Fuga
2 O Monstro Invisível
Notas iniciais
Estava escuro.
Tateou ao redor, com aquele desespero de saber que algo ia acontecer, mas não exatamente o quê. Mexeu-se.
Inquietude...
Seu sono foi completamente devastado pelo barulho infernal que odiava: tocou o despertador.
-Diabo...
Seus olhos se abriram: não estava escuro. Ele que estava dormindo.
-Desliga isso.
Ainda tateava. Se antes não enxergava por estar escuro – ou com as pupilas fechadas –, agora não enxergava justamente por tê-las aberto. A luz o incomodava.
O barulho continuou.
-Vincent, pelo amor de deus, desliga isso!
Ele deu um soco no ar. O som parou, e a luz diminuiu um pouco; e ele viu que tinha quebrado o despertador. “Merda”.
-O que disse?
-Nada... Quebrei meu despertador.
-Que ruim.
Eles se encararam. De repente, ele não sabia quem era aquela. Sentiu uma dor aguda penetrar seu crânio, e aos poucos ele se dava conta do péssimo estado em que estava. “Mas eu não estava... O que essa garota...”
-Ei... – A garota passou a mão pelo seu peito descoberto. Ela apreciava o corpo bonito do rapaz. Ele sentiu um arrepio. Apesar dos anos fora da academia, ele mantivera o corpo bem desenhado, embora não mais musculoso.
“Estou de ressaca.” Passou a mão no rosto. Não ouvia o que a garota dizia. Só ouvia sinos repicando dentro dos seus miolos. Concentrou-se.
-...E eu posso vir aqui mais tarde...
“É, mas eu não sei seu nome. Aliás, acho que é a primeira vez que vejo seu rosto.”
-Hã? Não, não posso, tenho de ir trabalhar.
-Mas hoje é sábado e é feriado!
Balançou de leve a cabeça. – Mas eu fui escalado. – As palavras saíam sem convicção.
Levantou-se enrolado no lençol e foi se vestir. A garota partiu sem muitas delongas: ela deveria estar, inclusive, mais acostumada do que ele ao ritual do sexo casual. Ele ainda se incomodava no dia seguinte, quando tinha de conviver com o bafo de álcool e aquele cheiro peculiar que só é agradável no escuro bêbado e sem compromisso.
Pegou seu celular – para desligá-lo. Checou as ligações: não, dessa vez não fizera nenhuma ligação enquanto bebia. Mas havia uma mensagem...
“Vincent, seu grandessíssimo idiota. Quando você parar de pensar com o pau, e estiver sóbrio, me ligue. Vamos fazer algo hoje, e isso não é um convite.
Jean”
Que babaca. Gasta mais dinheiro, mas não abrevia uma palavra numa mensagem. E ainda usava superlativos. Como sabia que ele estava bêbado e com uma garota?
Respondeu de pronto. “Va s foder Jean. Liga de tarde”
De qualquer forma, tinha de descansar. Voltou à cama, mas não conseguiu mais dormir; agora que já havia visto a luz, fechar os olhos não o levava de volta ao escuro.
Seria uma manhã difícil...
O celular bipou: mensagem.
“Com prazer. E já é de tarde, Johnnie Walker.”
“Ah, merda”.
Bem...
Seria uma tarde difícil.
*
E a buzina da casa dele tocou. “Mas que diabo...”
Levantou para ir atender. Topou com um sorriso cínico.
-Jean?
-Não, o príncipe Charles.
-Que porra você está fazendo aqui? Você não ia ligar?
O rapaz sorriu. – E liguei. Se você não atendeu, problema seu. – Ele foi entrando sem ser convidado. Como sempre.
-Tá, o que você quer?
-Vamos sair, ué.
Revirou os olhos. – Pra onde, Jean?
-Sei lá. Pro Blue? Quem sabe, assim, eu consigo melhorar um pouco o nível dos lugares que você frequenta.
Mas o que diabo Jean queria? Tinha algo no tom dele que era diferente. Jean não gostava de sair. Não gostava de compania. Jean, na realidade, não gostava de ninguém. Era um fresco. Mas um fresco que ele conhecia sabe-se lá desde quando, uma das poucas pessoas com quem ele talvez pudesse contar.
No entanto, há um bom tempo que a relação dos dois não era mais tão clara e sincera. Vincent se tornara um tanto desleixado com tudo, vivendo sem objetivo, bebendo, beijando, transando, trabalhando, dormindo, tudo quase mecanicamente. Dizia para si mesmo que queria se divertir, queria “experimentar outros pratos”. Vivia sorrindo, rodeado do que gostava, mas não conseguia se entregar ao presente, como se houvesse outro tempo que o prendesse, uma outra realidade que, por não ter se concretizado, olhava para ele com desprezo.
Por outro lado, Jean tornara-se mais e mais recluso, apesar de preocupado com o (talvez único!) amigo, mas essa preocupação, ao não surtir resultados, se transformava em frustração. Ele não sabia se por preocupação ou por raiva, Jean vivia provocando-o, tentando ofendê-lo, mas estava displicente o suficiente para nem defender-se.
E isso era sua vida.
E sua vida, há um bom tempo, não incluía visitar o Blue, ele sabia o porquê.
-Jean. Me deixa. Eu estou de ressaca. Diabo, eu acho que ainda estou bêbado. Me deixe dormir.
Ele olhou com um misto de raiva e pena. – Vincent, eu tenho pena de você. Você é um trapo de pessoa.
Revirou os olhos pela milionésima vez desde o início da conversa. – De novo, Jean? Eu não sou um trapo de pessoa. Eu sou uma pessoa normal, e pessoas normais trabalham, dormem, ficam bêbadas e tem ressaca no dia seguinte. E não me venha com a sua utopia, não somos super-homens, e temos de conviver com nossos vícios.
-Não é sobre vícios, seu imbecil, sua porta, seu pedaço de jumento! É sobre viver. Não interessa se com vícios ou virtudes, você não pode jogar sua vida na lata de lixo! Nem por causa de...
-Cala a boca! – Vincent gritou, mas não estava nervoso. – Não tenho nada a discutir sobre meus hábitos. Eu estou bem assim, obrigado, agora me deixe em paz, Jean. Não quero sair. – Ele estava completamente calmo. Não tinha energias pra ficar nervoso.
-Não vou calar a boca, você sabe que eu estou certo. Você está murchando. Antes, você era idiota, pelo menos. Agora, você não tem disposição nem pra ser idiota. Você está deixando de ser. De ser qualquer coisa.
Vincent ensaiou um sorriso de canto de boca. – Pelo menos eu não sou sustentado por minha mãe, quase-virgem e antissocial.
Jean franziu o cenho. – Você está tentando me ofender? Legal, Vincent. Pelo menos agora você consegue ser idiota de novo. – Virou as costas e foi embora, sem mais exclamações emotivas.
“Viadinho.”
Vincent pegou o telefone. Não estava mais de ressaca. Pelo menos, não muito. Estava mentindo. Discou o número que guardava na mente, um dos poucos.
-...Mas você não ia visitar sua mãe?
-É, ia. Mas ela ligou, foi pra praia, e eu não tô a fim de tomar sol. Semana que vem eu vejo ela.
“Por que as pessoas ficam questionando mentiras brancas?”
-Bom, eu posso passar aí e te pegar. Você quer ir pra algum lugar?
“Que mania de ficar saindo pra lá e pra cá.”
-Passe aqui que a gente vê isso.
*
Vincent abriu a porta. Estava só com as calças do pijama. A garota olhou seus olhos castanhos, seu corpo forte e esbranquiçado, seus cabelos castanhos desgrenhados e rebeldes, analisou-o de cima a baixo antes de proferir uma palavra.
Ele não se fez de rogado. Ela estava linda. Seus cabelos loiros perdiam-se em ondas até abaixo de seus ombros, seu rosto demasiado jovem estava belíssimo, com maquiagem quase imperceptível, seus olhos claros, inocentes, brilhantes, sorriam pra ele, perdidos, enquanto sua boca retesava-se de surpresa. Ela usava um vestido leve, que grudava em sua cintura fina.
Ele não sabia se ela realmente entendera a finalidade da saída. Provavelmente imaginara que aquele podia ser o destino final...
-Por que você ainda não está vestido...? – Ela ia perguntando, assim que ele fechava a porta atrás dela.
Mas não estava preparada para ser praticamente assaltada pelos braços fortes do homem, que a prendeu na parede, beijou seu pescoço e cravou as unhas bem-aparadas na sua cintura.
-Vinci... o que... – Ela dizia, enquanto ofegava entre um beijo ofegante e um aperto fremente.
-Shhhh.
Ele já puxava uma das coxas dela para cima, e ela se sentiu tonta com o cheiro que emanava de seu pescoço recém-banhado.
“Filho da puta...”
Foi a última coisa que ela pensou pela hora subsequente.
*
-Vincent.
-Hmmm.. – Ele estava de olhos fechados, acariando seus cabelos que espraiavam-se pelo peito suado dele.
-Por que você fez isso?
-Isso o que?
Ela ficou em silêncio. O que diabos ela estava fazendo? Ela permaneceu em silêncio. “O que você quer, guria?”
-Eu pensei que íamos sair. Comer, beber, conversar, quem sabe dançar...
-E depois íamos transar. Bobagem, só pulamos a encenação.
-Encenação? – Ela virou a cabeça e olhou pra ele. Aquilo, apesar de ser apenas uma pequena dose de sarcasmo, era agressivo demais para seu Vinci.
-Marselle, não se ofenda. – Ele parecia triste. – Eu só precisava de compania. Sem rituais.
-Não era você que dizia que sexo casual é mais um ritual da sociedade?
Ele torceu o nariz. – Jean que diz isso. Mas é verdade. Mas... Com você não é casual, você sabe disso.
Ela virou o rosto para o peito dele, beijando-o de leve. – Então... Vinci. Você está muito diferente de quando nos conhecemos, sabia?
-Eu não sou mais um estudante de ensino médio, Selle. Você devia saber isso.
-Não é isso...
-Então, o quê?
Marselle havia perdido contato com ele no segundo ano do ensino médio, quando fez intercâmbio para a Bélgica. Voltou para uma faculdade em outra cidade, e só vieram a se reencontrar há um ano, quando ela foi como residente para um hospital local.
-Você costumava ser a pessoa mais doce que eu já havia visto na vida. Eu gostava de você, sabia? Você sabia. Estudamos juntos por uns três ou quatro anos, e ao contrário da maioria, você não estava interessado em me ver nua pela fechadura do banheiro. Você era... não inocente, você era... doce. O Vincent que eu conhecia era uma pessoa boa demais pra ser verdade.
Ele permaneceu em silêncio. Aquele discurso o incomodava profundamente.
-Mas agora... Você parece desesperado pra sugar dos outros aquilo que podem te oferecer de bom. É como se você tivesse perdido tudo o que há de bom em você.
-Selle, você está falando besteira.
-Vinci, você é meu amor de infância. Eu sou idiota, e ainda gosto de você. Bastante.
-Selle, não exagera.
-Não é exagero. Gosto de você o suficiente pra fingir que não senti o cheiro de mulher aqui logo quando entrei, ou o seu bafo de álcool misturado com pasta de dente quando você me beijou. Sou próxima demais à você pra me incomodar com essas coisas. Mas eu me preocupo.
-Selle. – Ele olhou-a nos olhos. – Eu não estou doente. Você não pode me curar. Esse é o que eu sou. O que me tornei. Eu não sou seu amor de infância, eu sou uma pessoa irresistível pra você, como eu tenho que admitir que você também é pra mim. Mas eu às vezes preciso de menos perguntas e mais silêncio. É por isso que gosto de você.
-Por que eu calo a boca?
-Se quiser colocar nesses termos, OK. Mas eu gosto de você por que eu não preciso falar nada pra você entender.
-Mas eu não entendo, Vinci! Você parece uma pessoa prestes à morrer! Você vive como se não fosse ser atingido por consequências, como se o futuro não te pertencesse...
Sorriu e se levantou. Enrolou-se nos lençóis e seguiu para o banho. – Quem sabe... Será que ele pertence? Desculpe, Selle. Queria que você dormisse aqui. Mas vá embora. Você precisa se divertir, e parece que eu não estou proporcionando isso.
Marselle não parecia abatida, mas, ao sair, uma lágrima desceu de seus olhos.
*
“Eu realmente devia ser menos sozinho. Mas parece que é de minha essência ser, e só ser, se só estiver.
Eu preciso descansar. Que porra. Por que não vivemos, simplesmente? Temos de ficar perguntando comos e porquês? As pessoas mudam. O mundo é injusto. Ponto.
A gente devia se soltar mais, esquecer esses preceitos, preconceitos e disciplinas idiotas.
Acho que hoje eu vou acabar ficando bêbado de novo.”
E ele também fechou a porta atrás de si.
Ia pro Blue.
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