Fucking Harry
19 Consequências
Notas iniciais
O dia estava tranquilo, tal como qualquer outro. Os alunos estudavam, outros estavam no ginásio jogando futebol, outros na biblioteca, outros no jardim, alguns ficavam nas mais de três lanchonetes que havia no pátio, alguns outros escondidos pelas diversas salas da escola fazendo a única coisa que sabiam: sexo. E havia Harry, caminhando pelos corredores segurando um pedacinho de papel com um endereço muito familiar a ele. Hanton não morava muito longe da escola, não levaria nem ao menos trinta minutos, e por ironia ou não, ele morava próximo a Star Line. Logo, Harry imaginou se Hanton alguma vez tinha ido até a boate e se deixado ser abusado por aqueles meninos vazios onde um corpo era absolutamente importante. Obviamente que Hanton nunca tinha ido a Star Line, ele era heterossexual, logo não teria motivos para ir aquele lugar cheio de perversão.
Harry se sentou em uma das mesas do grande pátio e ficou admirando o chão por um longo tempo, dobrando e desdobrando o papel com o endereço de Hanton, pensando se iria até ele ou não. Olhava para os lados e via os casais que constantemente brigavam desde a sua transformação, uma vez que todos os meninos o desejavam. Pensou em como sua vida era, e como ela é agora, e cogitou a possibilidade de renunciar seu poder para se sentir bem.
– Dane-se. Eu me sinto bem assim. – dizia ele constantemente a si mesmo quando qualquer pensamento ao contrário vinha em sua cabeça.
Ele continuava sozinho. Sempre foi, e agora não seria diferente. Ele pensou em vários momentos o quão excitante era a ideia de ter todos os homens aos seus pés, mas também não deixou de pensar que jamais teria vivenciado tais experiências se não tivesse ganhado a chance de ser esse novo Harry. Será que seria certo? Correto? Pensou também em Lucca, e quão excitante foi deslumbrar o seu primeiro ato de vingança, e o modo como Lucca se ajoelhou aos seus pés suplicando por rendição. Harry estava diferente do que era. Ele via o mundo com outros olhos e agora o via da mesma forma como todos aqueles que ele julgava, viam. Ele era apenas mais um, e nada o tornava diferente. Tudo bem. Ele tinha um poder. Mas ainda as consequências disso não faziam parte de sua vida. Ao menos, não até agora.
– Podemos falar Harry? – disse Melanie a suas costas.
– A cadeira está vaga...
Melanie se sentou, ajeitou sua mochila nos seus pés, colocou os braços na mesa e respirou fundo.
– Eu realmente estou preocupada Harry.
– Exatamente com o que Melanie? De perder seus clientes para alguém tão belo como eu?
Melanie engoliu as palavras de Harry, mas estava ali para conversar, e não para discutir.
– Preocupada com suas atitudes. Com esse seu poder. Eu não vou negar no começo eu achei a ideia interessante, mas agora, vendo por outro lado, eu acho que realmente prefiro o Harry antigo.
– E por quê? Por que ele era completamente dependente de suas insanas historias de amor e sexo?
– Não. Porque eu o tinha como meu amigo...
– Amigo? – Harry a indagou com ironia – Me poupe deste sentimentalismo Melanie, eu nunca fui seu amigo, ao menos da sua parte. Você sempre me deu sua atenção porque era conveniente a você.
– Sim. Eu te usei, não vou mentir. Mas não muda o fato de que em minha total displicência com você, eu não tinha sentimentos sinceros. Não vou mentir que era bom saber que eu poderia conversar com alguém e que não me julgaria pelo meu estilo de vida, que era maravilhoso poder apenas me expressar e não ser criticada.
– Você não sabe como é ser humilhada Melanie...
– Não. Embora nos últimos dias eu esteja passando por problemas bastante desagradáveis, e não posso contar com você, porque você está focado nessa sua vingança. Não seria mais fácil deixar a policia resolver isso?
– A policia não esta nem um pouco preocupada em me ajudar. Onde eles estão mesmo? Desde que voltei para a escola nunca mais me procuraram. E sabe por que Melanie? O pai de um dos meninos que espancaram aquele dia é um dos importantes lá dentro. Imagina o escândalo que seria se...
– Não me importa o escândalo, ao menos teriam que pagar pelo o que fizeram. Harry, julgar e penalizar as pessoas não cabe a você, ainda mais com poderes como o seu. Você está destruindo vidas...
– A minha sempre esteve, e você nunca se preocupou com isso. Qual é a sua Melanie? Por que esta tão preocupada com o que vou fazer? Está com medo de perder seus clientes?
Mais uma vez Melanie respirou fundo para não discutir. Ela pegou o papel da mão de Harry e analisou.
– O que é isso?
– O endereço de Hanton.
– Você vai até ele?
– Eu ainda não decidi o que vou fazer com ele.
– Mais uma vida que você vai destruir...
– Eu ainda não acabei a vida de ninguém Melanie.
– Sabe o taxista que nos levou até o shopping? Você sabia que ele desde aquele dia não sai da porta da escola, fica encostado no carro segurando um caderno e com uma caneta fica escrevendo o seu nome compulsivamente. Nem atender outros clientes ele esta mais, pois apenas espera que você vá até ele para que ele possa te ver. Não sei se você percebeu, mas ele é casado, e tem a foto de um lindo casal próximo ao rádio do carro. Devem ter por volta de oito anos de idade. Você acha que aquelas crianças não sentem saudade do pai? Ele não vai para casa desde aquele dia...
– O que posso fazer, a decisão é dele. – disse Harry friamente.
– Ontem à noite eu caminhava pelo jardim e me deparei com um garoto sentado na beira do portão, ele estava chorando. Eu fui até ele e perguntei o que tinha acontecido. Ele estava com os braços cortados. Eu perguntei a ele o porquê daquilo e sabe o que ele me respondeu? “Harry”, disse ele. Com muito custo eu consegui saber o nome dele, Thiago. E ele me disse que tinha conhecido um menino de nome Harry, na Star Line e que desde aquele dia ele não parava de pensar neste garoto iluminado, e que cada corte que ele infringia em seu corpo o fazia lembrar que Harry era real.
– Que triste! – completou Harry, mais friamente do que antes.
– A maioria dos casais aqui da escola estão se separando, porque as meninas não entendem como seus namorados conseguem se excitar facilmente em falar o seu nome, e quando estão com elas sentem até nojo de toca-las.
– Interessante. – disse ele com desdém.
– Hoje pela manhã, eu estava lendo o noticiário do jornal da cidade, e disseram que 754 homens haviam desaparecido. Buscando informações a policia chegou até a Star Line e invadiram o local. Havia exatamente 754 homens lá dentro. Todos nus, desidratados, e numa compulsão sexual frenética. No palco, próximo a área do DJ, havia um garoto quase desfalecido, de bruços, que estava tendo seu corpo brutalmente violentado por uma fila gigantesca de homens. Harry, eles faziam fila para transarem com o menino, que a única coisa que conseguia dizer era: Harry faça isso parar, por favor!
– Realmente uma pena encontrarem essa situação.
– Você nem ao menos se importa com isso?
– Eu deveria? – disse ele soltando um leve sorriso no canto dos lábios.
– Deveria a partir do momento que eles não têm nada haver com a sua doce vingança. Harry, seus olhos brilhavam enquanto você me contava o que fez Lucca fazer com Antony. Seu próprio irmão.
– É. Referente a isso, eu acho que peguei um pouco pesado, mas já aconteceu, e eu acho que Antony gostou.
– Gostou porque você ordenou que ele gostasse. Harry, entrar na mente das pessoas desta forma é crueldade. Eles merecem sim pagar pelo o que fizeram com você, mas até que ponto você está disposto a se vingar? O que os outros têm haver com isso? Eu sei que você deseja Hanton mais do que tudo. Mas estou com pena do que você vai fazer com ele. Estou com medo Harry. Medo do que você é capaz, e não medo de perder clientes como você insiste em dizer. Não é certo.
Harry olhou para Melanie por um instante como se fosse concordar com ela, mas neste momento Lucca se aproximou.
– Senhor, eles estão esperando por nós no banheiro. – Lucca estava com total posição de servidão. Cabeça baixa e olhos perdidos, voz tremula e braços comprimidos ao peito.
Harry se levantou e tirou o endereço das mãos de Melanie.
– Eu preciso ir Melanie. Até mais.
Enquanto saia, segurando nos braços de Lucca com força, Melanie tomou coragem e disse.
– Não terá uma próxima vez Harry, pois o amanhã pode ser tarde demais, e eu estou tirando minhas coisas do quarto, eu pedi transferência.
Harry parou e pensou por alguns instantes.
– Tudo bem. Eu preciso ficar com o meu cachorrinho perto de mim. – disse ele olhando fixamente nos olhos de Lucca.
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