Fuga

6 Cherbourg


Notas iniciais
Os nomes dos capítulos tem significados. Google it. /fikdik

Acordou sentindo-se culpada.

Já sabia que era assim que se sentiria.

Fred estava correto. Ele guardara algo especial pra ela. Depois de muito tempo reclusa, ele selara seus lábios com um beijo, justamente no lugar onde ela adormeceu, para nunca mais acordar do pesadelo.

Aquela noite fora um pesadelo...

O que ela não daria para simplesmente ser como as pessoas normais, sorrir, trabalhar, casar, ter filhos...

Mas não, ela era inapta e ociosa, e tudo o que tinha na vida era um passado doloroso para lhe observar com desprezo.

Era assim que ela, Julia, com manias de escritora, agora escrevia...

Dorme, memória maldita!

Que há muito preciso de sono torpe

Sono que me foge, de qualquer sorte,

E só esse gosto amargo fica!

Vai, alegria perdida!

Dança como fada diante de mim

Espreita com calma tua caça carmim

E sorri quando crava garras feridas!

Debocha da minha hipocrisia,

Se força tivesse, lutar iria,

Mas a lágrima não molha mais o papel

O destino é a treva vazia,

E mesmo sabendo que ele demoraria,

A vida tem gosto de fel.

Ela era fraca. Se desprezava.

*

Jogou água no rosto.

Ela não era igual aos outros. Ela sabia disso. Ela não tinha se rendido, só estava fraca. Ela poderia ainda ser viva, ser livre, como eles tanto quiseram.

Podia?

Andou pela casa, perdida.

Sua vida não tinha sentido. Ela era uma menina rica e sem objetivos...

Era isso que ela precisava. Objetivos. E seria forte de novo... Ela precisava de uma meta, algo que quisesse fazer...

Mas o quê? Nada fazia muito mais seu gosto. Nunca gostara tanto assim de beber, sair, curtir, nunca fora muito sua praia...

Sempre fora das mais certinhas, que gostavam de estudar... estudar... estudar!

Começou a remexer nos livros velhos, ia fazer o que ela desistira...

A campainha tocou. Ela foi até o interfone, atendeu... Era ele. O que ele queria? Abriu. Demorou alguns minutos até que ele subisse até o topo do prédio. Ela morava na área mais luxuosa da cidade – e com os maiores prédios residenciais. Abriu a porta do apartamento.

Ele irrompeu sala a dentro, com aquele olhar perscrutador que não só penetra na alma, como também a perfura.

-Olá, pequena querida.

-Oi, mentiroso. O que quer aqui? – Ela não estava ofendida pela presença de Fred ali. Ela não imaginava que ele olharia em seu rosto, talvez planejasse dores piores pra ela. Mas o sorriso continuava pregado em seu rosto: se não na sua boca, nos seus olhos, com certeza.

E ele viu.

-Sorrindo, pequena querida? Há muito que não vejo isso.

Ela tratou de tentar, sem muito sucesso, apagar o sorriso do rosto. – É. Estive fazendo planos.

O rapaz de olhos assassinos franziu a testa. – Planos? Você?

Talvez ele estivesse frustrado, por que planos certamente dificultariam uma tortura emocional, como ele gostava.

-Planos, planos... Todos nós temos planos, ué.

-Você não, pequena.

Ela já se irritava com aquele tratamento irônico. – E por que não? Não sou gente como todo mundo?

Ele sorriu, seu sorriso psicótico. – Não. Você é uma pessoa dobrada. Não quebrou, mas ficou irreparável. Você não faz planos, você conta dias, e não sabe pra quê.

Ela chegou a ameaçar abaixar a cabeça, mas não tinha vergonha. Ameaçou gritar, mas não tinha raiva. – Não vai ser mais assim. Chega.

-Com que força? Você é fraca. Escrava do passado.

-Não.

-Pare de lutar, menina! Você foi frágil. Se deixou perder. Ou toma conta da própria vida e a faz prestar, ou vai continuar perdida. Pare de lutar e comece a se controlar!

Ela balançou a cabeça. – Estou seguindo minha vida. Não diga diferente.

-Não me obrigue a evocar o passado.

Silêncio...

-Você só precisa de alguém pra amar. – E abraçou-a. Ternamente...?

Ela sabia que era tudo mentira, que era tudo fingimento, que tudo isso era joguetes para que ele se divertisse...

Mas ela sabia também que estava convencida que não o amava... Mas quando ele a levava ao êxtase, ao facho de luz branca de prazer que a cegava – como nem ele conseguira... Quando ele a cegava, com seu corpo dominador e sua boca faminta e suas mãos furiosas, quando ela sentia tanta dor e tanto prazer vindo dele, que esquecia seu próprio tormento... Quando ele lhe dava o que queria, ela ficava tão cega que o amava sinceramente.

*

-Você jogou com sua inocência e perdeu.

Ela ficou quieta, a cabeça encostada no peito dele, ouvindo seu coração: e ele tinha um!

-Há muito que não a via sorrir, pequena querida. Muito tempo mesmo, desde...

Ele observava, até seu rosto levemente corado pelo êxtase agora ficara mortalmente pálido de novo.

O silêncio permaneceu doloroso, enquanto ela pensava em como desconversar. Não queria reviver dores de um passado esquecido, não poderia ressucitar cadáveres em seu próprio coração...

Ela pensou que talvez ele estivesse planejando frustrar seus planos e justamente trazer de volta esses momentos indesejados. Ela tinha de confrontá-lo. Suas mãos fortes não poderiam impedir que ela mantivesse consciência de com quem estava lidando.

-Você sabe que não me tirou meus planos, não é?

Ele fazia carinho em seus cabelos. Ela já se perguntava se isso ainda era fingimento: sabia que Fred gostara dela num passado distante e invejara profundamente quando ela se declarara compromissada...

-Pouco importa, garota. Posso andar ao seu lado nesses tempos.

Ela se chocara. Fred estava... se deixando levar?

Esquecia ele de seus gostos?

-Não creio. Você está fazendo isso pra eu me sentir mal depois.

-Não, não. Esse é meu preço. Estar ao seu lado pra ver se seus planos vão dar certo, e é bom que dêem.

-Por quê? – Ela o encarava.

-Você está de cabeça levantada, pequena querida. Isso é uma coisa notável. Você está se tornando a pessoa que talvez eu não tenha conseguido ser. Vamos ver se consegue, e é bom que consiga...

Ela só não compreendia completamente uma parte. – Caso contrário...?

Ele a encarou firmemente e segurou-a junto a seu corpo friorento. – Caso contrário, eu terei você nas minhas mãos, mais do que já tive qualquer outra pessoa. E dessa vez, você vai quebrar. Não sou incompetente como Vincent.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

O silêncio sagrado que pousava sobre seu passado nevoento fora rompido pela língua sempre ferina dele...

E ele a aproximou-a de si, pronto para mais uma vez fazê-la ficar cega à própria dor.