Lily

Nova York, sexta-feira, 06h00.

Viajar de avião logo no início da manhã me ajudava com o jet-leg. Em poucas horas eu estaria em Los Angeles e terminaria os preparativos para o nosso fim de semana na cidade e na premiação.

Um frio na barriga insuportável me parava toda vez que eu pensava nele. Podia apostar que ficaria surpreso com toda a programação. Ao mesmo tempo, porém, uma pontada de culpa espetava meu coração toda vez que eu me lembrava de Henry e suas palavras.

Deitei na poltrona e me cobri até o pescoço, encolhida, enquanto alguém se sentava no assento ao meu lado. Olhei pela janela e fiquei esperando o avião decolar ao mesmo tempo que repassava a conversa que tive com meu noivo na noite anterior.

Henry já havia percebido meu comportamento estranho alguns dias antes. Até minha mãe havia percebido e me ligado, dizendo que havia até conversado com meu pai sobre isso. As pessoas estavam começando a se preocupar e eu já não tinha mais forças para disfarçar. Eu havia, oficialmente, me tornado uma questão.

Aquilo simplesmente começava a me consumir.

Cheguei em casa do trabalho, mais ansiosa do que nunca para a viagem até LA, e qual não foi minha surpresa ao ver que Henry havia preparado um jantar para nós dois. Ele era bastante reservado com a maioria das pessoas, mas se esforçava absurdamente para se dar bem em Nova York, não só comigo, mas com minha família e amigos. Eu podia dizer que ele sentia falta de casa e que estava empolgado para receber a família em algumas semanas para o casamento.

Casamento esse que eu adiava de todas as formas e agora entendia muito bem o porquê.

— Surpresa. — ele me recebeu com um sorriso no rosto e uma mancha perto da boca que com certeza era de molho de tomate.

Henry era a criatura mais educada e estupidamente fofa que eu conhecia. Era por isso que eu só conseguia adiar o casamento e não cancelar de uma vez. Aquilo o magoaria profundamente e eu só queria poder evitar magoá-lo.

Mal sabia eu que isso aconteceria de qualquer forma.

— Uau, que produção. — disfarcei um sorriso e larguei a bolsa no sofá.

— Pensei em fazer uma surpresa pra você, mesmo com uma simples macarronada. — ele riu e se aproximou para um beijo.

— Gosto de simples.

Seu cabelo estava mais curto agora e os fios um pouco escuros, devido o comprimento. Além disso, de alguma forma, seus olhos ficavam ainda mais destacados. Eu sentia tanta sinceridade neles que só me sentia mais e mais culpada. Era horrível.

Jantamos e bebemos algumas taças de vinho branco e dei uma desculpa que estava cansada e tonta demais pra qualquer coisa que não fosse um banho quente e uma noite de sono. É claro que não foi difícil sentir a decepção e o desânimo de Henry, mas como sempre, um verdadeiro gentleman, me deu um beijo e um sorriso antes de dormir.

Quando acordei ele já não estava em casa, o que, certamente, foi um alívio pra mim. Eu era, sim, a mais covarde de todas por mal conseguir encará-lo e não falar a verdade. Ele havia concordado em adiar o casamento, mas só porque fui muito convincente em dizer que não poderia planejar tudo do jeito que queria a tempo, não porque gostava de outro.

Porque era apaixonada por outro.

Fiz uma sequência de alongamentos e tomei café da manhã o mais tranquila que pude. Coloquei uma música e passei alguns minutos na varanda, apenas apreciando a manhã agitada da minha cidade que eu tanto amava. Fiquei pensando em como seria estar em LA de novo e rever o mar e sentir aquela atmosfera de novo.

E então lembrei do meu pai.

Alguns meses atrás...

Já fazia quase duas semanas que não conversávamos, meu pai havia ido a um retiro de meditação e já havia me enviado um longo e-mail contando sobre tudo, além das quase trinta fotos. Eram lindas e eu estava feliz por ele e por poder participar tanto assim, mesmo de longe. Contudo, lá no fundo, eu não conseguia sentir nada de verdade que não fosse desespero.

Eu só conseguia me lembrar do momento que acordei completamente nua ao lado do meu melhor amigo, igualmente nu.

Aquilo parecia um pesadelo. E a coisa toda ficava pior quando eu tentava ouvir meu próprio coração e sentia que havia gostado daquilo. De tudo.

De. Tudo.

E agora eu tinha a chance perfeita para fugir daquela realidade. No entanto, não tinha ideia do que deveria fazer.

Eu estava em casa quando meu pai me ligou, era uma chamada de vídeo. Atendi antes que ele ligasse para minha mãe perguntando se algo havia acontecido comigo — ele era muito mais cuidadoso e preocupado agora.

— Oi, pai! — me joguei no sofá e afugentei Tyler dos meus pensamentos.

Tyler, completamente nu.

Ai, droga.

— Oi, meu amor! Quanto tempo! Estava morrendo de saudades. Como você está? — ele estava em casa, pelo que pude ver das cortinas atrás dele.

— Eu também estava com saudades. Amei as fotos do retiro, à propósito.

— Foi muito legal, mas falaremos disso em outro momento, com mais tempo. Como você está? Eu quero saber sobre isso.

Engoli seco.

— Estou bem, pai.

— Está mesmo? Me parece preocupada. O que houve?

Eu não entendia muito bem como ele conseguia fazer aquilo mesmo estando do outro lado do país.

— Decisões, sabe como é.

— Que tipo de decisão? Eu sei como é sim. — ele riu um pouco abafado e de repente a imagem atrasou, mas logo voltou ao normal.

Respirei fundo e encarei minha barriga quando falei de novo — eu estava deitada no sofá, segurando o celular enquanto meu pai devia ver meu queixo duplo no que era meu pior ângulo na câmera.

— Recebemos uma proposta de fusão com uma empresa inglesa. Eles me chamaram para um viagem à Londres por alguns meses.

Meu pai arregalou os olhos e ficou um tempo assim, surpreso, chocado, embasbacado. Tanto tempo que achei que a ligação tinha travado de vez.

— Pai?

— Lily, isso é fantástico! — ele estava sorrindo largo agora, eu sabia que era de orgulho.

Era lindo.

— É, eu sei.

— Então por que está tensa assim?

— Pela proposta da viagem.

— Se você não for até lá eles vão desistir da fusão? E o que houve com a ideia de abrir o capital da empresa?

Respirei fundo e então me sentei.

— Tyler e eu não estamos muito bem nesses últimos dias. Tivemos umas discussões e...

E transamos. É, eu e meu melhor amigo. Foi incrível. E, ao mesmo tempo, bizarro.

Eu só queria acordar daquele pesadelo terrível. Queria voltar no tempo e não correr o risco de estragar para sempre minha melhor amizade.

Que droga, Lily!

— Filha?

— Sim?

— Não está cogitando viajar e seguir com a fusão sem contar a ele, está? — seu bigode bagunçado o deixava mais sério em alguns momentos, e aquele era um deles. Meu pai estava encarando a câmera do celular dele, não a minha imagem na tela.

Era realmente como se estivesse olhando nos meus olhos.

— Tyler nunca se preocupou de verdade com a nossa empresa, pai. Você sabe disso.

— Sim, eu sei. Ele lida de uma forma diferente com os negócios, mas Lily, não é certo seguir com uma parceria desse tamanho sem antes falar com ele.

— Ele nem vai se importar se eu passar um tempo fora. — dei de ombros e só então me dei conta que estava ali falando dele com meu pai.

O que estava acontecendo comigo?

— Mas são meses fora, certo? — ele deu ênfase nos meses, como se eu precisasse me lembrar desse detalhe.

— Sim. Estou contando com três meses, mas pode ser que as coisas se estendam e eu tenha que ficar mais. E não fará diferença, pai, todos sabemos.

— Filha... eu acho isso arriscado. Não sei, não me parece prudente. Quando você tem que respondê-los?

Respirei fundo de novo, agora querendo desligar.

— Tenho até amanhã.

Ele me encarou chocado de novo, e então começou a me alertar sobre o que poderia acontecer caso eu seguisse com a fusão e a viagem sem conversar com Tyler antes e aquilo começou a me dar nos nervos e finalizei a ligação sem me despedir.

Eu não tinha coragem alguma de olhar na cara do Tyler, como explicaria tudo isso a ele?

...

Henry fez questão de ir comigo ao aeroporto e repetiu várias vezes que sentiria saudades, mesmo que fosse apenas um final de semana. Ele finalizou dizendo que, no final, não se importava com a distância. Afinal, teríamos o resto de nossas vidas para ficarmos juntos.

Aquilo afundou meu coração ainda mais.

Quando desembarquei em LA e lembrei do meu pai, fiquei pensando no que ele diria se eu contasse sobre Henry. Droga, ele nem conhecia meu noivo. Ele sabia do casamento porque minha mãe havia contado tudo, mas eu ainda não havia falado com ele sobre nada. Eu nem sabia se meu pai conhecia o genro, nem que fosse por foto.

E de tanto querer controlar tudo na minha vida, perdi o controle das coisas mais importantes sem nem perceber.

...

Tudo aconteceu como planejei durante a semana. Eu sabia que Tyler ia encher a cara no avião, pois detestava estar longe demais do chão, então me certifiquei de que haveria alguém que pudesse ajudá-lo a chegar ao hotel, porque eu não poderia. Pensei em visitar meu pai e finalmente ter uma conversa de verdade, além de matar as saudades, mas desisti antes mesmo de planejar e acabei ficando no hotel, esperando que Tyler chegasse.

Era estranho estar em sua presença apenas, só ele, sem correr o risco de alguém nos ver juntos e acabar notando algo diferente. Para mim era quase palpável, bizarro. Toda vez que eu o olhava sentia que entregava demais o que estava acontecendo comigo, sentia que precisava controlar a forma que olhava para ele, a forma que sorria largo e sincera demais ao falar com ele, tudo parecia apaixonado demais e eu não queria que soubessem. Apesar de querer que ele soubesse.

Estar a quilômetros de casa facilitou tudo. E então pareceu não facilitar mais, pois ele me confrontou. E então anunciou oficialmente, com todas as letras, que nossa amizade havia acabado e não tinha mais volta. E então eu surtei completamente e abdiquei do controle momentaneamente e o beijei.

Droga.

Foi perfeito.

...

Já passava das 3h da manhã quando olhei o relógio. Estava confortável em minha cama de hotel, com pijamas limpos e cheiro de sabonete de lavanda, que eu detestava, mas havia esquecido de levar o meu na mala então usei o do hotel. Fazia mais de uma hora que eu estava ali, pensando e, ao mesmo tempo, achando que estava à beira do surto.

Fizemos tudo de novo, mas dessa vez não havia sido só sexo e desejo. Tinha muito mais ali.

Minha nossa, muito mais.

Além de estar sóbria dessa vez e perceber muito mais coisas, eu senti mais coisas.

Eu estava mesmo à beiro do surto.

Tyler se trancou no banheiro e saí do quarto antes de ouvi-lo desligar o chuveiro. Ele estava estranho, distante. Sinceramente, eu não o culpava. Eu comecei a me sentir profundamente estranha depois de tudo. A primeira coisa que vi quando voltei ao meu quarto foi minha aliança de noivado sobre o móvel que ficava ao lado da cama, junto de um vaso de tulipas amarelas.

A culpa de ter traído meu noivo — meu noivo! — começou a me consumir de um jeito absurdo. Mas eu amava Tyler de um jeito que jamais amaria Henry. Porém estava de casamento marcado. E estava a quilômetros de casa, nós teríamos aquele fim de semana apenas para nós. Que droga.

Que droga, Lily!

Não lembro perto de que horas peguei no sono, mas não dormi bem. Acordei me sentindo estranha e enterrei a culpa da traição no lugar mais fundo e obscuro do meu coração. Pensei em tomar café no quarto, mas eu podia tentar convidar Tyler para um café da manhã na rua. LA tinha inúmeras opções legais.

Bati em sua porta, mas nada dele. Liguei na recepção e me disseram que ele havia saído, e claro que não segurei meu impulso e de falar com ele.

Eu já me sentia uma adolescente de novo. Era igualzinho! Qualquer chance de estar perto dele, eu queria.

— Alô? — ele atendeu depois de três toques.

— Bom dia, Tyler. Está tudo bem? Te procurei no quarto, mas você já não estava.

E eu soei desesperada, para variar.

— Bom dia. Sim, está tudo bem. Resolvi dar uma caminhada. Não vai acreditar quem encontrei no caminho.

Lembrei-me que estávamos em LA e ele, muito provavelmente, tinha visto algum famoso. Mas qual não foi minha surpresa ao ouvi-lo dizer:

— Seu pai.

Meu coração vacilou tanto que eu não soube bem o que responder. Esforcei-me e devo ter falhado em disfarçar quando respondi:

— Sério? Que mundo pequeno. Diga que mandei um beijo.

— Ele te mandou outro.

— Ótimo. Hum... Você já preparou seu discurso? Sei que o evento é amanhã, mas talvez seja interessante trabalhar nisso com antecedência.

Joguei-me sentada na cama, enrolando a ponta do cabelo, pensando no que falar para continuar a conversa e esquecer que ele e meu pai estavam juntos agora.

Tyler poderia ter cruzado com a Cameron Diaz na rua, mas tinha que encontrar logo meu pai? Sério, universo?

— Não, não pensei nisso ainda. Daqui a pouco volto ao hotel e vejo isso. — senti-o um tanto distante, mas tratei de afugentar esse pensamento também.

Era melhor terminar aquilo.

— Certo. Estou recebendo uma outra ligação agora, depois nos falamos. — essa nunca falhava.

— Ok. Até mais.

Passei o resto da manhã e da tarde no quarto, olhando LA pela janela, ora assistindo algo na tevê. Nada que acalmasse meus pensamentos ou sentimentos. Eu só estava tentando me negar a um monte de coisa que já era óbvia demais. O pior é que eu já havia olhado lá embaixo, era só me atirar do abismo agora.

E lá estava eu de novo, batendo à porta do quarto da frente. Ele respondeu que não estava fazendo nada quando liguei, apenas para confirmar se estava mesmo no quarto. Quase perdi a fala quando abriu a porta e me atendeu só de calça jeans.

— Pensei em sair e comer alguma coisa, andar pela cidade. O que acha?

Tyler ficou me olhando de um jeito que, no começo, me deixou tímida, mas depois começou a me assustar. E, de fato, me assustou quando falou:

— Você está brincando com a minha cara?

— Tyler, o que...

— Você vai mesmo agir como se nada tivesse acontecido, Lilian? Se você consegue fazer esse tipo de coisa, meus parabéns, mas eu não consigo. Não vou sair para um drinque, muito menos

Droga, Lilian não, Lilian não.

Entrei apressada e fechei a porta. Ninguém precisava ouvir aquela discussão. Droga, a gente ia discutir. Essa, definitivamente, era a última coisa que eu queria.

Eu realmente havia estragado tudo.

— Eu tenho minha parcela de culpa, mas foi você que acabou com a nossa amizade, Lily. — ele disparou de novo.

A culpa só me consumia mais e mais rápido. Eu estava encostada na porta, me sentindo encurralada. Mas por mim mesma e por meus erros.

E então Tyler me encurralou de verdade quando falou tudo de uma vez, sem parar para respirar:

— Você adora jogar minha falta de responsabilidade na minha cara, mas nunca admitiu que não consegue encarar as coisas também. Eu não sei o que houve contigo e talvez nunca saiba, pois duvido muito que vá me contar. Mas algo mudou em você. Nunca conversamos sobre aquela noite, pois logo depois dela você decidiu ir à Londres por seis meses. Seis meses!

Eu não conseguia sequer ouvir meus próprios pensamentos. Ele continuou:

— E o que dizer do seu pai? Vocês não se falam desde a sua viagem! E eu só soube disso porque nos encontramos por acaso! O que houve com você?!

Senti lágrimas encherem meus olhos, mas me recusei a deixar que caíssem.

— Tyler... — minha voz era um sussurro.

— Não te conheço mais. É difícil, mas preciso aceitar isso de uma vez. Minha melhor amiga sumiu e só sobrou a sócia no lugar. — ele se jogou sentado na cama.

E finalmente saiu:

— Meu pai me aconselhou a não viajar.

Encarei o chão e comecei. Eu estava de fato encurralada, não dava mais para mentir, era impossível. Tudo estava estampado em todos os lugares, para que continuar a farsa?

Respirei fundo e meus olhos relaxaram, me sentia derrotada. Minhas pernas cederam e eu sabia que não conseguiria atravessar o quarto e me sentar na cama agora, então só escorreguei e me sentei no chão.

— A verdade é que o que aconteceu entre nós naquela noite me assombra todos os dias. Os ingleses fizeram a proposta da viagem e eu havia decidido pensar na hipótese, aquilo seria bom para o nosso negócio, mas eu não queria ficar tanto tempo fora. A fusão, no entanto, era uma ideia tão boa, e então no futuro abrir o capital da empresa e... — respirei fundo, mas não me acalmei como pensei.

"Jamais serei capaz de esquecer aquela noite. Depois de desligar o telefone na cara do meu pai, acabei cedendo quando ele insistiu e conversamos. Contei que havia estragado tudo quando eu e você nos beijamos. Ele entendeu que havia mais do que isso, mas seria embaraçoso demais contar tudo. Seu conselho, porém, foi que eu não viajasse. Ou que a viagem durasse pouco tempo, no máximo umas duas semanas. Eu não deveria fugir daquilo, mas sim pensar no assunto e na melhor forma de resolver. A questão toda é que eu nunca fui capaz de pensar nisso direito e resolver, porque... droga, aquilo despertou algo em mim de novo. Todo o pesadelo do ensino médio de repente voltou à tona e eu sempre fui covarde demais pra enfrentar essas coisas, você sabe.

Não sei por quanto tempo sufoquei o que senti por você na minha adolescência, mas para mim sempre foi isso, uma paixonite adolescente. Só que... olha só o que aconteceu alguns anos depois. Meu maior medo sempre foi esse, que nossa amizade acabasse por isso."

Toda a discussão com meu pai mais a avalanche de sentimentos pelo homem ali à minha frente tomaram conta de mim de uma só vez e eu quebrei. Eu simplesmente quebrei. Só percebi que chorava copiosamente quando Tyler se pôs ao meu lado.

— Por que escolhe se maltratar assim?

Respirei fundo e, com ele ao meu lado, foi mais fácil me acalmar.

— Não foi você que esteve prestes a se declarar pra alguém e então ouviu que essa pessoa havia começado a namorar.

— Como assim?

Eu já havia começado a descarregar tudo, por que não terminar de estragar tudo e voltar uma década e contar isso também, não?

— Eu estava prestes a dizer que gostava de você quando você falou primeiro que estava namorando a Diana.

E então Tyler começou a rir feito maluco. Uma risada profunda e incontrolável. Ele parecia um lunático, na verdade.

— Isso é mesmo engraçado pra você ou é um dos seus ataques?

— Não tem graça nenhuma, eu só... — ele respirou algumas vezes e continuou: — Você gostava de mim no ensino médio? Não pode estar falando sério.

— Por que não?

— Porque eu gostava de você no fundamental.

— Quê?!

Minha nossa.

Não é possível.

Não.

Ficamos em silêncio por um tempo e então quebrei-o:

— Onde erramos? — eu estava exausta.

— Eu sou apaixonado por você, Lily. Essa é a única coisa que sei nesse momento. Desculpe.

— Todos tinham razão então, nós sempre combinamos. — foi a minha vez de rir daquele monte de coincidência absurda e então as lágrimas vieram de novo. — Por que isso é tão difícil?

Tyler me abraçou e não era nada difícil ceder àquilo e ficar ali, mas me afastei e falei uma última vez:

— Estaremos fadados ao fracasso se admitir que sou apaixonada por você?

— Não me importo de ser um fracassado se estiver ao seu lado.

Eu estava cansada. Na verdade, exausta, e além disso, incapaz de esperar me acalmar e parar de chorar para beijar Tyler de novo.

...

Eu me sentia nas nuvens, não era nada difícil ver beleza em tudo, até porque tudo em LA era bonito. Mas sabia que veria beleza até num esgoto de tão feliz que me sentia. E aquilo só se intensificou com a presença de Tyler num smoking indo à premiação comigo. Aquele era nosso auge profissional, e, por obra do destino ou do Coisa Ruim, talvez fosse nosso auge emocional também.

Era como um sonho.

Até meu celular tocar e eu me lembrar que tinha um noivo.

Que tipo de pessoa eu havia me tornado? Que inferno!

Não atendi Henry e pensei em deixar o celular no quarto, mas acabei desistindo. Mandei uma mensagem dizendo que não podia falar e que ligaria mais tarde. Ele entenderia, como sempre. Henry era estupidamente compreensivo. De fato, um ser humano evoluído.

Claro que tudo tinha que ser ainda mais difícil, se ele fosse um babaca idiota eu não me sentiria tão culpada.

De repente voltei à realidade e recuei de Tyler a tempo, ele estava prestes a me dar um beijo no banco de trás do carro que nos levava até o teatro onde a premiação aconteceria. Por mais que quisesse, eu não podia ficar ali brincando de namoradinhos de verão com Tyler enquanto tinha um noivo esperando por mim em Nova York.

Por um segundo, eu só queria abrir um buraco no meio do asfalto e me enfiar lá dentro e nunca mais sair. Mas a vida não era fácil assim.

A cerimônia aconteceu como um passe de mágica, absolutamente rápida. Fiz algumas amizades e já não estava mais com Tyler no afterparty. Senti sua falta e notei que estava no bar, mas me perdi numa conversa com dois representantes franceses e não dava para interromper assim, simplesmente.

Quando a conversa já estava começando a ficar francesa demais, me distraí e acompanhei Tyler indo do bar até a saída. Algo se espremeu no centro do meu peito, uma angústia, e então seus olhos encontraram os meus no meio do caminho e ele acenou.

— O que foi? — perguntei ao sair, logo depois dele.

— Estou cansado, vou voltar ao hotel. Você planejou a volta para hoje?

Como assim?

— A volta...? Está falando de Nova York?

— Sim. Já sinto falta da minha cidade. Você não? — ele arqueou as sobrancelhas como se aquilo fosse óbvio.

Eu amava NY, mas não estava morrendo de saudades assim. E NY tinha Henry e ele, bem... Eu...

— Achei que quisesse aproveitar um pouco mais de Los Angeles. — respondi sem muita força.

— Talvez um dia, mas hoje... — ele parecia hesitar em me dizer algo. — Não precisa vir comigo, aproveita a festa.

— Não, eu posso...

— Lil, tudo bem. Não é todo dia que participamos de um evento desse em LA. Aproveita. — ele sorriu para mim e, mesmo não sendo convencida por aquele sorriso que eu tanto adorava, assenti concordando.

Fiquei na festa até que ela se tornou chata e absolutamente tediosa para mim e então mudei de ideia subitamente e voltei para o hotel.

E qual não foi minha surpresa em descobrir que Tyler já havia ido embora. Ele não deixou sequer uma mensagem, nenhuma ligação avisando, nada.

Absolutamente nada.

Subi para o quarto e arrumei minhas coisas e troquei de roupa, me sentindo cada vez mais enfurecida, com Tyler, comigo, com a situação, com o planeta, com todo mundo!

Droga! Droga! O que eu estava fazendo?

Eu não podia continuar com aquilo. Não podia abandonar tudo por alguém que eu nem conseguia me dar bem por dois dias seguidos, mesmo que ele fosse meu melhor amigo da vida toda, minha alma gêmea. Como eu podia ter certeza que Tyler e Lily dariam certo na vida?

E como eu podia seguir sabendo que estava prestes a destruir a vida de Henry a qualquer momento?

Minha respiração estava ofegante demais quando entrei no táxi e joguei a mala no banco de trás e entrei logo em seguida. O checkout no hotel e a despedida passou como um borrão diante dos meus olhos. A equipe trabalhou super bem e me tratou como uma rainha e eu nem pude agradecer à altura. Olha só o que eu havia me tornado, uma lunática, workaholic e infiel.

Demorei menos do que minha ansiedade concluiu para chegar até o aeroporto. E cada vez mais inquieta, saí do carro ligando para o celular de Tyler, e o cretino só me atendeu quando liguei na segunda vez. Estava atravessando a entrada do LAX quando ele falou com aquela voz de sonso:

— Oi.

Revirei os olhos e respondi:

— Cheguei no hotel e me disseram que você foi embora. Está no aeroporto?

— Sim.

— Quando sai seu voo?

— Por quê?

— Pensei em ir embora também. — eu estava chegando perto da área de espera para embarque.

— Por quê?

— Como assim? — minha voz aumentou de um jeito que não me agradou.

— Por que está agindo assim?

— Assim como, Tyler? — não segurei o riso, aquilo era sério?

— A gente transa e se ama e no outro dia somos apenas sócios como se nada tivesse acontecido. Eu nem sei como está sua vida, Lily, nem conversamos sobre isso. Você estava noiva quando nos vimos em Nova York, e de repente você planejou toda a viagem à LA e o hotel e o carro e tudo.

E foi assim que meu coração foi espremido com o resto da minha dignidade e sanidade mental.

Eu tinha perdido o controle de tudo.

— Se você me desse uma chance de falar, quem sabe? — falei, sem forças.

— Chance?! — e então foi a voz dele que aumentou.

E enquanto puxava minha mala com mais força que o necessário, vi-o sentado na cadeira, prestes a levantar, olhando para todos os lados, impaciente. Menos para a minha direção.

Minhas pernas fraquejaram, mas ainda consegui responder:

— Por que tudo tem que ser na hora que você quer, Tyler?

Ele finalmente notou minha presença e ficou de queixo caído por dois segundos, apenas até o momento que guardei meu celular e falei diretamente com ele:

— E eu pensando que seria uma boa ideia ir embora com você.

— Por que me ligou se estava a caminho?

Ele nem parecia ter ido a um evento de gala horas antes, estava completamente informal, como quase sempre. Tyler parecia um final de tarde de domingo, daqueles preguiçosos, que você só quer deitar confortável e tirar um cochilo rápido e aconchegante. Eu queria deitar e me aconchegar nele, mas parecia impossível ter isso mesmo que eu fosse uma mulher livre e sem anel de noivado.

— Nem eu sei. Eu não sei de mais nada quando se trata de você, Tyler.

Espera... o anel.

— Eu não te entendo mais, Lily. Eu juro que tento, mas não consigo mais. Você virou um completo enigma para mim.

Mas que merda! O anel! Eu esqueci o anel!

Aquilo não podia estar acontecendo, eu havia tirado o anel e o deixado na mesinha ao lado da cama e não estava com ele agora.

Tentei respirar fundo e pisquei os olhos algumas vezes, tentando pensando em algo. E só o que saiu foi:

— Vou despachar a mala.