Friendzone
25 Perdidos
Eu ainda não havia colocado uma camiseta, estava descalço e vestia apenas uma calça jeans, e só percebi isso quando senti o olhar de Lily queimar sobre mim e me arrepiar inteiro. Ela ficou ali parada na porta sem falar nada por alguns segundos. Eu também não sabia o que queria dizer, parte de mim queria que ela fosse embora. Mas a outra parte, uma bem grande, queria que ela entrasse e ficasse. Ela resolveu ir até o meu quarto quando não atendi sua ligação.
Eu não aguentava mais aquela tortura, que era não só física, mas também psicológica.
— Achei que tivesse saído... Pensei em sair e comer alguma coisa, andar pela cidade. — ela pigarreou e eu foquei em seus olhos que ficavam sempre muito mais sinceros quando usava o cabelo preso num rabo de cavalo como naquele momento. — O que acha?
Então ela estava me convidando para dar uma volta na cidade como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse planejado meu trajeto inteiro desde o aeroporto até o quarto do hotel, com todo cuidado. Como se não tivesse transado comigo na noite anterior e na noite que bebemos juntos, antes daquela maldita viagem que ela fez há oito meses?
Então ser usado era isso. Meu carma foi mesmo grande.
— Você está brincando com a minha cara?
Lily arregalou os olhos e olhou para os dois lados do corredor do hotel.
— Tyler, o que...
— Você vai mesmo agir como se nada tivesse acontecido, Lilian? Se você consegue fazer esse tipo de coisa, meus parabéns, mas eu não consigo. Não vou sair para um drinque, muito menos um jantar, quando você sabe o quanto essa história toda já me afetou!
À essa altura eu já estava do outro lado do quarto, encostado na janela, olhando para fora tentando me acalmar, mas aquilo havia me tirado do sério há muito.
Ouvi a porta se fechar e mais nada. Respirei fundo antes de olhar para trás, pensando que ela havia desistido de enfrentar a verdade, no entanto, ainda estava lá. Ela e seus olhos sinceros demais e seu vestidinho amarelo de verão que a faziam ficar ainda mais linda e aquele cinismo descarado que fazia a raiva fervilhar em meu sangue.
— Eu tenho minha parcela de culpa, mas foi você que acabou com a nossa amizade, Lily.
Comecei a tomar consciência de como meu corpo respondia àquilo tudo e só então percebi o quão rápido estava respirando. Ela estava com as costas apoiada na porta, com os braços para trás, culpada. Ou pelo menos era o que eu queria acreditar, que ela sentia um pingo de culpa que fosse por brincar comigo daquela maneira.
— Você adora jogar minha falta de responsabilidade na minha cara, mas nunca admitiu que não consegue encarar as coisas também. Eu não sei o que houve contigo e talvez nunca saiba, pois duvido muito que vá me contar. — que droga era aquela, eu parecia histérico. — Mas algo mudou em você. Nunca conversamos sobre aquela noite, pois logo depois dela você decidiu ir à Londres por seis meses. Seis meses!
Eu estava no meio do quarto, que era enorme, à propósito, e ela ainda na porta, encolhendo os ombros a cada palavra que saía da minha boca.
— E o que dizer do seu pai? — ela desviou o olhar quando falei sobre isso. — Vocês não se falam desde a sua viagem! E eu só soube disso porque nos encontramos por acaso! O que houve com você?!
— Tyler...
— Não te conheço mais. É difícil, mas preciso aceitar isso de uma vez. Minha melhor amiga sumiu e só sobrou a sócia no lugar. — joguei-me sentado na cama, derrotado mais uma vez.
E pensar que eu estava ali para um evento onde concorria com o perfume que levava o nome dela!
Valeu, universo!
— Meu pai me aconselhou a não viajar.
Ela começou a falar e eu parei com a frase. Como assim?
E então a cena mais estranha, ela voltou as mãos para frente e, ainda encostada na porta, começou a escorregar até se sentar no chão com as pernas esticadas.
— A verdade é que o que aconteceu entre nós naquela noite me assombra todos os dias. — seus olhos estavam fixos numa linha imaginária, pareciam vazios. — Os ingleses fizeram a proposta da viagem e eu havia decidido pensar na hipótese, aquilo seria bom para o nosso negócio, mas eu não queria ficar seis meses fora. A fusão, no entanto, era uma ideia tão boa, e então no futuro abrir o capital da empresa e... — ela respirou fundo e eu me lembrei de fazer o mesmo.
"Jamais serei capaz de esquecer aquela noite. Conversei com meu pai e contei que havia estragado tudo quando nos beijamos. Ele entendeu que havia mais do que isso, mas seria embaraçoso demais contar tudo a ele. Seu conselho, porém, foi que eu não viajasse. Ou que a viagem durasse pouco tempo, no máximo umas duas semanas. Eu não deveria fugir daquilo, mas sim pensar no assunto e na melhor forma de resolver. A questão toda é que eu nunca fui capaz de pensar nisso direito e resolver, porque... droga, aquilo despertou algo em mim de novo. Todo o pesadelo do ensino médio de repente voltou à tona e eu sempre fui covarde demais pra enfrentar essas coisas, você sabe.
Não sei por quanto tempo sufoquei o que senti por você na minha adolescência, mas para mim sempre foi isso, uma paixonite adolescente. Só que... olha só o que aconteceu alguns anos depois. Meu maior medo sempre foi esse, sempre foi que nossa amizade acabasse por isso."
Lily estava chorando. Minha vontade era de pular da cama, correr e sentar ao seu lado e confortá-la. E foi exatamente o que fiz, um fracote por natureza que não era capaz de vê-la derramar uma lágrima e permanecer no lugar. Sentei ao seu lado, pernas e ombros tocando um o outro, porém no último segundo travei. Meus pulmões pareciam ter diminuído, eu estava nervoso e esquecia de respirar. Que coisa mais idiota.
— Por que escolhe se maltratar assim?
— Não foi você que esteve prestes a se declarar pra alguém e então ouviu que essa pessoa havia começado a namorar. — ela riu, irônica até na miséria, e secou o rosto.
Enquanto isso, meu cérebro simplesmente travou, bugou total.
— Como assim?
Lily ficou ali me olhando como se eu fosse um louco e eu não aguentava mais seu silêncio. Do que ela estava falando?
Porra, o que estava acontecendo?
— Eu estava prestes a dizer que gostava de você quando você falou primeiro que estava namorando a Diana.
Aquilo só podia ser uma piada de mal gosto. E era tão ruim que eu comecei a rir, simplesmente. Como naqueles momentos constrangedores que você pode fazer qualquer coisa, menos rir, mas é só o que consegue fazer. Seu corpo já não responde mais aos seus comandos, você só ri.
A desgraça estava feita.
— Isso é mesmo engraçado pra você ou é um dos seus ataques?
— Não tem graça nenhuma, eu só... — fui me acalmando aos poucos, respirando fundo. — Você gostava de mim no ensino médio? Não pode estar falando sério.
— Por que não?
— Porque eu gostava de você no fundamental.
— Quê?! — ela arregalou os olhos.
Dessa vez ninguém riu daquela coincidência absurda. Ficamos um bom tempo em silêncio. Nem eu meu sonho mais maluco eu podia imaginar uma coisa dessa. Olhei para ela, que encarava o chão ou a barra do vestido amarelo, eu não sabia dizer.
— Onde erramos? — ela quebrou o silêncio e olhou pra mim.
Eu agora estava mais perdido do que nunca.
— Eu sou apaixonado por você, Lily. Essa é a única coisa que sei nesse momento. Desculpe.
Ela ficou ali me olhando fixo, estática, enquanto eu não sentia meu corpo direito. Era estranho falar aquilo em voz alta, ainda mais para ela. Achei que me sentiria livre, mas não foi bem assim. A fórmula perfeita que, de alguma forma, não deu certo.
— Todos tinham razão então, nós sempre combinamos. — ela começou a rir meio contida até que lágrimas surgiram em seus olhos e seu rosto começou a franzir lentamente e eu a abracei. — Por que isso é tão difícil?
Ela se afastou do meu abraço e voltou a olhar pra mim. Lily era a mulher da minha vida, era difícil acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.
— Estaremos fadados ao fracasso se admitir que sou apaixonada por você?
Minha garganta secou e meu peito parecia prestes a explodir. Era como se cada célula começasse a queimar até eu sentir a febre aumentar.
— Não me importo de ser um fracassado se estiver ao seu lado. — minha voz estava cortada, puta merda, o que estava acontecendo ali?
Lily ainda estava chorando quando me beijou, mas já havia parado quando sentou no meu colo. Segurei seu rosto com as duas mãos e tentei me lembrar que aquilo não era um sonho, que ela estava mesmo ali e que se lembrava de tudo e que eu não era um louco desvairado sem coração e que sim, ela também era apaixonada por mim!
Será que havia sofrido um acidente ou algo do tipo e estava delirando, à beira da morte, o sonho mais incrível da minha vida?
O suspiro pesado que ela soltou de repente me fez despertar e não, eu não estava sonhando nem nada. Aquilo era real. Eu estava vivíssimo.
— Eu te amo. Droga, eu te amo, Lily. — ela estava ofegante, olhando pra mim, e abriu um sorriso encantador quando soltei isso.
Era a verdade, eu não tinha mais porque omitir o amor que sentia por ela. Que não era mais aquele amor de melhor amigo e irmão e toda aquela história. Há tempos que tudo havia mudado.
Lily saiu de cima de mim e se levantou, foi até a cama e se sentou na ponta, respirando fundo. Não demorei a estar ao seu lado.
— Eu também te amo, Ty. — ela ainda respirava fundo, acho que tentando se acalmar.
— Está tudo bem?
E então ela finalmente soltou o choro que devia estar preso ali há meses. Passei o braço por seu ombro e a trouxe para perto, mas ela não demorou muito e deitou em meu colo, quase inconsolável.
— Minha vida virou uma bagunça. Não consigo parar de pensar em quanta coisa eu estraguei. Estraguei nossa amizade, estraguei nosso negócio que já era um sucesso, estraguei minha relação com meu pai, e Henry... — ouvir sua voz cortada ao falar era bastante doloroso.
— Você não estragou nada, Lily. Não pode se culpar assim, não temos controle sobre tudo.
E Henry...
— Eu sei disso, mas as coisas que tenho controle eu estraguei. Fiz escolhas erradas e estraguei tudo.
Seu corpo estava encolhido e quanto mais eu afagava seu cabelo, colocando-o para trás, ela parecia se acalmar. Fiquei tanto tempo preso em minha própria miséria de me descobrir apaixonado que não fui capaz de perceber o quanto aquilo afetou nossa amizade e, mais ainda, ela. Lily era expert em colocar um sorriso no rosto e dizer que tudo estava bem, ela ficou muito boa nisso com os anos mesmo sabendo que aquilo só a levaria a lugares ruins. E ver agora, de pertinho, o dano que aquilo tudo causou era horrível.
Mas necessário, afinal, em primeiro lugar, eu sempre seria seu melhor amigo.
— Vem cá. — ajudei-a a se sentar de novo e então escorregamos para trás até deitar na cama. Puxei-a para perto de novo até deitar em meu peito e ficamos ali. — Você não estragou tudo, Lil. A vida é difícil mesmo, vamos descobrindo um pouco mais todo dia. E isso tudo vai melhorar, você vai ver. E quero que se lembre de mim, estarei sempre aqui pra você.
Ela apertou o abraço e notei quando assentiu concordando.
...
Acordei com algumas vozes distorcidas e só quando abri os olhos e vi a silhueta de Lily na porta foi que me dei conta que pegamos no sono. Ouvi o som da porta e então ela se virou.
— Oi. — pude ouvir o sorriso em sua voz.
Eu estava sonhando?
— Oi. Dormi demais? O que houve?
— Acho que não, são oito da noite. Só perdemos o pôr do sol.
— Caramba.
Fiquei sentado, despertando lentamente como era agora que eu já estava mais perto dos trinta. Meu metabolismo ia ladeira abaixo.
— Pedi uma pizza. Quer?
Tinha como ela ser ainda mais perfeita? Se Deus não existia, como aquela mulher era real?
Por favor.
— Claro. — levantei e me juntei a ela na mesa que ficava no canto do quarto.
Lily começou a rir de repente, antes que eu pudesse dar a primeira mordida no meu primeiro pedaço de pizza de pepperoni.
— O que foi?
— Nada, é que... — ela começou a gargalhar jogando a cabeça para trás e tudo, toda maluca. Comecei a rir junto.
— Meu Deus, Lily, o que foi? — eu já estava mal também, não podia rir senão engasgaria com a comida.
— A gente sempre acaba assim, com pizza. Parece que ainda temos quinze anos. Mas a verdade é que me lembrei do dia que você caiu do telhado.
E foi aí que engasguei, não deu pra evitar. Tossi ao mesmo tempo que ria e ela só se divertia ainda mais às minhas custas.
Nesse fatídico dia eu e Lily voltamos a nos falar. Tivemos uma briga idiota durante uma festa no nosso último ano e ficamos dias sem conversar. Eu nem me lembrava o motivo, mas podia apostar que era estúpido. O grande porém estava na culpa dela, a própria admitiu e foi até minha casa pedir desculpas. A janela do meu quarto dava para o telhado, onde eu gostava de passar um tempo observando o pôr do sol no verão ou as pessoas passando na rua de vez em quando.
Lily foi em missão de paz na minha casa naquele dia, e em vez de uma bandeira branca, ela levou pizza de pepperoni, o que funcionava muito melhor para mim. Tudo deu certo, ficamos no telhado conversando e comendo pizza, melhores amigos de novo. E então fui me levantar e escorreguei, mas ela me segurou e ficou com mais medo que eu caísse do que eu, o que me arrancou risadas e me fez brincar que ia cair.
E acabei caindo de verdade.
Fiquei estirado no chão gritando de dor e ela ficou rindo lá de cima da minha cara, pois, mais uma vez, como sempre, estava certa.
— Não tem telhado dessa vez, então, por favor, não tente ficar na janela nem algo parecido, ok? — disse ela, comendo o primeiro pedaço de seu segundo pedaço de pizza, enquanto ria.
— Muito engraçado.
— Sabe o que eu estava pensando? No seu discurso...
— Você tem pensado muito nesse discurso. Por que isso? Nem acho que vamos ganhar.
Ela revirou os olhos, como sempre quando discordava de mim.
Especificamente de mim.
— Mas se ganhar, é bom estar preparado.
Imitei-a, revirando os olhos e ela riu.
— Quando vai parar de tentar me convencer a escrever esse discurso?
— Quando você aceitar.
Fiquei sem palavras. Era um daqueles momentos em que você simplesmente para e observa a razão das suas insônias e dos seus sonhos mais importantes durante as poucas horas de sono que consegue ter. Eu não podia acreditar que estava vivendo aquilo.
— Me ajude a escrever.
— Hã?
— O discurso.
Ela ficou parada, me olhando. Parecia prestes a dizer algo o tempo todo, mas só se levantou da cadeira e veio me beijar. Me livrei do pedaço de pizza e me ajeitei quando ela sentou no meu colo. Como senti falta daquilo.
Tinha tanto que eu queria fazer, e esse tanto me dava a necessidade de todo o tempo do mundo. Ou de simplesmente fazê-lo parar para prestar atenção em cada detalhe, e quem sabe assim eu seria capaz de gravar todos para sempre. Eu já não sabia se apertava Lily contra mim ou se me concentrava em seu quadril, que começava a se mexer num ritmo perfeito sobre mim. Era absolutamente inebriante ouvir seus suspiros enquanto eu beijava seu pescoço.
A fórmula perfeita.
Ela parou de repente e fez aquele mesmo feitiço de ficar me olhando nos olhos, profundo demais para tentar entender. Quando eu era criança queria ter os olhos claros como os dela, mas agora eu só queria que ficasse me olhando daquele jeito pra sempre. De repente se levantou e eu nem estava mais pensando, meu corpo estava no comando e minha mente só se concentrava em olhar para ela e sentir tudo aquilo que acontecia. No curto caminho até a cama ela tirou as sandálias e buscou o zíper na lateral de seu vestido amarelo.
Eu já estava abraçado com ela de novo, assim que deixou o vestido deslizar por seu corpo até ficar no chão. Nenhuma outra mulher foi capaz de me deixar tão hipnotizado e imerso assim. Nem mesmo Diana, apesar dos sentimentos. Quando é profundo e genuíno assim, quando a fórmula é perfeita, você simplesmente transcende.
Eu estava perdido em Lily.
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