Frio e outros contos
3 Sentimentos
Notas iniciais
“Querido diário inútil:
Minha vida é um tédio. Eu sou um tédio. Nem sei mais porque continuo a escrever em você. Por isso hoje você, diário, é um inútil.
Como todos os outros dias eu fui para a aula, fiz um pouco de esporte, e como sempre novamente fui péssima.
Tive aula de culinária. Pelo menos isso eu gosto. Não sei cozinhar muito bem, mas fiz biscoitos com chocolate e baunilha. Ficou muito bom, eu pelo menos achei.
O que mais fiz hoje... Ah sim, aula de física, química, matemática, línguas e ética. Uma coisa mais chata que a outra... mas como sempre o dia passou como um furacão.
Tomei um banho de neve e quando cheguei em casa percebi que por mais um dia meu pai não estava em sua poltrona para me receber.
Bem acho que é isso. Na realidade, você é mais inútil do que eu poderia pensar do significado da palavra inutilidade... Mas por enquanto é quem eu tenho para conversar e ainda...”
O toque da campainha rompeu meus pensamentos e fez com que eu manchasse as páginas do pequenino caderno que eu fiz de meu diário. Um borrão de tinta se esparramava pelas páginas amareladas do caderno.
Raiva.
Desci apressada as escadas colocando de forma malfeita o cachecol, quem poderia ser se eu não havia chamado ninguém?
─ O que foi? – Escancarei a porta batendo a mão de forma brusca contra o batente da porta. Ninguém me respondeu. Olhei para baixo e não havia nada, a rua branca pela neve também não possuía ninguém em um raio de sessenta metros para cada lado. Fechei a porta xingando quem quer que tivesse sido de todos os nomes que pude lembrar. Voltei a subir as escadas tirando o cachecol e o casaco, aumentando um pouco o nível do aquecedor.
Frio.
“Desculpe, algum idiota bateu na minha porta. O que esse ser queria? Por que não esperou eu atender? Aquilo martelava em minha cabeça. Por que as pessoas são sempre tão... insolentes? Isso me irrita, Inútil!
Eu vou sair agora. Realmente, não tenho a mínima capacidade de me acalmar, e você que não me ajuda em nada...”
Solidão.
– Agora estou falando com o diário.... – Ri sozinha fechando o caderno com a caneta ainda dentro dele. – Como se ele fosse me responder. – Eu ri novamente saindo do quarto e fechando a porta para que ninguém entrasse. Voltei a descer as escadas colocando o cachecol. O andar de baixo era mais frio que o de cima. Sentei na poltrona que seria de meu pai, olhei para o nada e fiquei a fitar a parede branca e gélida. Eu iria congelar ali sozinha?
Desesperança.
Mordi os lábios olhando para a parede como quem não quer nada. Realmente, não queria. O aquecedor parecia não funcionar, e aquilo irradiava a irritação que eu não conseguia parar de sentir. O que é pior, o acúmulo de sentimentos só servia para me deixar mais desconcentrada.
Agitação.
Continuava a fitar as paredes sem ter como decidir o que fazer para com a minha vida. Sim, eu era uma completa retardada mental. Mas a culpa não era minha, eu estava sozinha. É sempre assim, nos vemos contra as paredes quando estamos sozinhos. Sim, é isso que eu percebo... Ao menos, acho que percebo.
Fechei os olhos na esperança de não pensar em mais nada, de não ver mais nada, de não esperar por mais nada, e quem sabe, de não ser mais nada... Sim, ser apenas um pedaço de cristal, um pedaço de neve, uma gotícula que ninguém sentiria falta.
Tristeza.
Quando finalmente o contentamento retornava a minha mente e eu percebia que não haveria nada de errado em seguir com minha vida medíocre, a campainha tocou, de novo. Recusei-me a abrir. Parou. Um sorriso novo surgiu em meus lábios em contestação da minha fútil alegria. Venci.
Cedo demais.
A campainha voltou a tocar, vou ignorar... Mais uma vez, e mais outra e outra e outra e mais outra vez...
Teimosia.
Mordi o lábio agora com os sentimentos em uma mistura estranha e incompreensível. Eu não vou atender. Não vou.... Suspirei pela milésima vez, agora já me acostumando com a campainha chata. Quando de repente, parou.
Parou?! Por que parou? Estranhei a abrupta desistência do que quer que fosse.
Corri para o lado da porta, olhei para o chão, tentando reconhecer alguma sombra, sem abri-la. Tocou mais uma vez. Minha mão na maçaneta. O que seria?
Curiosidade.
Fale com o autor