivosos nela.
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