Fuga

7 Poison Heart


Por que querer o bem é tão difícil?

Eu fui o único que desejou o bem de todos. E no fim, só fui pisado e chamado de intrometido. É isso que está reservado à quem quer o bem? Pouco acredito nisso. O que vale é o que eu faço, e não como me retribuem. Mas já fica difícil, nesse rumo...

Não sou tolo, e já sei do que está ocorrendo, sei que Fred e Julia devem estar juntos, neste exato momento e ele, como quer, está tendo cada vez mais poder sobre ela, e sabe-se lá o que ele vai fazer com esse poder, ele pode destruí-la, simplesmente destruí-la!, e eu nada posso fazer, de novo, e eu sei também que Vinci está sugando tudo o que Marselle pode oferecê-lo, como essa moça é ingênua, achar que Vinci tem conserto!, veja só... Só quem pode consertá-lo é ele mesmo e a última coisa que ele quer é deixar de ser torto.

E eu também sei da pobre Alice, que tanto já perdeu que não consegue mais ganhar nada, há muito tempo. Minha mente fica um caos só de pensar nessas coisas, por que meu pensamento mal tem vírgulas, quanto mais pontos de parágrafo, e a pobre Alice sente uma dor tão forte e uma vontade tão intensa de fugir que eu simplesmente não sei o que posso fazer pra ajudá-la... Se ao menos todos fizessem o que tínhamos achado que faríamos, se ao menos eles tivessem se libertado de vez, tornado-se donos de si mesmos... Mas quem sabe qual o preço disso, afinal, foi isso que aconteceu comigo e com o Fred, e veja isso, eu me tornei um solitário mal-amado desprezado e ingênuo e ele virou um crápula manipulador sedutor e escroto, e nós nos detestamos.

De que adianta, enfim, eu ter essa mente que eles sempre elogiaram, sendo o formulador de grande parte dos pensamentos que nós compartilhamos, se nada disso se transformou em ação de fato? Formulei manifestos, que eles assinaram, a favor da vida, liberdade, e do dever de lutar por um mundo melhor, e o que temos agora é um robô artista que faz sexo, um gênio niilista, manipulador e sádico, um filósofo solitário e impotente, uma bissexual – ou seja lá o que ela se considere – que sabe amar mas não ser amada, uma milionária que foi dobrada ao limite e hoje anda de cabeça baixa, e uma médica que não vai salvar nenhum deles por que não consegue se salvar.

Isso tudo é muito difícil pra mim.

Queríamos ser tanto! E somos tão pouco...

Talvez essa seja a lógica da vida, nunca chegar no horizonte.

Mas nunca pensei que ele fosse ficar mais distante com o tempo...

Por quê querer o bem é tão difícil?

***

Julia, você sabe que ele só quer seu mal. Não, ele não está diferente. Ele é inteligente, carinhoso, eu sei, mas ele só quer te ganhar pra depois te quebrar. Não, ele não está sendo sincero, não seja ingênua, por deus!, ele está fingindo.

Não tem nada a ver com isso. Não tem. Eu sempre soube que ele era um maníaco, mas eu achava que ele tinha jeito, por isso fomos amigos por tanto tempo. Não é rancor, estou lhe dizendo, isso vai acabar mal!

Veja o que ele fez com Alice. Como não sabe? Ah, por favor, há 2 anos? Você é como... Deixa pra lá. Você perdeu contato com todo mundo, não foi?

Nossa, o que é que aconteceu conosco...?

Eu sei o que aconteceu, era uma pergunta retórica. É que eu sempre acreditei que seríamos fortes pra nos regenerarmos de qualquer coisa. Até disso. Eu sempre soube que, cedo ou tarde, isso aconteceria.

Por que você não está reclamando?

Mas você sempre reclamou de falar do passado. Por causa dele? Por favor, você só pode estar louca. Ele falou de Vincent pra você? Claro que eu vou falar dele. Se você falou com o psicopata sádico, eu acho que pode falar com o responsável por você não ter enlouquecido no meio de tudo.

Não estou sendo arrogante, você que está sendo ingrata. Eu sempre cuidei do nosso bem, e vocês só fazem me pôr de lado, como se eu não fosse importante... Pois saiba que eu sou. Sou o mais importante do nosso grupo, e ele ainda existe, e ele ainda vai se fazer presente na sua vida também. E dessa vez, eu não vou ficar colocando remédios pra vocês não se machucarem.

Que seja.

Se não querem proteção e ajuda, conhecerão a dor e só assim se libertarão. Por que no fundo, no fundo, é isso que vocês sempre foram: prisioneiros. Você pela sua autopiedade, seu arrependimento. Vincent e sua insensibilidade falsa. Alice e seu sofrimento induzido. Vocês são todos escravos, e eu tentei libertá-los por bem.

Mas vocês não querem ouvir, não é?

Então ficarão sob a tempestade da libertação, com seus corpos nus e expostos pra serem soltos de si pela dor, e descobrirão que a liberdade é um ácido que corrói suas mãos, sua boca, seu cérebro, se você não souber lidar com ela.

Vocês estão condenados a serem livres!

Nem você, Julia, que se dobrou com tanta perfeição à primeira pancada do mundo, você que se escondeu tão bem, vai fugir disso. Você tenta, e tentará, renegar sua liberdade.

E vai ser sua liberdade que vai se transformar em opressão!

Espero que você me peça ajuda enquanto puder, pois eu sou livre. E eu sei, Fred também é, mas ele é livre para destruir, eu sou livre para ajudar...

E tenho dito...

***

Então, eu sou o intrometido chato.

Então que seja: não me intrometerei mais, se não for chamado. Esses malditos passaram anos sendo sustentados em minhas costas, Vincent, Alice, Julia. Fui eu quem segurei a barra quando eles largaram.

E sou o chato!

Assim será feito, sua sentença será cumprida, e eu sei no que isso vai dar.

Eles ainda se encontrarão, seus destinos se entrelaçarão. Eles não saberão lidar com a liberdade, tentarão fugir dela, e não vão conseguir... Nunca!

Tolos. Nunca perceberam que a dor que sentem é causada por eles mesmos... E ficam culpando um ao outro.

Eu creio que é assim que lidam com as coisas: fugindo.

E mudar a rota não faz com que deixe de ser fuga. Eles vão tentar fugir, e eu não vou pará-los. E eu sei que, no fim, alguém não vai aguentar e vai meter uma bala na cabeça, ou a cabeça no concreto do chão.

Mas eu tentei ajudar, eu juro que tentei, e ninguém pode dizer o contrário.

***

Jean estava no mirante da Ponte dos Desejos.

Aquele local era a fonte da dor de cada um deles. Foi aqui que cada um teve de fazer escolhas conscientes para seu futuro. E fizeram.

Ele quase podia ver um filme em sua cabeça:

O que causou o problema não foram as escolhas, e sim a falta de firmeza deles para aceitá-las.

***

O parto da liberdade é como um parto qualquer. Extremamente doloroso, violento.

A diferença é que o parto da liberdade invariavelmente mata a servidão que a gestou. E não nos cabe chorar a morte da mãe terrível de tão linda criação.

O grande problema de como nós lidamos com a nossa liberdade é que nós sentimos sempre falta do ventre quente e confortável da servidão; pois a servidão só é completa quando o servo acredita, de alguma maneira doentia, que servir ao seu senhor é uma tarefa digna, importante e inexorável, quando o servo acredita que não pode, ou melhor, que não quer fugir do destino de ser, para sempre, escravo, e nunca dono de si.

Não os culpo por isso: são humanos e cometem erros.

Mas cometer duas vezes o mesmo erro já é tolice... E, se uma vez não tiveram coragem de assumir seus atos e viver dignamente com sua história, agora o farão de novo.

E quando Vincent confrontar Julia, como eu sei que fará, ela não assumirá seu ato, seja ele errado ou não. E quando Alice se deparar com Marselle e Fred, ela não entenderá que ela é o que é por que assim ela escolheu, e dirá novamente que a culpa não é sua. E quando Marselle finalmente entender que Vincent não tem conserto, não entenderá que ele é o único culpado disso.

Complexos tão tolos.

As pessoas não são complexas. Seus problemas não são complexos. Mas se tornam complexos pela omissão.

Mas a solução é sempre simples.

Uma pena que escolham a fuga. E sempre acreditando estar tomando uma atitude.

E repito:

Toda fuga que não visa lutar novamente é inócua e tola. Toda fuga assim é covarde. E por mais belas que forem as justificativas, por mais tortuoso que seja o caminho, toda fuga redunda em esquecimento, decadência, morte enfim sem dor, mas sem glória.

***

E é isso que agora, depois de ver a Ponte dos Desejos, mais me entristece.

O que fizeram foi desprezível:

A venda da honra, da liberdade, do amor, da vida... pelo fim da dor.

A covardia suprema...

Me entristece.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.