Fuckin' Perfect
6 Beijar soa bem
Notas iniciais
–- Você falou palavrão -- avisei.
–- Eu quis.
–- Jenn, você é uma garota.
–- Ah, meu Deus, eu nem sabia. Passei minha vida inteira sem tirar a roupa e olhar pra baixo, juro! -- revirou os olhos. -- E daí?
–- E eu sou um garoto.
–- É mesmo? Pensei que fosse um travesti.
Meio cruel isso soou, meio cruel, só acho.
–- Jenn, é claro que eu topo fazer a peça com você! Faz tempo que eu não... você sabe... e nem é por causa disso, mas é que, acho que pode ser interessante.
Jenn sorriu e quando ia responder, o professor voltou a falar e não parou mais antes que o sinal batesse.
~~~ // ~~~
No sábado, Jennifer apareceu em casa depois do almoço. Havia prendido os fios ruivos em um rabo de cavalo, de um jeito largadinho, vestia jeans e camiseta e pela primeira vez desde que eu me lembrava parecia mais simples e relaxada, o que só realçava sua beleza natural.
Estávamos em frente da minha casa, encostados no muro.
–- Devia se vestir assim mais vezes, sabia? Combina mais com você.
Jenn sorriu e ruborizou.
–- Obrigada, vou anotar isso, pode deixar.
–- Tem certeza que vou conseguir pegar esse papel? -- perguntei.
–- Não custa tentar, certo? -- ela levantou as sobrancelhas.
–- Hm... certo.
Busquei um cigarro no bolso do meu jeans e o acendi com o isqueiro. Coloquei entre os lábios.
–- Isso é tão sexy e tão... assassino -- ela sussurrou, com os olhos fixos em mim. Depois sorriu ao notar que pensou alto demais.
–- O quê? -- indaguei, surpreso.
–- Cigarro. Quando você começou? -- perguntou.
–- Pouco mais de três meses.
–- Hm... sei! E se estou certa foi depois que deixou Christin.
–- Beleza, já entendi. Não vai vir com discurso moralista, vai? -- cruzei os braços.
Ela sorriu e entrelaçou nossos braços.
–- Não! Olhe só para mim, eu tenho cara disso?
–- Não sei, mas que você é surpreendente, é.
Começamos a caminhar até a escola.
–- Relaxa, quer se matar, o problema é todinho seu.
–- Muito encorajador -- ironizei. -- Mas o que foi aquilo de Sexy? Eu fico sexy fumando? Anda reparando, né?
Jenn parou no meio da rua e segurou meu queixo delicadamente. Senti um nervosismo ao olhar nos olhos verdes dela e suas expressões calmas, tão próxima de mim. Meu coração batia descompassado, torci para que ela não notasse.
–- Trague -- mandou suavemente.
Traguei o cigarro e soltei um anel de fumaça, que se desfez ao tocar nela.
–- Huh?
–- Extremamente sexy! Tive até um orgasmo aqui -- Jenn gargalhou, me soltou, e seguiu andando, me deixando para trás.
Me perguntei se ela tinha sentido aquilo, que eu tinha sentido... sabe, com a proximidade.
Acelerei e a alcancei.
–- Hã.. então... sobre o que é a peça? -- perguntei, hesitante.
–- Uma adaptação para Hamlet. Mas a principal é uma garota.
–- E é você -- sorri.

–- Com esse são três, Cowboy. E sim, sou eu.
–- E eu vou ter que pegar você -- afirmei.
–- Sim, na peça, sim -- ela me fitou.
–- E nos bastidores? Também vamos poder treinar em casa?
Jenn revirou os olhos.
–- No fundo, no fundo você é igual a qualquer garoto. Cheio de necessidades sexuais.
–- Isso é ruim?
–- Não. Já estava me perguntando sobre quando é que você iria começar a olhar para mim assim. Chegamos.
~~~ // ~~~
–- Ser ator ou atriz principal no teatro da vida não significa não falhar ou não chorar, mas ter habilidade para refazer caminhos, coragem para reconhecer erros, humildade para...
A professora do teatro recitava alguma frase de Augusto Cury enquanto Jenn e eu fazíamos guerrinha de polegares. Ela me arrebentava fácil fácil nisso.
–- Ou seja, vocês terão que ser tão atores nesses palcos quanto são da vida -- a professora Emmy sorriu. -- Temos um novo integrante ao grupo, Loga Stanford Grey. Tentará o papel principal masculino.
–- Achei que ele já fosse meu -- resmungou Chad.
A professora fitou ele. Dava a impressão que só tinha escolhido Chad por falta de opções, o que se olhando em volta, confirmava isso. Fora Jenn e eu, só havia mais outras cinco pessoas. Chad, Melinda, Katerine, John e Jaymes.
Pelo o que eu havia entendido, seria uma adaptação de Hamlet. E não seria bem Hamlet, seria Hannah. O papel que eu tentaria pegar seria o de amigo dela, Brad. Melinda seria a mãe, Gina; John seria o pai, Paul; Jaymes o noivo, Peter; Katerine seria uma funcionária e... sobraria o vilão para Chad, Clayton. Caso ele quisesse.
A peça basicamente falava da filha que tem o pai recentemente morto. Em uma noite, ela vê o fantasma do pai falando que quem o matou foi Clayton, seu irmão e agora futuro marido de sua mulher. O pai pede vingança. Hannah tenta desmascarar o tio por meio de uma peça teatral, que acaba falhando. Ela foge e conhece Brad, que a ajuda a se vingar, enquanto alimenta uma quedinha por ele. Vale lembrar que a adaptação era de Hamlet, de Shakespeare, ou seja, trágico, final infeliz.
–- E é. No entanto... talvez você se encaixe mais como Clayton -- respondeu a professora.
–- Sei... Estou sendo substituído por esse aí.
–- Acho que usar a palavra "troca" se adequá melhor.
Chad fez um muxoxo.
–- Estou sendo trocado. Maravilha.
Jennifer se virou, encarando o fundo do ginásio, onde ele estava.
–- Chad, é o vilão. Você tem cara de mau. Combina com você, vai por mim -- falou ela, docilmente.
Chad a fitou durante vários segundos. E eu reconheceria aquela expressão em qualquer lugar. Ele a estava secando. Filho da puta.
–- Certo. -- Falou. Sussurrou baixinho depois. -- Me passa seu telefone?!
Jenn riu, sem dizer sim nem não, mas deixando a esperança no ar. Voltou a se virar para a frente e piscou para mim.
A professora continuou falando e falando e o que me impedia de dormir ali era Jenn, que não parava de me distrair com alguma coisa, até que chegou um momento em que até ela pareceu ficar entediada e sem ideias, e aí eu comecei a pensar em como seria beijar Jenn. Ela era minha amiga, óbvio, eu era amigo dela, mas eu realmente não ligava de beijá-la de vez em sempre. Ah, também não me importaria de fazer saliência. Nem um pouquinho. Imaginei se ela era tão selvagem em baixo da cobertas quanto era habitualmente. Deveria ser o paraíso.
Isso soou... meio pervertido?
–- Então... quando é que eu te beijo? -- murmurei em seu ouvido.
Jennifer me fitou, arqueou uma sobrancelha e apertou os lábios.
–- Antes de eu morrer.
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