Fuckin' Perfect
12 Dar em cima da avó ninguém quer
Notas iniciais
— Acho que vai ser meio difícil selecionar os melhores momentos — falei enquanto entrávamos na minha casa. — Quero dizer… foi perfeito!
— Eu sei, você chorou igual uma menininha — Jenn riu, com tristeza.
Dei de ombros. Eu tinha chorado, porra. Por mais gay que isso soe, eu realmente não me importava.
— É — admiti. — E daí? Sério, eu não tenho do que reclamar da minha vida e até três semanas atrás eu achava ela uma bosta.
Subimos a escada até o meu quarto.
— Pois é, aí eu apareci! — Jenn levantou os braços e depois baixou, sorridente.
— É, aí você apareceu! Aí meu irmão deu de ficar até tarde vandalizando — Jenn e eu nos viramos rapidamente, para fitar uma Clary subindo as escadas com o celular e os fones pendurados nos ouvidos.
— Antes você reclamava que eu não saia, agora que eu saio.
— Não tentem me entender. E, ruiva, Logan é perca de tempo, confie em mim — falou ela, entrando em seu quarto e batendo a porta com o pé.
Jenn ficou olhando a porta do quarto dela por longos segundos.
— Sua irmã é chata para caralho. Sei lá, será mesmo que ela acha que eu não sei que você é perca de tempo?! — Jenn riu maliciosamente. — Adoro perder tempo.
Eu ri baixinho, andando de costas até o meu quarto, enquanto mantinha meus olhos presos nos dela.
— Então vamos perder um pouquinho mais de tempo — sorri. Jenn foi se aproximando de mim lentamente, até nossos lábios estarem tão próximos que não tinha alternativa mais perfeita do que os unirem logo. Enquanto a beijava, abri a porta do meu quarto e a carreguei para dentro. Alguns segundos depois, fechei.
~~~ // ~~~
— Acho que está ótimo.
— Sim — Jenn terminou de passar o vídeo para um pendrive. — Agora é só fazer o relatório.
Assenti.
— Jenn, fiquei pensando… quero visitar Lorena mais vezes. Ela parece tão só.
— É o que eu pretendo também. Não sei… visitar ela mexeu tanto comigo.
Balancei a cabeça, afirmativamente.
— Acho isso tão injusto. Me faz pensar em Deus, nas coisas boas e nas coisas ruins.
Jenn se deitou na minha cama, fitando o teto.
— É o que é pra ser, esse tipo de coisa não é culpa de ninguém — murmurou.
Joguei o pendrive em cima da mesa de computador e pulei na cama, fazendo o colchão balançar. Peguei a mão de Jenn, entrelaçando nossos dedos.
Talvez estivesse na hora de trocar de assunto.
— Quando eu te vi pela primeira vez pensei “ela é tudo o que eu odeio no mundo” — contei. — Acho que mudei de ideia consideravelmente.
Jenn torceu o nariz.
— Quando te vi pela primeira vez apenas pensei “quero ser amiga dele, mesmo que ele tenha cara de idiota e aja como um.”
Ri.
— Acho que mudamos muito, né?
— Para melhor — respondeu. — Mas sério, sem mais esse mimimi, estou ficando enjoada. Vamos dar um rolê por aí?
Ela tossiu três vazes, se recuperou rapidamente.
— Eita — sussurrei. — Pode ser, desde que eu não tenha que roubar um carro.
— Vamos de táxi mesmo. Mas sério, cara, você precisa de um carro.
— Disposta a me dar um?
— Não. Vai trabalhar, vagabundo — Jenn arqueou a sobrancelha, provocativa.
— Eu já faço meu trabalho te aguentando — pulei da cama e calcei meus tênis. — Vamos?
~~~ // ~~~
Eu sei que eu já mais que deveria estar acostumado com as surpresas que Jenn fazia, mas acontece que — adivinhem! — eu não estava! Isso mesmo, tudo que aquela garota me arrumava era surpresas. mas, mano, como ela conseguia me deixar quase sempre com cara de idiota? A menos, é claro, que essa cara já fosse minha sem nem tê-la por perto. Bem mais provável, daí ela aparecia e a tornava pior ainda.
Jennifer Winters era aquele tipo de pessoa que você ficava se perguntando o quanto se podia piorar de minuto em minuto.
–- Shopping de Ophelia. Muito bom saber que agora você vai me levar para programas de menininhas -- resmunguei, descendo do táxi.
–- Não seja machista, Logs. Estamos no século XXl, aceite -- ela abriu a porta do carro e desceu, jogando a bolsa no ombro.
Desci junto e fiquei durante alguns segundinhos observando a faxada do prédio, achando que talvez não era tão ruim assim.
Eu precisava de whisky, precisava mesmo. Para aguentar as coisas mais facilmente. Procurei no bolso do meu jeans um cantil de alumínio, tirei a tampa e virei na boca, tentando não sentir o gosto forte.
–- Estou pronto -- falei. Guardei a garrafinha de volta no meu bolso.
Jenn revirou os olhos.
–- Não seja ridículo, só vamos comprar uns CDs e uns livros. Não vou obrigar você a erguer o zíper de vestidos para mim ou segurar caixas de sapatos -- ela entrelaçou nossos braços e juntos caminhamos até a entrada. -- E mesmo se estivéssemos aqui pra isso, não precisaria ficar bêbado.
Estava lotado, meio óbvio. Principalmente por adolescentes que carregavam várias sacolas nas mãos, outros apenas andavam em bandos, outros estavam sós e como Jenn e eu, havia vários casais. Mas o que mais havia lá eram garotas, ciscando pra lá e pra cá.
–- Essas garotas precisam de macho -- reclamou Jenn, apertando minha mão com mais força. -- Ficam pra lá e pra cá atrás de um. Olha só aquela piranha, está olhando pra você.
Olhei ao meu redor, enquanto caminhávamos colados.
–- Onde? -- indaguei.
Jenn soltou minha mão e meu braço e deu um tapa no meu ombro.
–- Babaca! Isso não é importante, você é meu -- ela bufou, voltando a pegar na minha mão. -- Eu sei que você sofre de baixa auto estima mas saiba que essas vagabundas estão te comendo com os olhos.
Sorri, apontando os dedos para as minhas bochechas.
–- São minhas covinhas.
–- Não, não. É seu pau -- ela deu uma pausa. -- Homens estão em falta ultimamente.
–- Ui! -- arqueei a sobrancelha e ela me puxou.
–- Vem, vamos antes que alguma tente te estuprar -- Jenn abriu a porta da loja "Metanoia: CDs, livros e Comics." Um sininho soou e um cara que não deveria ter mais do que nossa idade, 17, saiu de trás do balcão. Ele usava uma jaqueta de couro igual a minha, só que, digamos, cem vezes melhor, um jeans escuro e tênis Chuck Taylor. Ele mexeu nos fios loiros e compridos, antes de abrir um sorriso.
–- Conheço você? -- perguntou.
–- Provavelmente, não -- respondi, involuntário. Quero dizer, fazia pouco tempo que Jenn havia chegado, então era comigo que ele falava, certo? Não.
–- É com a ruivinha que estou falando, colega -- respondeu ele, mascando um chiclete de menta que deixava o cheiro no ar.
Jenn sorriu. Por que ela tinha essa maldita mania?! Sabe, a de ficar sorrindo sem parar. Era irritante.
–- Não. Faz pouco tempo que cheguei -- respondeu Jenn, fitando-o ao mesmo tempo que tirava um livro da estante.
–- Ah, sim -- ele trocou o peso do corpo de um pé para o outro. -- É que é tão raro ruivas passarem por mim. E ruivas são tão... inesquecíveis.
Ela riu.
–- Já ouvi algo do tipo -- mirou o chão e depois ergueu os olhos. -- Então... alguma sugestão de compra?
–- Um Frappuccino no Starbucks ao lado. Mas eu pago, é claro -- ele sorriu, exibindo dentes tão brancos quanto o do cara do comercial de pasta de dente.
Aquele cara tava provocando. Tava pedindo um soco. Estava mesmo. E todo mundo é prova disso.
–- Sabe o que também inesquecível? -- indaguei, cerrando os dentes. -- Meu punho na...
Jenn ficou entre nós, tampando minha visão dele.
–- ENTÃO... hoje vou negar, mas que tal um descontinho para garotas bonitas? -- acrescentou ela, rapidamente.
O garoto analisou ela, pensando no caso. Depois sorriu, com certeza imaginando que talvez mais tarde isso ajudaria a comê-la mais facilmente.
Dar em cima da avó ninguém quer, né?
–- Tudo bem, só porque sou filho do dono e você é ruiva e bonita. Rara.
Só uma questão básica: ele ainda não havia percebido que eu estava por lá e... que... essa raridade toda estava comigo?
–- Obrigada -- Jenn deu de ombros e sorriu pra mim. Não, não, não! As coisas não deveriam funcionar assim. Ela agia como se fosse tudo um jogo. Como se enganar fosse uma brincadeirinha e fazer as pessoas agirem como ela queria fosse um jogo. E eu jogava junto, um jogador invisível que observava e participava sem se queimar na brincadeira, só desfrutando das conquistas. Isso me fazia pensar em Chistin e o quanto era tudo falso nela.
A voz estridente de Christin soou no fundo da minha mente "Você me despreza, mas se esquece que Jennifer é minha amiga, porque é como eu".
Jenn pegou em minha mão e me puxou até a estante de CDs.
–- Estive pensando nisso -- ela tossiu. --, e decidi te dar esse CD. Pra mim ele é perfeito e eu pensei "quero ele para o Logs, sabe, para ele ouvir e pensar em mim."
Ela tirou o CD da prateleira: ¡Tré!– Green Day
–- Essa aqui, Brutal Love, é minha favorita -- virou o CD e apontou para o título.
–- Certo -- sussurrei, estranhamente indiferente.
Jenn me fitou, impassível
–- Queria te dar esse livro do Nicholas Sparks também -- ela caminhou até o outro lado da loja e eu fui atrás. -- Um Homem de Sorte, do Nicholas Sparks. Saiba que ele é ótimo em destroçar corações.
–- Tudo bem -- murmurei.
Ela empilhou as coisas nos braços e caminhou até o caixa.
–- Aqui estou. Descontinho para ruivas! -- ela sorriu mostrando os dentes. -- Aliás, como é seu nome mesmo?
O cara riu
–- Meu nome é Jack. A dona dos fios ruivos é...?
–- Jennifer.
–- Vamos ver... tudo daria 30 pratas. Pra você faço por 16 pratas, contanto que você aceite me passar seu telefone.
Senti meu rosto esquentar. Principalmente ao ver que Winters sorria. Antes que eu decidisse bater no cara, saí pela porta, batendo a porta atrás de mim, pensando que preferia ter minha vida antiga, aquela de ficar embaixo das cobertas me achando um merda do que ver caras por aí dando em cima da garota que eu gostava, enquanto ela simplesmente parecia curtir.
Jenn saiu alguns segundos depois, com as coisas ensacoladas, e uma testa franzida.
–- Logan? -- chamou.
Me virei para encara-la.
–- Algum problema? -- indagou. Sua inocência quase me fez rir.
Bufei.
–- Se tem algum problema? É claro que tem problema! Não é divertido e nada prazeroso ver caras dando em cima de você, Jennifer. Não é legal pra mim e eu vejo como você os manipula e me coloca no meio dos seus joguinhos! Que inferno! Acha isso legal?! Não! É sujo e baixo! E eu não sinto prazer em ser teatral. E eu sei que você só estava tentando conseguir o que quer, mas às vezes ser honesta não machuca ninguém. Não é a primeira vez que você faz isso mas dessa vez foi o cúmulo, caralho! E quer saber? Não me meta mais nos seus jogos. Ser falso pra mim não é os dados como é os dos seus joguinhos, cacete!
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