Notas iniciais
Vamos para mais um capitulo fofo. Espero que estejam gostando do desenrolar da trama. As coisas vão começar a pegar a partir de agora, e a tal psiquê de Harry, começa a entrar em conflito. Então, simbora. Não esqueça de comentar no final do capitulo. Se localizar algum erro, pode mandar MP me sinalizando. Beijos...

Era semana de aula; talvez a mais angustiante de todas, já que seu primo estudava na mesma escola, e Jéssica havia dito, após saber do ocorrido, que se vingaria dele de alguma forma, logo, Harry vivia a perseguindo e controlando seus pais, temendo o pior. Sabia da não tão boa reputação de seu primo, já que por diversas vezes ele era enviado a diretoria da escola, sempre pelos mesmos motivos, fosse eles brigas ou discussões com o professor. Júlio era conhecido pela pequena gangue da escola, formado pelos piores meninos: Fernando, Maicon, Marcelo e Ariel.

Ora ou outra seu primo passava por ele, o encarando e soltando risos frouxos ao lado dos seus amigos, coibindo Harry de qualquer ação que pudesse vir a tomar. A essa altura já sabia que seu primo partilhava do mesmo pensamento que muitos da escola, o que Harry não entendia era o porquê, já que foi seu primo que o havia, de certa forma, o iniciado. Jéssica, porém, arquitetava a vingança para o seu amigo, e embora o garoto insistisse em perguntar, ela ainda teimava em dizer que não sabia ao certo o que faria. Harry temeu pela garota, sabendo que seu primo poderia ser cruel o suficiente para até mesmo pedir para as meninas mais velhas baterem na amiga na saída da escola; mas ela não temia.

— Você acha que eu estou preocupada? – disse ela no refeitório — Eu tenho os meus truques, fiz várias aulas de defesa pessoal. Coisa do meu pai Jorge.

— Se você se garante Jéssica, eu não. Meu primo pode se voltar contra mim.

— Se por acaso, ele se voltar contra você, ele terá mais problemas do que já tem. Espalhar boatos é a coisa mais fácil que existe, ainda mais em se tratar de uma pessoa como eu.

— Eu sei que ser popular tem lá suas vantagens...

— Pois bem, eu nunca pedi, mas já que sou eu me pergunto: porque não usufruir disso?

Harry estava temeroso naquela semana, pois sua amiga não tirava da cabeça, meios para se vingar de Júlio. Ela fuzilava o menino sempre que se encontravam nos corredores da escola e isso estava começando a deixar o primo de Harry incomodado. Por algumas vezes, algumas meninas da sua sala, ia de encontro com Jéssica e perguntava o motivo de ela estar tão incomodada com a presença dele; ela por sua vez, apenas ria, dando a entender que não era um incomodo, e sim interesse.

— Você é louca? – dizia Harry — Se ele perceber ele vai partir pra cima de você. Ele é galinha.

— Galinhas nãos ciscam no meu terreno Harry, não se preocupe.

Durante toda aquela semana, o garoto se sentia incomodado pela forma como Jéssica estava levando a tal vingança adiante, sabendo que seu primo poderia entender realmente que ela estava afim dela. Ora, ele até era um menino bonito, com aquele corpo escultura, e Harry sabia que seus dotes também eram de encher a boca; dele e de seus amigos. Ele não era bobo, e desejava os meninos da mesma forma como desejava ainda os meninos da época da recreação, que nesta fase da sua vida, já não frequentava mais. Seguiu outros caminhos, como aulas de espanhol, além de informática e aulas particulares de matemática, matéria que mais amava na escola. Vivia focado nos livros, estudando ou lendo coisas interessantes, e amava histórias de fantasias e grandes aventuras. Harry quando não estava trancafiado em seu quarto ou nos cursos estava na casa de Jéssica; uma amizade que se fortalecia cada vez mais. Mas tudo mudaria a partir da semana seguinte, pois Harry iria sentir algo em seu coração que o deixaria de pernas bambas.

A segunda-feira chegou calma, com uma leve neblina devido ao inverno, que já se sabia que seria rigoroso, e Harry seguiu o seu caminho para a escola, neste dia, resolveu ir a pé, para aproveitar a bela paisagem de sua pacata cidade com árvores e grandes colinas em torno. Ele amava a natureza e amava mais ainda deslumbrá-la da forma mais singela possível. Um de seus campos favoritos, conhecido como Jardim do Éden, local turístico, recebia sempre a sua visita, onde ele deitava em sua macia grama e deslumbrava o céu, ainda olhando para as nuvens e vendo suas formas; engraçado como, quando vamos ficando velhos, não paramos para admirar algo tão lindo, e se arrumamos tempo para fazer, mal conseguimos ver as formas encantadas que as nuvens podem nos proporcionar. Neste dia, ele passou em frente, já cogitando a ideia de dar uma passada no Jardim do Éden, depois da aula, para aproveitar a bela paisagem que o inverno lhe proporcionaria. Chegou na escola mais cedo que todos, e seguiu para a sua sala de aula, onde apenas aguardou, lendo um livro qualquer que estava jogado em sua mochila há tempos, quando de repente ouviu alguém pigarrear, e ao olhar para porta se deparou com um jovem de cabelos escuros e olhos azuis, com a pele lisa e sedosa, usava óculos e estava muito bem agasalhado, com sua mochila na mão.

— Bom dia. – disse o menino.

— Bom dia! – respondeu Harry tímido.

— Essa a sala do Oitavo B?

— Sim. – como a voz daquele menino soava lindamente aos ouvidos de Harry, parecia que a cada silaba pronunciada o seu coração batia mais forte.

— Então acho que estou na sala correta. – o garoto entrou — Sou Bernardo, muito prazer.

— Harry. – seguiu o garoto ainda tímido, estendo a mão ao outro para cumprimentá-lo.

— Sua mão está um gelo Harry, — Bernardo retirou do bolso suas luvas — Vista isso, vai aquecê-las. Essa cidade é muito gelada no inverno.

— Obrigado pelas luvas, — Harry colocou as luvas não acreditando na bondade do rapaz — Você não é daqui?

— Não, sou mais do norte. Prefiro o calor. – disse Bernardo rindo — Mas me diga; Harry? Um nome um tanto incomum...

— Eu não sou brasileiro. – Harry sorriu levemente percebendo que o outro pareceu não entender — A verdade é que meu pai não é brasileiro, minha mãe foi para a Inglaterra fazer pós-graduação e conheceu meu pai, eu nasci em Londres. Depois que eu nasci, meus pais vieram para o Brasil e aqui estamos. Eu vim para cá com dois anos de idade, é de se estranhar um pouco eu falar tão bem o português, mas eu comecei a falar com quase três anos, então...

— Entendi, ficou mais fácil de pegar o português não é?

— Mais ou menos isso. Mas o que veio fazer nesse fim de mundo, e ainda no lugar mais frio do país?

— Coisas da minha mãe, diz que precisava descansar e que depois que conheceu o famoso Jardim do Éden daqui, se encantou. Ela só veio porque insistiu muito para que eu viesse junto. É somente eu e ela, sou filho único e meu pai faleceu já faz alguns anos.

— Lamento pela perda.

— Não precisa lamentar tanto, meu pai era muito violento, se existia qualquer indicio de amor da minha parte sumiu quando eu o vi agredindo minha mãe, apenas por que achava engraçado.

— Continuo lamentando da mesma forma. – disse Harry encabulado.

— As mãos já esquentaram? – perguntou Bernardo.

— Já sim. Acho melhor te devolver, senão será as suas que ficaram frias.

— Posso me acostumar com isso Harry. – o garoto começou a rir – Você deve ter daqueles sobrenomes bem difíceis de pronunciar.

— Não tão difícil, mas as pessoas se enrolam um pouco; Harry Bannet-Barker.

— Bannet-Parker.

— Não, é Barker, com B, não é como Parker do Peter de o Homem Aranha. – Harry riu.

— É meio complicado, me lembre de não ter que te chamar pelo nome completo. – Bernardo sorriu.

E seu sorriso era encantador, com aqueles dentes bem desenhados, rosto angelical e, Harry não pode deixar de notar, como suas mãos eram lindas, e como naquele momento ele se sentiu inferior por saber que jamais seria tocado por elas. Mas internamente, se perguntou se de repente Bernardo não era como ele, visto pela forma como se preocupou em entregar suas luvas a ele; mas talvez fosse apenas educação, Harry não sabia dizer, e mal entendia o que estava acontecendo com ele, pois a cada olhada que o menino o dava, Harry parecia tremer de tanta emoção.

— O pessoal vai demorar para chegar? Eu já quero ir pra casa.

— Daqui a pouco estão chegando. Você chegou um pouco cedo demais.

— Quis conhecer a cidade, e eu tenho insônia, por conta disso acabo dormindo pouco.

— Já procurou ajuda médica?

— Já sim. Não durmo nem com tranqüilizante para elefante.

Logo a conversa foi interrompida, pois os alunos começaram a chegar, e tão rápido a sala se encheu de meninas euforias pelo novo aluno. Para Harry, não foi estranho de ver todas brigando por um lugar ao lado dele. Jéssica chegou e Harry apresentou ao menino.

— Prazer, Jéssica. – disse ela sorridente, e Harry sentiu naquele momento o primeiro ponto do que chamamos de ciúmes. Percebeu que Bernardo a olhou de uma forma mais terna, uma forma que ele soube naquele momento que jamais ele o olharia.

No entanto, Bernardo pareceu sentir um forte apreço por Harry, já que, embora olhasse para Jéssica, era com ele que mais conversou durante a aula, e no intervalo e logo após a saída. Bernardo perguntou onde que o seu novo amigo morava e sugeriu irem a pé. Mais que depressa, Harry aceitou e perguntou ao menino se eles poderiam ir ao Jardim do Éden para aproveitar a paisagem. O garoto aceitou.

— Harry, eu espero você em casa hoje, e Bernardo se você quiser ir, sinta-se mais que convidado. – disse Jéssica, entrando no carro de Henrico.

— Ele é o pai dela? São tão diferentes.

— Ela é adotada.

— Nossa! Ainda bem que você me falou agora, imagina se dou uma bola fora na frente dela?

— Acho que ela não se importaria, ela é muito bem resolvida em relação a isso, e também uma ótima pessoa.

— E também muito bonita, você não acha?

— Bernardo tome aqui as suas luvas... – disse Harry tentando mudar o assunto, entregando as luvas para o menino.

— Pode me chamar de B; acho mais fácil, e por favor, eu não quero ficar com as luvas, elas até que ficaram bem para você, com esse porte inglês. Alias, é um presente, tenho várias em casa.

— Agradeço. Podemos ir então?

Eles seguiram entre as ruelas da cidade até chegar no famoso jardim da cidade, onde seguiram até o final, próximo a um Ipê branco que estranhamente ainda tinha suas lindas flores, ali sentaram e ficaram durante um bom tempo apenas admirando a bela paisagem da neblina cobrindo à frente de seus olhos, imaginando quem mais poderia estar ali, fazendo o mesmo que eles.

— É tão silencioso. – disse Bernardo que deitou na grama.

— Gosto de vir aqui ás vezes. Ler um livro ou até mesmo pensar.

— E o que você pensa?

— Na vida.

— Você tem quatorze anos... o que tanto pensa?

— Penso no dia de amanhã, o que serei, o que terei, quem terei...

— Hmm. Eu ás vezes penso nisso também. Na realidade penso mais em ter alguém sabe? E que esse alguém possa me amar e me dar uma felicidade ímpar. Mas esse mundo está tão diferente de tudo o que penso e o que leio, até parei de ler romances, não consigo mais acreditar nisso.

— Você já se apaixonou? – perguntou Harry, que ainda permanecia sentado.

— Não sei se foi bem paixão ou amor, talvez eu tenha que passar por isso de novo para saber o quão intenso foi. Mas sei apenas que senti algo por uma pessoa e tudo foi apenas ilusão.

— Ela deveria ser uma menina muito bonita.

Bernardo sorriu.

— E você Harry? Já se apaixonou?

— Não. Acho que não terei tanta sorte assim na vida.

— E porque diz isso?

— Eu sou um pouco diferente das outras pessoas, digamos que, tenho uma visão diferente. – disse ele tentando não entrar no mérito da sua sexualidade.

— Entendo. Mas sabe Harry, todos nós teremos a chance de encontrar alguém que realmente valha a pena, alguém que vai destruir a nossa estrutura e causar essa euforia que grandes amantes da escrita nos proporcionam. Basta você acreditar nisso e deixar com que as coisas fluem. Você é um garoto bonito, tem essa coisa de Lord embutida em você. Duvido que não tenha alguém que não esteja interessado em você.

Harry parou para pensar um momento que essa pessoa poderia ser Bernardo, porém apenas balançou a cabeça negativamente e desdenhou do que o garoto havia lhe dito. Ele sabia que por ser o que é, isso seria difícil de acontecer, embora tivesse a prova viva bem próximo a ele de que sim, era possível amar e ser amado, se espelhou em Jorge e Henrico, e cogitou dentro de si que poderia ser Bernardo o seu grande amor juvenil.

— Preciso ir para casa, que horas você pretende ir para a casa da Jéssica?

— Não sei. Talvez depois das quatro da tarde, eu tenho que ir para o curso ainda.

— E onde podemos nos encontrar?

— Ela não mora muito longe daqui.

— As quatro estarei aqui e então vamos juntos, pode ser?

— Por mim tudo bem.

— Bem. Eu preciso mesmo ir, você vai ficar?

— Um pouco mais, mas não precisa se preocupar.

— Vou tentar, embora seja uma cidade tranqüila, temos que ter cuidado e a visibilidade aqui esta quase nula, tenha cuidado, por favor.

Bernardo se levantou e saiu, desaparecendo na neblina. Harry não tinha nenhum curso naquele dia, resolveu apenas ficar ali, pensando no quão lindo e gentil seu novo amigo era, e como seria quando Bernardo percebesse que ele gostava de meninos, e como o trataria quando os outros dissessem a ele. Harry se sentiu diminuído e começou a chorar, acreditando que tal conto de fada não seria vivido por ele, e sentiu que o garoto, talvez, só quisesse algo com ele, por conta de sua amizade com Jéssica. Ele deitou na grama e olhou o céu branco, pela neblina, e sentiu angustia, levou sua mão ao peito e desejou que tal sensação sumisse.