Friendzone
28 Mudanças
Eu estava com uma dor de cabeça horrorosa e meus ouvidos ainda zumbiam, mesmo depois de chegar em casa. No voo de volta pra NY não bebi uma gota de álcool sequer, já que o mix de sentimentos que Lily provocou em mim foram suficientes para que eu suportasse as horas no avião sem mais transtornos.
Cheguei em casa e percebi que estava tarde, pois nem havia muita gente na recepção do prédio. Eu só queria subir e dormir. Larguei a mala no chão, ainda na sala, e me joguei na cama assim que cheguei no quarto. Percebi que estava deitado sobre algo e me levantei o suficiente para ver o bilhete que minha mãe havia deixado. Ela estava com Slash e pedia para que eu o buscasse quando voltasse à cidade. Pensei em ir à casa dela no mesmo minuto, mas estava cansado demais, apesar de sentir saudade do meu cachorro bagunceiro e desengonçado.
No entanto, uma ligação não faria mal algum.
— Ty? — ela atendeu no quarto toque.
— Oi, mãe! Tudo bem por aí? Slash se comportou?
Eu podia apostar que a resposta seria não.
— Oi, filho! Tudo bem sim, só tive um par de chinelos completamente destruído por esse monstrinho que você chama de bebê, mas estamos bem. — ela deu risada e eu também. Era tão reconfortante ouvir a voz dela.
Era um contraste engraçado entre a voz dela e a voz do meu pai, já que ele sempre soava sério como um locutor de rádio, enquanto ela podia ser calma como uma terapeuta. Apesar de ser capaz de me xingar a qualquer momento.
— Acabei de chegar em casa, prometo que passo amanhã de manhã por aí para buscá-lo.
— Imagine, não se preocupe. Eu posso levá-lo assim que puder, você deve estar cansado. Como foi o evento?
Eu só pensava em Lily.
— Bacana, mas não ganhei o prêmio... — minha risada saiu mais triste do que imaginei e desejei ter guardado aquilo com mais cuidado, mas era minha mãe então, para que segredos?
— Quem se importa com esse prêmio idiota? Você continua incrível e Lily é uma das suas melhores criações.
Minha mãe era simplesmente a melhor.
— Obrigado, mãe. — respirei fundo e esfreguei os pés até tirar os sapatos e jogá-los no chão. Continuei me arrastando na cama até me acomodar sobre os travesseiros. — Acho que vou mesmo passar aí amanhã para buscar o Slash e para um café da manhã. Faz tempo que não fazemos isso, o que acha?
Houve um tempo de silêncio e eu pude ouvir apenas a respiração dela.
Lá vinha bomba.
— Tyler, você não está bem. O que foi?
Eu sabia.
— Como faz isso?
— Isso o quê? — ela já estava rindo e eu também.
— Isso, do nada me pergunta o que foi e já sabe que não estou bem.
— Sou sua mãe, ora. Te conheço.
Suspirei, derrotado.
— Estou cansado, mãe.
— Do quê?
— Muita coisa.
Ouvi-a suspirar e falei de novo:
— Queria ter meu pai por aqui agora. Sinto falta dele.
— Eu também. — outro suspiro. — Muita.
Já fazia muito tempo que éramos só eu e minha mãe. Nós três formávamos um time muito bom.
— Ele, com certeza, inventaria uma piada para esse momento e eu acabaria rindo, apesar de me sentir um completo idiota perdido.
Eu não queria que a conversa tivesse tomado esse rumo, mas agora já estávamos ali.
— Aposto que, de onde ele está agora, deve estar rindo de você por lembrar disso.
Rimos os dois e finalmente olhei no relógio que ficava no móvel ao lado da minha cama. Era quase meia-noite.
— Nossa, já está muito tarde, eu nem tinha visto. Vou desligar, mãe, você precisa descansar.
Ela ficou uns segundos em silêncio de novo e, apesar de sentir que me daria um leve sermão, só houve uma despedida.
— Você deve precisar descansar mais do que eu. Durma bem, meu amor. Nos vemos amanhã, ok?
— Ok. Te amo.
— Te amo.
Desliguei o celular e acabei pegando no sono ali mesmo, sem nem trocar de roupa ou tomar banho.
...
Acordei na manhã seguinte e perdi alguns minutos na cama, mexendo no celular, e me senti um ser humano normal vivendo no mundo contemporâneo, perdendo tempo com coisas inúteis. Demorei mais do que realmente precisava para sair do banho e então me apressei e logo estava na rua, a caminho da casa da minha mãe. Minha antiga casa, a residência dos Reed.
Pedi ao taxista que parasse três quadras antes do meu destino e passei no Manny's para comprar a torta de maçã com canela que minha mãe amava. Ela sempre dizia que a sua nunca ficava à altura, enquanto eu sempre discordava, mas era sua opinião que valia sempre.
Toda primeira manhã de verão tínhamos torta de maçã com canela do Manny's. E em todos aniversários também, acho até que era mais importante do que o bolo. Apesar de ser a sobremesa, comíamos no café da manhã, pois os Reed nunca se importaram com regras.
Depois da morte do meu pai a tradição da torta de maçã perdeu a graça. E então me lembrei dela no meio do caminho e estávamos longe do verão, mas, de novo, os Reed nunca se importaram com regras. Muito menos regras de tradições que já não tínhamos mais.
Cheguei com a torta e minha mãe surtou de alegria, acho que ficou até mais feliz por ver a embalagem do Manny's do que me ver. Slash, por outro lado, estava morrendo de saudade e ficou pulando em cima de mim por um bom tempo até se cansar. Parecia até que eu havia ficado fora por um mês, era engraçado. Logo depois ele foi para os fundos, rolar no gramado até pegar no sono. Fiquei conversando com a minha mãe e ouvindo sobre os momentos engraçados que passou com meu labrador terrível. Ela, felizmente, se divertiu bastante, mas avisou que na próxima vez era melhor que eu pagasse um hotel para cachorros.
Slash estava longe de ser um bom garoto.
Fiquei um tempo dando voltas e voltas mesmo já sabendo que não havia como esconder nada daquela mulher. E sendo filho dela, ficava ainda mais difícil de esconder algo.
Finalmente comecei a falar e a tirar o enorme peso do meu coração e contei tudo sobre Lily. Absolutamente. Bem, não tudo, exatamente, mas tudo. Ora, o suficiente para que entendesse que me apaixonei por ela.
Vi um sorriso rápido passar por seus lábios e ela comeu mais um pedaço de sua torta de maçã e então descansou na cadeira, se inclinando para trás.
— Isso está acontecendo desde antes da viagem, não é?
Assenti sem tirar os braços cruzados da mesa. Era estranho conversar sobre aquilo com a minha mãe, contudo, ao mesmo tempo, era a coisa mais tranquila do mundo.
— Na verdade eu me apaixonei por ela com a distância. E então ela voltou...
— Com um noivo.
Suspirei concordando.
— E ele é incrível, mãe. Sério. Ele é um cara legal pra ela, mas... — voltei a encarar a mesa como fazia desde que havíamos começado a falar de Lily.
— Eu sei, meu amor. Ele é inglês.
Nos encaramos por alguns segundos e me deixei levar e caímos na risada. Que desgraça.
— O que quer fazer agora?
— De verdade?
Ela assentiu e seus olhos castanhos e profundamente sinceros me encaravam o tempo todo. Eu sentia um conforto absurdo em poder falar com ela. Depois da morte do meu pai, minha mãe se tornou minha amiga. A maioria dos meus amigos não tinha esse tipo de relação com suas mães, mas, geralmente, seus pais. Eu me sentia privilegiado por isso, até porque minha mãe era uma ouvinte e uma amiga incrível.
— Quero me livrar disso, desse sentimento todo. Mas odeio querer isso, porque eu sempre amei a Lily, ela é minha melhor amiga desde sempre. Fomos criados juntos, pelo amor de Deus! Eu só... — respirei fundo, cansado. — Eu não queria que nossa amizade tivesse sido arruinada dessa forma.
— Tyler, eu ainda acho que vocês deviam conversar. Tudo pode ser resolvido com uma boa conversa.
— Uma boa conversa? Com a Lily? — a risada cheia de sarcasmo me escapou e minha mãe me encarou feio. — Mãe, sabe que somos melhores amigos, mas também sabe que quase sempre discutimos.
— Sim, eu sei muito bem. Me lembro das várias vezes que os dois bonitinhos discutiram e ficaram dias sem se falar e eu e a minha melhor amiga tínhamos que intervir. — ela suspirou pesado. — Tyler, vocês são adultos agora.
— Não parece.
— É, não parece. — minha mãe finalizou sua xícara de café. — Você devia tirar férias. Sei lá, sair da cidade, passar um tempo longe daqui, quem sabe até do país.
Fiquei chocado com aquela sugestão, pois fazia todo sentido.
Lily saiu do país e depois voltou de casamento marcado e com o resto do caminho traçado. Ou, pelo menos, era o que parecia no início.
— Sabe, mãe, o pior nisso tudo, é que sinto que não conheço a Lily como antes. Tem momentos que sinto que sei até o que está passando em sua cabeça só de olhar em seus olhos, mas em outros ela nem parece a mesma.
Minha mãe levantou com a caneca e foi até a pia e ficou ali perto, apoiada na bancada, de braços cruzados, relaxada.
— Filho, as pessoas mudam.
Aquilo ecoou em minha cabeça e ficou assim durante o resto do dia. Não foi a forma tranquila com que minha mãe falou, mas o peso daquela verdade. As pessoas mudam, até mesmo minha melhor amiga de infância, a pessoa que convivi a vida toda.
Elas simplesmente mudam e não há nada que a gente possa fazer.
Desci duas quadras antes do meu prédio, assim poderia caminhar um pouco com Slash e pensar ainda mais na sugestão de minha mãe de mudar de vida, passar um tempo fora, quem sabe até do país. Eu tinha todos os recursos para isso, dinheiro não era um problema. Meu trabalho poderia ser feito à distância, não havia empecilho algum em enviar minhas criações para a equipe.
A única coisa que realmente me impedia era Lily. E me impedia porque eu permitia. Porque queria. Eu simplesmente não queria ir para longe dela, era uma ideia insuportável. Contudo, levando em conta tudo o que nos envolvia, talvez eu devesse começar a me acostumar com a ideia de ficar um tempo afastado dela.
Ou, quem sabe, para sempre.
...
Eu sentia que estava flutuando numa espécie de limbo há muito, e não podia mais ficar assim. Já fazia dois dias que eu estava de volta à minha cidade e não havia mais falado com Lily desde que a vi no aeroporto. Sentia-me estupidamente preocupado, pois não sabia se ela havia voltado também ou ficado em LA, se estava bem, se estava em NY agindo como se nada tivesse acontecido.
Ainda era mais fácil ficar com meu orgulho e não ligar para ela nem tentar perguntar a alguém sobre ela.
Apesar de tudo, afirmei para mim mesmo que seria capaz de trabalhar pela semana seguinte em casa, havia algumas questões de produção que eu precisava rever e aquilo não era nada que me obrigasse a ir ao escritório. Ademais, a cada dia eu percebia que meu trabalho poderia ser feito, tranquilamente, em casa.
Era, além de tudo, uma ótima maneira de evitar Lily.
No entanto, eu ainda não havia me adaptado totalmente, fazia horários malucos e ora trabalhava várias horas seguidas, sem intervalos, ora trabalhava uma hora e me cansava e me dava o direito de um descanso. Hoje era um dia de trabalho intenso, precisava me concentrar o máximo e esquecer do mundo externo.
E claro que não consegui fazer isso, pois justamente quando comecei a me encontrar no meio das anotações de Brandon sobre as produções de relançamento das nossas primeiras coleções, meu celular tocou.
E eu ignorei, afinal, estava trabalhando.
Até que tocou de novo.
E eu escolhi ignorar, mas quem quer que estivesse me ligando queria muito falar comigo.
Atendi.
— Sim?
— É o Tyler? — era um homem.
— Sim. Quem é? — me inclinei para trás na cadeira, me espreguiçando um pouco. Já fazia umas boas três horas que estava ali na frente do notebook.
— Henry. Eu só...
Agora era oficial: aquilo estava estranho.
— Aconteceu algo com a Lily?
Me arrependi no mesmo segundo que fiz a pergunta. Até fazia sentido, mas eu não queria ter falado dela.
Não queria.
Mas falei.
E então ouvi o que pareceu ser uma risada abafada.
— Sim, aconteceu. Ela me deixou.
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