Fry Quartz
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Peedee chegou em casa rejeitando suas roupas novas e engomadas, roupas sociais nunca foram seu forte, ele jogou tudo sobre a cama, pegou sua regata e vestiu sem pensar duas vezes, o sol já havia se posto, a lua subiu no céu, a chuva cessou deixando suas poças e molhados para traz, mas Peedee não estava acostumado a jantar naquela hora, ele normalmente jantava mais tarde, mas a comida do restaurante era ótima, no mínimo ao gosto de Peedee, ele se concentrou mais na comida no que nas pessoas sentadas na mesa que ele nem conhecia, gente que o pai dele conhecia apenas, e pelo que parecia esse jantar tinha apenas um objetivo, que o Sr. Fryman tratava de evidenciar a todo momento.
–Nossa aquela comida estava ótima! Oque achou em Peedee, os Sustens são muito gentis não? Eles gostaram muito de você! Sabe a filha deles é linda não, Marge, por que você não... “fica com ela” como vocês dizem...
–Eh.. pai... talvez...
O pobre Peedee se sentia envergonhado, o pai sempre o empurrava para meninas da idade dele, por que ele “precisa de uma namorada, desencalhar”, afinal, Peedee nunca namorou, ele sempre esteve esperando por “ele”, e quando você gosta de um menino secretamente não é nada fácil ouvir “eu quero netos logo!” de seu pai nas horas mais inesperadas, principalmente em uma vez, que ele falou isso bem na frente de Steven, mas essa não foi a ocasião, em resumo, Peedee detestou Marge Susten, e ficou o jantar todo lembrando da manha daquele mesmo dia.
Naquela manha, Peedee estava sentado em uma cadeira de madeira, segurando o casaco de Steven, a sua espera, o sol quente aquecia metade de seu corpo, enquanto a outra metade congelava no frio da manha, ele apertou o casaco mais um pouco, o cheirou, e cobriu suas costas com ele, e permaneceu sentindo sua textura no corpo, até se perder em meio aquelas sensações, ele apenas percebeu a presença de Steven parado em frente ao balcão quando ele disse seu mais simples “bom dia”, aquele bom dia que trouxe uma onda de sentimentos ao rapaz que vermelho, olhava para o lindo garoto de rosa esfregando as mãos nos braços exclamando
–Está muito frio!!! Quem diria que hoje estaria tão frio... espero que não fique assim a noite!
–você deveria usar um casaco...
–eu usaria se não...
–ah é mesmo... como eu sou idiota, toma aqui seu casaco! Ele estava manchado, então eu coloquei ele para lavar, ele está bem limpo agora!
–mas você...
–amaciante super leve, lavagem longa, molho, secagem rápida, sim eu ainda me lembro disso e dos últimos 3 casacos encolhidos que você acabou causando.
–uau você lembra mesmo! Seria ótimo alguém como você morando comigo algum dia!!! Desde que Pearl está ocupada demais com assuntos gem, e ela passa quase o tempo todo no templo, ou no espaço, então eu tenho que fazer o trabalho de casa...
–que isso, você é ótimo! É só separar as roupas da forma certa e tudo dá certo!
–um dia eu ainda acerto! Olha você não quer ir lá em casa hoje a noite... eu tenho finalmente uma folga, se quiser dormir lá tudo bem também!
Peedee não podia ter ficado mais feliz, no mínimo internamente houve explosões de arco-íris com sua alegria, aquele pedido era esperado a meses por ele, mas por fora ele tratou de se controlar
–Vou ver se eu tenho tempo, sabe... meu pai vai me levar a um jantar mas tudo bem! Eu vou tentar ir!
–Ok! Vejo você mais tarde! Até mais!
Com um toque de mão ele se despede de Peedee, e corre pela praia vestindo o casaco, Peedee estava meio vermelho, e sabia que já haviam pessoas na praia, mas decidiu observar seu amigo se distanciar mais uma vez, com um leve sorriso no rosto, e a mesma sensação que ele tinha quase todas as vezes que eles se encontravam... “eu estou chegando mais perto...”
E então o turno de Peedee começou, era hora de entregar batatas, dessa vez ele teria o cuidado de deixar BASTANTE sobras para poder levar para Steven, um gosto de união entre eles; pensamentos voavam em sua mente durante seu dia de trabalho, conversas interessantes, piadas, jogos, coisas que ele ainda tinha em comum com Steven, tudo isso, ele acabou achando mais fácil fazer uma lista, não iria se esquecer de nada que o fizesse ter uma conversa descontraída com ele, afinal, era o que eles podiam fazer juntos como amigos, as horas passavam e o sol caia sobre o horizonte, foi um dia de clientela alta, muitas pessoas, e muitas sobras de batatas para poder compartilhar, e aquilo era o que ele queria, o pote já estava cheio quando Sr. Fryman chegou da fazenda trazendo com ele um lote de batatas para o próximo dia, ele desceu do carro e chamou Peedee para ajuda-lo, ambos descarregaram os engradados de madeira com as bolas amarelas dentro do freezer, Sr. Fryman ajustou a temperatura para 4º, Peedee ajustou a temperatura para 3º pois números impares são sempre melhores, então já dentro do banheiro com o chuveiro ligado, o pai de Peedee avisa
–O jantar é daqui a pouco Peedee, depois me mim é sua vez de tomar banho, vista aquela roupa que eu comprei semana passada, a social! E não demore!
–Ok pai...
Peedee não estava feliz com esse jantar, seu desejo era ir mais cedo para a casa de Steven e dormir lá, com ele, a noite toda, depois acordar, tomar café com ele, e depois se despedir de novo com o mesmo sentimento de “eu estou chegando mais perto...”, mas parece que a parte do chegar cedo não iria rolar, e se ele não tivesse lembrado que devia avisar seu pai que ia dormir lá talvez nada disso fosse rolar, ele bateu na porta do banheiro, Sr. Fryman de dentro respondeu.
–Oi Peedee! Pode falar!
–hoje Steven Universe passou aqui me chamando para dormir na casa dele mais tarde, posso ir?
–Sim sim eu vi ele aqui, pode claro! Depois do jantar você pode arrumar suas coisas e ir para lá, só não demore amanha e juízo em!!!
–Ok pai! Pode confiar.
–Eu sei que posso... agora pode tratar de arrumar as coisas que só irei enxaguar e estou saindo!
Peedee chutando o chão entrou em seu quarto, colocou as roupas com cuidado sobre a cama, os sapatos, perfume, escolheu exatamente o que iria usar, seu pai então saiu do banho, ele tratou de se apressar, entrar no chuveiro e terminar o banho rapidamente, deixando a água esvaziar sua mente, passando os dedos pelos cabelos, e enfim saindo do banheiro enrolado em sua toalha, olhou para a sua poupa social com a boca torta, ele nunca se deu bem com roupas sociais, olhou pela janela, e reparou que já devia ser tarde, ele devia se apressar, enfiou todas as roupas, se arrumou no espelho, e saiu do quarto, seu pai passava pelo corredor quando ele abriu a porta, ele então envolveu um dos braços em sua cabeça e disse
–É isso ai filhão! Você está ótimo! Vamos vamos! Senão nós vamos nos atrasar e os Susten não gostam de atrasos, entre no carro que eu facho a casa!
–Tudo bem pai... mas por favor sem ficar me elogiando 100% do tempo do jantar!
Com um riso irônico Sr. Fryman consente, Peedee se joga no banco e fecha a porta, ele queria na verdade estar com Steven, não indo jantar com uma família desconhecida, ele ficou fazendo círculos no vidro observando seu reflexo, quando uma pequena gota colidiu contra a superfície transparente, e depois outra, e de uma em uma começou a chover, não parecia tempo para chuvas, afinal foi um dia frio, mas as gotas de chuva compensavam esse frio sendo extremamente geladas, o pai de Peedee, que entrou as pressas no carro, soltou um “brrrrruuuuuuuuuuuh” balançando a cabeça, dizendo que a chuva estrava muito fria enquanto ligava o carro e deu a partida, ele ficou metade do caminho falando sobre como ele teve sorte em conseguir aquela camisa social num sorteio, e como teve sorte em não molha-la muito na breve chuva que ele acabou de passar, a outra metade ficou comentando sobre a família Susten, que parecia ser uma daquelas famílias perfeitas que fazem qualquer um enjoar, todos engomadinhos falando em norma padrão, ricos e com um cão de raça, extremamente adestrado para não desperdiçar qualquer dinheiro, era assim que a família Susten se parecia na mente dele, e era assim que ela parecia ser durante todo o jantar, Peedee ficou o tempo todo afirmando coisas, remexendo na comida e fingindo prestar atenção nas cotações dos investimentos nos ramos em que Sr. e Sra. Susten trabalhavam, que eles ficavam declarando toda vez que engoliam uma porção de comida, o retorno para casa foi silencioso, observar as poças de chuva que se formaram, a lua quase cheia surgiu por detrás das nuvens, um lindo cenário, ficava imaginando bem naquele banco, na beira da praia, ele e Steven sentados, juntos aquecendo um ao outro, pensamentos que o faziam ficar vermelho, ele não parava de passar por essas situações desde o outro dia em que viu Steven na praia, todos aqueles pensamentos voltaram, mas pelas primeiras vezes, ele estava mais feliz por Steven estar aqui, na terra, perto dele, que no espaço longe de qualquer comunicação e chance de trazer as duvidas cruéis em sua mente, ele estava essencialmente feliz por aquilo, mal podia esperar para chegar em casa.
Já mais descontraído, sem usar aquelas roupas sociais horríveis, com sua regata solta no corpo, ele deitou sobre sua cama, agora ele deveria se arrumar para encontrar com Steven na casa dele, a parte de “encontrar com Steven” o fez suspirar, ele pegou a foto que ele tinha de Steven, sobre seu criado mudo, e ficou observando, sorrindo, então deu um pequeno beijo em sua foto, no rosto de Steven, depois abraçou com força a pequena moldura azul, fechando os olhos, e lá ficou...
Peedee somente ouviu o barulho de sua maçaneta girando, estalando, e seu pai entrando no quarto enquanto perguntava
–Peedee, por que essa lista de “conversas legais com Steven” está em cima do balção...
Ele parou ao ver o filho deitado sobre a cama, abraçando aquela moldura, ele sabia que o quadro era de Steven, ele encaixou as peças, somou dois mais dois, enquanto Peedee ficava paralisado, apenas olhando qual seria a reação do pai a tudo, se Peedee estivesse certo, seu pai acabara de descobrir seu segredo, o segredo que ele mantinha a sete chaves, mas por esquecer de girar a chave de seu quarto na maçaneta, foi revelado
–Peedee... por que... não... eu não posso... você... você gosta do Steven?... você gosta de um garoto? VOCÊ È GAY??
–Pai calma eu...
–VOCÊ NADA... eu não te criei assim, eu não te criei para dar a empresa em suas mãos e depois você ficar com um garoto estranho
–Pai não diga isso, eu vou... por favor...
As mãos de Peedee suavam, ele se levantou, colocou a moldura na cama e apertou sua regata entre suas mãos tremulantes, que procuravam no que se apegar.
–Não me peça favores que eu já fiz demais... eu te empurro para as melhores meninas da região e você faz ISSO?
–EU não gosto daquelas meninas, eu gosto...
–DE OUTRO GAROTO! EXATO! NÃO SABE A MINHA DECEPÇÃO AGORA!!!
– VOCÊ NÂO ME ENTENDE PAI...
–É CLARO QUE EU NÂO ENTENDO, EU NÃO VOU ACEITAR MEU FILHO SER GAY!!! NÂO VOU MESMO!
–PAI...
–VOCÊ ESTÁ PROIBIDO DE VER AQUELE GAROTO ESTRANHO DE NOVO! PROIBIDO!
–NÃO!!! VOCÊ NÂO TEM O DIREITO! Não é questão de gostar de meninas ou meninos, eu gosto do Steven! E você não vai me impedir de ver ele! Eu sempre fiz muito por você, sempre escutei calado o que você mandava, agora você vai me escutar, eu cansei disso, de manter tudo o que eu sinto escondido de você, e de todos, eu amo o Steven, e eu quero namorar com ele, e com mais ninguém!!! E VOCÊ NÃO VAI ME IMPEDIR NUNCA!
–VOCÊ NÃO VAI SAIR DAQUI!
Lagrimas se formavam nos olhos de Peedee, o momento mais tenso entre ele e o pai foi aquele, ele não queria ficar ali, ele queria sumir, desaparecer, olhava para os lados freneticamente, a única saída, era a janela, pois seu pai estava parado na porta, ele não pensou duas vezes, muito provavelmente não pensou nem uma vez completa, começou a pular a janela, quando seu pai reagiu
–SE VOCÊ SAIR POR ESSA JANELA, VOCÊ ESTÁ DEMITIDO!!!
–quer saber? EU ME DEMITO!
Peedee pulou, e correu, não olhou para traz hora alguma, as lagrimas escorriam pelo seu sorto e refletiam sobre a luz da lua, sob soluços percorreu a praia, sem sequer pensar se seu pai estava atrás dele, o que ele iria fazer?... não sabia... se iria voltar?... não sabia... apenas ir em frente, e ir em frente, enquanto seus pensamentos digladiavam em sua mente em uma explosão sem sentido, que o fazia muito confuso. Os ecos de sua dor passavam por seu corpo, cada passo que seus pés davam velozmente em direção de qualquer lugar o afastava de si mesmo... então ele de repente parou, estava de pé apertando novamente sua regata entre as mãos gélidas, estava muito frio, e ele estava próximo a casa de Steven, agora seu pai sabia, seu segredo não era mais seguro, “fazer oque?” ele pensou, subiu os degraus que mais pareciam montanhas a serem escaladas, em um ritmo lento sobre a luz da lua apenas, parou sobre o carpete, esticou sua mão com a intenção de bater, hesitou por alguns segundos e enfim tocou na porta, ele ouviu passos, vários passos, e então a porta se abriu, lá estava Steven, aquele que ele amava tanto, que ele queria tão perto, mas estava muito longe dele, sempre esteve...
–Peedee? Você demorou... o que ouve... você está chorando? Peedee?
Peedee não disse uma palavra, apenas observou o rosto tênue de Steven sobre a luz da lua, e seu olhar de preocupação, pensava quão patético ele parecia estar naquele momento, naquele exato momento ele não podia fazer nada, nada parecia poder melhorar sua situação, ele apenas envolveu seus braços no pescoço de Steven e o beijou...
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