Fuckin' Perfect
15 Pra caralho, pra cacete
Notas iniciais
Meus olhos se fecharam enquanto eu ouvia Jenn contar a história. Eu sentia toda a dor, a pressão e a tristeza afundadas no meu peito misturadas com uma agonia constante que se formava na garganta.
Eu processava poucas palavras e aquelas que eu conseguia colocar na minha mente eram suficientes para eu querer estar dormindo, tendo o pior pesadelo da minha vida. Mas era real, era tudo real. Jenn estava morrendo.
— Eu estava bem, Logs, estava mesmo, há anos que estava curada. Vim para cá com papai atrás de uma vida nova. Mas não, essas coisas… elas nunca te deixam em paz, elas te perseguem até não restar nada de você. Peguei meus exames na segunda, o câncer no estômago voltou e… — ela piscou repetidas vezes, olhando para o teto para conter as lágrimas — não pretendo continuar com o tratamento. Já é meio tarde para isso.
Balancei a cabeça, negando. Jenn estava bem! Ela estava bem! Alguns dias atrás ela estava no palco, se apresentando…
— Não, Jenn, por favor. Me diga que não é verdade.
Ela soluçou baixinho.
— Não posso mentir — murmurou.
Pulei da cama, andando de um lado para o outro. Aquilo não estava certo.
— Quando pretendia me contar? — perguntei de repente.
Jenn levantou os olhos.
— Como assim? Estou te contando agora.
Esfreguei os olhos.
— É, mas se eu não estivesse por perto, teria me contado?
Ela colocou uma mecha dos fios por detrás da orelha e eu encarei o teto, sentindo a luz forte fazê-los arder.
— Que pergunta idiota! É claro que eu teria, teria deixado uma carta para te entregarem depois que eu morresse.
Péssima hora para fazer piada, Jenn, péssima hora.
— Muito engraçado! — exclamei.
Ela voltou a fitar o lençol.
— Acho que você ainda não entendeu a metáfora — disse.
— Não, eu acho — respondi.
Jenn ergueu os olhos, me fitando.
— Se eu não tivesse entrado pela janela, hoje não estaríamos juntos e você não estaria aqui sofrendo por mim — ela fungou. — Se eu tivesse ficado longe de você depois que saímos do Shopping, largado você, agora você não estaria aqui sofrendo por mim, pelo menos não tanto. Eu… eu… eu podia ter voltado para o Texas. Me desculpa.
— Acha que poderia ter mudado o destino se em alguma das situações tivesse se mantido distante? — indaguei, parando finalmente de dar voltas pelo quarto. — Então eu iria até lá te trazer de volta.
— Acho que sim.
Bufei.
— Só que vou dizer que não mudaria nada. Não mudaria nada, absolutamente nada! Tem noção do quanto eu era idiota antes de te conhecer?! Tudo bem, talvez eu ainda seja um pouco, mas um mais um são dois e o dia tem 24 horas e sabe qual a semelhança entre isso e nós?!
Jenn me fitava com os olhos vidrados.
— Não — sussurrou baixinho.
— Que eu tenho tanta certeza disso quanto tenho que a melhor coisa que me aconteceu foi você ter entrado em minha vida! — senti uma lágrima quente escorrer por minha face e no mesmo momento me senti gay. — Não importa quanto tempo você ficar nela.
Ela soluçou, fechou os olhos e deixou as lágrimas caírem.
— Vai ser pouco tempo, Logan — sussurrou.
Deitei na cama, em um desespero completo juntei nossos corpos, sentindo o calor do corpo dela no meu, o cheiro doce de seus cabelos ruivos e a maciez da sua pele.
E então chegaria um dia em que eu não sentiria mais o cheiro doce e inebriante de seus cabelos, e sua pele quente não mais se chocaria com a minha e a textura delicada de sua pele seriam apenas memórias inesquecíveis. Chegaria um dia que tudo chegaria ao fim.
Segurei em sua cintura, enquanto nos cobria até os ombros com o lençol. Repousei minha cabeça em seu pescoço e funguei.
— Jenn, eu não quero dizer adeus, nunca, entendeu? — exclamei tentando conter as lágrimas.
Ela virou o corpo para mim, me olhando nos olhos, e secou minhas lágrimas.
— Então não diga, apenas… apenas pense que estarei em um lugar melhor.
Afaguei o rosto dela, acariciando, tentando decorar o máximo possível de cada traço de seu semblante.
Lembrei de Jenn apenas há alguns dias atrás, como Hannah, morrendo. Imaginar aquilo acontecendo de verdade me arrancou o fôlego, fez minha vista embaçar.
— Não vou suportar — sussurrei. — Ver você morrendo de novo.
— Vai — murmurou. Com suavidade, ela me beijou, comprimindo-os levemente. — Se você não suportar, nem eu vou.
Rocei nossos narizes e senti uma lágrima quente de Jenn passar para meu rosto.
— Quanto tempo? — minha garganta se fechou, eu mal conseguia enxerga-la direito, de tanta água que escorria dos meus olhos. Estava tudo perdido, acabado, embaçado.
— Digamos que… não vou viver o suficiente para ver nosso trabalho no dia de Ação de graças — respondeu baixinho.
A apertei com mais força em volta de mim, sentindo que se as coisas pudessem piorar, haviam naquele instante. Menos de três meses.
— Eu te amo pra caralho, Jennifer — solucei. Era a primeira vez que eu falava aquilo e eu sentia que não existiria momento mais sinceras para eu finalmente soltar.
Jenn fechou os olhos, lágrimas escorriam. Ela soltou um arquejo enquanto pegava minha mão e apertava.
— E eu te amo pra cacete — abriu os olhos. Seus olhos verdes recebiam pequenos pigmentos vermelhos, seus lábios tremiam.
Beijei-os e enquanto o fazia, tentei memorizar a sensação.
Ficamos vários minutos ali, agarrados em uma pequena cama de solteiro, apenas ouvindo a respiração um do outro. Ambas descompassadas, cansadas.
— Então… sabe… se ao invés de chorarmos que tal se aproveitássemos? — propus baixinho.
Ela limpou meus olhos delicadamente.
— Você é o único que sabe disso, Logs, tirando meu pai. Não é fácil acordar todo dia achando que vai morrer toda hora. Acho que aproveitar o que me resta seria uma boa.
— Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Mas na realidade, eu não sabia se ficaria.
~~~ // ~~~
Estava deitado no tapete do meu quarto, encarando o teto escuro enquanto o ventilador fazia círculos em cima de mim.
A luz estava apagada, mas uma claridade entrava por entre as cortinas más fechadas e o meu computador dava alguma luz extra. O livro Um homem de sorte estava jogado ao meu lado, resultado de dois dias lendo-o sem parar. A música Brutal Love tocava baixinho.
"Turn out the lights
Close your eyes
Turn up the silence
The heartache of your life
Dance forever
Under the lights
This brutal love”
Tentei não ficar muito nervoso ou ficar me perguntando se Jenn se esquentaria se minha cueca box era da Calvin Klein ou não. Porque não era.
Fazia três dias que ela havia saído do hospital e havíamos decido que não havia porque adiar mais.
Ouvi ela bater na minha janela, então corri para abri-la, sem antes respirar fundo, me preparando mentalmente.
— Ei — sorri quando a fitei.
— Oi, delícia — falou Jenn, pulando para dentro.
Vestia um sobretudo bege e coturnos. Ela desfez o laço do sobretudo, revelando sutiã azul bebê de rendas e uma calcinha igual, tudo… angelical e sexy. Puro.
— Pare de olhar, Logan, estou ficando vermelha! — disse ela.
Gargalhei.
— Pode me olhar, se quiser — falei.
— Estou olhando.
— Olhe mais.
— Vou olhar.
Sorri.
— Agora memorize porque vou colocar algo — peguei um jeans, uma camiseta qualquer e meus All star.
Jenn fechou novamente o sobretudo.
— Vamos?
— Vamos, ué — ela sentou-se na janela. — Acha que não é perigoso ter alguém por perto?
Neguei com a cabeça e me sentei ao lado dela.
— Não, não. Acredite, ninguém vai lá.
Com firmeza, ela desceu os galhos, e eu fiquei tentando a me oferecer para carrega-la, de tanto medo que eu sentia que algo a arrancasse de mim antes da hora. Mas como a ótima ginasta que era, ela pulou no chão arrasando.
Desci atrás dela, não antes de levar um tombo
— Acho ótimo, porque não quero que me vejam de calcinha e sutiã — falou.
— Quando estivermos lá em cima, vai ser como no filme As vantagens de ser invisível. Só que seminus. Mais interessante, né?
— Nós nos sentiremos infinitos? — indagou ela, sorrindo.
— Nós nos sentiremos infinitos. Seminus — sorri de canto, provocativo.
Jenn riu.
— Quem é você e o que fez com o Logan?
— Não sei. Mas gosto de não ser mais exatamente ele. Vem, vamos roubar um carro. — Esfreguei as mãos. — Tá, pegar emprestado, na verdade.
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