Frozen Hearts
6 Let it go
Notas iniciais

"The snow blows white on the mountain tonight
Not a footprint to be seen
A kingdom of isolation and it looks like I'm the queen
Let it go, let it go
Can't hold it back anymore
Let it go, let it go
Turn my back and slam the door"
(POV ELSA)
Naquela manhã, Anna mal havia acordado direito e já estava pulando da cama em direção à porta, mas não sem antes tropeçar nos lençóis e cair no chão.
— Anna? Tá tudo bem aí?
— Ops! Sim, tá sim. Quero dizer, tô bem, tudo certo. Só tenho uma coisa meio urgente pra fazer, então vou indo. Te vejo mais tarde!
Ela já estava saindo do quarto sem nem olhar direito pra mim, quando eu disse:
— Não está esquecendo de nada?
Consegui ver o exato momento em que ela parou e voltou-se, insegura, aproximando-se da cama e fitando a parede. Parecia morta de vergonha sem motivo aparente.
— Hmmm. O quê?
— O seu fiel escudeiro.
Joguei o ursinho de pelúcia em sua direção e me deitei de volta na cama, sem olhá-la. Me sentia culpada mesmo sem ter feito nada. Antes tivesse feito, ora essa!
— Ok, então...Até mais tarde!
Acenei com a cabeça e fiquei em silêncio até ouvir a porta do quarto fechando-se. O constrangimento de Anna era visível e só podia significar uma coisa: ela havia finalmente percebido as reações que eu tanto tentei esconder. Era isso, então.
Saiu daqui tão rápido quanto pôde, como se houvesse algo a temer. Ou alguém. Eu enfim havia conseguido estragar tudo, envenenar a ligação especial que sempre compartilhamos... E pelo quê? Por algumas palavras e olhares tão sólidos quanto o ar. Achei que meus pensamentos e desejos estavam seguros, bem guardados dentro da minha cabeça.
Mas talvez, talvez eu tenha deixado transparecer mais do que devia. Mais do que podia. Mas ainda era pouco perto do que eu realmente queria. E agora, Anna deveria estar correndo pra longe de mim, para se proteger, para não ter que enfrentar a difícil situação de ter que me dizer que nada disso era recíproco, nada disso era real. No ímpeto de não deixá-la ir embora, acabei apenas afastando-a ainda mais.
Meu Deus... O que eu havia feito?
–
Passei o dia inteiro trancada no quarto, que só foi aberto ocasionalmente pelos criados que tentaram me alimentar e me fazer sair da cama. Comi apenas o necessário para não ficar com fome, mas quando as criadas mais jovens entraram para recolher as bandejas, fingi que estava dormindo para não ter que falar com ninguém.
Pelo visto, funcionou, porque elas continuaram rindo e cochichando como se estivessem sozinhas. À tarde consegui entreouvir uma conversa, no mínimo, intrigante. As garotas diziam que o assunto do dia no castelo, era a fuga da princesa Anna para casar-se com Kristoff em segredo.
Depois que elas enfim se retiraram, eu fiquei deitada na cama, imóvel, sentindo o meu corpo inteiro gelado. Claro, eram só boatos. Mas será que... Em condições normais, a Anna nunca faria uma coisa dessas, mas o jeito que ela saiu do quarto de manhã foi tão brusco... Será que ela seria capaz de fugir para se casar, sem avisar a ninguém? Nem a mim? Principalmente a mim? Era minha culpa isso tudo?
Essas perguntas me atormentaram até tarde da noite, e justamente quando eu já estava plenamente convencida de que nunca mais ia vê-la novamente, ouvi a voz da Anna no corredor. Meu coração, que parecia ter parado de bater, voltou à atividade com toda força.
De repente, todas as dúvidas, preocupações e medos desapareceram, e eu precisava apenas... Apenas... Vê-la. Ter certeza de que ela não iria fugir de mim. Levantei da cama e corri até a porta, mas ao colocar a mão na maçaneta dourada, ela mexeu-se sozinha.
— Hmmm... Elsa? Você pode abrir a porta, por favor? Eu não tenho mais a chave aqui comigo.
Fiquei em silêncio e encostei o corpo na porta. Não sabia quem a havia trancado, mas agradeci mentalmente por isso. Eu não podia esquecer meu plano e voltar atrás, não agora. Faltavam apenas dois dias para o casamento da Anna e eu deveria parar de ser apenas tão.. egoísta.
Não havia espaço para os meus sentimentos agora. E Anna definitivamente não merecia sentir-se culpada por não retribuí-los. Eu precisava deixá-la livre para ser feliz, sem culpa. Precisava parar de ser um peso morto nas suas costas. E precisava parar agora mesmo.
— Anna, eu estou cansada. Hoje foi um longo dia. Acho melhor você ir dormir.
— Elsa, as criadas me disseram que você não saiu do quarto o dia todo. O que está havendo?
Eu podia ouvir a preocupação na sua voz e uma certa frustração também. Mas sabia que seria para o bem dela, do Kristoff e de todos nós. Bem, de alguns de nós, pelo menos. Fiquei alguns segundos em silêncio e notei que ela esperava uma resposta.
— Eu estava um pouco indisposta, mas agora vou descansar um pouco. Tenha uma boa noite, Anna.
— Elsa, me deixa entrar só um pouco. Eu queria conversar com você. Não vai demorar muito e depois você pode descansar.
— Outro dia, quem sabe. Boa noite, Anna.
Deixei minhas costas escorregarem encostadas na porta e me sentei no chão, o braços envolvendo os joelhos e apoiando o meu queixo, que não parava de tremer. Estava lutando contra as lágrimas, e pude ouvir a Anna imitando meu movimento e se sentando do outro lado da porta.
Ela falou baixinho dessa vez:
— Por favor, Elsa. É só abrir a porta por um minuto. Só isso. Você pode fazer isso? Por mim?
Resistir ao seu pedido foi a coisa mais difícil que eu já tive que fazer. Mas eu sabia que se a deixasse entrar, nunca mais conseguiria deixá-la ir viver sua vida longe de mim. Não teria mais forças para me controlar e agir da maneira certa.
Tudo estava por um fio agora e eu não pretendia colocar o plano a perder. Ia funcionar, eu tinha certeza. Eu era capaz de fazer isso. Poderia me segurar por mais um tempo e não abrir aquela maldita porta. Se ao menos a Anna não falasse daquele jeito... Isso iria partir meu coração ainda mais do que o seu.
— Elsa, você ainda está aí?
— Sim, Anna.
— Eu juro que não vou demorar, você nem precisa me ouvir, se não quiser. Só quero ter certeza que você está bem e depois eu vou embora, prometo.
— Como se você se importasse. Não fez diferença o dia todo, fez?
Ela pareceu ter sido pega de surpresa.
Quase pude ver a sua hesitação com esse ataque tão direto. Mas eu simplesmente, não consegui evitar. Ainda estava com um pouco de raiva em relação aqueles boatos.
— Elsa, se você apenas...
— Não, Anna. Boa noite. Estou indo dormir. Recomendo que você faça o mesmo.
Me preparei para levantar, mais ela foi mais rápida. Ouvi o farfalhar do seu vestido e levei um susto quando uma espécia de soco repentino na porta se fez ouvir.
— NÃO! Quer saber? Eu é que digo NÃO, Elsa! Mil vezes NÃO. Você não vai mais me tratar assim. Me afastar quando você bem entender, só porque se cansou de mim. Eu não aguento mais portas fechadas. Já tive o suficiente disso para uma vida inteira. Você PRECISA deixar as pessoas chegarem perto de você. Você precisa ME deixar chegar perto de você e abrir essa maldita porta.
E num tom mais baixo, quase sussurrando, ela acrescentou:
— Não precisa ter medo, Elsa. Sou eu, Anna. Eu estou aqui. Me deixa entrar.
Toquei a maçaneta dourada com as pontas dos dedos e respirei fundo. Era difícil manter minhas convicções e promessas sobre não ser egoísta desse jeito. Tudo que eu queria era deixá-la entrar e se aproximar de mim.
Eu precisava disso mais desesperadamente do que oxigênio. Não ia mais conseguir ficar distante como havia planejado. Meu lugar era ao lado dela. Mas, ainda assim...
— Eu não sei se devo, Anna. Não sei se é o certo. Não sei se nós podemos...
— Elsa, o que nós não podemos mais é viver dessa maneira. Eu não posso mais viver assim. Não consigo mais dormir, nem me concentrar em mais nada. Sei que é complicado, mas eu apenas... Apenas... Eu preciso de você. Sem você ao meu lado, eu não conseguiria fazer isso.
Senti um formigamento bom percorrer a minha espinha. Era isso, então. Simples assim. Esse tempo todo sofrendo e perdendo o sono por algo que parecia tão confuso, mas na verdade era tão simples. Anna sentia-se da mesma maneira que eu. Nada mais importava além disso. Nada, nem ninguém.
Peguei a chave extra que escondia no criado-mudo e destranquei a porta, sem conseguir esconder meu sorriso radiante. Minhas mãos já estavam prontas para girar a maçaneta dourada, enquanto ouvia Anna tagarelando alegremente do outro lado:
— Além do mais, hoje eu fui ver o Kristoff e acho que vai correr tudo bem entre nós. Nem acredito que essa história vai ter um final feliz. Quem poderia imaginar, depois de tanta confusão?
Meu sorriso desapareceu como flocos de neve se dissolvem-se na água. Senti meu corpo inteiro vibrando e tremendo, como se as minhas veias fossem explodir diante de tanta pressão. Kristoff??? Ela foi ver o Kristoff??? Tudo ia acabar bem? Final feliz? Quer dizer que ela não estava falando de nós duas, e sim deles?
E eu, mais uma vez me deixando levar pela emoção, confundi tudo. Não ia mais haver final feliz pra mim. Eu iria ficar ao seu lado apenas para vê-la fazendo votos de amor eterno para outra pessoa. Seria apenas a madrinha que ficaria em pé, perto do altar, silenciosa, esperando a cerimônia acabar para viver para sempre sozinha dentro desse castelo gigantesco. Sozinha. Por toda a eternidade.
Meu coração era agora uma pedra de gelo inerte dentro do peito. Eu me sentia... Morta. Como se nenhuma vez me lembrasse de ter vivido de fato. Que piada! Sempre me comportando como era esperado, sendo a boa menina, controlando meus poderes, meus desejos, meus pensamentos.
Basta! Eu não ia mais ser quem todos eles achavam que eu era. Não havia mais espaço para isso. Soltei a maçaneta e abri as duas mãos, sentindo a força que eu havia mantido sob controle por tanto tempo se libertando. Meus braços tremiam com tanto poder e eu me sentia como um rio de águas violentas prestes a destruir a represa e inundar tudo ao meu redor.
Eu era a própria avalanche, pronta para congelar Arendelle inteira sob o meus pés.
Quando abri os olhos, o quarto inteiro estava coberto de pontas afiadas feitas de gelo maciço que pareciam brotar do chão, ameaçadoras e perigosas. Na minha mente, uma única certeza: daqui em diante, nada mais seria como antes.
E eu nunca mais pararia para olhar pra trás.
–
"Please don't shut me out again
Please don't slam the door
You don't have to keep
your distance anymore"
(POV ANNA)
O amor parece ser mais fácil nos livros de histórias. Definitivamente. Depois de tantas noites mal dormidas e dias repletos de culpa e angústia, eu finalmente havia tomado uma atitude. Fui falar com o Kristoff de coração aberto, preparada para explicar-lhe tudo, desde o começo.
Não seria fácil, claro, mas eu sabia que não havia outra maneira. O que eu sentia pela Elsa era assim: não me deixava nenhuma outra saída. Era inevitável, incontrolável, intenso... Poderia até soar como uma aberração para algumas pessoas, tenho certeza. Algo errado, sujo, indigno.
Mas aqui, dentro do meu peito, eu sabia que era maneira mais pura que poderia existir de amar alguém. Era o tipo de sentimento que não se explica, não pede permissão, não se escolhe sentir. Apenas se sente e não há nada a se fazer sobre isso, além de concretizar o que sempre foi predestinado ou viver infeliz para sempre.
Mas se dependêssemos dos nossos encontros, iríamos passar a vida inteira brincando de pega-pega. Quando finalmente consegui a compreensão do Kristoff, depois de um dia inteiro consolando-o e fazendo-o concordar com o cancelamento do casamento — ele também tinha a sensação de que havia algo fora do lugar entre nós- , cheguei em casa pronta para me declarar para Elsa e, com alguma sorte, ouvi-la se declarando de volta também.
Reuni toda a minha coragem e fui até o seu quarto, mas não havia contado com essa frieza repentina. Não é à toa que a chamam de Rainha da Neve no castelo.
Mas eu não merecia aquele tratamento. Estava farta de portas fechadas, silêncios e distância.
Ela nem parecia a mesma! Achei que talvez estivesse realmente indisposta e isso só aumentou minha frustração com aquela maldita tranca na porta. Tentei desesperadamente convencê-la a abrir e fui mais insistente do que nunca. Se fosse para ela me rejeitar, que ao menos me ouvisse então.
Eu iria fazê-la me ouvir de um jeito ou de outro, embora admita que aquele soco na porta não foi uma das minhas melhores ideias. Então, fiz o contrário do que deveria, pois essa era uma situação onde nada ocorria como se esperava. Simplesmente fui honesta, o mais honesta que alguém pode ser sussurrando através da porta.
Entreguei meu coração de bandeja e me restou apenas torcer para que desse certo. Dizem que se apaixonar dá mesmo esse frio na barriga. Mas justamente quando achei que havia conseguido amolecer aquele coração congelado, o quarto encheu-se de um silêncio assustador. Aquele tipo de silêncio que anuncia tragédias.
Ao segurar na maçaneta, a porta abriu-se sozinha, para minha surpresa. Mas diante de mim, não havia nenhum sinal de Elsa, além do seu rastro de pontas de gelo afiadas espalhadas por toda parte.
Foi quando notei a janela aberta e o vento gelado que entrava por ela, balançando as cortinas translúcidas e causando arrepios na minha pele.
Elsa havia ido embora.
Fale com o autor