Friendzone
24 Perdido em LA
Aquele devia ser o fim. Havia uma dor estranha no meu peito, bem no centro, que me dizia isso. Esse era o fim da nossa amizade e eu queria poder parar, mas sabia que não havia como voltar no tempo então por que parar naquele momento?
Não.
Era óbvio que aquele momento tão terno e apaixonado jamais aconteceria de novo, então por que não só aproveitar e se deixar levar? Eu sabia com todas as células do meu corpo, se é que isso era possível, que depois daquilo o resto do meu coração partiria-se em milhões de pedacinhos. Entretanto, como poderia eu, um reles mortal apaixonado e estupidamente atraído por aquela mulher, recusar aquilo? Eu não conseguia mais ter domínio do meu corpo, o que era ridículo, pois ele só respondia a ela. Não havia pensamento, nem sequer pressa.
Eu estava perdido.
O pior de tudo, no entanto, foi me dar conta tarde demais de que Lily e eu éramos a fórmula química perfeita. Aquela que pensei ser com Diana e então que não teria com mais ninguém depois dela. Era doloroso entender que a fórmula existia, mas que agora era tarde demais.
— O que houve?
Encarei aqueles olhos por toda a vida, mas não havia me acostumado a vê-los tão de perto. Por que ela estava fazendo aquilo?
— Nada, eu só...
Lily logo se ajeitou e seu peso sobre mim diminuiu, mas ainda estava deitada e com um braço apoiado em meu peito. Finalmente entendi que tudo era uma questão de segundos e a vida já havia decidido por mim, eu não podia perder aquela chance também. Ela fez menção de se afastar depois de ficar me olhando meio perdida, mas decidi sem pensar em não pensar mais e a beijei novamente.
A resposta foi intensa e perfeita. Desisti de entender o que estava acontecendo e a deixei me guiar pelo caminho do paraíso que terminaria em miséria.
...
Não nos falamos depois. Ela ainda se recuperava, ofegante, quando me virei para o lado pensando se me levantaria naquele momento ou ainda esperaria alguns minutos. Tentando ainda não pensar e repensar as coisas, levantei e fui até o banheiro. Saber que aquilo não daria em nada e lembrar disso a cada trinta segundos era excruciante. Tranquei-me no banheiro e tomei uma ducha quente durante um tempo que fosse o suficiente para ela ir embora.
Aquele era o meu quarto, afinal. Ela devia estar hospedada em outro, eu só queria sair e não encontrá-la ali. Achei que a dor demoraria mais a aparecer, mas me enganei pela enésima vez. E apesar da minha demora proposital, ainda fiquei uns cinco minutos me encarando no espelho, derrotado, antes de sair. Felizmente, acho que mentalizei isso com força o suficiente para que ela de fato já não estivesse mais ali e foi o que aconteceu. Eu estava sozinho de novo, mas não pude evitar dormir com o seu perfume ainda grudado nos lençóis.
...
Sábado, 10h.
Acordei com batidas na porta, serviço de quarto. Era o café da manhã todo completo e cheio de coisas, mas que não comi nem um terço. Olhei pela janela e o céu estava aberto e já tinha um sol iluminando tudo. LA era tão bonita, que droga. Eu amava Nova York, mas aquela cidade sabia ser irresistível. Pensei em sair para uma caminhada e, felizmente, mesmo na correria, eu tinha peças esportivas na bolsa. Troquei de roupa rapidamente, peguei mais um pedacinho de torrada com geleia e saí ainda mastigando.
O sol de Los Angeles era perfeito, mesmo que parecesse capaz de te derreter a pele depois de alguns minutos de corrida. A caminhada não durou muito tempo já que não era suficiente para me distrair da noite anterior. Como da primeira vez que eu e Lily estivemos juntos assim, dormi como uma criança. E tudo voltou à memória no segundo que olhei para o lado vazio da cama. Na primeira vez estava ocupado por ela, uma Lily descabelada que ficou assustada em cinco segundos, se não menos. Dessa vez não houve reação, não dormimos juntos.
Eu ainda tentava entender aquilo tudo, mas, sinceramente, já devia ter desistido.
Depois de alguns minutos e o que me parecia ser litros de suor escorrendo pelo meu corpo, parei um pouco na sombra para descansar e fiquei observando o bairro. Eu nem sabia que em que bairro estava hospedado, minha nossa, que irresponsável!. Ter uma vida abastada assim e pessoas fazendo tudo por mim não era certo, aquilo tinha que mudar. Por essas e outras que eu não tinha controle sobre minha própria vida.
E eu já tinha quase trinta anos. Que beleza.
Do outro lado da rua havia uma lanchonete que parecia especialista em receitas naturebas. Eles com certeza tinham algum suco refrescante e foi o que busquei depois de atravessar a rua correndo e entrar. O lugar cheirava a lavanda fresca e só de olhar ao redor e notar os potinhos com ramos de lavanda eu já queria ficar ali. Pedi uma sugestão ao jovem com jeito de universitário que atendia o balcão e me acomodei em uma das várias mesas vazias, esperando pela minha bebida.
Fiquei ali observando como todo mundo em LA parecia uma foto perfeitamente elaborada do instagram e, absorto em minhas tentativas de não pensar em Lily, quase dei um pulo da cadeira quando falaram comigo.
— Esse mundo é mesmo pequeno!
Virei-me rapidamente e um homem alto e grisalho sorria para mim. Demorei alguns segundos para reconhecê-lo, devido o cabelo mais curto e grisalho, mas aquele bigode de Super Mario era inconfundível.
— Sr.Carter? Minha nossa. — fiquei de pé rapidamente e ele me cumprimentou com um abraço e tapas nas costas.
Que coincidência bizarra era aquela?
— Faz quantos anos, garoto? Lembro de você na formatura da faculdade.
Ele ria enquanto falava e pedi que se juntasse a mim.
— Eu nem me lembro, mas faz muito tempo. Tinha me esquecido que mora aqui agora. Não sente saudades de Nova York?
— Sendo sincero, quando sinto falta de Nova York tento passar um final de semana por lá e, em menos de vinte e quatro horas, me lembro porque me mudei. — ele deu aquela risada alta e engraçada que só ele tinha.
Adam Carter era o pai de Lily. Os pais dela eram divorciados há alguns anos, que eu não me lembrava quantos, mas Adam nunca foi muito presente na vida da família, sempre trabalhou muito. Nas últimas vezes que ele foi o assunto da conversa, soube que havia se cansado do trabalho caótico em Wall Street e resolveu mudar de vida completamente e foi para Los Angeles.
As roupas coloridas de um homem de meia idade que ele vestia expressavam muito bem sua fase californiana. Era engraçado.
— E você, o que faz aqui?
— Trabalhando. Bem, não é trabalho, na verdade. Todo ano rola uma premiação de perfumes e estou concorrendo em uma das categorias.
— Sério? Poxa, meus parabéns! Que sucesso hein, garoto? — ele deu um tapinha em meu ombro, muito mais alto astral do que eu me lembrava. Ele sempre soava sério, com seu terno e sua maleta de trabalho.
Nos finais de semana, geralmente aos domingos, durante o verão, ele resolvia fazer churrasco no quintal dos fundos. Eu sempre estava lá, claro, e Lily e eu brincávamos com bexigas com água e a coisa toda sempre terminava em bagunça. Lembro do Sr. Carter sentado em sua cadeira de praia com uma cerveja na mão parecendo exausto. Ele raramente ia aos eventos escolares, pois todos aconteciam durante a semana. Sempre percebi a tristeza de Lily por ele estar longe na maior parte do tempo, e de repente me dei conta que nunca mais falamos dele.
— Muito obrigado.
— E está hospedado aqui perto?
— Sim, aqui na região mesmo. Lily também veio, vamos representar juntos a R&C. — comentei e engoli seco ao mesmo tempo que falei dela.
O atendente do balcão se aproximou e trouxe meu suco verde, que, no primeiro gole, me fez me arrepender. Suco verde era LA demais pra mim, que droga.
— Lily está na cidade? — Adam soou surpreso demais.
— Sim, chegamos ontem.
E transamos ontem logo que cheguei.
Mas que porra.
Eu queria poder pressionar um botão e parar os pensamentos e lembranças. Era o pai dela ali comigo, pelo amor de Deus!
— Ela não me disse nada. Faz tempo que não nos falamos.
— Conhece ela, trabalha muito. — forcei uma risada depois de um gole, mas acho que deu errado. Aquele suco era muito ruim.
— Sim, minha menina cresceu e se tornou uma workaholic como o pai. — ele parecia triste. — Sabe se ela trocou de telefone? Sempre tento falar com ela e nunca me atende.
Pensei em mentir e dizer que sim, que havia trocado de número. Porém não fui rápido em fazer isso e ele percebeu que ela não havia trocado de número coisa nenhuma, só não queria atendê-lo.
— Não precisa responder, Tyler. Está tudo bem. Já faz um tempo que percebi isso. — ele soltou um longo suspiro. — Nos falamos pela última vez há uns sete meses, pouco antes da viagem.
— A viagem à Londres?
Aquela maldita viagem estúpida.
— Essa. — Adam decidiu ficar mais tempo e eu até gostei, ele chamou o atendente e pediu um suco de frutas vermelhas. Por que não fiz uma escolha dessa? — Tivemos uma longa conversa sobre a viagem e as escolhas dela naquele momento. Não sei se acabei dizendo algo que ela não gostou... Minha Lily não parece a mesma.
Minha vontade era de levantar e dar um forte abraço naquele homem. Alguém me entendia, finalmente!
— Não parece a mesma? — instiguei o assunto.
— Acho que ficamos mais próximos depois que me mudei. Ela foi muito compreensiva com o divórcio e apoiou minha decisão de vir para Los Angeles. Conversávamos pelo menos três vezes na semana e ela me contava tudo sobre o trabalho e um pouco da vida pessoal também, eu achava fantástico. A maioria dos meus amigos que têm filhos não conseguem isso deles, e eu tinha isso.
— Até a viagem.
— Até a viagem. — ele concordou e o atendente surgiu de novo, agora com o suco de frutas vermelhas, que parecia muito, muito melhor que o meu. — As decisões que envolvem a empresa sempre têm um peso gigantesco para ela e eu sinto um imenso orgulho dela por isso, de como lida com seriedade com tudo. Mas havia algo de diferente naquele dia. Até mesmo pela webcam era possível perceber uma apatia nela.
Criei coragem e tomei dois longos goles do meu suco. E só então perguntei:
— Você comentou que acha que pode ter dito algo de errado. O que pode ter sido?
Adam ficou me olhando por alguns segundos e então voltou-se para o seu suco, e quando falou de novo não foi o que eu queria ouvir.
— Deixa pra lá, você está aqui para aproveitar a cidade e o prêmio pelo qual concorre. Não fique aqui ouvindo um velho te encher com esse papo furado. — sua risada forçada era ruim até hoje.
Fui interrompido pelo meu celular quando ia respondê-lo. Não evitei reagir com ironia e mostrei a tela a ele, perguntando se queria fazer uma surpresa e atendê-la. Adam recusou.
Havia algo de errado ali. Eu tinha certeza disso.
— Alô?
— Bom dia, Tyler. Está tudo bem? Te procurei no quarto, mas você já não estava.
— Bom dia. Sim, está tudo bem. Resolvi dar uma caminhada. Não vai acreditar quem encontrei no caminho.
Eu não descansaria até saber exatamente o que havia rolado na conversa entre Lily e o pai.
— Algum famoso? É possível encontrar um na primeira esquina que virar. — havia divertimento em sua voz.
— Seu pai.
E então a linha ficou muda por alguns segundos e, do meu lado, Adam já não tinha a melhor das expressões. O bigode o deixava mais sério nessas situações.
— Sério? Que mundo pequeno. Diga que mandei um beijo.
AGORA EU TINHA CERTEZA. HAVIA ALGO DE ERRADO ALI.
— Ela mandou um beijo. — sussurrei para ele rapidamente e ele respondeu o mesmo. — Ele te mandou outro.
— Ótimo. Hum... Você já preparou seu discurso? Sei que o evento é amanhã, mas talvez seja interessante trabalhar nisso com antecedência.
— Não, não pensei nisso ainda. Daqui a pouco volto ao hotel e vejo isso.
Eu não sabia lidar com todo aquele contato e interesse dela de repente. Será que não tinha nada do casamento para organizar? Que droga.
— Certo. Estou recebendo uma outra ligação agora, depois nos falamos.
— Ok. Até mais.
Desliguei o celular e vi que Adam havia terminado seu suco e colocado uma nota de vinte dólares sobre a mesa, pronto para ir.
— Tyler, foi um prazer revê-lo, mas preciso ir, garoto. Boa sorte no prêmio amanhã. Vocês merecem.
Aquilo tudo parecia apressado demais.
— Poxa, Sr. Carter, fique mais um pouco.
— Juro que não posso. — ele sorriu meio nervoso.
— Então vá conosco amanhã!
Ele parou meio chocado. E eu nem sabia se poderia levar alguém de fora, mas quem se importava?
— Mas...
— Lily está concorrendo na categoria. Bem, não Lily sua filha, — e então foi minha vez de rir meio nervoso. — mas Lily, o perfume. Eu dei o nome dela à fragrância.
— Você...? — Adam estava embasbacado agora, sequer terminou sua frase. Mas balançou a cabeça rapidamente e repousou a mão em meu ombro mais uma vez, mas agora com um pouco de força. — Obrigado pelo convite, Tyler, mas não posso. Mande um abraço à minha filha, por favor. Foi bom te ver.
Ele nem me deu chances de falar de novo e saiu em menos de cinco segundos. Aquilo me deixou com uma pulga atrás da orelha.
...
Eu estava atrasado, como sempre, mas agora tinha o presente em mãos. Corri para o carro e o coloquei no banco de trás e então dirigi até a casa de Diana. Demorei uns dez minutos apenas e buzinei quando parei em frente a sua casa. Ela demorou a sair e eu olhava no relógio a cada cinco segundos. Eu tinha menos de dez minutos pra chegar à casa dos Carters.
— Anda logo, Diana! Estamos atrasados! Todo mundo deve estar nos esperando!
— Que saco, Tyler! Não posso me arrumar em paz. Já estou indo. — ela veio com sua jaqueta jeans nos braços e uma caixinha pequena com um laço rosa amarrado. Abriu a porta do carro e antes mesmo de colocar o cinto eu já estava dirigindo de novo. — Uau, o que tem nessa caixa? Cabe uma pessoa dentro.
— É surpresa.
— Até pra mim? Você nunca me deu um presente desse tamanho, Tyler.
— Não vai ter ataque de ciúme uma hora dessas, vai? Lily é praticamente minha irmã, isso não faz sentido algum.
Ouvi-a a bufar e então se olhar no retrovisor ao seu lado.
— Comprei um livro daquele autor bizarro que ela gosta.
— Edgar?
— Esse mesmo.
— Boa escolha.
Houve um momento de silêncio e eu olhei no relógio de novo, tinha mais cinco minutos. Acelerei o máximo que aquela caminhonete velha permitia e algumas ruas depois, chegamos. Mas apesar da pressa, vi que o interior da residência dos Carters já estava aceso, o que dizia que ela já havia chegado e eu havia perdido a surpresa.
Surpresa essa que eu mesmo havia elaborado. Que merda!
— Poxa, perdemos a surpresa.
Dava pra ouvir a música e as vozes das pessoas na festa.
— Se não tivesse usado tanto tempo pra se arrumar, teríamos chegado a tempo. — saí bufando de raiva e dei a volta no carro para pegar o presente.
— Agora a culpa é minha? — Diana deu uma risada irônica e saiu na frente, saltitante com seu vestido rosa rodado que a fazia parecer uma criança às vezes. E falando daquele jeito, era isso que parecia.
Tudo bem que demorei para comprar o presente e acabei gastando mais tempo do que imaginei ao ir naquela tarde à loja. Mas Diana havia me dito que estava pronta e me fez esperar quase dez minutos no carro. Dez minutos eram preciosos.
Peguei a caixa e passei pelo portãozinho da casa e então segui o caminho até a porta, onde Diana já esperava que alguém abrisse. Foi a Sra.Carter quem nos atendeu, e me lançou um olhar de pena quando me viu com a caixa.
— Ela acabou chegando uns minutos mais cedo, Tyler. Sinto muito por ter perdido o momento.
— Está tudo bem. Onde ela está?
Diana estava dando aqueles gritinhos agudos que dava quando encontrava suas melhores amigas, que só estavam na festa de aniversário de Lily porque faziam parte do time de líderes de torcida, assim como a aniversariante. A Sra.Carter me levou até a cozinha, onde ela estava. Lily conversava com algumas pessoas mais velhas, que julguei serem de sua família, quando me viu. Ela parou no mesmo segundo e abriu um sorriso enorme de bobo no rosto e veio em minha direção.
Coloquei a caixa no chão e abri os braços de volta.
— Feliz aniversário, Lil. Desculpe ter perdido a surpresa.
— Obrigada. Obrigada mesmo. E não se preocupe em ter perdido o momento, minha mãe falou que você pensou na surpresa toda e isso vale mais do que qualquer coisa, você sabe. — ela ainda estava me abraçando quando Diana chegou por trás de mim e nos abraçou.
— Abraço em grupo! — ela gritou e as outras líderes de torcida vieram também.
Ser abraçado por tantas meninas ao mesmo tempo seria o paraíso para mim há uns dois anos, mas naquele momento não. Eu queria muito ter chegado a tempo e ainda estava irritado com aquilo.
— Obrigada, meninas! — Lily estava radiante, e seus olhos brilharam ainda mais quando nos afastamos e ela viu o tamanho da caixa do meu presente. — Não sei se quero abrir agora... acho que vou deixar para depois. Surpresa.
— É uma boa ideia, já que perdi a surpresa da festa. — sorri e Diana entrou na conversa falando sobre o seu presente, que era um livro.
Ela não sabia o significado de surpresa, só podia ser. Que pessoa compra um presente e fala o que é antes que a aniversariante abra? Mas que droga.
— Di, eu amei! Muito obrigada!! Mal posso esperar pra ler! — vi as duas se abraçarem rapidamente e então dei uma olhada na capa do livro, era o Histórias Extraordinárias, um compilado dos contos mais famosos do autor.
Não nos falamos muito depois desse momento. Diana ficou o tempo todo com suas amigas, como se eu nem existisse, e Lily estava ocupada falando com seus convidados enquanto fiquei conversando com alguns adultos meio chatos que deviam ser da família do Sr.Carter, pois estavam tentando me convencer a virar contador ou dar um jeito de entrar em Wall Street.
Ser um louco de Wall Street era a última coisa que eu queria na minha vida.
Por volta das nove horas vi as meninas reunidas e cochichando algo, perguntei à Diana o que era e ela me contou que estavam planejando ter uma comemoração delas para Lily, na casa de Amber, a líder oficial do grupo. Ela tinha um irmão mais velho que não tinha qualquer senso de responsabilidade e que compraria bebida para elas, que prometeram ser algo pequeno.
Falei com Lily rapidamente e ela disse estar cansada, mas que iria e voltaria logo para casa. Aquilo me cheirava a problema... e claro que eu não perderia. Diana e eu fomos no meu carro e Lily foi depois, de bicicleta, mesmo com todo mundo oferecendo carona à ela. Sair da sua própria festa de aniversário com a família não foi uma tarefa fácil, então ela levou algum tempo até convencer seus pais.
Que, no dia seguinte, nunca mais a deixariam sair.
1h13. A música estava alta demais, nem consegui entender o que Diana me disse antes de sair com um copo vermelho na mão. A comemoração virou uma festa com gente demais. Tanta gente que perdi não apenas Diana de vista, mas Lily também.
Eu estava cansado e, apesar da bebida grátis, não estava no clima de festa. Já conhecia a casa de Brianna e sabia que, no segundo andar, havia um quarto de hóspedes. Se ninguém tivesse chegado lá primeiro, eu passaria um tempo por lá. Nada como um cochilinho pra se recuperar. Subi correndo e abri a porta de fininho, logo descobrindo o quarto vazio, para minha felicidade. Fechei a porta e me joguei na cama perfeitamente arrumada. A família de Brianna não parecia receber muitas visitas, pois a coberta tinha cheiro de velha, mas eu pouco me importava com aquilo. Tirei meus sapatos e me acomodei com os braços atrás da cabeça, pronto para tirar um cochilo.
— Porra, não se pode mais descansar em paz? — levantei gritando quando ouvi a porta abrir com um estrondo.
— O que está fazendo aqui?
Era Lily, rindo da minha cara e com um copo na mão.
— Está bêbada?
— Não, só tive a mesma ideia que você, eu acho. Estou cansada. — ela largou o copo sobre a cômoda na lateral do quarto e se sentou na ponta da cama.
— Mas é seu aniversário.
— Eu sei, mas estou cansada. — ela se jogou para trás e deitou atravessada na cama, com os pés ainda no chão. — Você ficou chateado por ter se atrasado hoje, não foi?
Joguei-me de volta deitado na cama, bufando.
— Você me conhece tão bem assim?
— Acho que sim. — ela riu e foi se arrastando para cima até acomodar os pés na cama. — Senti sua falta na hora do parabéns, mas eu sabia que alguma coisa devia ter acontecido. E minha mãe contou que você planejou tudo e eu estraguei a surpresa ao chegar mais cedo. — ela deu sua gargalhada de criança que a fazia encolher de um jeito engraçado.
— Espere até ver o presente. — foi a minha vez de rir, mas mais controlado. Ela fez cara de curiosa e suspirou, cansada.
Ficamos em silêncio por um tempo que me pareceu ser de minutos, mas ela quebrou o silêncio de repente:
— Obrigada por tudo, Ty. Obrigada por ser meu melhor amigo. — ela virou o rosto, me olhando, e sorriu.
— Conte comigo sempre. Já sabe, né? — estendi a mão apenas com o dedo mindinho para cima, como acontece quando vamos fazer as pazes com alguém.
Mas nós fazíamos diferente, entrelaçar os mindinhos era nossa demonstração de afeto e amizade, não quando fazíamos as pazes. Ela estendeu a mão de volta e nos cumprimentamos.
— Amigos para sempre.
— Para sempre.
Amigos para sempre.
Olha só, que bonitinho. Quem imaginaria, aos dezessete anos, que a vida daria uma mudada tão profunda como a que acontecia agora? Eu, um adulto de quase trinta anos, apaixonado por essa melhor amiga para sempre.
O anúncio de uma tragédia.
Eu já estava há umas duas horas tentando escrever um discurso para o prêmio que, muito provavelmente, não ganharia. Para que um discurso se eu já estava feliz em apenas participar? Aquilo não era necessário. Larguei o bloquinho de papel que a equipe do hotel deixava na gaveta do criado mudo, além de todas as bolinhas de papel que eu já havia amassado e deixado sobre a cama, e resolvi tomar um banho para relaxar um pouco.
O evento era amanhã de manhã e eu queria estar ansioso, mas era outra situação que me deixava mal. Por que ela tinha que ter vindo nessa viagem e me bagunçar tanto assim? Onde estava o noivo dela? Por que ela tinha que ter entrado no meu quarto ontem?
Por que não resisti?
Porra.
Eu gastaria água demais se ficasse no chuveiro simplesmente pensando na questão mais complicada da minha vida, então saí e liguei a tevê, quem sabe notícias pudessem me distrair.
Ledo engano.
Olhei pela janela e o pôr do sol já começava a embelezar o céu de Los Angeles. Pensei em dar uma volta ou inventar qualquer coisa que não fosse ficar ali preso naquele quarto de hotel, e acho que alguém mais teve a mesma ideia, pois meu celular tocou e adivinha só quem era?
É, ela.
Aquele final de semana parecia longe de acabar.
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