Friendzone

20 Pelo resto da vida


Lily

Todos os dias pela manhã eu passava cerca de cinco minutos dentro do banheiro, encarando meu reflexo cansado no espelho antes de passar minha "maquiagem de dia-a-dia" para disfarçar as olheiras e a tristeza. Quase sempre dava certo.

Mas nas últimas semanas eu tentava esconder tudo e não conseguia.

Sempre foi uma tortura ficar brigada com Tyler, desde criança, e agora não era diferente. Na verdade, era muito, muito pior. Crianças brigam por motivos estúpidos e fazem as pazes e raramente se lembram de como a briga começou. Adultos brigam e não se perdoam, e nunca esquecem.

Eu queria poder voltar no tempo e não fechar negócio, mas todas as noites que passei em claro com Henry reclamando para que eu apagasse a luz e parasse de trabalhar não podiam ser em vão. Mas foram. Eu desisti da fusão. O que seria o maior passo da R&C não aconteceu porque Tyler ficou putinho da vida por eu não ter pedido sua permissão. A cena toda dele saindo da sala com cara de poucos amigos não só me enfureceu como me fez sentir humilhada na frente dos ingleses.

Ele nunca se importou com nada disso antes, mas agora havia resolvido trabalhar. Timing perfeito.

Nos dias que saímos juntos e fomos aos restaurantes que considerei para servir o buffet do meu casamento tudo parecia perfeito, éramos Ty e Lil novamente, conversando sobre tudo, brincando, rindo e sendo amigos. Até o momento que ele quase morreu depois de um episódio de alergia. Só de pensar naquela noite eu sentia arrepios da cabeça aos pés.

E então a reunião. Que droga, por que pensei que seria diferente? Por que pensei que ele ia gostar da ideia?

E então Diana, aquela imbecil.

Quando vi o quadro diferente em seu escritório só fiquei intrigada, até chegar perto e ver a assinatura da foto no canto inferior direito: D.Clark.

Claro que só podia ser ela.

Não demorei nem dez minutos para arrancar todas as informações de Lucy e então sabia da história toda. Ela havia visitado Tyler em seu escritório. Eu podia apostar que a mesa dele ainda tinha resquícios de fluidos dos dois.

Que nojo.

No momento que perdi a noção e parti para o seu escritório e briguei com ele por causa dela, eu só conseguia pensar, de verdade, em uma coisa. Só conseguia pensar que eu não podia ter escolhido errado.

Sete anos atrás

O calor de Miami estava absolutamente insuportável, mesmo à noite, e eu só queria ir embora. O bar estava cheio demais e eu já estava cansada de Edward tentando me puxar para dançar. Eu tentava ser o mais otimista possível, mas ele dançava muito mal. E ficava ainda pior quando passava de quatro cervejas.

— Por que não dança comigo, amor? — disse me beijando o pescoço e logo ficando à minha frente.

— Não estou muito afim hoje, desculpe.

Fiquei olhando para ele por alguns instantes, a pele bronzeada, os olhos redondos e amendoados, os cabelos escuros e lisos, com alguns fios grudados na testa suada. A camisa florida que eu havia lhe dado no Natal passado especialmente para nossa viagem de verão estava aberta até a metade. Não era exatamente sexy como ele pensava, mas eu gostava.

Edward era um nerd convicto, extremamente inteligente, estudava economia e tinha um futuro brilhante pela frente, eu sabia disso. Nós gostávamos de muitas coisas diferentes, mas também tínhamos muito em comum. Nos conhecemos na terceira semana de aula, seis meses depois ele me escreveu um poema que terminava dizendo que ele era péssimo naquilo e só queria dizer que estava apaixonado por mim e que, se eu sentisse algo parecido, ele adoraria saber como era ter alguém ao seu lado.

Passamos por momentos incríveis juntos e nosso namoro nunca teve brigas excessivamente exageradas e dramáticas, como o de Tyler e Diana, por exemplo. Sempre que saíamos os dois casais juntos eles acabavam brigando. No começo, Eddie até achava graça, assim como eu. Porém, com o tempo, aquilo foi ficando chato e constrangedor. Prometemos um ao outro que jamais seríamos aquele tipo de casal.

Mas foi exatamente o que aconteceu.

Nos últimos meses Edward tinha frequentes ataques de ciúmes, me fazia um milhão de perguntas sempre que eu me atrasava ou demorava a atender suas ligações e, ultimamente, o que mais me irritava era quando perguntava se eu estava com Tyler.

Meu melhor amigo foi chutado pela namorada, e então algumas semanas depois descobriu que o pai sofria de câncer e, mesmo depois de todo o tratamento agressivo, ele não sobreviveu. Era mais do que óbvio que Tyler precisava de mim, principalmente agora que ele havia aceitado a realidade de que tinha um problema e que precisava se ajudar.

Eddie não entendia dessa maneira, e isso começou a nos afastar cada vez mais rápido. E então colocou um muro entre nós quando ele fez a pergunta que um dia temi:

— Lily, eu preciso saber. Não posso continuar assim, ou você é minha namorada ou do Tyler.

— O que quer dizer com isso?

Estávamos do lado de fora, um pouco distantes do bar. Ele estava alterado depois das cervejas, mas agora falava tão sério que nem parecia ter bebido. Ficou bravo por eu não ter aceitado dançar com ele e então começou a dizer que "se fosse com o Tyler você dançaria a noite inteira" e eu perdi a paciência e saí do bar.

— Ou ele ou eu. — Edward parou à minha frente, o vento quente batendo em seu rosto e tirando os fios que grudavam em sua testa.

Meus olhos encheram de lágrimas no mesmo instante. Aquela escolha era injusta, mas eu já havia pensado naquilo. E mesmo que doesse bem no fundo do meu coração, a resposta era óbvia.

Eddie ficou me olhando por um longo tempo. Só havia o barulho do vento forte e da música distante do bar. Vi uma lágrima escorrer por seu rosto e ele secar muito rapidamente. Eu sentia que ele gostava mesmo de mim e abrir mão daquilo foi a coisa mais difícil que tive de fazer. Mas eu não podia ficar ao lado de alguém que me fazia escolher. Muito menos escolher entre o meu melhor amigo, meu irmão, com quem convivi desde o nascimento, com quem dividi a vida inteira. Ele não podia fazer aquilo.

— Espero que seja feliz com ele.

Eu jamais esqueceria do tom que Edward usou para dizer aquelas últimas palavras antes de me deixar sozinha. E então, pensando sozinha em meu escritório, minha raiva começou a crescer cada vez mais rápido ao lembrar disso. Tyler nunca soube do verdadeiro motivo do meu término com Edward, e não seria agora que eu contaria. Mas pensar que eu havia deixado alguém como Eddie sair da minha vida por ele, para então, agora, vê-lo cair no mesmo buraco de anos atrás, era a receita perfeita para me fazer surtar.

Lembro da sensação de não conseguir respirar direito e de tentar contar os passos até seu escritório, mas perdi a conta no três. Abri a porta com tudo e a bati ao fechar, mas ele sequer me olhou. Aproximei-me e sentei à sua frente, ele finalmente me olhou, mas por alguns segundos apenas.

Completamente indiferente.

Era estranho estar ali em sua presença de novo depois de tanto tempo. Eu morria de saudades. Sentia falta do meu abraço preferido. Mas minha raiva era muito mais forte que minha saudade.

E o orgulho também.

— Faz tempo que percebi algo diferente em você. No começo eu não quis acreditar, mas era verdade. Bem, é. — eu estava concentrada em respirar tranquila, então mal prestei atenção no que falei.

Era como estar fora do meu corpo.

— Por que não vai direto ao ponto?

Ele sequer se deu ao trabalho de tirar o olho daquele computador idiota.

Segurei a vontade de xingá-lo e só respondi:

— Diana.

E então ele me olhou. Claro que olhou. Idiota. Babaca. Imbecil!

— O que tem a Diana?

— Olha só, agora você fala o nome dela tranquilamente. Há alguns meses eu não podia sequer mencionar o nome da imbecil, e agora tudo bem. Vocês já são um casal de novo? Também vão anunciar a volta numa festa, como na época do colégio?

Meu controle de respiração foi pelos ares. E toda a grana que investi nas aulas de Yoga também. Como dizia minha mãe, dinheiro jogado fora.

— Do que está falando?

Tentei, mais uma vez, respirar fundo e me acalmar. Parecia que uma avalanche estava prestes a começar. Eu já conseguia vê-la.

Olhei para aquele maldito quadro e então voltei para ele. Seu rosto parecia cansado, mas era um cansaço de trabalho.

Ele estava tão bonito.

— Lucy me contou que ela veio aqui algumas vezes. Você se cansou de transar com as assistentes na sua mesa de trabalho? Agora só aceita ex-namoradas?

— Mas que droga de conversa é essa? Fica um mês sem falar comigo depois da maior besteira que você fez e quando vem conversar é nesse tom e sobre isso?

Meu sangue ferveu e meu coração foi até a garganta. Que ódio!

— Você ficou mais de um mês trancado em casa, à beira de entrar em depressão ou algo do tipo quando ela terminou com você e seu pai faleceu, e eu fiquei do seu lado o tempo todo. O tempo todo! E agora você volta com ela? É sério, Tyler? Que porra de comportamento auto-destrutivo é esse?

Ele ficou lá me olhando com aquela cara blasé idiota que ele bem sabia fazer.

— Você está passando dos limites. — disse.

Senti uma dor de cabeça começando e aquilo só fazia sentir mais raiva de tudo e dele. E quando senti as lágrimas encherem meus olhos senti mais raiva ainda.

Eu simplesmente odiava chorar de raiva. Era ridículo e só me fazia sentir patética.

— Limites?! — eu precisava fazer qualquer coisa que não fosse olhar para a cara dele, ou algo sairia de controle. Fiquei de pé e tentei voltar a controlar a respiração enquanto caminhava de um lado para o outro na sala. Mas era impossível me acalmar na presença dele. E o que eu comecei a temer se tornou realidade em poucos segundos, meu choro de raiva estava prestes a virar choro de desespero e tristeza. — Tyler, eu... Eu não consigo acreditar que você voltou com ela depois de tudo. Você chegou muito perto de se destruir e agora quer voltar a isso?

Tyler era muito importante para mim, eu não conseguia aceitar que veria tudo aquilo de novo, toda aquela novela de brigas que terminava com ele no fundo do poço. Porém quem parecia estar no fundo do poço agora era eu.

— Por está falando como se fosse dona da minha vida?

Eu odiava que aquela fosse sua interpretação.

— Porque me importo com você.

Respirei fundo e sequei meu rosto. Senti-me patética, mas eu não tinha tempo para aquilo. Fiquei ali olhando para ele, tentando me concentrar no que dizer para que as palavras fizessem sentido quando eu falasse. Prossegui:

— Porque eu te amo. — engoli seco. Aquilo era verdade, sempre foi e sempre seria. Eu amava Tyler. Mas não podia dizer que o amava de todas as formas. Eu nem sabia direito o que sentia. Meu medo de vê-lo voltar ao estado de quando Diana o deixou na primeira vez era muito grande, aquilo estava mexendo muito comigo. — Porque te amo desde um tempo que nem sei qual é. Porque você é parte da minha vida, Tyler, e porque eu não quero te ver afundar de novo como da primeira vez. Mas acho que isso já não faz diferença pra você e eu só posso lamentar.

Ouvi sua voz sumir ao dizer meu nome enquanto eu só conseguia pensar em duas palavras:

— Sinto muito.

Era medonho estar diante do meu futuro enquanto olhava nos olhos dele. Tyler representava minha vida, estávamos juntos desde sempre, e agora eu estava prestes a me casar e ter um futuro que eu já não tinha certeza se queria.

Mas era aquilo que eu merecia. E era o que deveria ser feito.

Foi pensando nisso e sentindo uma tristeza assombrosa que fazia uma escuridão crescer em meu peito que corri até ele e o abracei com toda a força que pude. Eu queria guardar seu perfume comigo pra sempre.

— Sinto muito. Por tudo.

— Por tudo o quê?

Eu sentia por amá-lo demais de um jeito que eu já não entendia mais. E sentia por saber que ele havia voltado ao ciclo de autodestruição que Diana era capaz de ativar nele.

Daí não aguentei mais e soltei o choro. Só tentava repetir o pensamento de que tudo ficaria bem.

— Lily? Por que está chorando? O que houve?

Eu gostava tanto de sentir seu coração batendo perto do meu daquele jeito. Só queria poder guardar aquilo comigo.

— Eu não estou com raiva de você porque fez a fusão sem meu consentimento, se é por isso que está chorando. Não consigo ficar com raiva de você assim, te amo demais pra isso. Lily?

Eu só queria poder chorar em paz, mas é claro que ele faria perguntas. Respirei fundo apenas para conseguir dizer:

— Shh, não é por isso. Eu só sinto muito, Ty. Sinto muito.

Aquilo tinha que parar, mas não antes de eu senti-lo ainda mais perto de mim. Fiquei na ponta dos pés e o abracei mais forte e o agradeci por fazer o mesmo. Meu abraço favorito era o dele exatamente por isso. A intensidade.

Quando me afastei e fiquei observando os traços de seu rosto adulto e cansado, precisei me segurar para não começar a chorar de novo. Eu amava aquele homem e aquilo era assustador.

As lágrimas estavam voltando então me limitei a me aproximar e dar-lhe um beijo na testa. Mentalmente, falei que o amava depois de beijá-lo.

Apenas mentalmente.

Sabe quando sua vida toma um rumo que nem você imaginava? E que, mesmo vivendo cada dia de uma vez, não sabe como chegou ali?

É, eu sabia.

A fusão não aconteceu, concordamos em pagar um milhão de dólares pela quebra de contrato, e até que saiu barato. Eu tinha plena noção de que já fazia algumas semanas desde que isso tudo tinha acontecido. E que eu havia decidido por adiar o casamento.

Aquela parecia ser a melhor decisão, mas não era. Henry aceitou bem, melhor do que imaginei. Se eu estivesse em seu lugar aproveitaria para terminar tudo logo de uma vez. Parte de mim queria que ele visse que havia algo de muito errado comigo e não me deixasse seguir com isso. Porém a outra parte gritava sobre o quanto eu era egoísta e não contava para ele a verdade toda.

Verdade essa que nem eu mesma entendia.

E então comecei a perceber um padrão de dias entediantes que me tiravam a vontade de trabalhar em meu escritório e adotei o home office por um longo tempo. Henry estava um pouco distante, mas quem não estaria? E enquanto ele achava que eu estava planejando o casamento, eu só trabalhava.

Até que minha mãe veio ao meu apartamento me visitar e chorei em seus braços.

— O que está acontecendo, meu amor? É a ansiedade pré-casamento? — havia uma doçura em sua voz que ninguém mais era capaz de ter.

— Quem dera.

Ela tentou me questionar mais vezes, mas eu só queria ficar em silêncio. Duas semanas depois eu também queria ficar em silêncio, mas na rua. Desisti de trabalhar e saí para uma caminhada, mas acabei andando por umas duas horas e parei num café na Quinta Avenida. Pela primeira vez gastei sem perceber quanto havia gastado. Eu queria ter Tyler perto de mim para rir e dizer que aquilo era mais raro que um cometa. Eu sempre contava meu dinheiro e nunca gastava à toa. Para que pagar quinze dólares num croissant num café na Quinta Avenida quando eu podia gastar menos de dez dólares em tacos na esquina?

Eu queria Tyler perto de mim e isso doía, porque eu sabia que não o teria.

Não do jeito que queria.

Meu celular estava com a bateria no final e antes que o sol fosse embora de vez, ele morreu. Fiquei incomunicável pela primeira vez em oito anos. Eu jamais deixava meu celular morrer assim.

Mas que bom que isso aconteceu.

Passei mais tempo caminhando pela cidade e fui até o Brooklyn. Passei em frente ao Westlight, o restaurante preferido de Tyler. Eu ainda devia um jantar para ele, mas jamais seria capaz de pagar essa dívida.

Quando a hora do rush passou e as ruas ficaram um pouco mais vazias, comecei a pensar se alguém estaria preocupado comigo, então comecei a me sentir culpada. Era hora de voltar. Peguei um táxi dessa vez, minhas pernas estavam fracas e eu me sentia exausta. Cheguei em casa pouco depois das nove da noite e logo fui recepcionada pela minha mãe quase em prantos.

Eu queria me bater por fazer aquilo com ela. Que estupidez.

— Meu amor! Ainda bem que chegou, eu estava tão preocupada. Onde estava? — ela segurou meu rosto e me beijou a testa.

— Está tudo bem, mãe. A bateria do meu celular acabou, eu só saí para caminhar um pouco.

E então Henry. Ele havia terminado uma ligação e veio em minha direção, me deu um abraço apertado e um olhar pesado e triste. Ou decepcionado?

Mas que droga, o que eu estava fazendo? Todos ao meu redor desesperados de preocupação por minha causa enquanto eu estava por aí na cidade andando sem rumo? Aquilo ia além do ridículo. Eu não podia ser essa mulher que não tinha controle sobre sua própria vida.

Respirei fundo e engoli seco.

— Isso não vai mais acontecer, eu prometo. Sinto muito pela preocupação.

Minha mãe me abraçou e nada disse. Henry se sentou no sofá e encarou a tela da tevê, parecendo mais cansado que eu. Aquele era o meu noivo, o homem que havia me pedido em casamento porque acreditava que eu seria sua melhor companhia pelo resto de sua vida.

Pelo resto de sua vida.

Droga.