Frozen Hearts
2 We were so close
Notas iniciais

Em dias como esse, a vontade que Elsa sentia de fugir novamente para as montanhas congeladas só aumentava, a ponto de ficar quase insuportável. Ela não nasceu para isso. Jantares de gala, bailes na corte, batismos de navio e tantos outros eventos onde a boa gente do reino se amontoa e se diverte. Só a faz ter mais medo ainda de feri-los. Anna achava que ela já estava alcançando o pleno domínio dos seus poderes, mas a irmã não poderia estar mais longe da verdade. Tudo estava ligado ao seu humor. Quando estava feliz e tranquila, o gelo era um elemento obediente, como um animal domesticado, pronto para acatar as suas ordens. Porém, a cada vez que Elsa perdia o controle de suas emoções, seus poderes imediatamente ficam desenfreados, selvagens, capazes de cobrir o mundo inteiro de neve. E digamos que, ultimamente, ela vinha se sentindo refém de sentimentos nada positivos.
A culpa, Elsa pensava, era desse maldito casamento. Não desaprovava completamente a relação da sua irmã com aquele bruto do Kristoff. Claro, ela poderia interessar-se por alguém infinitamente melhor, à altura da princesa que ela é. Mas não cabia à ela controlar as vontades de Anna, nem escolher quem ela deveria amar. Apenas mais uma item para a lista imensa de 'coisas que estão fora de controle'.
Ao tentar dormir naquela noite, a rainha de Arendelle não conseguia parar de reviver aquele momento na varanda, ao anoitecer. Enquanto planejava mais uma de suas fugas que nunca aconteceriam, Anna veio ao seu encontro. Depois de alguns minutos em silêncio, fez aquele pedido. Madrinha de Casamento, ora essa! Elsa preferia ter que comparecer a mil eventos no reino, a ter que ir a esse casamento. Ainda mais como madrinha! Mas como dizer não à irmã, sem magoar seus sentimentos?
Limitou-se a concordar e virar de costas, para que ela não visse sua expressão melancólica. Mas antes de retirar-se, Anna ainda teve tempo de dizer que nunca a abandonaria. Elsa, que já estava pronta para transformar a balaustrada inteira em gelo maciço, derreteu por dentro. Parece que ela não era a única a ter poderes especiais na família, afinal.
Quando finalmente venceu os pensamentos e entregou-se ao sono, sonhou com a sua infância ao lado da irmã. As duas se divertiam deslizando num lago que fora congelado por Elsa, ali perto do castelo, e as risadas infantis ecoavam pelas montanhas brancas ao seu redor. Mas de repente, o céu acima das garotas ficou escuro, repleto de nuvens baixas com aspecto ameaçador. Na mesma hora, o gelo embaixo dos pés de Anna rachou e partiu-se em centenas de pedaços, antes mesmo que Elsa pudesse fazer alguma coisa.
Só teve tempo de gritar o nome da irmã, antes que a garotinha de cabelos castanhos afundasse completamente na água congelante. Elsa chorava e gritava, mas seus poderes, de alguma maneira, haviam parado de funcionar. Sentindo-se inútil e desesperada, conseguiu alcançar a borda do lugar onde ela havia caído, apenas a tempo de ver o olhar aterrorizado de Anna, que desapareceu para sempre nas profundezas do lago.
A rainha da neve acordou gritando em sua cama e suando frio, enquanto tentava fazer a sua mente entender que havia sido só um pesadelo. Seu coração batia tão rápido, que por um momento, pensou ter ouvido-o através do quarto.
— Elsa? Elsa!!! Elsa, está tudo bem aí dentro?
Eram as batidas desesperadas de Anna na sua porta, quase a ponto de derrubá-la.
— Foi só um pesadelo, Anna. Desculpe pelos gritos. Pode voltar pra cama.
— Elsa, me deixa entrar. Eu quero ter certeza que você está bem.
A irmã parecia ter se acalmado mais um pouco, mas ainda era possível ouvir a preocupação na sua voz. A própria Elsa ainda estava lutando para esquecer o terror que havia sentido na pele durante aquele pesadelo terrível.
Mas tinha que se lembrar que não era mais criança, e que só estava com medo de se separar da irmã e não poder fazer nada para impedir. Bobagem. Isso jamais aconteceria, Anna havia garantido. Não havia o que temer.
— Está tudo bem agora, Anna. Vá dormir, você tem um dia cheio amanhã. Boa noite.
Mas mesmo assim, ao ouvir os passos da irmã se distanciando pelo corredor, não pôde evitar um certo arrepio de temor na espinha. O futuro estendia-se à sua frente como um lago congelado. Tudo poderia acontecer.
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