Friendzone
26 Tyler, o amante
Depois de beijos e carícias e risadas abafadas e orgasmos ela finalmente esqueceu o discurso. Eu queria ganhar o prêmio, mas, sinceramente, já não fazia tanta diferença assim. Lily estava ali comigo, na mesma cama, pele na pele, calor humano e muito amor. O que mais eu poderia querer? O que mais eu poderia pedir?
Pela primeira vez em muito tempo eu estava tranquilo. Não pensava no dia seguinte nem em qualquer outra coisa que não fosse viver aquele momento. Eu só me concentrava em sentir a pele dela contra a minha enquanto subia e descia sobre o meu peito, de acordo com a minha respiração, que nunca havia sido tão leve.
O sol já havia nascido e eu sabia que Los Angeles devia estar ainda mais deslumbrante. E sim, seria uma pena não poder ver isso com a atenção que eu queria, mas nada era capaz de superar os olhinhos pequenos e inchados de Lily ao acordar e sorrir ao me ver. Ela estava descabelada e logo se mostrou preocupada com o horário, mas eram só oito e meia.
Sugeri que fôssemos à rua para um café da manhã, mas ela preferiu comer no hotel. Conversamos um pouco e quando sugeri um banho ela recusou e disse que seria melhor voltar ao seu quarto, já que suas coisas estavam lá. Fiquei pensando se eu estava me apressando com tudo depois da noite anterior e se, assim, também fazia o mesmo com ela. E então, quando fiquei sozinho mais uma vez no quarto, lembrei de Henry.
O que seria dele nessa história toda agora?
Ou ainda, o que seria de mim?
...
Eu detestava usar smoking, mas era o traje oficial do evento. Depois que ajeitei a gravata pela última vez e olhei no relógio, me certificando de estar dentro do horário, ouvi a batida na porta. Só podia ser Lily.
Corri para abrir só para derreter inteiro dentro daquele monte de roupa. Ela estava deslumbrante num vestido lilás, tomara que caia, justo na cintura e no quadril, até terminar um pouco abaixo dos joelhos. Os cabelos estavam jogados para um lado só, com alguns cachos nas pontas. Seus olhos brilhavam mais, visivelmente maquiados, mas eu não conseguia entender bem que cor era aquela. E, sinceramente, não fazia diferença. Ela estava linda.
A mulher da minha vida.
— Vamos?
Fiquei um tempo ainda sorrindo feito trouxa até que fiz que sim com a cabeça e saímos. Tudo o que precisávamos estava com ela, como eu já podia imaginar, credenciais e documentos necessários estavam todos em sua pequena bolsa, eu estava apenas com o meu documento e o celular.
Um carro estava à nossa espera na porta do hotel e eu não evitei perguntar assim que entrei depois dela e fechei a porta:
— Como você consegue? Tudo estava preparado?
— Agenda, algumas anotações e lembretes. Só isso. — Lily sorriu pra mim e eu me aproximei para um beijo, mas ela recuou.
Eita.
— Parece mais difícil que isso olhando de fora. — dei continuidade no assunto tentando não me mostrar constrangido ou chateado.
Estava acontecendo alguma coisa?
— Sempre fui melhor planejando e você improvisando.
Ela estava tão impecável naquele vestido e maquiagem. De repente pensei em como seria vê-la vestida de noiva.
— O combo perfeito, não é?
Ela apenas olhou para mim e sorriu rapidamente.
Chegamos ao evento, que acontecia num teatro antigo demais por fora, mas absurdamente moderno por dentro. Lily desceu primeiro e eu fui logo atrás, as pessoas ao redor eram alguns fotógrafos e seguranças, mas o evento não era grandioso o suficiente para que houvesse muitos deles ali. Ela mostrou nossas credenciais e recebemos um desejo de boa sorte da hostess, uma moça alta e loira, cheia de classe.
Havia um músico tocando harpa e o lugar todo era elegante demais para minha presença. Mesmo vestindo smoking, eu sentia que era suburbano demais para aquilo. Lily, por outro lado, se enturmou rapidamente com os convidados ao nosso lado, na terceira fileira da ala esquerda do teatro. Falavam sobre o local e sobre Los Angeles. Ela mencionou Nova York e então o casal ficou entusiasmado, a conversa rolava como se fossem amigos num bar. Eu me sentia um peixe fora d'água, e não havia passado dez minutos sequer.
De alguma forma eu me sentia como o Tyler adolescente, meio tímido e esquisito, que não tinha muito jeito de falar com as garotas e, só depois que elas me conheciam, eu conseguia mostrar mais quem eu era. A Lily adolescente sempre foi política, sempre soube se comunicar e falar com as pessoas certas. E quando não eram as pessoas certas, ela fazia amizade mesmo assim.
Ela era a empresária e eu apenas o químico.
Que droga, por que diabos eu estava pensando nisso agora?
O harpista parou e alguns minutos depois a cerimônia começou, encerrando a conversinha de Lily com os franceses ao nosso lado. Eles já estavam falando de exposições de arte no Louvre. Que tédio.
...
Durante o evento inteiro, praticamente, me segurei para não bocejar. A cada dez minutos eu me sentia cansado e entediado e mudava de posição na cadeira, aquilo era chatice pura. Por eu havia me inscrito naquilo?
Havia categorias demais e eu nem sabia da existência de algumas. A minha era a última, infelizmente ou não. Em alguns instantes olhei de soslaio para Lily e ela parecia adorar cada segundo, era interessante. Ela pertencia àquele lugar, junto daquelas pessoas. Estava reluzente e importante.
Já eu sempre seria a mente por trás da ideia, e estava bem daquele jeito. Porém, eu não podia deixar de notar e pensar sobre aquilo, sobre as nossas diferenças. Ela combinava muito mais com Henry do que comigo. Eles estavam muito mais alinhados com tudo, com os ambientes que frequentavam e seus assuntos. Eu era o melhor amigo que, com quase trinta anos de idade, ainda fazia apostas de corrida de patins e skate. Era ridículo.
O apresentador começou a falar da última categoria, a qual eu concorria. Lily tinha os olhos fixos no palco, com um meio sorriso nos lábios o tempo todo, disfarçando o nervosismo. Eu tinha os olhos fixos nela e só conseguia pensar nisso, nas diferenças, mesmo com tanto em comum depois de uma vida toda de amizade.
Algum perfume Carolina Herrera venceu a categoria e Lily abriu um sorriso e aplaudiu, e então finalmente olhei para frente e aplaudi também. O representante da marca subiu ao palco e fez um rápido discurso que eram só palavras embaralhadas para mim. Eu parecia não estar ali.
E, mesmo assim, segui junto da minha sócia para o afterparty, logo ao lado do teatro, num hotel chique. Eu frequentava lugares daquele tipo, mas sempre me mostrava real e sincero demais depois de algum tempo e drinques. Lily agora havia feito amizade com outras pessoas enquanto eu estava no bar. O barman em algum momento falou comigo, perguntou se eu estava triste por não ganhar nenhum prêmio, e só respondi:
— Quem me dera.
— É aquela ali? — ele discretamente apontou Lily.
— Filho da mãe, como acertou?
Ele parecia um senhor com seus cinquenta e tantos anos. Deu uma risada seca e engraçada e então disse:
— Vi quando chegaram juntos, pensei que eram um casal.
— Não, ela é minha sócia. Está até de casamento marcado.
O barman arregalou os olhos e depois riu de novo.
— Eu não queria estar na sua pele.
— Mais um, por favor. — sinalizei o uísque e ele atendeu meu pedido.
Eu não sei por que estava ali falando com o barman. Mais um ato ridículo pra conta.
Eu já havia me cansado de Los Angeles. Aquelas pessoas bronzeadas demais e rindo de um jeito que parecia difícil acreditar que era genuíno começavam a me incomodar. Passei um bom tempo conversando com duas pessoas que vieram falar comigo, eram dois jovens garotos que haviam acabado de entrar na faculdade e queriam dicas para empreender.
Que papo chato, mas olha só, era necessário. Fiquei contente em poder ajudar.
Depois disso senti uma tontura leve e achei que seria prudente ir embora. Atravessei o grande salão e procurei por Lily, e assim que me viu fiz um sinal e ela me seguiu. Quando já estávamos do lado de fora, falou comigo:
— O que foi?
— Estou cansado, vou voltar ao hotel. Você planejou a volta para hoje?
Ela parou me olhando, parecia perdida pela primeira vez no dia.
— A volta...? Está falando de Nova York?
— Sim. Já sinto falta da minha cidade. Você não?
Um rastro de preocupação passou pelos olhos de Lily e me perguntei sobre o que seria aquilo. Senti que ela não queria voltar.
— Achei que quisesse aproveitar um pouco mais de Los Angeles.
Não deu tempo de segurar a risada, droga.
— Talvez um dia, mas hoje... — balancei a cabeça, tentando pensar. Não consegui. — Não precisa vir comigo, aproveita a festa.
— Não, eu posso...
— Lil, tudo bem. Não é todo dia que participamos de um evento desse em LA. Aproveita. — sorri e ela demorou, mas pareceu se convencer.
Eu sabia o quanto ela gostava daquele lugar, e de Hollywood, e da sensação de verão o tempo todo. Lily era a cara de Nova York e eu sabia que adorava sua cidade natal, mas ela sempre demonstrou sua capacidade de adaptação para outros lugares. Não à toa, havia morado por seis meses em outro país.
Aquilo me deixou pensativo o caminho todo. Voltei ao hotel e arrumei minhas coisas para ir embora enquanto pensava nisso. Já havia escurecido quando tentei fazer check out e a recepcionista me falou que "a senhorita Lilian é a responsável pelos quartos".
Dei de ombros e saí, queria voltar logo pra casa, o que era estranho, pois, pela primeira vez ouvi de Lily as palavras que tanto quis ouvir. Tivemos uma noite incrível e, de alguma forma, as coisas estavam estranhas agora. Será que ficaria ainda pior quando estivéssemos os dois em Nova York de novo?
Entrei no táxi que o funcionário do hotel havia, eficientemente, pedido, e segui para o aeroporto. Aquele olhar de preocupação que vi em Lily não saía da minha cabeça, fiquei o caminho todo pensando nele. Por que ela estaria preocupada com a minha volta à Nova York? Não havia nada de estranho nisso. Se eu tivesse vencido o prêmio, muito provavelmente haveria em mim uma enorme vontade de ficar na cidade e sair por aí comemorando. Contudo, não era o caso.
Nem de longe.
Talvez ela não quisesse voltar ainda. Será que queria que eu tivesse ficado também?
Ah, droga...
Por que nós só tivemos aquela conversa fora do nosso ambiente de convivência? Por que parecia tão fácil e confortável tão longe de casa?
Porra, Tyler...
Tarde demais, eu já estava preso num fluxo violento de pensamentos e suposições bizarras e todas elas me levavam à conclusão de que tudo voltaria ao normal em Nova York. Em LA Lily podia ser sincera e livre e poderíamos viver como amantes. Sair da cidade, porém, acabaria com tudo cedo demais.
— Desculpe, disse alguma coisa?
Notei o taxista falar comigo e só então me dei conta de estar falando sozinho. Pedi desculpas e me concentrei em pensar calado. Minha real vontade naquele momento era acelerar o tempo e ver como as coisas seriam com nossas rotinas normais em Nova York.
Será que ela ainda estava com Henry? E aquilo fazia de mim seu melhor amigo, sócio e amante?
Droga, eu já estava mesmo maluco.
— Desculpe, mas, o senhor precisa de uma segunda opinião? — o taxista pareceu constrangido.
Eu já estava além do constrangimento.
— Se eu precisasse, o que me diria?
Paramos para a travessia dos pedestres. Eu queria estar mais perto do aeroporto, queria chegar o mais rápido possível em casa.
— Vocês precisam conversar. Pelo que entendi, ela não deixou claro se está solteira ou comprometida.
— Noiva, moço. Ela estava noiva quando viemos até Los Angeles.
— Poxa vida.
— É, só lamentando mesmo. Estou pagando por meus pecados.
Pude ouvir uma risadinha abafada do motorista e resolvi que não ajudaria em nada alimentar aquela conversa, então fiquei quieto pelo resto da viagem. Em algum momento ele disse algo sobre ver Kirstie Allen na calçada do outro lado da rua e eu nem me lembrava quem era ela.
Los Angeles e antigos famosos na rua, que novidade.
Cheguei ao aeroporto e gastei um bom tempo até conseguir uma passagem para Nova York, e agora teria que esperar duas horas até o voo sair. Tentei pensar no que fazer enquanto isso e, obviamente, recorri ao celular. Li algumas notícias e tentei assistir alguma coisa que me distraísse, mas a ligação de Lily me interrompeu.
Deixei tocar até parar.
E ela ligou de novo, e dessa vez era melhor atender, eu não estava no ânimo de ficar brincando com isso.
— Oi.
— Cheguei no hotel e me disseram que você foi embora. Está no aeroporto?
— Sim.
— Quando sai seu voo?
— Por quê?
— Pensei em ir embora também.
— Por quê?
— Como assim?
Droga. Droga, droga, eu estava na defensiva.
— Por que está agindo assim?
— Assim como, Tyler? — ouvi seu risinho sarcástico no final da pergunta.
— A gente transa e se ama e no outro dia somos apenas sócios como se nada tivesse acontecido. — ela ia responder, mas continuei. Eu parecia uma metralhadora. — Eu nem sei como está sua vida, Lily, nem conversamos sobre isso. Você estava noiva quando nos vimos em Nova York, e de repente você planejou toda a viagem à LA e o hotel e o carro e tudo.
— Se você me desse uma chance de falar, quem sabe?
— Chance?!
Vi a mulher a duas cadeiras da minha se levantar com sua Louis Vuitton e sair para longe de mim. Humpf, como se eu me importasse!
— Por que tudo tem que ser na hora que você quer, Tyler?
Perdi o fio da meada quando ouvi aquilo. E quase perdi o juízo quando ela apareceu bem ao meu lado com uma mala e o celular.
— E eu pensando que seria uma boa ideia ir embora com você.
Eu ainda não sabia o que dizer. Que droga! Por que ela fazia aquilo comigo?
Por que ela conseguia fazer aquilo comigo?
— Por que me ligou se estava a caminho?
Lily estava em seus trajes tradicionais, jeans e camiseta, mas a maquiagem ainda estava no rosto e o cabelo estava preso num rabo de cavalo bem alto e firme.
— Nem eu sei. Eu não sei de mais nada quando se trata de você, Tyler.
— Eu não te entendo mais, Lily. Eu juro que tento, mas não consigo mais. Você virou um completo enigma para mim.
Ela ficou ali parada, com a mala ao seu lado, me olhando. E ficou por um tempo que não contei, mas que pareceu longo demais. Doloroso, excruciante.
— Vou despachar a mala. — ouvi-a avisar baixinho e sair.
Fiquei observando-a até sumir da minha vista. Eu ia de 0 a 100 com Lily o tempo todo, era cansativo, mas empolgante de alguma forma. Excitante.
O inusitado, no entanto, foi voltar à NY sem ela.
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