Fuckin' Perfect
7 As covinhas de Jenn
Notas iniciais
Os ensaios da peça ocorriam toda quarta e sábado, o que explicava porque em tão pouco tempo Jenn já havia se enfiado por lá. Ela havia chegado segunda na escola, e quarta já estava inclusa. A garota era tão social da vida que às vezes me deixava surpreso que ela perdesse tanto tempo comigo. Ela tinha um sorriso lindo, eu era um mané. Ela era feliz, eu era praticamente um eremita. Enquanto ela estava ligada em 220 na encruzilhada da vida entre o "viva" e "seja feliz", sendo que ela conseguia se desdobrar e atravessar as duas, eu estava deitado no meu quarto, embaixo das cobertas, reclamando do quanto minha vida era potencialmente ridícula. Só que aí estava a questão, Jenn era minha amiga, em apenas alguns dias, ela já era uma grande. Era como se estivesse me dando um banho de choque e me arrastado até a encruzilhada com ela. Na encruzilhada, eu havia decido segui-la aonde quer que fosse, pelo simples fato de que eu estava apaixonado pelo sorriso dela. Era pegar na minha mão e vamos lá, Cowboy! Como gostava de dizer.
–- Suas covinhas nas costas são adoráveis -- Jenn sussurrou, enquanto eu pegava meus livros na minha estante. -- A das suas bochechas também. E eu também tenho.
Sorri e joguei alguns dos Títulos na cama, ao lado dela, que me analisava.
–- Você é bem observadora -- comentei.
–- E daí? Quer ver as minhas? -- ela se levantou, ergueu a blusa e o casaquinho, permitindo que eu visse os dois furinhos no final de seu dorso. -- Huh?
–- São lindinhas, sério. Quero casar com suas covinhas -- ironizei. Só que na verdade eu adorava as covinhas dela, que, é claro, eu já havia reparado antes. -- Só que estou bem mais afim das covinhas de sua bochecha.
Ela sorriu e as covinhas apareceram.
–- Viu? São apaixonáveis -- retribui o sorriso.
–- As suas também! Tá vendo o porque de você dever sorrir sempre? Aliás, com esse são dez.
Jenn sorriu, me fitando e eu a fitei de volta, sorrindo, sem pensar em falar nada, só em continuar olhando aquele sorriso e aquelas covinhas o dia todo.
~~~ // ~~~
–-- E então ela morre. Brad a beija e Hannah morre -- contou Jenn, baixinho, com os olhos vidrados.
–- Trágico -- sussurrei de volta.
Jenn piscou e riu.
–- Vai ser uma peça curta. Um beijo só, e acabou! Entendidos? -- provocou.
–- Um beijo só -- assenti com a cabeça, com falsa inocência. -- Você vai querer mais que eu sei!
Ela gargalhou e socou meu ombro levemente.
–- Não vou não! -- exclamou.
Estávamos na minha casa, era um sábado de madrugada e conversávamos embaixo das cobertas, enquanto ela bebia uma coca-cola e e eu Whisky. Jennifer ia dormir comigo, da forma mais bobinha.
–- Tá duvidando, é? -- indaguei levantando as sobrancelhas.
Ela revirou os olhos e deitou a cabeça no meu ombro.
–- Talvez -- bocejou. -- Só mais dois dias de ensaio, Logan. Só mais dois dias.
E eu vou sentir sua boca na minha.
O tempo havia passado rápido. Fazia quase um mês que Jennifer e eu havíamos nos conhecido e eu não me imaginava nem um instante longe dela.
Dali uma semana iríamos fazer o trabalho no hospital do câncer e praticamente na mesma época nos apresentaríamos para a escola. Era muita coisa, mas eu não me lembrava de me sentir mais satisfeito antes.
–- Estou com sono -- reclamou ela. De repente ela arregalou os olhos. -- Puta que pariu! Como não pensei nisso antes!
Ai, meu Deus! Lá vem merda! Eu odiava quando ela fazia isso! Odiava! Toda vez que de uma hora para outra ela estava de boa e no outro estava elétrica, significava que iria fazer alguma besteira.
–- Logs, já acampou antes?!
–- Não, nunca -- falei, já esperando o pior.
Ela sorriu e se levantou.
–- Que tal se acampássemos no jardim?! Imagina, que legal!
–- Péssima ideia, Jenn, estou com preguiça até pra ir ali na porta, quem dirá lá fora -- enfiei a cara no travesseiro.
–- Vai ser divertido, Logan, prometo.
–- Sabe, você promete muita coisa -- resmunguei com a voz abafada.
–- Você é chato -- Jennifer se aproximou da cama e começou a puxar minhas cobertas. -- Eu até falei palavrão e você nem notou.
–- Tudo bem, com esse são cinco -- suspirei.
Então grunhi baixinho quando senti o corpo dela no meu, sentada em cima do meu abdome, de pernas abertas. Não fazia força, mas se mexia de forma que indicava que poderia fazer a qualquer instante. Seu corpo era quente, e o choque de nossos corpos juntos me deixou arrepiado. E sem fôlego, e sem ar, e sentindo dor.
–- Vamos, Logan! Vamos! -- exclamou, se mexendo em cima de mim. -- Se você não disser que sim, vou dar um salto que vai te fazer ir para as cidades dos defuntos em dois segundos!
Segurei na costas dela, tentando levantar, mas a garota era realmente forte, o que só serviu para eu ficar mais sem fôlego ainda. Acima de mim, eu tinha uma imagem perfeita dos seus peitos, da suas curvas e sentia seu calor em mim. Seria uma vista do paraíso se eu não estivesse tendo um colapso.
–- Tá duvidando, né? Idiota! Vamos! É só uma noite no jardim! Por favor, por favor! Vamos!
Ouvi um som distante, o que parecia uma porta sendo aberta e em seguida quase desejei morrer quando ouvi a voz da minha mãe.
–- Que diabos está acontecendo aqui?!
Naquele instante Jenn se distraiu, o que foi suficiente para joga-la para o chão.
Pensei na cena: Jenn sentada em cima de mim, pulando, com uma pijama mega curto, e eu sem camiseta, apenas com um samba-canção. A situação só seria mais constrangedora se estivéssemos nus.
Jenn gemeu de dor baixinho, enquanto me olhava de cara feia do tapete.
–- Hm... estava tentando convencer Logan a acampar no jardim, Sra. Grey -- confessou Jenn, com sua melhor cara de anjo, mas devido a queda, ela estava mais para querubim pós guerra.
–- Você tem uma ideia bem interessante de convencê-lo -- minha mãe sorriu. Ela?! Não! Minha mãe não estava brava?
–- Mas é claro, só vamos se você permitir -- acrescentou rapidamente.
–- Tudo bem, a barraca está na garagem. Sabe, Logs estava precisando mesmo se divertir um pouco. Você é uma garota de ouro. Usem camisinhas.
Engasguei, dessa vez jurando que eu não ia aguentar a falta de fôlego e partiria para a cidade dos defuntos.
~~~ // ~~~
Ir às 1 da manha em um lugar anônimo e acampar no jardim foram só o início. Teve também pular de um lugar alto para cair diretamente em um rio; trollar as pessoas no ônibus, fingindo falar no telefone: "já dei um fim nos corpos. Quem é o próximo?"; apontar um secador de cabelo para cada carro que passava em frente de casa e a mais recente: ir para a avenida mais movimentada de Ophelia com uma plaquinha escrito "Free Hugs"
E vou dizer que eu estava adorando. Porra, estava mesmo. Cada segundo ao lado dela era totalmente fascinante. Quero dizer, era meio cansativo, mas depois eu pensava que valia a pena, era divertido, me fazia rir de verdade. Viver com Jenn era incrível. Não como se eu soubesse o que era isso antes de conhecê-la.
–- Logs, o que vamos fazer? --- perguntou ela, em uma tarde, na casa dela.
–- Sobre?
–- O trabalho de literatura -- respondeu.
O quarto dela era grande, com venezianas na janela, todo branco com detalhes lilás. A cama tinha um belo dossel que dava um ar antigo e chique para o ambiente. Seus livros ocupavam duas estantes em duas paredes diferentes e seu notebook ficava abandonado embaixo da cama. A primeira coisa que notei ao entrar lá foi em um belo piano antigo, talvez de mais de cem anos atrás.
Soltei o ar com força.
–- Não sei -- sussurrei, observando os livros dela. -- Ei, Agatha Christie é legal. Dickens também... Ai, meu Deus! Já sei! Podíamos arrecadar livros para o hospital! Caralho, eu sou um gênio! Isso mesmo, eu sou um gênio! Aceito beijos e boquetes como prêmio a isso, já que não posso ganhar um prêmio nobel.
Jenn me fitou, pensativa. Depois sorriu.
–- É, boa, garoto! Finalmente isso aí tá desatolando! Podíamos ler os melhores para as crianças também, seria interessante. E não, nada de boquete, foi graças aos meus livros que você pôs isso pra funcionar.
Eu gargalhei e continuei fuçando nos livros dela, até que cheguei em um pequeno que estava um pouco escondido entre os outros. Tirei-o de lá e li o título Memórias Externas, Deserée Stix. Não conhecia, nunca tinha ouvido falar, folheei-o e me assustei quando algo caiu de dentro.
–- Ah, Logan, esse livro n... -- Jenn murmurou caminhando até mim.
Mas eu já havia me abaixado e pegado. Era uma foto.
O cara deveria ter uns quinze anos. Um pouco pálido demais, cabelos castanhos escuros e grandes olhos negros. Não sorria, mas a sobrancelha levantada sugeria que ele deveria ser divertido de vez em quando e se não estivesse em uma cama de um hospital, onde bem estava na foto. Fitei-a, confuso e olhei do outro lado, em que apenas estava escrito "Eterno enquanto durou."
Levantei os olhos, Jenn me olhava com os olhos lacrimejando. Pegou a foto de minha mão e devolveu para o livro, guardando novamente na estante.
–- Este é Oliver. Sabe, eu tinha uma quedinha por ele. Conheci-o num hospital do Câncer, no Texas, mas aí ele partiu de novo para a França, do nada, em desespero, para tentar tratamento por lá -- falou, fitando o chão.
–- E você nunca mais teve notícias dele? -- perguntei com o receio.
–- Não, eu até tive -- ela ergueu os olhos, sorrindo com tristeza. -- Ele morreu.
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