Frozen Hearts
7 Love is a open door
Notas iniciais

"Some people are worth melting for."
( POV ELSA)
À minha frente, o caos se espalhava como uma força da natureza: Selvagem e incontrolável. Impressionante.
Assim como os meus poderes. Depois de uma vida inteira de repressão, assim como eu, eles estavam finalmente livres. E tinham fome.
Devo dizer que os gritos eram ensurdecedores. Os habitantes de Arendelle estavam em pânico, correndo de maneira desenfreada, tentando salvar suas vidas. Aqui não existia aquela regra: "Mulheres e crianças primeiro". Era cada um por si e todos estavam desesperados ao mesmo tempo e na mesma intensidade. Imensas e perigosas placas de gelo haviam brotado do chão repentinamente, destruindo suas casas, pondo em risco sua segurança, ferindo inocentes e transformando tudo
que antes vivia pacificamente aqui em poeira. A tempestade de neve estava ficando cada vez mais forte, dificultando suas fugas, fazendo-os escorregarem na neve, se
perderem das suas famílias, gritarem por ajuda.
Dor. Confusão. Medo. Revolta. Eu conseguia ver todas essas emoções estampadas nos rostos das pessoas que cada vez mais se assemelhavam a formigas, num formigueiro onde alguém havia ateado fogo.
A diferença era de que aqui, o que eles temiam não era o fogo, mas o gelo.
E quem os esmagaria um a um seria eu, até que não sobrasse mais nenhum som à minha volta. Apenas as montanhas brancas, a neve e eu.
Mas nem isso me faria voltar a sentir alguma coisa. Não havia mais ódio, nem raiva ou emoção alguma dentro de mim. Apenas o vazio. Um estrondoso vazio.
Não conseguia mais me importar com o que aconteceria a seguir ou como tudo isso acabaria. Nem comigo mesma.
Apenas andava devagar em meio à confusão, silenciosa e inabalável, sempre andando em frente e tirando do meu caminho qualquer um que ousasse atravessá-lo.
Nada poderia me parar agora. Nem ninguém.
Eu era a própria tempestade. O próprio gelo que surgia da terra e do céu ao mesmo tempo, envolvendo tudo em uma névoa branca e congelante. Mortal. Uma força da natureza destruidora e fora de controle, espalhando-se, multiplicando-se, dominando tudo ao meu redor. Pisquei os olhos por um minuto, e alguns passos adiante, surgiu um vulto.
Impossível de ser reconhecido em meio à neve e devido à distância, mas pelo tamanho, só poderia ser uma criança.
Pelo canto do olho, vi outro vulto tentando se juntar a ele, provavelmente para protegê-lo de mim, mas apenas levantei a mão direita e afastei quem quer que fosse com um único gesto. Continuei andando até ficar frente a frente com um garotinho parado bem no meio de um lago congelado.
Outras pessoas da vila começaram a correr para perto de nós e tentar salvá-lo, mas eu apenas continuei olhando-o nos olhos, quando virei a ponta dos dedos para baixo e fiz o gelo embaixo dos nossos pés partir-se em vários pedaços.
Agora, éramos só nós dois, flutuando em uma placa de gelo em meio à água do lago. Tenho que admitir que o menino, apesar de tão pequeno, era bastante corajoso. Ou quem sabe, ingênuo demais para perceber a gravidade da situação.
Apesar de aparentar estar tremendo de frio ou de medo, ele não desviou os olhos dos meus um segundo sequer. Nem mesmo quando eu abaixei o rosto para encará-lo de perto, enquanto a multidão à nossa volta silenciava, atônita, esperando pelo que estava por vir.
Um sorriso endiabrado curvou meus lábios, e eu sussurrei:
— Vamos brincar.
–
(POV Anna)
Qualquer um teria se perdido em meio àquela terrível nevasca, que mergulhou Arendelle em um inverno tenebroso e nada natural.
O vento era gelado e furioso, e fazia com que eu me encolhesse dentro do casaco que vestia. Mas mesmo sem conseguir andar direito ou enxergar um palmo à minha frente, eu sabia que estava no caminho certo.
Esse era seu rastro. Sua marca registrada. Sua fúria, tristeza e solidão escancaradas, mas apenas para quem conseguisse ver. E eu conseguia. Sentia em minha alma o seu desespero, mas também a sua confusão em relação ao que tinha acontecido. Claro, havia sido apenas um mal-entendido. Quando nos encontrássemos cara a cara, eu esclareceria tudo e ficaríamos bem novamente. Ou melhor do que bem, pela primeira vez na vida.
Mas para isso, eu precisava encontrá-la primeiro. Em todos os sentidos. Porque, pelos gritos e choros que eu conseguia ouvir, Elsa aparentava estar perdida, sem ter ideia do que estava fazendo. Pessoas tropeçavam na minha frente e pediam ajuda e a vila era um cenário de destruição completa. Naquela hora, senti medo. Não pela minha vida, mas pelas outras, que ela poderia estar destruindo agora mesmo. E pela sua, que estaria irremediavelmente acabada se continuasse insistindo nessa vingança injusta e cruel. Enquanto tentava enrolar o casa em volta do meu corpo e andar sem cair na neve, de repente, tudo parou. As pessoas pararam de gritar e as montanhas ficaram silenciosas. Mas esse não era um silêncio pacífico e seguro.Era uma ausência de som parecida com aquelas que precedem as tragédias.
A tempestade de neve havia diminuído de intensidade no céu cinzento e eu consegui finalmente enxergar vultos ao longe. Com o coração martelando dolorosamente dentro do peito, corri até a multidão com todas as forças que consegui reunir.
Ali, bem no meio de um grande lago congelado, Elsa havia construído um forte de gelo, como fazia quando era criança. A diferença é que esse parecia uma torre branca, alta e reforçada, se destacando em meio à planície. Do lado de fora, os habitantes da vila não pareciam mais dispostos a esperar em silêncio pelo que quer que ela estivesse planejando fazer.
— Princesa Anna, ela sequestrou o nosso filho!
— Está mantendo o garoto ali dentro, provavelmente para vê-lo morrer congelado.
— Destruiu nossas casas.
— Algumas pessoas se feriram durante a fuga.
— O que você vai fazer, princesa?
— É, princesa Anna, o que você vai fazer para nos salvar?
Tentei acalmá-los, mas era impossível represar a sua indignação. Elsa havia passado de todos os limites, depois de uma vida inteira se controlando para não ferir
inocentes. Parte de mim sabia que ela nunca machucaria aquele garotinho, mas a outra parte não tinha certeza sobre quem estava no controle agora: minha irmã ou seus
poderes invencíveis?
Aproximei-me o máximo que pude da torre e abaixei o meu capuz. Não tinha um plano ou nenhuma ideia mágica para restaurar a paz e trazer a Rainha da Neve de volta. Ia tentar da única maneira que poderia, e ainda assim, não sabia se seria suficiente.
— Elsa? Elsa, você pode me ouvir aí dentro?
Apenas o silêncio em resposta e a neve que não parava de cair nos meus olhos.
— Elsa, você não pode fazer isso. Bem...Eu sei que você pode. Conheço seus poderes e sei do que você é capaz. Mas não faça isso. Pelo menos, não com pessoas inocentes, Elsa. Esse é o nosso povo. O povo pacífico e honrado de Arendelle. Você já os feriu o bastante. Destruiu suas casas. Aterrorizou suas famílias. Agora chega. Eles não têm nada a ver com isso. Nada a ver conosco. Se você quer culpar e machucar alguém, bem, eu estou aqui. Mas eles não, Elsa. Eles não merecem isso.
— Se você quer se vingar de quem realmente tem culpa, eu estou bem aqui. Não vou nem tentar me defender. Não que eu pudesse, é claro. Mas vou me entregar sem nem ao menos tentar . Eu sei que mereço isso. Fui eu que causei toda essa dor, toda essa raiva que você está sentindo agora. Então, pare de atormentar essa gente e venha atrás de mim. Eu estou aqui. Não vou lutar, não vou fugir, não vou nem mesmo implorar pela minha vida. Apenas... Saia daí e liberte esse garotinho para ele voltar para a sua família e nós poderemos resolver o assunto entre nós. Só eu e você. Como deveria ter sido desde o começo. Como tem que ser.
–
(POV ELSA)
Eu estava sentada na minha torre feita de gelo, observando o garotinho da vila divertir-se com os flocos de neve que caíam do teto, aparentemente vindos do céu.
Bastava um gesto meu para que eles continuassem enchendo a sala e se acumulando, fazendo os olhos do menino brilharem. No momento, ele estava construindo um boneco de neve e chamando-o de Olaf. Não pude evitar e sorri junto com ele.
Poderia passar a eternidade assim, se não fosse pela voz cristalina que se fazia ouvir através da parede de gelo que nos separava das montanhas lá fora.
Assim que ouvi a sua primeira palavra, foi como se o gelo entre nós começasse a derreter. Ele era mais fino do que parecia, e eu pude sentir meu coração acelerando-se ao ouvir aquele discurso tão corajoso. Anna era assim: disposta a sacrificar-se pelos outros sem pestanejar.
Era mais uma das milhares de qualidades que causavam a minha completa admiração por ela.
Mas nada daquilo importava mais. Era parte de uma outra vida. Agora ela iria casar-se com o Kristoff e continuava a se enganar, prometendo nunca me abandonar. Mas já havia abandonado. E eu nunca achei que pudesse me sentir mais sozinha do que agora.
Apesar dos meus poderes, a fraca não era ela, era eu. Eu jamais poderia suportar vê-la casada com aquele bruto, formando uma família e fingindo uma felicidade que
nunca existiria de verdade. Só de imaginar isso, eu me sentia uma dor aguda espalhando-se pelo meu corpo inteiro. Ficar longe da Anna ia me destruir pra sempre. Depois de libertar o garotinho, eu me deixaria congelar até a morte aqui dentro, até o meu corpo virar gelo e meu coração bater pela última vez.Eu ia simplesmente deixar de existir. O povo da vila com certeza ficaria agradecido de se ver livre de um monstro e ninguém no castelo sentiria a minha falta.
Anna poderia seguir em frente, sem ter a mim como estorvo na sua vida. Seria melhor assim, pra todo mundo. Além do mais, eu já estava ficando exausta. Havia chegado no limite máximo do uso dos meus poderes num dia só e estava a ponto de desmaiar. Os flocos de neve pararam de cair e eu senti o gelo da torre começar a se desfazer e a perder a força.O garotinho correu para me ajudar, enquanto eu tentava me apoiar nas paredes para continuar de pé. Agora, a voz da Anna estava ainda mais clara e audível.
— Elsa... Eu sei que você pensa ter me ouvido falar sobre o casamento com o Kristoff e como tudo ia acabar bem. Mas você entendeu errado. Não éramos nós dois que íamos acabar bem. Eu...Eu estava falando... Eu estava falando sobre eu e você. Nós duas. Juntas. Essa é provavelmente a minha última chance de falar isso, então eu vou
apenas falar de uma vez, ok? Ok. Lá vai: Eu, Princesa Anna do Reino de Arendelle, estou apaixonada pela Rainha da Neve. Estou apaixonada por você, Elsa. Aliás...Eu sempre fui apaixonada por você. Nunca houve outra pessoa. Sempre fomos só você e eu. E eu queria que fosse assim daqui pra frente. Isso é, se houver um 'daqui pra frente' pra nós duas, é claro. Se você parar de maltratar essas pessoas. De se deixar levar por esses instintos de ficar sozinha ou de ser malvada. Você não precisa ser assim, Elsa. Você só vai ficar sozinha se quiser. Eu prometi uma vez e vou prometer de novo: Eu nunca vou sair do seu lado, não importa o que aconteça. Nunca.
E ela parou e pareceu tentar respirar fundo. As palavras estavam saindo atropeladas e entre soluços, como se ela estivesse chorando. Aquilo cortou meu coração. Foi como se eu estivesse me afogando por muito tempo e finalmente estivesse sendo salva. Era o meu primeiro fôlego de volta à vida. Era inacreditável. Como se não pudesse ser real. Como um pedido à estrela cadente que você nunca achou que pudesse se realizar. Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.
—E além do mais, nós duas, juntas, podemos consertar isso, Elsa. Podemos reconstruir a vila, podemos cuidar dos feridos, pedir perdão a todos, recomeçar uma vida nova. Podemos fazer isso, eu sei que podemos. Mas, para isso, eu preciso que você abra essa maldita porta. Eu te disse lá no castelo: não posso mais aguentar portas
fechadas. Foi só isso que eu recebi a vida toda. Não me deixe mais do lado de fora, Elsa. Pare de tentar me afastar de você. Me deixa entrar. Você tem que deixar eu me
aproximar de você.
— Sou só eu, Anna. Preciso apenas que você tenha coragem. Junto com você, eu também sou corajosa. Mas eu preciso de você, Elsa. Eu preciso de você. Sem você, eu não vou a lugar nenhum.
Ela estava dizendo tudo aquilo em frente a todos os habitantes de Arendelle que nos viram crescer. Abrindo seu coração e se declarando pra mim, da forma mais honesta de todas. Anna era muito mais poderosa e corajosa do que eu jamais seria. Esse poder único de derreter o meu coração congelado, era só dela. Eu acreditava em cada uma daquelas palavras. Só precisava de coragem o suficiente para retribuir o seu gesto. Ela merecia isso. Eu seria forte, seria corajosa. Por ela, eu seria.
Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o chão embaixo dos meus pés começou a tremer. Sem os meus poderes, o gelo estava rachando e em breve se partiria em milhares de pedaços. E nós dois, eu e o garotinho da vila, mergulharíamos na imensidão azul do lago congelado para sempre.
Agora, finalmente, eu tinha motivos para lutar, para querer viver, em vez de me entregar à morte e o seu sono eterno. Além disso, havia uma criança inocente dependendo de mim para salvar a sua vida. Eu tinha todos os motivos certos. Mas não tinha mais força nenhuma no meu corpo. Era o fim da linha. Não mais uma escolha, apenas inevitável.
Abracei o garoto o mais forte que eu pude, e, quando a torre explodiu em centenas de pedaços, caímos juntos no vazio, rumo ao nosso destino.
–
(POV ANNA)
Não existe nenhuma palavra inventada por seres humanos capaz de descrever como eu me senti naquela hora.
Foi tudo tão rápido.
Ouvimos o barulho do gelo rachando e depois assistimos, paralisados, enquanto a torre construída por Elsa explodia em bilhões de fragmentos pelo ar. Um grito escapou dos meus lábios, incontrolável, quando eu vi a mulher e o garoto caírem abraçados dentro do lago gelado. Era o fim, eu sabia. O fim de tudo. O meu próprio fim.
Não existia nada além daquilo. Nada mais esperava por mim a partir daquele momento. Era o verdadeiro ponto final, a conclusão da história, o desfecho, o fim. A minha vida havia acabado ali, junto com a dela. Eu estava pronta para mergulhar no lago e ir encontrá-la, quem sabe em outra dimensão, em um universo mágico,
distantes da dor, da perda, do vazio.
Joguei o casaco no chão e tirei as botas. Meu rosto estava impassível. Eu provavelmente nem sentiria a dor de mil agulhas entrando na minha pele ao mergulhar no lago, pois meu corpo inteiro estava dormente. Ninguém me impediria. Todos estavam chorando, gritando e falando ao mesmo tempo.
Comecei a andar até a beira do lago e me preparei para pular, quando, de repente, ouvi um barulho. Parecia vir das profundezas da terra e era assustador. Parei para ouvir melhor, por puro instinto, e o ruído foi ficando ensurdecedor, como um terremoto ou avalanche. A multidão também parou para escutar e parecia em dúvida entre fugir para se salvar ou ficar, e descobrir o que era aquilo. Agora, a beira do lago estava repleta de curiosos, se amontoando para olhar o lago. Na sua superfície, lisa e espelhada um segundo atrás, surgiu uma espécie de onda.
De repente, a onda se multiplicou e a água parecia agitada, embora não houvesse vento nenhum. Antes que pudéssemos pensar em correr, ou nos protegermos, algo se projetou de dentro do lago: uma torre, parecida com a anterior, mas bem menor e mais modesta, estreita o suficiente para abrigar duas pessoas dentro dela.
Uma mulher e uma criança.
Ouvi gritos e comemorações dos outros, mas não saberia dizer se gritei também. Meu coração parecia a ponto de explodir a qualquer minuto. De dentro da torre, uma porta se abriu, revelando uma frágil pontezinha de gelo que levava até a beira do lago. Através dela, o garotinho escorregou e foi recebido pela multidão exultante em terra firme, que o abraçava e comemorava em alto e bom som, como se fosse uma festa.
Apenas eu continuei olhando para a porta aberta, até que dela surgiu uma moça pálida, de cabelos tão claros como a neve, usando um vestido azul cristalino. Ela andou, hesitante e procurando apoio, até o meio da ponte. Parecia exausta e prestes a desmaiar de fraqueza a qualquer minuto. Eu não conseguia pensar em nada, a não ser em abraçá-la e mantê-la perto de mim para ter certeza de que ela não iria embora nunca mais. Elsa estava viva. Ela havia voltado pra mim. Não sabia como, nem a que preço. Mas ela estava li, bem na minha frente. E eu precisava tocá-la para ter certeza de que ela era real e não um floco de neve que desapareceria no calor dos meus dedos.
Corri pela ponte gelada sentindo frio nos meus pés descalços e a abracei tão forte, que pude senti-la quase desfalecendo nos meus braços. Apesar disso, ela me olhou com as íris azuis brilhantes e sorriu, e eu sei que ela estava pensando o mesmo que eu: agora, o mundo faz sentido outra vez.
Agora eu estou completa novamente.
Toquei sua bochecha com suavidade, como se ela fosse partir-se a qualquer momento, e finalmente juntei meus lábios aos seus, onde eles realmente pertenciam, no primeiro beijo das nossas vidas. O primeiro beijo da nossa eternidade juntas.
Muito acima de nós, a pelo menos mil pés de altura, as nuvens cinzas se dissiparam e um sol tímido começou a espalhar seus raios pelas montanhas brancas de Arendelle.
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