Friendzone
21 O Outro
Meu corpo estava simplesmente entorpecido. Minha mente parecia parar de funcionar aos poucos e a voz de minha mãe começava a sumir aos poucos, cada vez mais fraca.
— Parece que ela vai se mudar para Londres.
— Mas que porra é essa?
— Garoto!
— Desculpe, mãe.
Aquela foi a segunda vez que falei palavrão enquanto conversava diretamente com a minha mãe. Na primeira vez eu tinha dez anos e levei um tapa na boca. Inesquecível.
— Isso tudo está muito estranho, acabei até discutindo com a minha melhor amiga porque a filha dela está agindo de forma muito estranha e ela não vê isso. Lily não era assim, tem algo acontecendo com essa menina e ela não está contando.
Minha mãe falava praticamente sozinha, pois eu nem condições de entender o que dizia tinha. Mas suas palavras fizeram total sentido depois de alguns segundos. Elas ainda reverberavam em minha cabeça. Mas Lily em Londres?
Que merda?
— Quando soube disso, mãe?
— Hoje de manhã, mas trabalhei demais e nem tive tempo de te ligar antes. Eu não sei o que está acontecendo com essa menina, e acho que nem a mãe dela sabe. Coitada da minha amiga.
— Sabe quando ela vai?
Meu coração não estava acelerado e eu não estava nervoso. E só de me dar conta disso eu queria ficar nervoso.
— Não sei, filho. Só sei que tudo parece decidido às pressas. O casamento foi adiado, e agora essa história de se mudar para Londres? Nem sei se vai ter casamento mais, que loucura. Tinha até pensado em comprar um vestido novo...
Minha mãe estava na outra ponta do sofá, na pequena sala de estar que foi minha por anos. Eu sentia falta de morar com ela, aquela casa era muito especial para mim. Quantas noites não passei em claro, assistindo maratonas de filmes de terror na noite de Halloween junto de Lily e um pote de sorvete de baunilha? Eu nem conseguia contar.
Que saudades eu tinha daquilo. Que saudades eu tinha dela, da minha melhor amiga.
Não falei nada, só cacei meu celular perdido no bolso fundo da minha calça e logo busquei pelo nome dela na agenda. Tocou umas oito vezes e deu caixa postal. Liguei de novo até que atendesse.
Foi um total de oito ligações.
— Alô?
Claro que não foi ela quem atendeu, ela nunca me atendia com um alô estúpido. Não se atende melhores amigos com um alô.
— Henry? Aqui é o Tyler, passe para Lily, por favor.
— Olá Tyler, ela está ocupada agora.
— Então fale para ela se desocupar e pegar o celular e falar comigo. Por favor.
Minha mãe arregalou os olhos e sussurrou algo que eu não entendi por razões óbvias, afinal, nem conseguia pensar direito. Eu só queria entender por que, mais uma vez, estava sendo o último a saber das coisas.
— Tyler, desculpe, ela não pode falar agora.
— Ótimo.
Desliguei o celular.
— Filho? O que foi isso?
— Ela não quer me atender, mas eu cansei disso, mãe. Ela está agindo de forma estranha há muito tempo e eu simplesmente me cansei disso.
Levantei colocando o celular no bolso e logo pegando meu casaco que estava pendurado no cabideiro e voltei para dar um beijo em minha mãe.
— Ela não vai me ignorar assim.
— O que vai fazer, filho?
— Ela não quer me atender, então vou até sua casa. Ela não pode me ignorar assim. Não dessa vez.
Depois de um beijo na testa e um abraço rápido, minha mãe me deixou ir embora. Ela parecia preocupada, mas eu não tinha tempo para isso, e nem precisava, não planejava fazer nada maluco. Eu só queria falar com Lily pessoalmente, já que ela insistia em me ignorar.
Peguei um táxi e mesmo depois de pouco mais de trinta minutos preso num carro, eu ainda estava irritado e instigado a saber o motivo dessa mudança toda. Mudar-se para Londres? Mas que porra era aquela? E quem eu havia me tornado em sua vida para ser o último a saber disso?
Desci em frente ao seu prédio e minhas pernas fraquejaram, porém segui em frente mesmo assim. Passei pela portaria e havia pessoas diferentes trabalhando lá, então precisei me apresentar e logo a recepcionista pegou o interfone, mas felizmente um funcionário das antigas me viu e disse que não precisava. Eu era a única pessoa além da mãe de Lily que podia subir sem aviso. Logo segui para o elevador e lá se foram mais uns cinco minutos. Entrei na grande caixa metálica e digitei o botão de número dez. Meu coração estava acelerado, mas diferente daquele dia que corri até o aeroporto para impedi-la de viajar, agora eu estava bravo. Lily havia me rebaixado a um qualquer em sua vida.
Saí do elevador e de repente me vi encarando a porta de seu apartamento. Toquei a campainha sem pressa, pois talvez ela suspeitasse que fosse eu, e então a porta finalmente se abriu.
— Vai chamar o Henry pra se livrar de mim de novo?
Ela estava com olheiras e sem maquiagem alguma, eu podia notar. Vestia uma calça jeans azul e uma regata branca, básica como sempre. O cabelo estava preso num nó estranho que também era a cara dela.
— Não preciso dele pra isso, consigo me livrar de você sozinha.
Passei por ela sem que me convidasse para entrar. E quando me lembrei disso, não evitei jogar em sua cara.
— Desculpe, eu tinha que esperar você me convidar para entrar não é? Agora que me tornei um estranho em sua vida, não sei mais como agir.
— Do que está falando?
— Do que estou falando? Você ainda tem coragem de me perguntar Lily?
Droga, eu já nem conseguia mais disfarçar minha raiva.
— Coragem? Eu não sei do que está falando, só sei que está agindo como um babaca. O que não é novidade alguma. — ela foi para a sala e se jogou no sofá como quem não quer nada.
Fui atrás dela, completamente indignado, e continuei:
— O que eu me tornei pra você, Lily?
Ela me olhou de um jeito assustado, parecia não esperar aquela pergunta, mas nem dei tempo para que respondesse.
— Você vai se mudar do país e eu sou o último a saber? Se mudar não, fugir. Está fugindo de novo. Isso é ridículo, você é uma hipócrita, sabia? Vive falando que sou um irresponsável que não assume o que faz e olha só o que você está fazendo! Não tem nem coragem de dizer na minha cara que está fugindo daqui.
— Mas de que merda você está falando? Ninguém está fugindo do país! — ela ficou de pé. Estava brava.
Muito bom.
— Você. Acabei de saber que vai se mudar em definitivo para Londres e sequer teve a decência de me contar. E eu que ainda achava que era seu melhor amigo, que era, no mínimo, alguém importante na sua vida. Muito obrigado pela consideração.
Meu peito subia e descia rápido com a respiração. Eu sentia como se estivesse numa maratona de 10k, era tão estúpido. E quanto mais forte meu coração batia, mais ridícula toda a situação parecia. E ficou pior quando ela se aproximou falando em voz alta:
— Por que está dizendo essas coisas? Sabe muito bem que nada disso é verdade, você é importante sim!
— Sou mesmo? Tem certeza? Por que sou o último a saber de tudo agora? Não me contou nada sobre a fusão, não me contou sobre a sua primeira viagem à Londres, e agora que vai se mudar de verdade também não me disse nada. Eu soube pela minha mãe! — parei uns segundos para respirar e andei alguns passos para trás, me afastando dela e me apoiando no armário de casacos que ficava logo depois da porta de entrada. — Eu sei que as pessoas mudam com o tempo Lily, nós mudamos e tudo bem. Mas você está diferente de um jeito que sinto que não te conheço mais. Isso é horrível. Eu não sei mais quem é você, que droga.
Ela ficou parada me olhando, e então seus olhos brilharam ao se encher de lágrimas e ela soltou o choro ao mesmo tempo que se jogou no sofá de novo.
— Eu não vou me mudar de vez para Londres, Henry me fez a proposta mas ainda não respondi. Minha mãe deve ter entendido tudo errado, mas não vou me mudar.
— Ou ela entendeu tudo certo e sabe que você vai responder que sim, vai se mudar. Para de tentar me enganar Lily, não faz mais sentido.
— Claro que não.
— Lily, o que houve contigo?
— Eu não sei direito. É tão estranho, parece...
Ela ficou por alguns segundos recuperando o fôlego e eu recuperei minha habilidade em ser trouxa em tempo integral e me sentei ao seu lado. Senti que Lily estava passando por algo e, de alguma forma que já havia acontecido antes, ela não queria me incomodar contando. Mesmo depois de mais de vinte anos, ela ainda achava que poderia me incomodar com seus problemas. O que me incomodava era que estivesse passando por algo e que eu não podia ajudá-la.
— Acho que me apaixonei por outro. É isso. — suas lágrimas de repente não brilhavam mais em suas bochechas e sua voz estava estranha, distante, dura.
MAS QUE DROGA?
— Como as...
— Eu não amo o Henry. Aceitei me casar com um homem que não amo. — ela me olhou então e parecia ver através de mim e eu dela. Eu não podia acreditar naquelas palavras. — É a minha cara, não acha? Como você disse uma vez...? Frígida. — ela deu uma risada amarga que me arrepiou os pelos da nuca. Foi horrível e doloroso. — Acho que ganhei de você, Tyler.
Meu coração parou enquanto senti uma vontade absurda de vomitar e sair correndo ao mesmo tempo. Entretanto, eu ainda estava ali, sentado ao seu lado no sofá que eu a ajudei a comprar no Ikea há uns quatro anos.
Lily não amava Henry, mas outro homem. E esse outro homem não era eu. Mas quem era o filho da mãe?
— Quem é?
Eu estava num misto nojento de querer saber e não querer. Se eu soubesse quem era, ia sair daquele apartamento direto para o dele e socar sua cara, mesmo sabendo que não tinha direito algum de me envolver naquilo. Estar apaixonado te fazia se sentir no direito de ser abusado em alguns momentos, é ridículo. Péssimo.
E, ao mesmo tempo, queria poder ver o filho da mãe só para poder entender o que ele tinha de especial que fez Lily passar por toda essa merda. E por que não eu?
Por que não eu?
— Que diferença faz?
Ela encarava o chão e eu já não sabia mais o que fazer. Queria levantar, mas eu ainda estava em choque e minhas pernas fracas.
Eu me sentia totalmente fraco.
Quando Diana me deixou eu fiquei mal por meses, e além de tudo, meu pai faleceu logo na sequência. Mergulhei num poço sem fundo e Lily foi uma das pessoas que me estendeu a mão. Mas nem nessa época senti essa fraqueza que sentia ao estar sentado ao lado dela sem saber o que fazer não só para ajudá-la, mas para me ajudar.
Era como se meu peito estivesse sendo lentamente cortado com uma lâmina quente. Não havia nada além de dor.
Respirei fundo e olhei para ela, que fechou os olhos e jogou a cabeça para trás até deitar no encosto do sofá. Minha mão foi automaticamente até seu rosto, pronta para tocar sua pele e, logo, sua boca. Mas desisti no meio do caminho quando ela abriu os olhos e me olhou.
Aquilo foi bem esquisito.
E antes que eu pudesse dar vida ao meu medo, me levantei e fui em direção a porta, pronto para ir embora.
— O que aconteceu com a gente?
Parei com a mão na maçaneta. Virei-me e não pensei quando respondi:
— Você sabe bem o que aconteceu.
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