Fuckin' Perfect
19 O dom de não ser o Jack Chan e sobreviver a uma queda
Notas iniciais
Fechei a porta atrás de mim e fitei o pequeno quarto.
Havia uma cama de solteiro, uma janela aberta com grandes cortinas que chegavam até o chão. O teto era escuro e cheio de desenhos de estrelas. Havia um tapete fofo no centro do quarto e uma mesa do lado direito. Era ali que ela estava.
Estava sentada, sequer olhou para trás quando a porta se abriu. Os cabelos eram compridos e emaranhados, ruivos com vários tufos já acinzentados. Usava uma camisola e parecia vidrada no que quer que rabiscava freneticamente a sua frente.
–- Ellen -- sussurrou Jenn, tremendo.
A mulher parou, levantando a cabeça, fitando a parede.
Jenn deu um passo lento, temerosa. Então deu outro e outro e outro, ficando atrás dela, tão próxima quanto possível.
–- Eu... hã... prazer em conhecê-la -- disse Jenn. Percebi o quanto ela respirava com dificuldade, totalmente nervosa.
A mulher finalmente se virou para nos olhar.
Certo. Com certeza era mãe de Jenn. A semelhança, a beleza e os traços eram os mesmos.
Jenn prendeu o ar, sem nem piscar direito.
Ellen sorriu.
–- Olá -- falou calmamente.
–- Posso me sentar? -- perguntou Jenn.
–- Claro que sim -- respondeu.
Jenn se sentou na ponta da cama, ainda próxima da mãe.
–- Eu não sei o que você fez pra estar aqui, mas...
–- Eu sei o que eu fiz -- cortou a mulher, levantando a sobrancelha.
–- Sabe?
–- Sei -- ela ergueu as mangas da camisola, exibindo os pulsos. Enormes cicatrizes moravam lá.
A mãe de Jenn era uma suicida.
–- Uau -- sussurrou.
Ellen sorriu.
–- Mas quem é você, querida?
Jenn empalideceu, sem voz.
–- Eu... Eu... sou -- Jenn se virou para me olhar, sem saber o que responder.
–- Alana -- respondi rapidamente.
–- Alana -- concordou Jenn. -- Sou estagiária.
–- Bem vinda, querida. E sua idade?
–- Hã... 22 -- mentiu.
Sorriu.
–- Igual a música?
–- Música?
A mulher pigarreou e começou a cantar.
–- Everything will be alright if we just keep dancing like we’re… 22, 22
–- Ah. Taylor Swift. É.
–- E quem é o carinha ali atrás?
Sorri.
–- Sou, hã... Harry.
–- Oi, Harry -- ela sorriu e voltou a fitar Jenn, depois se virou e voltou a desenhar.
–- P-posso ver? -- perguntou Jenn.
A mulher levantou a cabeça.
–- É claro -- estendeu a folha e Jenn pegou. Me aproximei para ver também.
Ai, meu Deus.
–- Quem é? -- indagou Jenn, quase chorando.
–- Minha família. Na noite em que fui mandada para cá.
O desenho mostrava uma pequena garota ruiva entre lágrimas, o pai furioso, e a mulher sendo arrastada por caras de branco. Médicos.
O desenho era simples e garranchoso, do tipo que uma criança de 7 anos faria.
–- Eles normalmente não sabem que eu desenho minhas lembranças, é contra as regras do tratamento, mas eles sempre deixam folhas e lápis na sala de recreação -- ela deu de ombros. -- Vocês não vão me entregar, vão?
–- Não -- respondi. -- Relaxe. Você tem outros?
Ellen enfiou a mão por de baixo da mesa e tirou outros. Jenn começou a olha-los, com calma mas com as mãos tremendo. Ela enxugou os olhos, tentando impedir as lágrimas que insistiam em cair.
–- Por que mais você veio para cá, Ellen?
Ela de repente se virou de volta para a mesa, socando-a, amassando os desenhos, grunhindo, furiosa. De repente, do nada, em um piscar de olhos todo o controlo tinha se esvaído.
–- Eu... eu... não gosto de falar disso! -- falou, tapando os ouvido e fechando os olhos.
–- Acalme-se! -- exclamou Jenn, assustada e pulando da cama. -- Sinto muito, não precisa falar, se não quiser.
A mulher encostou a cabeça na mesa, os grandes cabelos escondendo seu rosto. Ela continuou amassando os desenhos, lentamente, parecendo em choque.
–- Eu tentei matar minha filha -- respondeu baixinho e friamente. Então Ellen se recostou de volta na cadeira, enquanto brincava com um lápis azul entre os dedos, olhando a parede branca com indiferença. -- As vozes... as vozes... elas mandavam que eu o fizesse...
Jenn congelou e de repente começou a tremer enquanto as lágrimas caíam.
–- Eu... eu me lembro -- murmurou.
–- AS CÂMERAS APONTAM PARA ESSE ANDAR! REVISTEM OS QUARTOS! RÁPIDO, RÁPIDO, RÁPIDO! -- gritou uma voz forte e masculina do lado de fora.
–- Minha nossa, Jenn, temos que ir. Temos que nos entregar, agora! -- exclamei, em pânico.
Porém Jenn ainda parecia estar fora do ar, chorando em silêncio. Pulei na frente dela e chacoalhei seus ombros.
–- Temos que ir, Jenn! Se liga! Já sabemos o suficiente! Vamos dar o fora! Já!
Jenn assentiu enquanto limpava os olhos.
–- Quem... quem são vocês? -- perguntou Ellen.
Bufei.
–- Somos Alana e Harry -- respondi rapidamente.
Ouvi fortes passos do lado de fora. Corri até a janela e olhei para baixo.
–- Puta merda -- sussurrei. Alto, pra porra. -- Jenn, vamos pular.
Ela esbugalhou os olhos, empalidecendo, se é que era possível.
–- O quê? Está ficando louco?! Vamos morrer! -- exclamou com a voz falhando.
–- Não, não vamos. Vai ser tipo aqueles filmes do Jackie Chan. Vamos nos jogar e cair naquele toldo -- falei, erguendo as pernas e subindo na janela.
–- Logan, você bebeu? -- perguntou, incrédula. -- Exagerou nas ervas de novo, é?!
Balancei a cabeça, negando.
–- Você era ginasta quando tinha 5 anos -- respondi, respirando fundo. Fechei os olhos e comecei a rezar baixinho.
Escutei ela bater o pé atrás de mim, transtornada.
–- Meu Deus, vamos morrer! -- Jenn se juntou ao meu lado no parapeito da janela, com os olhos fechados, apertando-os com força. Segurou em minha mão.
–- Jenn, se sobrevivermos, prometo te fazer um pedido de namoro descente -- beijei a mão dela. -- Eu te amo, tipo, pra cacete.
Jenn sorriu e depois fez uma careta e soltou um soluço.
–- Está tudo tão fudido! -- dessa vez foi vez dela, pegou minha mão e a beijou. -- Se sobrevivermos, prometo transar com você. Te amo pra caralho.
Ouvimos a porta sendo escancarada, fortes passos e um arquejo de surpresa ao notarem que estávamos prestes a nos jogar.
–- SE ENTREGUEM, AGORA! O IMPACTO FARÁ VOCÊS MORRER...
Mas não ouvimos o resto. Eu só conseguia sentir o vento frio tomando conta do meu corpo e a mão quente de Jenn apertando a minha.
~~~ // ~~~
Se você está lendo essas palavras, é claro que eu não morri. Acho que ainda não é possível escrever do além, mas se for, não é o meu caso.
Se eu senti dor, só fui descobrir depois que Jenn e eu já estávamos em um táxi. Ela deitou a cabeça no meu ombro e eu afaguei seus cabelos, tentando conforta-la enquanto suas lágrimas caíam.
Meu tornozelo doía horrivelmente, provavelmente estava torcido. Meus braços estavam arranhados e as palmas das minhas mãos sangravam.
Se você não é Jackie Chan e decide pular em um toldo do 5° andar de um prédio, você ou vai acabar morto ou vai acabar como eu.
–- Machucou muito? -- sussurrei no ouvido de Jenn. -- Onde dói?
–- Dói mais aqui -- ela tocou o peito, o lugar onde ficava o coração. -- Mas acho que não quebrei nada. Você amorteceu minha queda. Estou bem.
Passei o braço em volta de seus ombros, comprimindo nossos corpos, trazendo ela o mais perto possível de mim. Ela colocou as pernas no banco do carro e deitou a cabeça no meu peito. Beijei sua testa.
–- Vai ficar tudo bem -- sussurrei. -- Prometo.
~~~ // ~~~
A viagem de volta passou rápida e dolorosa. Novamente, Jenn passou-a dormindo e talvez aquilo fosse o melhor. Dizem que dormir é bom para esquecer.
Quando o ônibus parou na rodoviária, a acordei e pegamos um táxi em direção a casa dela. Poucos minutos depois, ele estacionou.
–- Entra comigo? -- perguntou.
–- É claro -- respondi. -- Não vou deixar você levar bronca sozinha.
Ela tocou a campainha e então esperamos. O pai veio correndo atender, num expressão mista de raiva e preocupação. Respirei fundo, sabendo que a culpa era minha.
–- Jennifer Winters, me diga onde esteve! Agora! -- exclamou ele, abrindo o portão.
Jenn ficou em silêncio de braços cruzados, fitando os pés. Abri a boca e comecei a me entregar.
–- A culpa foi minha, eu...
–- Pai! Sinto muito! Eu não sabia! -- Jenn começou a soluçar e pulou nos braços dele, o abraçando com força. -- Eu... eu... achava que você era o errado, mas... mas... talvez o tempo todo você estava certo! Me desculpe!
Ele retribuiu o abraço, afagando os cabelos dela.
–- O que aconteceu, meu anjo? -- sussurrou.
Jenn arquejou.
–- E-eu fui vê-la. Mamãe. Me desculpe!
O pai fechou os olhos com força, parecendo não querer acreditar ou suportar o choque. Seus olhos encheram de lágrimas e foi naquele instante que percebi o quanto ele amava Jenn e que em cada instante de todos aqueles problemas ao redor, ele era sempre o mais afetado.
E foi naquele momento que decidi que deveria deixa-los a sós.
~~~ // ~~~
–- Cara, você faltou ontem pra voltar todo arregaçado, sério? -- indagou Greg, quando surgi no portão da escola. Atirei a batuca do meu cigarro no cesto de lixo mais próximo.
–- Arregaçado é um termo deselegante e vulgar. Prefiro quebrado, torcido, arrebentado -- caçoei, para vocês virem o quanto sou humilde, até zombo da minha própria desgraça.
–- E de quem você apanhou?
–- Não apanhei, tonto -- respondi.
–- Decidiu virar um daqueles suicidas?
Cocei o queixo.
–- Quase isso.
–- Fala logo o que fez!
–- Me joguei do 5° andar de um prédio.
–- Ah, claro! E eu sou Joana D'Arc.
–- Não estou pedindo para acreditar.
–- Que bom, porque eu não acreditaria mesmo se pedisse. Agora, falando sério, o que você fez?!
Que merda. O.k, que se foda, ele acreditaria de qualquer jeito?
–- Será que Jenn vem?
–- Não responda minha pergunta com outra.
–- Cara, você está brigando comigo como se eu fosse seu homem ou algo assim -- franzi o nariz.
–- Ha ha ha, engraçado você, Grey.
–- Olha, mano, agora é a minha hora. Adeus -- entrei na minha sala, Jenn não estava lá e a sensação era estranha. De alguma maneira, parecia tudo incompleto.
~~~ // ~~~
Dois dias depois, terminei a lição de casa e tomei banho, coloquei uma roupa que não me fizesse parecer rebelde e penteei meu cabelo, o que era um grande avanço na minha vida de ser feio/lindo.
Tomei coragem e pedi o carro de mamãe emprestado, que com os olhos radiantes, indagou:
–- É para tomar jeito com aquela namoradinha sua, meu filho?
–- É, quase, isso. É para fazê-la minha namorada, na verdade.
Eu havia prometido.
Ela sorriu e me entregou as chaves. Minutinhos depois, toquei a campainha da casa de Jenn.
Tirei meu celular do bolso e enquanto esperava o maldito ligar, pensei que em primeiro lugar eu pediria para o pai dela, depois do jantar eu faria o pedido e se tudo desse certo, eu a levaria para aquele lugar louco onde ela me levou quando entrou na minha janela.
Lembram-se? Onde todo mundo da minha escola ia e só eu, o idiota, não sabia da existência.
Olhei o aparelho nas minhas mãos. Senti uma puta raiva desses celulares que decidiam desligar quando eu mais precisava. Alguns segundos depois, ele ligou.
Nenhum sinal de vida na casa de Jenn. Toquei a campainha novamente e voltei a prestar atenção no meu celular.
Droga.
Três ligações perdidas. Uma caixa postal. De Jenn.
Apertei para ouvir e suspirei, ansioso.
–- Logs -- um arquejo. Forte, de dor. Ela funga. -- Acho que.... Olha... sinto muito.
Um gemido. Daí em diante, apenas o silêncio.
Fale com o autor