Friendzone
22 O diário de Tyler
Quando saí do prédio onde Lily morava já era noite. Eu queria que tudo isso sumisse num piscar de olhos. Meu maior desejo era poder apertar um botão e voltar no tempo e nunca ter bebido com ela no bar naquela noite, e depois ter ido até o meu apartamento onde tudo aconteceu.
Aquele foi o pior dia da minha vida. E um dia achei que foi o melhor.
Fiquei com aquilo na cabeça até chegar no meu apartamento. Eu não queria que aquilo me afetasse daquele jeito, mas eu estava até mesmo considerando trabalhar home office todos os dias só para evitar a presença de Lily. Mas, no fundo, a verdade era que eu queria não ser um covarde filho da mãe que não tinha a coragem de contar tudo a ela.
Aquilo me consumia como uma bactéria que, aos poucos, começava a corroer todo o interior do seu corpo. Eu não aguentava mais.
E então me peguei preso no ciclo nojento, solitário e carente da minha vida adulta que se misturava com minha adolescência e início de juventude. Estava mais uma vez bêbado, com a cabeça deitada no colo de Diana Clark, com o coração despedaçado e a mente dispersa.
Só que dessa vez era culpa de outra.
— Tyler, eu nunca te vi desse jeito. Quem fez isso contigo?
Foquei em seu rosto, com algumas marcas de expressão permanentes bem visíveis quando tinha os cabelos presos num rabo de cavalo firme como agora.
— Por que acha que é culpa de alguém?
— Não sei se é exatamente culpa, mas acho que tem alguém envolvido nisso.
— Mesmo depois de toda a merda que você me fez passar, ainda acha que me conhece bem, Diana?
Ela ficou sentida, eu percebi. Grande coisa.
— Eu sei que fiz um estrago na sua vida e imagino que tenha criado um trauma. Ouvi algumas histórias sobre você, Tyler. E você vai discordar, mas ainda acho que tem alguém envolvido nisso. Alguém com um poder de destruição muito maior do que o que eu tive.
Porra.
Levantei com tudo e fiquei sentado na cama. Minha cabeça rodou numa velocidade que me fez deitar de novo, porém no travesseiro agora. Um barulho começou a me incomodar e só notei que era meu celular quando vi Diana me estender a mão segurando o aparelho. O nome de Lily brilhou na tela e eu bati na mão de Diana, afastando o celular de mim.
E devo ter feito isso com muita raiva pelo olhar que ela me deu alguns segundos depois.
— Ah, minha nossa, Tyler. É ela? É a Lily?
— Do que está falando? O que ainda faz aqui, Diana?
— Meu Deus. Meu Deus! É ela sim, só pode ser. Só ela pode ter uma influência tão forte sobre você assim. — ela parecia indignada e eu começava a ficar inquieto.
— Cala boca, Diana.
— Não, eu sei que estou certa. Minha nossa... como isso aconteceu?
Ela até parecia animada com isso. Que porra?
— Diana, você está ficando louca?
— Não, foi você quem ficou louco, Tyler. Eu sabia que isso aconteceria. Sempre imaginei que você me largaria por ela.
— E na verdade foi você quem me largou por outros, não é?
Ela finalmente se calou. Levantei da cama e fui até o banheiro e me tranquei lá dentro. Não sei quanto tempo passei debaixo do chuveiro quente, e depois encarando o esboço do meu reflexo no espelho em meio a tanto vapor. Eu só queria que Diana já tivesse ido. Não queria ter que encará-la de novo, gritando a verdade para os quatro cantos do mundo e do Universo e sei lá mais do quê. Sim, eu estava perdidamente apaixonado por Lily, minha melhor amiga de infância. Sim, ela era a única que tinha tanta influência sobre mim assim.
E não, eu não podia fazer nada para mudar aquilo.
E Diana ainda estava lá quando saí. E pior, estava falando ao celular.
Era o meu celular.
— Ele está aqui agora, posso passar para ele. Oh. não precisa? Tudo bem, darei recado mesmo assim. Tchau, Lily.
Meu sangue fervia, eu não podia acreditar que ela havia ousado atender a ligação. E antes que eu pudesse disparar a primeira frase de ofensa em sua direção, ela disse:
— Ela queria falar com você, mas acabou me passando o recado. Parece que você foi indicado a um prêmio e a cerimônia acontecerá na Califórnia no próximo sábado. — Diana estava séria de um jeito estranho. Já eu só sentia o coração bater meio forte demais enquanto tentava entender aquela história de prêmio. — Ela parecia bem contente com a notícia. Assim que atendi a ligação ela começou a falar sobre o quanto se orgulhava de você e que sempre quis ter um negócio de sucesso, mas que a melhor parte disso tudo era dividir com você. Mas então eu falei alô e o tom dela mudou, claro.
— Ela não disse nada disso, nós nem estamos nos falando. Ela não diria isso.
Ultimamente era difícil acreditar em algo bom que Lily dissesse sobre mim. Nossa relação estava muito estremecida, eu não conseguia acreditar em nada daquilo, apesar de concordar com tudo. A melhor parte do sucesso era poder dividir com ela, mas agora eu já não sabia mais de muita coisa.
— Sim, ela disse. Tyler, ela gosta de você, é sua melhor amiga, não se esqueça.
— O que seja, não me importo. O que mais disse sobre o prêmio?
Diana suspirou e se levantou. Parecia até que ela estava torcendo por nós de alguma forma. Eu não queria mais nada dela, aquele seria nosso último encontro.
— Algo sobre um e-mail, acho que com informações sobre o evento. E também parece que o convite físico foi para o escritório de vocês.
— Certo. — respirei fundo e olhei ao meu redor e me senti vazio e estranho. Fora do lugar. Eu não parecia pertencer ao meu quarto, e Diana muito menos. — Obrigada pelo recado, Diana. Agora acho que é hora de você ir embora.
— Uau, que delicadeza. — ela começou a pegar suas coisas, que nem eram muitas. Afinal, nada aconteceu então não havia roupas espalhadas pelo chão para serem recolhidas.
Ignorei-a e saí do quarto. Receber a notícia do prêmio mexeu comigo, quando me inscrevi no evento, estava louco e apaixonado não só pela fragrância, mas também por minha musa inspiradora. O perfume levava o nome de Lily, e como tudo parecia dar certo nas últimas semanas — claro que não, eu nem conseguia mais ser irônico comigo mesmo —, eu era capaz de ganhar o prêmio de perfume do ano e ter que subir no palco e agradecer e, provavelmente, explicar porque o perfume levava o nome da minha sócia e melhor amiga.
Diana desceu as escadas fazendo barulho e me falou qualquer coisa antes de sair. Eu nem sequer me importei, minha cabeça parecia uma bomba relógio e minha casa agora parecia grande demais. Com o tempo, comecei a me sentir meio desesperado e de coração acelerado junto dos milhares de pensamentos que circulavam em minha mente. Como se sentisse no ar, Slash apareceu na sala e subiu no sofá, me cheirando o rosto e tentando me fazer reagir.
No final, ele só queria ir passear.
E, como um bom dono de cachorro, fui.
Caminhamos por minutos que não contei, mas durou mais de meia hora. E que bom que durou esse longo tempo, eu precisava sair. Precisava de ar fresco, mesmo que fosse gelado. O inverno já estava chegando e sabia que, em breve, só ia querer me embolar como uma criança embaixo das cobertas e sair de lá apenas no verão. Mas não seria possível. Pelo menos não ainda, logo agora que eu precisava comparecer à cerimônia do prêmio da Fragrance Foundation Awards. Eu nem sabia em qual categoria estava concorrendo, mas parte de mim estava eufórica por ter sido indicado ao "Oscar dos Perfumes".
Eu mal podia acreditar.
— Tyler?
É, eu realmente mal podia acreditar.
Segundos, longos segundos, se passaram enquanto eu encarava Lily com cara de idiota. Ou de quem havia acabado de ver um fantasma. Como fui parar ali?
— Oi, Slash! Que saudades! — ela se abaixou e fez carinho em Slash, que a lambia louco de felicidade enquanto ela sorria meio sem jeito.
Já eu ainda não sabia o que dizer. Fiquei passeando com meu cachorro a esmo, sem pensar no trajeto, e lá estávamos nós no quarteirão do prédio onde Lily morava.
Puta merda.
— Passeio noturno? — perguntou.
— Foi um pedido dele. Tive que atender.
Ela estava tão linda, puta que pariu. Os cabelos presos num rabo de cavalo alto, o rosto limpo, sem maquiagem alguma, o que deixava suas poucas sardas visíveis. Usava uma calça jeans azul e uma camiseta branca com uma estampa do Led Zeppelin. Perfeitamente simples. E eu não queria mais nada na minha vida, só aquela mulher feliz comigo. De qualquer forma, eu só queria estar bem com ela.
Aqueles segundos que fiquei ali em sua frente, travado como uma criança tímida na primeira apresentação de teatro na escola, me deixaram perceber isso. Eu só queria estar bem com Lily, já sabia que ela jamais sentiria por mim o que eu sentia por ela.
— Você ouviu o que falei?
— Desculpe.
Ela nem pareceu chateada quando me desculpei. Meu coração doía, mas me esforcei para ouvir o que tinha a dizer.
— Eu também fui convidada para o evento, mas você é o artista. É você quem tem que ir.
Viu só? Ela estava até recusando o convite porque estava me evitando. Como foi que ela decidiu parar e falar comigo agora no meio da calçada?
— Eu não ia passar do seu lado e fingir que não te vi.
Porra, pensei em voz alta.
— Você não pode ou não quer ir? O problema sou eu, não é?
Lily bufou e relaxou os ombros. Enquanto isso, Slash estava deitado no chão, com a língua para fora, descansando.
— Tyler, não é nada disso. Ainda não sei de onde você tirou essas ideias.
— Lily, por favor, a gente vem se evitando há tempos.
— E agora a culpa é minha porque não quero ir ao evento?
— Então é isso, você não quer? — indaguei e ela ficou sem palavras.
Sempre que isso acontecia ela prendia os lábios e olhava primeiro para a pessoa com quem conversava e depois para o lado. Qualquer lado.
— Não tem problema algum você não querer ir, Lily. Só queria que fosse sincera comigo. — desabafei, e foi tão rápido e inesperado que relaxei os ombros demais, cansado, e só depois percebi como estava minha postura.
A postura de um derrotado.
Era melhor sair logo dali, não havia mais nada a ser dito ou feito. Eu odiava ver nossa amizade morrer assim, mas eu já havia me rendido. Não havia nada a se salvar ali. Puxei a coleira de Slash e ele ficou de preguiça, todo esparramado na calçada. E agora eu só queria ir embora e aquele cachorro gordo e preguiçoso não.
Entretanto, quase saí do meu próprio corpo quando, num único segundo, Lily se aproximou e me abraçou forte. Muito forte, o que me fez dar um passo para trás. Seus braços me apertaram forte o pescoço e os ombros e, felizmente, Slash ficou de pé quando puxei sua coleira de passeio ao abraçá-la de volta. Na mesma força e intensidade. Por tudo o que é e não é sagrado, eu amava aquela mulher.
Ficamos ali abraçados e em silêncio, sentindo o corpo um do outro, enquanto as pessoas passavam por nós falando ao celular, conversando entre si, vivendo suas vidas, ao mesmo tempo que as nossas pareciam entrelaçadas de um jeito bagunçado demais para que aquele abraço resolvesse algo.
— Nunca duvide da nossa amizade. Nunca duvide do quanto você é importante pra mim. E nunca duvide do quanto eu te amo.
Meu corpo se arrepiou inteiro quando ela me falou aquilo no pé do ouvido, mas alto o suficiente pra que eu pudesse entender cada palavra. Foi como uma estaca bem no meio do meu peito.
E agora eu já podia pegar minha playlist de músicas bregas e tristes e passar os resto dos meus dias chorando e me lamentando.
— Por que está dizendo isso agora?
Ela se afastou e seus braços caíram ao lado do corpo. Eu ainda não entendia o motivo de ela estar ali. Será que estava só caminhando? Indo tomar um café? Como ela estava bem ali naquele momento?
— A cerimônia acontece no próximo sábado. Quero que esteja lá, no seu melhor traje e sorriso, pra subir no palco quando chamarem seu nome na categoria de fragrância do ano. — ela sorria enquanto falava.
Eu só sabia olhar para ela que nem louco. Ou bobo. Não sei.
Que raiva não saber das coisas.
— Você estará lá?
Vi seu peito se encher de ar e então relaxar e soltar tudo bem devagar.
— Vamos ver.
Odiei a esperança que aquilo me deu.
— Você está bem, Lil?
Ela vacilou por alguns segundos e eu já sabia que não estava. Será que ela ainda ficava tão afetada quanto eu quando estávamos afastados?
— Estou melhor agora. Mas não se preocupe comigo, tudo fica bem em algum momento.
Slash se mexeu com rapidez e força quando outro cachorro passou do outro lado da calçada, mas o segurei forte. Eu estava prestes a indagar Lily sobre o assunto, mas Slash começou a latir feito louco e eu precisava sair dali. Ela riu da situação e acenou um tchau, e logo foi caminhando em direção ao seu prédio, na próxima quadra dali.
Droga, droga, droga.
Havia algo ali, eu podia jurar. Algo em seus olhos não me contavam a verdade. Eu precisava descobrir o que era. Porém agora só o que me restava era torcer para que ela fosse até a Califórnia para a cerimônia de premiação comigo.
Comigo.
Os sócios e melhores amigos juntos no evento.
Eu já podia ver tudo, o nome da nossa empresa sendo anunciado como vencedor e o meu logo na sequência, como criador. E então eu ficaria de pé enquanto todo o teatro seria preenchido de aplausos e Lily se levantaria e me abraçaria, feliz da vida. E então eu a beijaria em frente a todas as câmeras e olhares e o anúncio seria feito de uma vez.
Lily e Tyler, sócios e apaixonados.
Essa era a manchete do jornal da minha vida num universo paralelo.
Nessa vida, no entanto, eu ainda era só um cara arrastando seu cachorro pela rua, enquanto ele queria correr até o outro e brigar com um poodle minúsculo.
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