Califórnia, domingo, 02h55

Suas pernas estavam entrelaçadas nas minhas enquanto seus dedos desenhavam círculos em minhas costas. Estávamos abraçados já fazia algum tempo e eu jamais me importaria em contar. Eu podia sentir seu coração bater no mesmo ritmo que o meu e só aquilo podia ser descrito como o mais puro estado de paz de espírito.

Se existia outro tipo de paz eu não queria saber.

O quarto estava fresco e só agora nossa temperatura começava a se estabilizar. Eu podia até sentir seu corpo se arrepiar diante do meu toque. Ouvi seu risinho abafado em meu ombro quando passei a mão na curva de sua cintura, ela sentia cócegas ali. Poder conhecê-la dessa forma era emocionante.

E pensar que um dia achei que havia perdido a capacidade de me emocionar.

Ela disse algo que não consegui compreender e pedi para que repetisse. Ela então levantou a cabeça e, me olhando com aqueles olhos azuis enormes e divertidos, falou:

— Nós devíamos mesmo pensar no seu discurso.

— É verdade, o discurso. — dei risada ao lembrar como tudo começou. — Tenho muita gente a agradecer, mas se pudesse resumir, falaria só de você. Afinal, o perfume tem o seu nome.

Nova York, sexta-feira, 18h27

Eu já havia quebrado a cabeça por quase duas horas seguidas tentando escrever um discurso, mas tudo parecia ridículo. Se eu pudesse abrir minha mente e cavar até o núcleo do nada que devia ter lá dentro, as palavras que formariam meu discurso seriam, muito provavelmente: "Agradeço toda a minha equipe da R&C, mas, sobretudo, agradeço à Lilian Carter, minha melhor amiga de infância, sócia e amor da minha vida".

Contudo, era mais do que óbvio que eu jamais poderia falar isso caso tivesse que discursar no palco depois de ganhar o prêmio. Era maluquice demais.

Sincero? Com certeza.

Absurdo? Mais ainda.

Porra.

Parte de mim não queria ganhar o prêmio só para não ter que passar por isso. A outra parte queria ganhar e poder aproveitar a oportunidade de falar para o máximo de pessoas possível que estava apaixonado pela minha musa inspiradora.

No final, tomei a decisão mais sensata e fui me distrair com uma série de animação na Netflix. E até que funcionou, até eu me lembrar que meu voo para Califórnia estava marcado para às 22h. E quando notei isso, o relógio já marcava 20h30.

Muito legal.

Corri até meu quarto e peguei minha bolsa esporte, que eu geralmente levava para os meus treinos de tênis. Isso quando praticava há uns cinco anos. Tentei pegar peças básicas o suficiente para o fim de semana e embolei tudo tentando fazer caber na bolsa. Felizmente deu certo. Na sequência, voltei à sala tentando me lembrar onde estariam meus documentos, e então me senti absolutamente inútil quando vi tudo devidamente separado sobre a mesa de centro. Fiquei ali assistindo tevê um tempão e não notei isso. Que idiota. Lucy era simplesmente perfeita, ela sempre organizava minhas viagens.

Era interessante pensar que ela tinha acesso total à quase tudo na minha vida. Nem mesmo minha mãe tinha acesso aos meus documentos como ela, por exemplo.

E já que o táxi numa sexta à noite em Nova York não seria uma tarefa fácil, saí chamando um Uber e desci com a bolsa numa mão e o celular na outra. O elevador demorou mais que o normal e comecei a achar que era a tal da Lei de Murphy me fazendo atrasar ainda mais, porém deu tudo certo. Consegui descer e meu Uber já estava em frente o prédio. Fiquei torcendo para não ter problemas com meu voo durante todo o trajeto enquanto fazia uma lista mental das coisas que eu precisava e que já estavam completas.

Documentos? Ok.

Bagagem? Hum... Ok.

Celular? Ok.

Chaves? Ok.

Cachorro? Puta merda.

Como pude sair de casa sem me despedir do meu cachorro? Ah, droga, que espécie de dono era eu?

Espera, ele não estava em casa hoje, estava na creche. Não sei onde estava com a cabeça quando resolvi atender o pedido da minha mãe e colocar Slash numa creche de cachorros, onde, ao que diziam os donos milionários que ganhavam rios de dinheiro nas costas de novaiorquinos idiotas como eu, ele aprenderia bons costumes e se tornaria um cãozinho bem comportado.

O famoso bom garoto.

Ele ia à creche às quartas e sextas e ficava a tarde toda. Devia estar chegando em breve. Merda.

Logo peguei o celular e liguei para minha mãe.

— Droga, mãe! Por que não atendeu isso? Onde está? Estou a caminho do aeroporto e o Slash vai chegar em breve e ninguém estará lá para recebê-lo. Preciso que faça isso por mim, por favor. — tentei não soar nervoso na mensagem de voz, mas minha mãe perceberia, com certeza.

Ela era capaz de perceber em mim coisas que nem eu mesmo notava que fazia ou sentia. Era absurdo.

— Enfim, não conversamos faz alguns dias, mas estou indo até a Califórnia. Fui indicado ao Fragrance Foundation Awards pela primeira vez. — relaxei os ombros e sorri sozinho ao dizer isso em voz alta. Como fui capaz de não contar isso à minha mãe? Além de um péssimo dono de cachorro eu era um filho terrível.

Eu realmente havia perdido o controle da minha vida. Minha nossa.

— Não acho que vou ganhar de grifes como Gucci e Armani, que você inclusive gosta mais do que os meus perfumes. — dei risada e, pelo retrovisor, notei o motorista do Uber rir de leve também. — Mas a indicação já me fez sentir especial. Lily foi o perfume indicado. Engraçado né? Logo agora que estamos tão distantes um do outro...

Meu coração bateu esquisito quando pensei nela e em sua recusa em ir comigo à Califórnia. Respirei fundo e finalizei a mensagem de voz, ou então, quando me ligasse de volta, minha mãe me xingaria de dezessete nomes diferentes.

— Por enquanto é isso, mãe. Te dou mais informações depois. Eu te amo.

Relaxei os ombros e minha energia pareceu relaxar também. Olhei meu celular de novo e tinha treze por cento de bateria, o que significava que eu teria que me virar para me distrair durante o voo. E eu odiava viajar de avião, sempre ficava tenso e precisava evitar comer por, pelo menos, duas horas antes, senão vomitaria tudo.

Era ridículo.

Na minha primeira viagem de avião fui até Cancún, numa viagem com Diana. Eu estava eufórico, maluco para chegar naquelas praias que a gente só via por fotos e pela tevê, animadíssimo para curtir aquele lugar paradisíaco ao lado da pessoa que eu achava ser a mulher da minha vida. Porém logo no avião passei mal durante quase todo o voo.

Por sorte conseguimos aproveitar a viagem, mas a volta também foi outro filme de terror.

Dessa vez eu torcia para ser diferente.

Cheguei ao aeroporto e corri para fazer o check-in, eu ainda tinha alguns minutos para respirar pelo menos, mas havia me certificado de confirmar o voo. Passei na cafeteria e me servi de um café preto, o mais forte possível, sem açúcar. E logo me arrependi, já que a última coisa que eu queria era ficar acordado e alerta durante todo o voo, mas era tarde demais. Fiquei sentado na ala de espera enquanto terminava meu café e tentava me acalmar antes de entrar no avião. Peguei meu celular para checar se minha mãe havia escutado minha mensagem, mas me lembrei que minha bateria estava no finalzinho então desisti.

Ouvi a chamada para o voo da Califórnia e peguei minha bolsa para continuar meu caminho, e então comecei a respirar o mais calmo possível. Eu queria vomitar o café que tinha tomado e então tomar um sonífero ou qualquer coisa forte o suficiente pra me fazer dormir.

No final fiz pior.

Enchi a cara e gastei mais de duzentos dólares em bebidas. Porém dormi como uma pedra e acordei bêbado na Califórnia.

Los Angeles nunca me pareceu tão bonita, mesmo à noite.

A comissária me ofereceu ajuda ao sair do avião, mas recusei e me arrependi menos de um minuto depois, quando tropecei no último degrau e quase caí. As coisas estavam rodando demais e então alguém me ofereceu uma garrafa de água, que aceitei sem hesitar. A viagem passou rápido e não passei mal nem fiquei nervoso então a bebedeira já podia começar a passar.

— Sr. Reed, seu táxi o espera logo ali. Pode me acompanhar, por favor.

Pisquei os olhos com força e consegui ver o funcionário que falava comigo. Ele não estava de uniforme nem nada, mas não consegui distinguir o que vestia. De qualquer forma, me parecia seguro acompanhá-lo, então fui.

— Porra, minha mala. Droga, esqueci minha mala! — fiz menção de voltar e o cara que eu estava acompanhando parou e, com toda a calma do mundo, falou:

— Seus pertences já estão no carro, Sr.Reed. Pode ficar tranquilo.

— Minha nossa, quem é você?

Ouvi sua risadinha abafada.

— Meu nome é Martin, vou te acompanhar até seu táxi apenas.

Eu estava impressionado com o quanto ele parecia ter tudo sob controle. mas fiquei quieto. Chegamos ao táxi e eu consegui resistir a deitar no banco de trás. Felizmente o motorista não ficou puxando papo então fomos em silêncio até o hotel. No caminho peguei no sono algumas vezes e não consegui ver muito da cidade pela janelinha do carro.

— Senhor?

— Eu?

Por que me chamavam de senhor? Eu estava perto dos trinta, mas era só. Que merda.

— Já chegamos ao hotel.

— Ah, entendi. Certo. — respirei fundo e a tontura estava um pouco mais leve, felizmente. — Muito obrigado.

Abri a porta do carro e coloquei um pé para fora, mas então me lembrei de uma coisa:

— Devo te dar gorjeta? Não sei como funciona isso em LA.

Vi então que o motorista era um senhor grisalho com um bigode enorme que ainda não havia ficado da mesma cor dos cabelos. Era engraçado.

Ele sorriu e disse que não precisava. O serviço já estava todo pago. Saí do carro e então um funcionário do hotel estava à minha espera, com minha bolsa nas mãos. Ah, minha querida bolsa.

— Seja bem-vindo, Sr. Reed. Estávamos à sua espera.

— Nossa, todo mundo é legal assim em Los Angeles?

Esse funcionário era mais sério que o cara do aeroporto e sequer sorriu quando falei. Ele me mostrou o caminho até meu quarto e tudo passou rápido demais. Chegamos até minha porta e ele não a abriu com o cartão que deveria ter em mãos. Comecei a olhar ao nosso redor e o corredor todo era bem chique, coisa cara. Eu nem sabia o quanto custava aquele quarto.

Lucy e eu teríamos uma conversinha sobre isso.

Quando pensei em perguntar se ele não abriria a porta para mim, vi o bater e esperar. Olhei para ele e me senti cansado, queria poder deitar logo. Mas então a porta se abriu e, mais uma vez, fui surpreendido.

— Srta. Carter, como me pediu.

— Muito obrigada, David. Pode deixar que assumo daqui.

Puta que pariu, o que ela estava fazendo ali?

David?

O que era aquilo?

— Posso ajudá-la em algo mais? — o mordominho perguntou.

Eu só estava perplexo com aquilo. Ela veio afinal.

Ela estava bem ali à minha frente.

Não podia ser verdade.

Caralho, era sim.

Era sim.

— Não, David. Muito obrigada, amanhã provavelmente nos falamos de novo. — ela deu aquele sorriso brilhante e encantador que lançava às pessoas quando queria se livrar delas, mas que nunca funcionava porque, geralmente, elas só queriam ficar mais tempo em sua presença.

— O que está fazendo aqui? — finalmente consegui dizer.

Ela me encarou e me deu espaço para entrar. De repente o álcool pareceu evaporar rapidamente do meu corpo. Pelo menos metade dele.

— Achei que me quisesse aqui.

Arregalei os olhos e então me sentei na beirada da cama, tentando não me jogar de uma vez.

— Você não me avisou.

— Quis fazer surpresa.

— Podia ter vindo comigo. Sabe como fico quando viajo de avião. — fiz cara de triste e ela riu.

— Minha agenda não permitiu. Mas fiz questão de ter pessoas pra te guiarem até o hotel. Eu sabia que você apelaria para o álcool.

Perdi a fala.

— O que foi? Por que está com essa cara? — ela estava rindo de novo e, de repente, eu também estava.

— Tinha esquecido como você é cuidadosa. Obrigado.

Lily ficou ali, de pé perto da porta, respirando calmamente enquanto me olhava. Eu era tão grato por tê-la em minha vida, mas, mais que isso, grato por ela existir. Ela e tudo que a revolvia era simplesmente precioso pra mim.

— E seu discurso? Já escreveu? — disse ela, de repente.

Voltei à realidade por um minuto e me joguei deitado na cama, mas com as pernas dobradas e os pés ainda no chão.

— Não, mas tentei. Estava escrevendo antes de me lembrar do meu voo. Não consegui escrever nada bom o suficiente. — respirei fundo e soltei o ar pela boca. Era mais fácil relaxar quando ela não estava no meu campo de visão. — Talvez seja melhor assim, duvido muito que a gente ganhe.

— Você.

— Hã? — me apoiei nos cotovelos e levantei o rosto, olhando para ela.

— Você trabalhou sozinho nesse perfume, Tyler. Ele só leva meu nome. Se ganhar, o mérito é todo seu.

— Não. Não é não.

— É sim. Nem aqui eu estava.

— Não importa. Sem você esse perfume não existiria.

Ela ficou em silêncio e ajeitou a roupa, que dessa vez era uma calça jeans azul e uma camisa de linho branca. Lily era estupidamente básica, era engraçado.

— Até hoje não me contou a história desse perfume.

— Achei que não quisesse saber sobre ele.

Ela franziu o cenho.

— Por que acha isso?

Aquela foi a primeira vez que não consegui sentir se ela estava sendo irônica ou sincera. Deitei a cabeça de novo e encarei o teto. Minha cabeça doía um pouquinho.

— Passei em frente uma loja de plantas e jardinagem um dia e senti um cheiro muito característico. Eram lírios do vale. Minha inspiração foi imediata e comprei várias unidades da flor. Fiquei um pouco surtado até conseguir a fórmula final, Lucy ficou até preocupada comigo. — ouvi sua risadinha do outro lado do quarto e não segurei a minha também. — E então eu finalmente cheguei onde queria e foi quando pedi à Lucy que te enviasse o e-mail. E você não quis saber sobre o perfume.

Fiquei sentado de novo e minha cabeça girou um pouco, mas pude ver quando o sorriso sumiu dos lábios dela.

— E então a festa de lançamento...

— E então a festa de lançamento. Acho que nunca fiquei tão longe de você e tão bravo contigo. Foi estranho.

Lily veio em minha direção e então se sentou ao meu lado. E pela primeira vez em muito tempo eu não estava nervoso.

— Toda vez que penso na nossa amizade me sinto uma tremenda estúpida. E eu penso nisso todos os dias.

Ela estava com as mãos entrelaçadas e repousadas sobre as pernas.

— Se você é estúpida eu também sou. Isso é uma via de mão dupla, Lil. Não se preocupe com isso.

— Como não? — ela me olhou, alarmada. Os grandes olhos azuis maiores ainda, arregalados. — Parece que nossa amizade não acabou, mas também não estamos fazendo nada pra melhorar isso. Às vezes me pergunto se criar a sociedade foi mesmo uma boa ideia.

— Foi a melhor ideia, Lily. O problema nunca foi nossa sociedade. — me sentei virado de frente para ela. — Você sabe qual foi o real problema.

Droga, estava acontecendo. É, estava.

Agora meu coração começou a bater diferente.

— E qual foi?

O silêncio me matava aos poucos. Eu não tinha coragem suficiente pra dizer aquilo em voz alta, mas tinha que dizer. Ser forçado a isso me matava mais rápido ainda.

— Você sabe muito bem qual foi. — ela ainda estava olhando pra mim, o que me deixava inquieto agora. Mas isso significava que ela não partiria pra ironia. Não ainda.

— Tyler...

— Nós transamos. — foi isso, falei. Mas meu peito ainda pesava e eu achava que me sentiria melhor quando falasse. — E se você não se lembra, posso te lembrar de cada detalhe porque essa noite me salva e me assombra todos os dias.

Lily encarava o chão e eu queria sair de perto dela e de sua indiferença explícita, mas minhas pernas não funcionavam mais.

— Nossa amizade acabou naquele momento. Foi isso. E então você viajou por meses e tudo ficou ainda mais estranho e...

Eu estava sufocando, mas que merda. Consegui ficar de pé e me afastar de Lily. Parei na porta e então me virei e apoiei as costas nela, tendo Lily em meu campo de visão mais uma vez. Ela ainda encarava o chão.

— Sempre soube da sua dificuldade de lidar com algumas coisas, Lily, mas ver isso de perto assim chega a ser perturbador.

Ela então se levantou e andou em minha direção, parando a alguns passos de distância apenas. Eu estava ofegante e só percebi isso quando ela deu mais um passo à frente.

— Você acha que sabe de tudo o tempo todo. Sempre teve suas verdades absolutas. Isso é rídiculo, Tyler.

Franzi o cenho e estava prestes a responder quando ela deu mais dois passos e estava a centímetros do meu rosto. Havia um nó em minha garganta e minhas pernas estavam esquisitas de novo, sem contar o calor que eu sentia agora e fazia meu rosto queimar.

— Não quero destruir nossa amizade assim. — seus olhos estavam cheios de lágrimas de repente e aquilo me cortou em mil pedaços.

— Não acho que temos mais chances de evitar isso, Lil. Eu sinto muito.

Era aquilo, nossa amizade estava acabada. E eu também.

— Sinto muito, Ty.

E essas foram suas palavras antes de me beijar pela primeira vez naquele dia e pela segunda vez na vida.