Fuga
5 Perfeição
Ela passou as mãos pelos seus cabelos loiros, como se tentasse agarrar os pensamentos que titubeavamem sua mente, martelando baques inertes e monótonos que a oprimiam.
Ela agora sabia por que seus “colegas” abriam clínicas particulares e ficavam quaserricos atendendo àqueles que bem entendiam. Na realidade, sempre soube, mas é só quando se vê um corpo inocente crivado de balas pedindo por socorro, não para si, mas para seus entes queridos, que ela compreendeu o quanto esse trabalho era doloroso.
-Doutora, não fique assim.
Ela ignorava as palavras doces, os eufemismos, as desculpas esfarrapadas. Os outros, eram apenas pessoas fazendo o seu trabalho, que incluía salvar vidas quando dava, e deixar pra lá quando não dava.
Ela compreendia que eles não eram monstros sem coração. Mas ela sabia que eram pessoas que saíam para comemorar como idiotas, nas imediações de qualquer feriado, qualquer acontecimento banal como a chegada do salário, do final de semana, do aniversário ou da vontade de comemorar como idiota.
Ela percebia, porém, que ela era a única que não dormia, que não comia, que tomava para si as dores de seus mortos e feridos.
Ela era a médica de combate que não salvava a vida de todos os soldados que lutam diariamente contra uma sociedade escrota para sobreviver.
Homo homini lupus. Isso é fato, mas não deveria ser...
E ela não se conformava com isso, nunca.
-Doutora, não fique assim.
-Já disse pra você não me chamar de doutora, Gabriel. E eu não estou “assim”.
*
Ela terminou seu plantão e ia saindo devastada para casa.
Duas mortes eram o saldo do dia. Pra não contar os que nem foram socorridos.
Todos devorados pelos dentes de concreto e aço da cidade que precisava, de tempos em tempos, eliminar parte de sua “reserva de mercado”.
Sentou-se no banco da lanchonete e pediu um suco.
-Marselle, você precisa ser um pouco mais resistente. Você vai acabar enlouquecendo assim.
-Obrigada por não me chamar de doutora, Gabriel. Até por que eu não sou doutora, eu sou bacharela em medicina. Mania chata.
Ele girou os olhos. – Acho isso muita bobagem, assim como também acho essa sua mania de falar “bacharela”.
Ela deu de ombros como quem não quer discutir. – Eu sei que eu não sou homem nem doutora. E gosto que me tratem assim.
-Tudo bem, tudo bem, sem ressentimentos. Mas voltando ao assunto principal, você precisa se deixar mais tranquila. Você não pode salvar a todos. Você sabe disso.
Ela pegou seu suco fresco e olhou para ele. – Não é pelos mortos que choro às noites, Gabriel. Eu sei que nossas profissões exigem que a gente lide com a morte. Eu sinto tanto por que sei que muitos desses mortos não precisariam morrer se as coisas funcionassem corretamente.
Ele olhava para ela, meio fascinado, meio entediado.
-Quer dizer... Mortes por violência social, mortes por abuso de drogas, por negligência médica... Tudo isso podia ser evitado. Se as coisas funcionassem...
-Mas não funcionam, Marselle. Não sonhe. Você não pode simplesmente assim, chegar e mudar o mundo.
-Quem disse? É aí que você se engana e é por isso que choro. Por que sei que muitas dessas pessoas estão morrendo, na realidade, por que nós todos não fazemos alguma coisa. E apesar dessa consciência, faço muito pouco. Todos nós fazemos. Todos nós somos, no fundo, assassinos covardes de crianças marginalizadas...
*
Aquela noite fora realmente inesquecível.
Fugi pela cidade. Por muito tempo. Até que chegara no Blue.
Estranho. Esse lugar era lendário, mas eu nunca vim aqui. Diziam que a primeira noite no Blue sempre era inesquecível...
E o par de olhos que encontrei foi, estranhamente, os mesmos que a expulsaram há pouco.
Saíra fugindo por causa da crueza que meu doce Vincent me tratara. E foram os olhos amargos dele que eu encontrei.
Não pude evitar...
Foram palavras e palavras. Daquelas conversas profundas, sobre relações, passado e futuro, que na realidade só servem para reafirmar o que já acreditamos e ignorar mais ainda o que o outro quer dizer.
Eu sempre fui uma sonhadora.
E foi assim que Vincent me mostrou um lugar especial, a Ponte dos Desejos.
E do alto do velho mirante contemplanos a lua a se refletir na água embaixo.
E lá amamos um amor bandido, escondidos apenas pela fina cobertura de palha do mirante.
E lá ele me contou que fora ali que sua vida se tornara amarga...
E eu já não sei mais de nada.
*
Chegou em casa.
Estava decidida a fazer alguma coisa.
Não iria mais ficar a conter suas paixões em nome dessa vida padrão que empurraram para ela. Ela vira como Vincent ficara, ela não queria ficar igual. Ela vira como morriam as crianças esquecidas, os homens invisíveis, as mulheres transparentes.
Marselle seria como já fora, agente de mudança. Começaria pequeno, mas mudaria, faria algo, nem que fosse para morrer tentando.
E ela já sabia como começaria.
Pegou as chaves do carro, sem sequer parar pra descansar ou dormir.
*
A porta se abriu, revelando um Vincent com olheiras, com cara de quem estava acordado apesar da meia-noite já passar.
Ela abraçou-o.
Era um abraço diferente dos que já havia dado. Sem malícia, sem fazer emanar o cheiro violento de sexo.
Era um abraço doce. Como nos velhos tempos de abraços sinceros e apertados...
-Que bonito, Vincent.
Ela separou-se dele. Um cara magrelo e muito branco observava-os.
-Quer dizer que você nutre sentimentos por alguém?
-Jean, seu imbecil. Deixe ela em paz...
Ela olhou mais uma vez o rosto. Por debaixo das marcas que ele já carregava, ela reconheceu. – Jean? Jean... Eu sou Marselle! Lembra de mim? Eu era magrinha, magrinha... Você também tá muito diferente...
-É, vejo que não está mais tão seca. – Ele olhou-a. Ela ficou incomodada com os olhos penetrantes. – Um prazer revê-la. Sinto muito, mas tenho de ir. Vincent, dê a ela meu telefone.
E saiu sem cerimônias.
-O que você veio fazer assim, de surpresa...?
-Queria pegar você despreparado. – Fechou a porta.
-Pra quê?
Ela então, mudou completamente o tom. Se o surpreendera com um abraço inocente e fraternal, agora usaria das armas que ele usara contra ela. Como ele próprio havia dito, ela era irresistível para ele também.
E beijou-o intensamente enquanto cravava suas unhas nas costas e descia a outra mão até onde ele não esconderia desejos.
*
Então era o momento.
Ele estava completamente sobre meu domínio. Era aqui que eu abriria seu corpo, seu coração, e arrancaria seja lá o que for que havia de ruim nele.
Isso fora diferente. Pela primeira vez, Vincent não estava no controle. Ele, que era um artista nato até para o sexo, dessa vez fora mero espectador, público da obra de arte que eu fizera para sensibilizar sua mente torpe.
Era ele agora que descansava a cabeça meu peito, ouvindo meu coração enquanto eu acariciava seus cabelos, sua pele branca de mármore.
Disse que sua pele costumava ser mais escura. Ele respondeu que há muito tempo não via sol. Praia, nem pensar. E passava o dia dormindo, trabalhava à noite.
Isso é por que você não está vivendo mais, Vincent. Você está parecendo um cadáver, a vida te abandonou e não há mais sangue em seu corpo sequer para fazer seu rosto corar quando você fica surpreso. Muito me espanta que você ainda consiga manter uma ereção.
Ele chegou a sorrir com a minha provocação.
Eu beijei seus cabelos, que agora estavam cheirosos. Devia ter tomado um bom banho.
Você não precisa ser assim, meu amor. Era doce o tom da voz, era um tom quase infantil, e ele se sobressaltou com aquela palavra, tão proibida em seus ouvidos.
Você não precisa se vender à dor e ao ódio. Nós podemos muito juntos. Nós não temos tempo para nos lamentarmos de qualquer coisa. A estupidez humana está por aí, ao nosso redor, e nós precisamos combatê-la e não nos celebrá-la por omissão.
O mundo gira rápido demais para sentirmos raiva ou dor, meu tão querido.
Se recupere, por favor, e vamos ficar juntos. Por causa da dor, não fazmos nada. E hoje senti tanta dor por não fazer nada... É um ciclo vicioso. Precisamos nos libertar. Como nos velhos tempos em que nós acreditávamos que íamos lutar por um mundo melhor...
Você disse que não está doente, e não está. Mas você está ferido. E só você pode se curar...
Fique comigo. Ao invés de dor, sinta paixão. Essa paixão que tanto toma conta de mim, que me dá tanta vontade de lutar, apesar de toda essa dor, de tudo que esse mundo tem de amargo...
Fique comigo, meu amor. Esteja junto de mim. Esqueça o passado. E vamos lutar pelo futuro. Ele nos pertence...
*
-Selle... Não é dor. Não é nada. É exatamente isso: nada. Já não sinto mais nada...
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