Frozen Hearts

4 Marshmallow, Attack!


Notas iniciais
POV Elsa. Desculpem pela demora! Fiz o cap 4 maior para compensar. E obrigada a todo mundo que tá comentando, divulgando, etc.

Maldito casamento. Maldito Kristoff. Maldita Anna. Maldito reino de Arendelle inteiro.

A raiva corre nas minhas veias como se fosse sangue, enquanto eu sento aqui no alto dessa montanha, escondida dentro do meu forte de gelo. Me refugiei aqui para não
congelar o castelo e todos os seus habitantes de uma só vez. Para não explodir de tanto ódio, me contento em fazer o forte ficar cada vez mais alto, assemelhando-se a
uma torre de um palácio oculto no meio da neve.

Tudo começou quando acordei e me dirigi até o salão principal. Sabia que esse seria um dia especial para Anna, o dia em que iria escolher o seu vestido de noiva.
Esperava que fizesse jus à sua beleza e a fizesse sentir-se especial, única, como eu sabia que ela era, mas como a própria às vezes parecia esquecer. Até pensei em não
aparecer por perto para não atrapalhar as preparações e o seu grande momento, mas de última hora, quando me encaminhava para fazer meu desjejum na sala de jantar, fui tomada pela curiosidade e não resisti. O plano era só passar e ver como ela estava indo, talvez me prontificar para ajudar em algo que ela precisasse na decoração do castelo ou algo do tipo. Fazer o meu trabalho de irmã da noiva, da melhor maneira possível. Como era esperado.

Mas não contei com o elemento surpresa e a realidade, mais uma vez, passou bem distante do planejado. Quando entrei no salão, Anna estava de frente para o espelho de corpo inteiro, de olhos fechados, murmurando quase que pra si mesma algo que eu não conseguia ouvir, por estar perto da porta.

Ela sorria enquanto falava, vestida como uma princesa da neve, com o tecido rendado do vestido moldando-se perfeitamente ao seu corpo, o véu delicado roçando nos seus lábios e movendo-se com a sua respiração. O corpete tomara que caia deixava a pele dos seus ombros completamente descobertos, e uma fileira infinita de botões de pérola fechavam o vestido nas suas costas. Ela parecia... Parecia as fadas das histórias que líamos quando crianças, sem dúvida um ser encantado de outro universo, perdido aqui nessa dimensão por engano. Linda. Perfeita. A pessoa mais bonita que eu já vi na minha vida.

Como se eu estivesse sendo atraída para perto dela, sem poder me defender, dei dois passos à frente e pude finalmente ouvir suas palavras: "É como quando começa a
nevar e os primeiros flocos de neve estão flutuando pelo céu, e você abre a boca e consegue pegar um com a língua. Sabe o que dizem, sorte para o ano inteiro. Pra
sempre. É a melhor sensação do mundo."

Nesse minuto, meu coração pareceu congelar dentro do meu peito, para em seguida voltar a bater com tanta rapidez, bombeando sangue para o meu corpo com tanta força, que, pela primeira vez em muito tempo, senti...calor. Minha pele parecia ter sido aquecida a temperaturas altíssimas e eu estava ponto de começar a suar como se fosse o primeiro dia do verão.

Enquanto me perdia em pensamentos, Anna finalmente abriu os olhos e me viu através do espelho, esboçando um sorriso que parecia reunir toda a luz do sol e mais algumas estrelas de brinde. De repente, foi como se todos os criados à nossa volta desaparecessem junto com o castelo, Arendelle, as montanhas brancas e tudo que havia além de nós duas no mundo. Naquele milésimo de segundo, éramos novamente só eu e ela e nada mais existia, nada mais precisava existir. Tudo que eu precisava estava ali, na minha frente, me olhando de volta através do reflexo e concordando em segredo. Mas parece que qualquer sonho precisa ter hora certa para acabar, pois quando Anna virou-se para me olhar, pude notar quando sua expressão subitamente mudou. O sol de verão sumiu e deu lugar ao céu fechado e repleto de nuvens negras.

Foi quando me lembrei que o seu discurso sobre amor não era pra mim. Não poderia ser. Ela estava noiva de outra pessoa, inclusive vestida para casar com ele. Todos os seus sorrisos ensolarados e olhos brilhantes seriam dele agora. Para ele, por ele, com ele. Nunca mais meus.

A realidade desceu sobre nós como uma cachoeira de água gelada e eu percebi que já estava ali, parada, encarando a minha irmã em silêncio por tempo demais. Que cena eu não deveria estar fazendo. Balbuciei algo sobre tomar o desjejum e depois ir ajudar a equipe com a decoração do castelo para o casamento e enfim me retirei. Anna também tentou falar alguma coisa, mas não fiquei tempo o suficiente para ouvi-la, mas deveria ser também uma desculpa ou pretexto para encerrar aquele momento desconfortável.

Sim, pois agora, quando me lembro em retrospectiva daquele momento, sentada aqui em meu forte gelado, começo a achar que devo ter imaginado coisas. Confundi a reação constrangida da Anna com um sentimento recíproco. Ela deveria estar apenas sem saber como lidar comigo. Como me lembrar de maneira sutil que estava de casamento marcado, planejando o início de uma vida nova ao lado de quem realmente amava, seu noivo, Kristoff. Droga. Acho que só enxergamos o que queremos enxergar. O resto deve ser apenas ilusão de ótica. Riscos coloridos que embaçam a visão e nos fazem achar que estamos vendo coisas a mais, quando na verdade, apenas não abrimos os olhos direito.

Agora mesmo, se eu fechar os meus por um segundo, consigo lembrar de quando éramos apenas duas garotinhas, e eu vivia fugindo pra cá, para essa mesma montanha, criar um forte de gelo à minha volta para que ninguém me encontrasse por horas e horas. Mas passados cinco minutos, Anna sempre aparecia, morrendo de frio, me chamando para voltar pro castelo e ir tomar chocolate quente com ela. Naquela época, eu não era tão poderosa e as paredes do forte não eram tão altas.

Agora, o meu forte virou uma torre de gelo e o seu topo quase consegue alcançar o céu. Mas a diferença mesmo é que ninguém mais vai vir me procurar no meio da neve para me chamar de volta pra casa.



Naquela noite, depois de passar o dia inteiro tentando ajudar na decoração externa do castelo e fracassar miseravelmente, finalmente me dei por vencida e fui pro meu quarto, sem ter forças nem pra jantar. Anna queria esculturas de gelo em meio ao jardim de inverno onde os convidados se sentariam para assistir à cerimônia. Em dias normais, seria uma tarefa simples para mim. Mas hoje, diante dos acontecimentos , todas as vezes em que tentei criar as tais esculturas, acabei congelando sem querer milhares e milhares de flores inocentes no caminho. O jardineiro do castelo já não sabia como me dizer para parar, então resolvi interromper a matança e prometi que no dia seguinte me sairia melhor. Simplesmente não conseguia evitar. Me sentia exausta e sem nenhum controle do que quer que fosse, meus poderes incluídos.

Por isso resolvi ir pra cama cedo e me permitir um sono sem sonhos, desejando que o dia seguinte fosse melhor do que este. Mas, como já era de se esperar, a vida real sempre aparece com um plano B: acordei de madrugada, suando frio e gritando. Outro pesadelo. Dessa vez, uma Anna vestida de noiva partia numa carruagem ao lado do Kristoff, enquanto gargalhava e gritava para todos ouvirem que finalmente estava livre de mim. Justamente quando eu estava me recuperando e respirando fundo, sentada na cama, a porta do quarto se abriu com estardalhaço. Era Anna em carne, osso, pijama de patinhos e ursinho à tiracolo.

Não pude evitar um sorriso.

Ela parou em frente à cama e pareceu aliviada, as bochechas vermelhas e as mãos apoiadas nas pernas enquanto tentava recobrar o fôlego.

— Anna? Como você... Como...?

— Peguei a chave da porta com a sua criada, na última vez. Não vou mais ficar do lado de fora ouvindo você ter pesadelos, Elsa. Não vou.

Apesar do pijama e dos cabelos soltos e assanhados em volta do ombro, sua expressão era de pura determinação. Parecia uma criança pronta para guerra, armada apenas com seu ursinho de pelúcia, o estimado Mr. Jones. Era adorável e ao mesmo tempo hilário. Fiquei tão desconcertada com a sua preocupação, que não pude fazer outra coisa a não ser concordar, enquanto segurava o riso.

— Oh. Se é o que você quer, tudo bem. Fique à vontade.

Ela pareceu surpresa em me ver cooperando tão rápido assim e meio sem saber como agir em seguida.

— Sério? Ok. Ok, então. Não sabia que ia ser tão fácil convencer você, quer dizer, eu estava pronta para montar acampamento aqui e fazer o que fosse necessário para...

— Bom, se você ia ficar fazendo discursos a madrugada inteira, achei melhor concordar de uma vez. Quem sabe assim você me deixa dormir.

Deitei de volta na cama e virei para o outro lado, fingindo dormir, com um sorriso grudado no rosto.

— Hum... Elsa?

Fingindo uma voz sonolenta, respondi:

— Sim?

— Hum.... Será que você podia ir mais pra lá só um pouquinho?

Sem dizer nada, eu me afastei para o lado direito e levantei os lençóis. Anna correu para a cama e se enfiou debaixo deles, se acomodando ruidosamente.

— Quer dizer que você trouxe reforços para me ajudar a não ter pesadelos, hein?

— Ah, o Mr. Jones aqui? Ele insistiu em vir para aplicar em você a melhor cura do mundo para sonhos ruins.

— É mesmo? E qual seria?

E a princesa de Arendelle, a minha irmã mais nova, uma moça adulta prestes a se casar, começou a fazer cócegas em mim como se fôssemos novamente duas crianças com medo do escuro. Fiquei com lágrimas nos olhos de tanto rir e tentei impedi-la com todas as minhas forças. Mas apenas depois de alguns minutos intermináveis, Anna concordou em parar de cutucar minha barriga e mergulhamos em um silêncio familiar, agradável. Estávamos uma de frente para a outra e nossos narizes quase se tocavam, enquanto eu assistia seus olhos piscando até se fecharem por completo. Achei que ela já havia adormecido, quando ouvi a sua voz preguiçosa sussurrando: — Não precisa mais ficar com medo, Elsa. Eu estou aqui.

Ou talvez tenha sido só minha imaginação.

Não preguei os olhos nem por um segundo naquela noite. Fiquei virada para a janela, sentindo Anna se mexer de um lado para o outro, enquanto balbuciava palavras inaudíveis. Seu corpo emanava um calor morno, como as últimas cinzas de uma lareira que nunca se apaga, e eu tive que cruzar meus braços para resistir à vontade de abraçá-la. De tocar o seu rosto com a ponta dos dedos. De tirar os fios teimosos que insistiam em cair nos seus olhos. De encostar minha testa na sua e sentir sua respiração tão perto da minha. De, bem devagar, encostar meus lábios nos seus, para ver seu olhar brilhante de surpresa quando acordasse e percebesse o que estava acontecendo. Eu queria que ela sorrisse e passasse a mão nos meus cabelo presos em tranças e deslizasse os dedos na minha nuca, me trazendo para perto, para grudar sua boca na minha sem nenhuma suavidade. Com força, com urgência. Quando a sua língua tocasse a minha, eu não conseguiria mais me controlar e envolveria sua cintura com as mãos, puxando-a pra mim. Inteira pra mim. Muitas vezes. Infinitas vezes. Sem cansar e sem enjoar.

Assisti ao sol nascer pela janela e tornar o céu todo cor-de-rosa, enquanto morria de calor, a camisola grudada no corpo e os fios de cabelo colados na testa.
Agora não eram apenas os pesadelos que me atormentavam e eu sabia que não poderia continuar assim. Quando finalmente o sol já estava alto no céu sem nuvens e Anna começava a acordar ao meu lado, eu já havia elaborado um plano para nos tirar daquela situação. Não seria fácil, não seria uma jogada limpa, mas não havia outra alternativa.

Naquele momento, em meio às circunstâncias que nos rodeavam, eu não tinha como prever que aquilo iria mudar o destino de todos nós para sempre.

Notas finais
Nome do cap 5: Let it Go. POV Anna.