Friendzone

9 Por que as aulas de teatro são importantes


Notas iniciais
E aí gente, como vão? Espero que muito bem e não chateados com a demora do capítulo. E se alguém estiver se perguntando se esse é o cap. da Lily.... Sim, meu povo, é o cap. narrado pela mocinha de olhos azuis linda e doce que, com essas aulas de teatro mencionadas no título, tornou-se a implacável empresária e pessoa, Lily Carter. Antes de julgar alguém precisamos saber o que essa pessoa passou para ter se tornado quem é... ai que filósofa você está hoje, Blue. Mentira, nem tô. Só estou dizendo isso porque é a verdade e funciona com a Lily também, e hoje, podemos ver um pouquinho do porquê de ela ser assim. Espero que gostem do cap. e aproveitem a leitura!!!

Cinco meses depois

— Qual será o roteiro turístico de hoje, minha linda? — Henry pergunta enquanto se joga na cama ao meu lado e enrosca uma perna na minha.

— Nenhum, acho que já fizemos todos. E além do mais, tenho que trabalhar hoje. — respondo enquanto me desvencilho dele e me levanto. Ainda estou de camisola e ele parece querer que eu a tire apenas para seu deleite.

— Não acha que trabalha muito, Lily? Mal ficamos juntos nessa última semana. — viro-me para vê-lo jogado em minha cama onde estou hospedada há cinco longos meses.

Um inglês com o mais sedutor dos sotaques, olhos verdes, pele branca, cabelos loiros com fios que, bagunçados, caem um pouco na testa, mas se arrumados fazem-no parecer alguém da família real. Corpo atlético de anos praticando esportes, entre eles seu preferido e tradicional em sua família, o tênis. Num de nossos encontros Henry chegou a me levar a uma partida, em Wimbledon, onde ele jogou uma vez na categoria juvenil quando tinha 16 anos. Ele é o mais velho da família Alexander, único homem entre três irmãs. Não deu certo na carreira de tenista devido uma lesão e então se formou em Economia na Universidade de Oxford.

E agora ele está aqui estirado na cama todo preguiçoso e falando com o sotaque mais irresistível do mundo para que eu não trabalhe. E mesmo quase cedendo, consigo manter o foco e vestir minhas roupas e ele finge estar triste.

Só tem uma pessoa que consegue me fazer desistir de trabalhar: Tyler.

— Amo sua determinação, Lily. Acho que foi por isso que nos damos tão bem.

Foi isso que me atraiu nele. Não que ele fosse irresistível para mim, já tenho minha cota de “desejo-proibido” completa. Mas o fato de ele gostar tanto do que faz e ainda assim querer gastar seu tempo inexistente comigo é altamente encantador. Calço os sapatos e jogo seu casaco sobre a cama.

— Vista-se. Temos uma reunião em meia hora.

— Ok, chefe. — ele ri e duas covinhas aparecem e me fazem sorrir por dentro. Algo em Henry me faz sentir bem.

Entretanto, ainda me pego lembrando daquela noite surreal e fatídica com Tyler, mas não posso me prender àqueles fatos. É tortura. E além do mais, tenho que agir como se nada tivesse acontecido. E não aconteceu. Conte a mesma mentira para si durante tempo suficiente para que se torne verdade.

E é assim que tem que ser.

Tyler nunca aconteceu, foi Henry. Ele aconteceu em minha vida e tudo mudou.

Bem, tudo parece mudar desde quatro meses atrás, quando nos conhecemos. Era final de inverno, os finais de tarde em Londres me castigaram a ponto de me fazer gastar dinheiro com casacos mais grossos e resistentes. Eu estava num dos piores dias até então, morrendo de saudade de casa, da minha família, dos meus amigos, do meu melhor amigo em especial, da minha gata Joan, de tudo. Saí do hotel e resolvi caminhar um pouco, nesse dia em especial passei um frio terrível, mas não quis voltar ao hotel para pegar um casaco maior.

Andei algumas quadras até ver uma lojinha de souvenirs e resolvi entrar. Lá estava muito mais confortável, quentinho e aconchegante. Pensei em comprar alguns para quando voltasse para casa, mas fiquei só ali olhando. Parei no corredor onde a prateleira do meio era repleta de globos de neve, alguns com o Big Ben dentro, outros com o London Eye e vários outros pontos históricos da cidade. Peguei o que tinha a icônica roda gigante e fiquei balançando e vendo a neve artificial se espalhar lentamente. Não sei exatamente o porquê, mas naquele momento decidi que compraria o globo. No momento em que me virei para ir até o caixa, esbarrei em alguém e o globo escorregou em minhas mãos que estavam aquecidas com luvas de lã vermelhas.

Foi líquido, vidro e neve falsa para todo lado. Fiquei furiosa e encarei a pessoa que esbarrou em mim, era um homem bem mais alto que eu e bonito. Ele começou a pedir desculpas por infinitas vezes com aquele sotaque britânico que sempre me fez derreter só de ouvir.

— Senhorita, por favor, perdoe minha falta de atenção. Não tive intenção alguma de fazê-la derrubar o globo. Pode deixar que pago esse e um novo para você. — seus olhos que até então eu só sabia que eram claros estavam preocupados. Ele procurava por alguém que fosse limpar a bagunça e já estava se desculpando e dizendo que pagaria por tudo.

Nunca conheci alguém tão atencioso quanto ele.

— Não há necessidade, eu pago. — respondi quase me sentindo constrangida por sua presença. Percebi que ele era muito mais bonito do que minha primeira impressão constatou.

— Senhorita, por favor.

— Lily. — pisquei os olhos com certo pesar e acabei rindo num misto de vergonha e arrependimento. — É que não me sinto muito bem quando me chamam de senhorita.

— Bom, Lily, me desculpe pelo globo. Sou Henry. — ele tirou a luva e estendeu-me a mão. Fiz o mesmo e nos cumprimentamos.

— Não precisa mais se desculpar, por favor. — ri de novo, não sei como isso aconteceu.

— Tudo bem, sem mais desculpas. Mas vai me deixar pagar o globo, certo? — ele sorriu um sorriso branco e alinhado. A luz que bateu em seus olhos de repente me deixou ver que eram verdes.

— Eu posso pagar, está tudo bem. — sorri de e coloquei minha luva novamente.

— Então me deixe pagar outra coisa. — quase franzi o cenho e fiz cara feia, mas ele rapidamente completou: — Já passou da hora do nosso tradicional chá, mas se você aceitar... — demorei a entender o convite e ele falou de novo: — Se quiser beber algo mais forte... Tudo bem, se não quiser também...

Ele estava ficando constrangido e de repente, como uma agulha me espetando, me lembrei do que Tyler me disse uma vez: “Acho que você devia aproveitar mais a vida. Não devia ser tão séria e tão dura com as coisas. Devia se deixar levar mais, Lily. Vai acabar sozinha, sabia?”

Eu não podia deixá-lo ter razão.

— Quero. — ele sorriu parecendo aliviado quando falei. Sorri de volta. — Te deixo pagar o chá, já a bebida mais forte... Quem sabe depois eu pague?

Eu, Lilian Carter, estava ali numa lojinha de souvenirs flertando com um britânico que acabou se tornando meu namorado não muito depois.

...

— Está com frio, querida? Use meu casaco. — arregalo os olhos enquanto Henry joga o casaco grosso por cima de meus ombros.

— É que eu não esperava ficar tempo o suficiente para ver o tempo mudar assim e esfriar. — sorrio em agradecimento pelo casaco.

A sensação de proteção e de ter o corpo aquecido de repente me faz lembrar de Tyler e das inúmeras vezes que fez isso comigo, das inúmeras vezes que me emprestou o casaco. Respiro fundo e me concentro no presente, quanto mais penso em Tyler, mais fácil lembro daquela noite. E é dela que tenho que esquecer, quem sabe até dele

— Sabia que fica ainda mais linda quando veste algo meu? — Henry diz e se aproxima, cheirando meu cabelo e em seguida me beijando a bochecha.

Isso tira, momentaneamente, meus pensamentos de Nova York. Estou em Londres, com um homem incrível e bom demais para ser verdade e que, aparentemente, gosta de mim. É, eu preciso mesmo mudar meu foco.

— Obrigada. Mas está me encorajando a roubar suas roupas e me vestir apenas com elas. — rio enquanto finalmente chegamos ao escritório da família de Henry.

Sua família é dona de uma das marcas mais populares de chá do Reino Unido. A maioria das pessoas não sabe disso, então nem sabem que Henry e sua família têm dinheiro. Isso me faz admirá-lo ainda mais, o fato de ser discreto quanto a isso e não querer jogar na cara de ninguém que é rico e jovem e bonito, como alguém que conheço.

Passamos pela recepção onde a recepcionista nos recebe com um sorriso no rosto e logo seguimos para o elevador. A maioria das pessoas que trabalham com os Alexander já me conhece, já que estou aqui faz cinco meses, mas ele insiste em ficar me exibindo para todo e qualquer um que ainda não tenho tido um vislumbre da americana magra.

— Ela é magra demais, não acredito que vive mesmo em Nova York. — duas garotas sussurram em seus cubículos, pensando que além de magra, eu também sou surda. — E a pele dela, uau!

Balanço a cabeça, pasma com isso. Não têm mais nada interessante para fofocarem sobre mim? Como, por exemplo, fazer parte da lista de milionários com menos de trinta anos? Ou cuidar de uma multinacional? Conseguir andar num salto quinze sem titubear?

— Henry, podemos ir a um fast-food depois? Estou morrendo por um hambúrguer triplo com cheddar. — falo enquanto entramos no elevador.

Ele faz uma cara confusa, com a testa franzida e beicinho, sem entender a brincadeira. Tyler entenderia. Me afasto dele minimamente e me sacudo internamente. Ficar fazendo comparações não ajudará em nada.

— Saudades de casa, não é? — ele ri e faço o mesmo. Gosto disso nele, sempre consegue me fazer rir

— Acertou.

— Tudo para agradar minha doce Lily. Iremos logo mais.

Finalmente chegamos até o andar onde fica sua sala, e onde tenho ficado nos últimos meses, enquanto ele vai direto para o telefone falar com seu sócio Christopher. Olho pela grande janela de vidro tentando me deslumbrar com a vista, mas algo está me bloqueando. Já visitei Londres outras vezes e me lembro perfeitamente da sensação maravilhosa que sempre senti. Não é como agora.

Talvez seja a companhia. Ou a falta dela.

— Falei com Christopher, ele disse que se atrasará. Isso te dá mais tempo, certo?

— Sim, só preciso fazer algumas ligações e depois faremos a reunião.

Henry, seu sócio Christopher e o setor financeiro da empresa teriam uma reunião onde eu consultaria algumas coisas sobre um novo fornecedor. A família inteira me tem como um super exemplo de empreendedora, e eu amo isso.

Henry me deixa sozinha no escritório e eu, mais uma vez, não consigo me concentrar em minhas tarefas. Lembro da primeira que vim até Londres, numa viagem de férias com alguns amigos da faculdade. Deve parecer fútil dizer que passamos as férias de primavera na Inglaterra só porque somos ricos. Entretanto, Tyler e eu trabalhamos por meses para juntar o dinheiro por conta própria. Tudo bem que no final tínhamos só a metade e nossos pais nos ajudaram com o restante, mas a sensação de ter algo nosso foi incrível.

Foi mais ou menos nessa época que começamos a pensar na empresa.

— O quê? — pergunto distraída. — Não ouvi, desculpe.

Henry se aproxima e passa os braços por minha cintura. Não sei quanto tempo passou desde que ele saiu e voltou. Enterro o pequeno desconforto bem no fundo na minha mente e seguro suas mãos quentes. Ele é todo convidativo, quente e confiável. Às vezes tenho vontade de me enrolar em Henry e esquecer de todo o resto do mundo, porém não consigo.

Quem sabe um dia dê certo.

— Parece desligada. Quem é você e o que fez com a Lily?

Rimos.

— Desculpe, só estou preocupada com meu sócio. — essa parte não é mentira. — Sinto que ele não consegue dar conta de tudo sozinho. — essa parte também não.

— Eu sei que pelo o que me contou, Tyler deveria começar a ser mais responsável, afinal, ele não a terá para sempre. Mas você precisa confiar nele também, vocês trabalham juntos por tanto tempo, será que ele não aprendeu a ser um bom empresário depois de anos ao seu lado?

— Não sei. Mas você tem razão, preciso confiar mais nele. — olho pela janela e vejo as folhas das árvores se mexendo com força. O vento está forte e o frio também.

(...)

Olho o relógio acima da cabeça do professor de matemática pela centésima vez nos últimos dez minutos. É a última aula do dia e de hoje não passa. Não consigo mais viver assim.

De hoje não passa. Eu juro.

Viro a cabeça para o lado tentando enxergar Tyler pela visão periférica. Assim que encontra meu olhar, vejo-o sorrir. Não demora muito e ele se aproxima, quase deitando na mesa ao lado.

— O que foi? — pergunta.

— Precisamos conversar. — só para essa frase precisei controlar o coração, mas não consegui, é claro.

— Ok.

O professor olha para nós segundos depois de Tyler se endireitar na cadeira e fingir que nada aconteceu. Suprimo um sorriso e escrevo as equações no caderno. Por mais que eu tente me concentrar na matéria depois disso, é inútil. Meu coração parece que vai explodir do meu peito de tanta excitação.

Quando o sinal finalmente toca, pulo da cadeira e jogo o material organizadamente na bolsa — ainda não perdi o juízo a esse ponto — e a coloco no ombro. Tyler está sentado na mesa me observando.

— O que foi? — pergunto e ao mesmo tempo sinto um frio na barriga só de imaginar o processo todo de contar tudo a ele.

— Porque está assim, agitada?

— Ah, é que preciso te contar uma coisa muito importante. Vamos?

— Sim. Também tenho algo importante para dizer.

Seu comentário me deixa intrigada, mas preciso me concentrar em ir embora logo.

No corredor apilhado de gente, fico o mais perto dele que consigo sem precisar segurar em seu braço. Várias pessoas nos param no meio do caminho nos cumprimentando ou falando qualquer coisa desnecessária no momento. Será que ninguém percebe a animosidade no meu rosto? Por favor, saiam da frente!

— Lily!

Essa não.

Diana vem pulando em nossa direção, com o cabelo recém alisado e a camiseta curta com estampa florida. Ela está muito animada, mais do que o normal. Ou será que estou imaginando coisas?

— Oi Ty! — ela fala sorrindo aberto e abraça-o pelo pescoço.

Desde quando são assim grudados?

Ele abre o sorrisinho que conheço muito bem. Mas tem algo diferente nele. Tem algo diferente na maneira com que ele olha para ela.

— Oi, Diana. O que foi? — tento esconder o ciúme.

Quero disfarçar meu descontentamento, mas esse sorriso... Tem algo de estranho nele. Isso me faz perder a concentração.

— O que vai fazer mais tarde? — seus olhos se desviam para Tyler, como se tivesse perguntado a ele. — Vai à festa da Silky?

— Festa da Silky? Quem é essa? — pergunto, agitada e irritada. Diana só fala sobre festas e curtição.

Ah, é a Silvia, ela passou as férias em Beverly Hills e acha que é descolada o suficiente para usar esse apelido bobo. Às vezes acha que é a própria Cher de As Patricinhas de Beverly Hills. Ela é patética, não me surpreendo que Diana esteja interessada em ir à festa dela.

— Silky! Ela vai dar uma festa na piscina mais tarde. Você vai? — Diana fala de novo e o modo encantado com que Tyler sorri para ela me dá enjôo.

Desvio dessa visão tosca.

— Não sei. Tenho uns assuntos para resolver.

— Lil, deixa de ser chata! Vamos? — Tyler tenta insistir para que eu vá.

— Vai perder uma bela festa, Lil. Há rumores de que um novo casal vai chegar junto na festa e anunciar o namoro para todo o colégio.

Meu coração bate descompassado. Que casal?

Sou obrigada a dar um sorriso amarelo e concordar em ir junto. Sem chance de eu deixar esses dois sozinhos e não saber o que vai acontecer. Além do mais, sou da parte do popular do colégio, não é legal ficar por fora do que acontece.

— Bom, nos vemos na festa então. Vamos, Tyler? — corto o barato dos dois e ele olha para mim. — Tchau, Diana.

Saio andando a passos não tão acelerados até que ele se junte a mim, e quando o faz, quase corro até o estacionamento. Chego até meu Ford de final dos anos noventa que era do meu pai e que ele me deu, e jogo Tyler no banco de motorista.

— Você precisa parar com essa frescura de não dirigir, Lily.

— Dirigir é desnecessário se tenho você para isso. — bato a porta e jogo minha mochila no banco de trás.

— Qualquer dia desses vai quebrar a porta de tão forte que bate. E para onde vamos, mademoiselle?

— Para minha casa, Reed.

Tyler faz careta, mas faz o que digo e não demoramos muito para chegar. Ele estaciona perfeita e rapidamente. Olho para ele descaradamente e isso o faz rir. Quero chegar mais perto, abraçá-lo, dizer que quero ficar com ele para sempre.

Ainda não.

Meus pais não estão em casa a essa hora, estão trabalhando. Entramos e Tyler vai direto para a cozinha enquanto subo para o meu quarto. A primeira coisa que faço é jogar a mochila em qualquer lugar e depois respiro fundo várias vezes tentando manter o controle da situação.

Parece que vou explodir de ansiedade.

— E então, sobre o que quer falar? — ele chega até meu quarto mais cedo que imaginei.

Merda. Estou muito nervosa.

Estou prestes a dizer ao meu melhor amigo que estou apaixonada por ele.

— Argh, Lily, seu quarto é limpo demais, chega a ser assustador. — ele está com um pacote de biscoitos de chocolate e se joga em minha cama.

— Não me culpe por não querer dormir num lixão igual ao seu.

Ele dá uma gargalhada contagiante que me faria rir se eu não estivesse assim nervosa.

— Você sabe que não posso deixar ninguém arrumar meu quarto. — ele enfia um biscoito inteiro na boca e faz uma careta engraçada que me faz rir e relaxar por alguns segundos.

— Tem que medo que alguém encontre seus pornôs, não é?

Ele se faz de desentendido, mas logo cai na risada.

— É claro. Mas se acha importante que eu limpe meu quarto, posso escondê-los aqui no seu. Quem sabe embaixo da sua cama?

— O quê? — falo, incrédula.

Ele ri de novo, brincando. Quero dizer, espero que esteja. Ele que nem tente isso.

Respiro fundo e sento na cadeira à frente da escrivaninha. Preciso ficar calma o suficiente para conseguir falar o que preciso falar.

— Tyler, eu...

— Lily, antes que você diga qualquer coisa, eu preciso te contar uma coisa senão sou capaz de explodir. — ele fica sério de repente e isso me alarma.

— O que é? — fico em silêncio tentando entender o que ele disse.

— É sobre a festa de hoje. Mais precisamente sobre o casal que a Diana mencionou na hora da saída. — ele sorri ao dizer o nome dela e meu coração parte ao meio no mesmo instante.

— São vocês dois.

— Argh, caramba! — Tyler cobre a cabeça com o travesseiro e sua voz sai abafada — Nem acredito nisso.

— Não imaginei que gostasse dela a esse ponto. Namorados? — tento me controlar para não chorar em sua frente.

É idiota sentir vontade de chorar por isso, mas não controlo.

Meu coração bate diferente e eu me sinto horrível, idiota, estúpida, iludida... Ainda bem que ele está com o rosto escondido e não vê minha cara de boboca iludida e magoada. Um nó se forma em minha garganta e preciso forçar duas vezes para conseguir sorrir e falar:

— Logo você gostando de verdade de alguém? Como isso aconteceu? E por que não me disse antes?

De hoje não passa. Que idiota.

— Sei lá, eu ainda preciso assimilar tudo. Acho que minha ficha só vai cair quando formos à festa e anunciarmos o namoro. — ele tira o travesseiro do rosto e me apresso em levantar e ficar de costas. — E eu achei que você já soubesse. Ou suspeitasse, sei lá.

Se eu soubesse não sei o que teria feito. Bateria nele? Nela?Em mim mesma?

Que merda ridícula foi acontecer comigo. Preciso me acalmar.

— Pensando agora, acho que notei algumas coisas. — falo já conseguindo controlar melhor o nó na garganta.

— E você acha que ela gosta de mim também?

Não é óbvio? Todas gostam.

— Acho que sim.

— Então vai à festa e nos ver juntos pela primeira vez como casal?

Viro-me para olhá-lo, esquecendo por um segundo que meus olhos devem estar vermelhos. E se os meus estão assim, os dele brilham. Ele realmente gosta dela.

— Tyler eu não sei...

Se acalme, Lily.

— Lil, vamos lá. Vai ser legal. Você não pode perder esse evento. Será grandioso, afinal, Tyler Carter foi finalmente fisgado por alguém! — ele ri de si mesmo.

Posso fazer qualquer coisa hoje menos ir a essa festa testemunhar isso.

— Eu não posso. E isso tem a ver com o que queria te contar. Vou ficar fora esse final de semana.

— Assim de repente? Vai para onde?

Burra! Pega na própria mentira! Vou para onde? Provavelmente vou dormir e chorar pelos próximos dois dias. Talvez pelo primeiro. É, eu espero.

— Precisarei ir com meus pais até a casa da minha tia Elise. Parece que ela está muito mal desde o divórcio e, você conhece minha mãe, ela sempre ajuda todo mundo e não seria diferente com a irmã...

Santa Janis Joplin, que mentira mais tosca!

— E o que isso tem de tão importante que precisava me contar com urgência?

A despreocupação com que ele fala e come um biscoito em seguida partem meu coração ainda mais, se é que isso é possível.

— Achei que iria querer fazer aquela pesquisa para o seu experimento dos testes finais.

Isso é quase verdade, ele pediu minha ajuda, mesmo sendo química e eu não entendendo muito sobre o assunto.

— Ah, sim, entendi. É, foi bom ter me avisado que não vai poder. Mas acho que agora vai se livrar de todas essas coisas chatas que te obrigo a fazer comigo. — ele ri. — Chamarei Diana para me ajudar, pode ficar tranqüila. Isso se nós fizermos alguma coisa além de se pegar. — Tyler ri mais ainda e eu preciso buscar forças sei lá de onde para disfarçar. Acho que no final, as aulas de teatro da Sra.Betsy não foram um desperdício total, precisarei delas mais do que nunca.

(...)

Fiquei muito boa em fingir certas coisas e atuar em várias situações. A vida de empresária ajudou. E quem diria que as aulas de teatro seriam realmente úteis até hoje?

...

Uma hora depois do combinado, Christopher chegou para a reunião. Ele não é minha pessoa favorita no mundo, e ainda se atrasa. Isso só piora minha opinião sobre ele. A reunião durou em torno de 45 minutos, e ainda bem, eu não agüentava mais olhar para a cara de Christopher. Logo depois, eu e Henry saímos para o almoço num restaurante aconchegante e não tão sofisticado que fica perto do escritório.

Voltamos para o escritório e Henry está no telefone enquanto confiro minha caixa de e-mail. Escuto uma batida na porta e em seguida Christopher entra na sala e assim que me vê, sorri. A presença dele me fez entrar na defensiva automaticamente. Não gosto muito dele, mas minhas habilidades teatrais me ajudam a passar por sua quase insignificante existência, dia após dia.

— Lillian, está especialmente bonita hoje. Esqueci de dizer. — ele praticamente me lambe com os olhos e fico enjoada.

— Obrigada, mas prefiro que me chamem de Lily, acho que já sabe disso. — sorrio colocando em prática minhas aulas de teatro da Sra.Betsy e então volto minha atenção para a tela do notebook. Vejo que há um e-mail no mínimo intrigante da minha secretária e alguns vários outros que preciso ler com mais calma depois. Vendo Christopher entrar no escritório e ficar esperando até que meu namorado encerre a ligação, percebo que ele não vai sair daqui tão rápido.

Assim que Henry desliga o celular e se volta para seu sócio, interrompo qualquer início de conversa entre eles:

— Henry, vou voltar para o meu hotel. Tudo bem por você ou ainda vai precisar de mim?

Ele me dá um sorriso malicioso que só nós dois entendemos e eu me controlo para não devolver o mesmo sorriso na presença do desnecessário Christopher.

— Mas já? — e então faz uma carinha de triste.

— Sim, preciso analisar algumas coisas antes de fechar o contrato com os perfumistas. — levanto, pego minha bolsa e vou até ele, beijo-lhe a bochecha e em seguida seus lábios, e saio não antes de passar a mão por seu cabelo já perfeitamente liso e alinhado. — Até mais tarde.

— Até mais, querida.

Passo por Christopher e apenas digo um “tenha um bom dia” em voz baixa para ele. Posso saber atuar em várias coisas e durante várias partes do meu dia e da minha vida, mas fingir que gosto de alguém é impossível, o máximo que consigo é tratar bem.

Saio do prédio e está ainda mais frio, mas, por sorte, Henry é um homem gentil e me deixou usar seu casaco, ele disse que tinha outro no escritório, mas conhecendo-o como conheço, posso apostar que não. O táxi felizmente não demora e logo estou a caminho do hotel que tem sido minha casa pelos últimos cinco meses. No caminho, penso no quanto mais posso aguentar a saudade de casa, das minhas coisas e das pessoas que amo. Claro que ter Henry ao meu lado ajuda muito, mas, querendo ou não, não é como em casa, que tenho onde me segurar quando as coisas ficam estranhas. Eu sei que posso contar com meu namorado inglês de sotaque encantador, contudo, é arrasador porque ainda me sinto sozinha.

Chego ao hotel, passo pelo saguão e cumprimento algumas pessoas pelo caminho que já estão acostumadas com a minha presença e conto os segundos até o elevador chegar. Não demora muito e posso finalmente entrar no quarto que tenho passado boa parte dos meus dias. Entro, tranco a porta e tiro os sapatos antes de me jogar na cama.

Ainda preciso trabalhar, estudar contratos tediosos e complexos das transações que estamos fazendo, mas não sei se tenho cabeça para isso agora. Mesmo que o trabalho me distraia da melhor maneira possível, hoje não é um bom dia. A verdade é que voltei para o hotel porque não me sinto disposta, minha cabeça está nos Estados Unidos, em Nova York, não na Inglaterra, em Londres.

Respiro fundo e, depois de alguns minutos em silêncio e apenas respirando e tentando pensar em algo para ser feito, volto até minha escrivaninha na sala e abro meu notebook. Acesso meu e-mail e vou direto no que mais me deixa curiosa: o de Lucy, minha secretária que me deixa informada de tudo mesmo a milhas de distância.

Ela é uma das mulheres mais adoráveis que já conheci, é por isso que ainda trabalha conosco. Abro o e-mail com a esperança de que aquele assunto seja algo que possa me divertir e me fazer sentir melhor:

De: lucy_madison@reedandcarter.com

Para: lilycarter.CEO@reedandcarter.com

Assunto: Sr. Reed está lendo sobre o meu ombro

“Lily,

Tyler pediu para que eu a avisasse que ele está finalizando um novo projeto, mas não me passou detalhes, disse que será uma surpresa para você. Ele solicita sua volta antes data prevista, para que possa aprovar por si mesma antes do lançamento. Tyler está maravilhado com a nova descoberta e exige que você “volte o mais rápido possível, de preferência amanhã”. Palavras dele, não minhas. Espero que saiba que todos nós sentimos imensamente sua falta na empresa e também queremos que volte o mais rápido possível.

P.S.: O senhor Tyler anda estranho ultimamente, sendo o primeiro a chegar e o último a sair. Mas também está sempre com uma aparência cansada. Ele não é o mesmo sem você. Gostaria de escrever mais, mas ele lerá tudo a qualquer momento então, preciso ir”

Ela ainda insiste em nos chamar de Senhor e Senhorita. E como eu não queria, não me divirto nem me sinto melhor depois de ler o e-mail, é exatamente o contrário. E Tyler não é o mesmo sem mim?

Isso é porque ela não viu como eu sou sem ele.

Notas finais
E então, o que acharam? Pelo amor de todos os deuses da mitologia, deixem reviews falando suas opiniões e críticas e o que gostaram ou não. O que acharam do Henry? Ele será páreo duro para o Tyler? E o que acharam da Flashback da Lily? Babadeiro, né? Eu gostei bastante desse trecho, ele definiu quem Lily seria a partir dali. Ela aprendeu a esconder muita coisa e a ser a Lily que conhecemos hoje. E então, entenderam por que as aulas de teatro foram importantes para ela? Bem, eu e Mary, como sempre, esperamos que tenham gostado do capítulo. E agora, com férias, verão, final de ano, teremos mais tempo pra escrever e pra não demorar tanto assim, okay? Então, beijos e até o próximo o/