Friendzone

29 Melhores Amigos


E foi assim que meu coração parou.

Os segundos começaram a passar mais rápido. Ou era só eu perdendo a cabeça?

Minha nossa, o que eu havia acabado de ouvir?

A respiração da outra pessoa na linha me despertou. Aquela outra pessoa era Henry, noivo de Lily. Espera, ex-noivo.

Ex-noivo?

— Espera...

— Ela não me falou tudo, mas eu sei que foi por você. Eu só...

ELA DEIXOU HENRY?!

— Só espero que não a faça sofrer como tem feito nos últimos meses.

— Espera, eu...

Ele finalizou a ligação.

Ele simplesmente desligou na minha cara depois de me jogar aquela bomba atômica.

Droga, eu precisava de uma bebida. Ou qualquer coisa que pudesse me acalmar.

Levantei da cadeira e saí do escritório no mesmo minuto, desci para a sala e fui até a cozinha e bebi um copo d'água. Foquei na respiração e me acalmei o suficiente para repassar a ligação de Henry de poucos minutos atrás.

O que foi aquilo?

Eu precisava saber se era verdade. Subi correndo de volta para o escritório e peguei o celular, logo buscando o contato de Lucy. Ela devia saber de algo. Lucy trabalhava na recepção, ela sempre sabia das coisas primeiro.

Fui atendido no quinto toque, obviamente à beira do surto.

— Oi, Tyler! Boa tarde, como vai?

— Eufórico, nervoso, surtando. Nem sei. — respirei fundo e busquei concentração. — Lucy, a Lily está aí hoje?

Ouvi seu risinho tímido.

— Não, ela não vem essa semana. Achei que soubesse.

Puta merda. Como eu saberia? Eu era o último a saber de tudo agora.

— Ah, claro. Eu esqueci, como sou idiota. Ela me avisou há alguns dias e acabei me esquecendo. — tentei disfarçar e não me importei se consegui ou não.

Na verdade, como eu poderia disfarçar e manter a calma enquanto aquilo estava acontecendo? Eu havia acabado de falar com o ex-noivo de Lily.

EX-NOIVO.

Fui até a sala pensando no que poderia fazer. Será que eu deveria ligar para ela?

E então meu celular tocou enquanto eu ainda o segurava. Era minha mãe.

— Mãe?

— Oi, filho. Tudo bem?

Demorei alguns segundos, mas respondi:

— Acho que sim.

— Você já soube?

— Como assim? Soube o quê? — será que eu soava tão maluco quanto me parecia?

— É melhor você se sentar. — minha mãe usava seu tom de acalmar as pessoas, mas nunca funcionava, pois só as deixava mais tensas.

— É sobre a Lily, não é?

— Sim, sobre o casamento. — sua voz mudou completamente e agora ela estava surpresa. Eu riria se não estivesse tão tenso. — Espera aí, como você sabe?

Finalmente me joguei no sofá, um tanto derrotado.

— Henry me ligou.

— Minha nossa. O que ele disse?

— Que não haverá mais casamento, e jogou a culpa em mim por tudo e por Lily estar mal nesses últimos meses. — suspirei pesado.

— Mas que filho da... — ela parou. — Como ele se atreve a falar isso de você?

Respirei fundo, de olhos fechados, deitando a cabeça no encosto do sofá, querendo me afundar ainda mais nele agora.

— Mãe, é complicado. Ele é a vítima da história toda.

— Da história toda?

— Sabe sobre ela?

Ouvi-a respirar pesado e então mexer em algo, devia estar na cozinha.

— Estou esperando me falar sobre.

— Sobre o quê?

— Sobre ela, a história.

— Não, mãe! Estou falando da Lily. Sabe sobre ela?

Com certeza deve ter revirado os olhos quando me ouviu.

— Não, eu não sei.

— Podia ligar pra sua melhor amiga, que é mãe dela, e perguntar, sabe...

E então ela estourou, típico de Melinda Reed.

— Tyler, eu não vou fazer isso. Se a minha melhor amiga quiser falar comigo sobre isso, eu estarei aqui para ouvir. E não, eu não estarei aqui pra te dar informações.

— Mãe...

— Chega. O que quer que tenha acontecido entre vocês dois, são vocês que têm que resolver.

Ela ainda me xingou antes de finalizar a ligação e eu só me senti pior. Lily estava solteira, mas algo ainda parecia estranho no ar. A atmosfera pesava e o pior ainda nem estava por vir.

Alguns anos atrás...

Eu estava descansando da minha corrida matinal, depois de tomar um banho refrescante, quando a campainha tocou. Minha mãe já havia saído então desci as escadas correndo e fui atender a porta. Para minha surpresa, era Lily. Pedi desculpa pelos meus trajes — eu só estava de calça de moletom e uma toalha nos ombros, nem sapatos eu estava usando ainda — mesmo ela sendo de casa e estar acostumada em me ver daquele jeito.

Ela deu um meio sorriso e entrou, mas havia algo de estranho nela. Estava um pouco retraída, os olhos baixos, o cabelo meio bagunçado numa trança estranha.

— Estou te atrapalhando? — perguntou ainda parada no meio da sala.

— Nunca. Cheguei faz pouco tempo, estava correndo. — comecei a subir as escadas e a chamei com um aceno, que logo me seguiu.

Ao chegar em meu quarto, vesti uma camiseta e meias limpas. Lily se sentou na ponta da cama e eu me joguei em minha poltrona velha que ainda ficava perto da janela, mesmo depois dos meus anos de faculdade longe dali. Minha mãe fez questão de deixar o quarto do mesmo jeito de quando saí.

Até mesmo a bagunça.

— Você parece tão bem. Isso é ótimo. — ela olhou pra mim e deu aquele meio sorriso estranho de novo.

Lily, com certeza, não estava bem.

— Correr durante a manhã tem me feito bem, por mais incrível que isso pareça. — terminei de secar o cabelo e embolei a toalha, jogando-a perto da porta. — Mas não posso dizer o mesmo de você. O que aconteceu?

— Eu adoro o fato de você saber coisas sobre mim que eu nem preciso dizer. Mas tem dias que queria que pudesse até ler minha mente, assim eu não precisaria ter que falar em voz alta.

Àquela altura, eu já estava tenso com o que estava por vir.

— Eddie e eu brigamos. Acabou. Tudo.

E logo em seguida ela começou a chorar. Saí da poltrona num pulo e me sentei ao seu lado, com ela logo deitando em meu ombro, aos prantos. Era tão estranho vê-la naquele estado, mas eu estava ali, como sempre estaria.

Como estaria agora, se também precisasse de mim. Mesmo eu, muito provavelmente, sendo o motivo do término do seu noivado.

Pelo menos eu não havia sido o motivo do término dela com Edward, aquilo acabou com ela. Naquela época eu estava num estado melhor do que meu atual. Ainda me recuperava do meu término com Diana e da morte do meu pai, mas havia começado alguns hábitos que me ajudaram a melhorar, pouco a pouco.

Logo após ficar solteira, lembro de quando Lily e eu começamos a passar mais tempo juntos e então num desses dias tivemos a ideia da R&C. Era uma terça-feira ensolarada e resolvemos fazer um churrasco, apenas para nós dois, no jardim da minha casa. Minha mãe chegou em seguida e se empolgou com nosso pequeno banquete, anunciando que faria seus cookies com gotas de chocolate para o final da tarde. Era como um dia de verão na infância de Tyler e Lily.

E foi quando minha mãe tirou os cookies do forno que minha melhor amiga soltou:

— Queria poder guardar esse cheiro num potinho e usar quando quisesse, a qualquer momento.

Começamos a falar de cheiros que gostávamos e então falei que tentaria fazer um deles. Consegui uma fragrância suave que misturava rosas e lavanda e Lily adorou. Era ridícula, se comparada com o que eu fazia agora, mas foi a primeira vez. Foi quando tudo começou.

E agora estávamos ali, estáveis financeiramente e miseráveis emocionalmente .

Ouvi Slash latir e aquilo me tirou das minhas lembranças longínquas por alguns segundos. Ele latiu de novo e então gritei para que parasse, mas ele só latia assim quando alguém estava chegando.

— Tyler?

Porra. Era a voz dela.

Fiquei de pé no mesmo segundo e não sabia se me agradecia ou me odiava por morar na cobertura e não ter uma porta convencional, pois travei assim que a vi. Nem tive tempo de pensar antes de abrir a porta, ou respirar fundo e me acalmar.

Eu já nem tinha calma para tentar resgatar. Lily tirava isso de mim sempre que aparecia em minha frente.

— Oi. — consegui responder.

Ela tinha um aspecto de quem não dormia há dias, mas estava arrumada. Cabelos alinhados, presos num coque firme e baixo. Uma blusa preta de mangas compridas e jeans azuis, sempre básica. Sempre linda.

— Acho que precisamos conversar. — sua voz estava triste, mas seus olhos estavam mais.

Sentei de novo no sofá enquanto a vi caminhar até o outro sofá, à minha esquerda. Slash apareceu todo espalhafatoso, subindo no sofá ao lado dela. Lily não estava nem um pouco no clima, mas deu a atenção que ele pediu até que se acalmasse. Chamei-o para perto, mas ele me ignorou. Era sempre assim.

Que vergonha.

Felizmente ele encontrou um pedaço do que era um pneu de borracha que deveria ser seu brinquedo, mas já estava destruído há tempos. Ele pegou o resto de pneu e saiu da sala, como se soubesse que Lily e eu precisávamos conversar.

Olhei para ela e me lembrei imediatamente do dia que foi até minha casa e chorou em meu ombro por seu término com Edward. O engraçado era que eu sempre imaginei que os dois ficariam juntos e até mesmo se casariam. Eles tinham o potencial para isso, formavam um casal bonito e estável.

Eu nunca soube o real motivo do término deles, mas parte de mim desejou que eles ainda estivessem juntos. Assim, Lily e Tyler nunca teria acontecido e nossas vidas não estariam caóticas como naquele momento.

— Henry me ligou. — acabei falando primeiro e vi seus olhos azuis arregalarem. Continuei: — Contou que se separaram e deu a entender que a culpa foi minha.

Lily relaxou os ombros com pesar e apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando as mãos logo em seguida.

— Cheguei na cidade alguns dias depois que você. Voltei ao hotel quando percebi que havia esquecido meu anel de noivado. — ela deu uma risada amarga e encarou o chão. E eu me dei conta de como meu corpo inteiro estava tenso com aquilo tudo.

Lily continuou: — Faz tempo que não sou honesta com você. E é estranho porque honestidade sempre foi um valor importante na nossa amizade. Eu entendi todas as vezes que você insinuou que não me reconhecia mais e que agora sou um enigma pra você. Nem eu me reconheço mais, e sei que isso acontece porque me apaixonei por você.

Engoli seco.

E meu coração parecia estar na garganta. Mais alguns minutos e eu o vomitaria bem ali, eu tinha certeza.

— Nunca imaginei que seria um transtorno desse tamanho, mas já sabia que não daria certo. Só que a realidade é bem pior. — ela levantou o rosto e vi as lágrimas em seus olhos.

Meu coração apertou.

— O que quer dizer com isso?

— Olha só pra gente, Tyler.

— Estou olhando. São vinte e sete anos de amizade e observação. Eu conheço a gente muito bem, Lily. Ainda não entendi onde você quer chegar.

Eu estava ofegante e nem tinha reparado quando perdi o ar daquela forma. Acho que era a decepção se instalando em meu corpo.

— Não existe chance de darmos certo. Tudo começa errado com a gente, não percebe?

— Não, não percebo. Eu não entendi nada.

Eu estava pronto para me levantar, mas nem sabia o que fazer em seguida. Uma profunda inquietação começava a correr pelo meu sangue e tudo me incomodava.

— Eu não tenho mais um noivo agora. Você não tem compromisso com ninguém e eu também não. — sua voz era baixa, instável. Lily estava nervosa, ela era sempre imponente e segura de si, aquilo era bem diferente. Eu mal podia acreditar que tinha responsabilidade naquilo.

— E...?

Ela ficou em silêncio e olhou para o chão, ou talvez para as mãos entrelaçadas, eu não sabia dizer.

— Lily, o que você quer?

Ela ainda encarava o chão, e agora era ainda pior, parecia ter começado a chorar. E eu já nem conseguia raciocinar mais, mas meu último pensamento havia sido que ela estava dizendo que, mesmo solteiros e desimpedidos de compromisso com outras pessoas, nós dois não daríamos certo.

Eu odiava como ela pensava que tinha certeza de tudo na vida.

Levantei e cheguei perto dela, quase sentando no chão. Segurei suas mãos, ainda entrelaçadas uma na outra, e falei:

— O que você quer?

— Tyler...

Ela estava mesmo chorando, eu detestava aquilo.

— Lily?

— Eu quero sentir que posso confiar em você. Quero sentir que a gente pode ser alguma coisa importante e que vá mesmo dar certo. — vi-a levantar o rosto e seus olhos estavam vermelhos.

— Confiar em mim?

De repente Lily se soltou de mim e ficou de pé, caminhou até o meio da sala e ficou perto da estante. Virou-se e me olhou de novo.

— Tudo poderia ser diferente agora. Tudo, absolutamente. — ela respirou fundo e eu já estava me irritando seriamente com aquela conversa. Só não falei porque ela logo continuou: — Eu abri mão do meu futuro por você, Tyler.

— Ah, ótimo. Seu noivo jogou na minha cara e agora você também. — falei enquanto me sentei no lugar que ela ocupou segundos antes.

— Estou falando do Edward. — vi-a secar o rosto e falar como se cuspisse as palavras. Ela não queria dizer aquilo, eu podia sentir.

— Edward?

— Ele me fez escolher e eu escolhi você. Escolhi ficar do lado do meu melhor amigo que precisava de ajuda e precisava de mim e....

Franzi o cenho, incrédulo.

— Como assim? Está me culpando por uma decisão que você tomou?

Lily arregalou os olhos, a raiva tomando conta deles aos poucos. Será que eu havia dito algo errado?

Sinceramente? Estava pouco me importando. Aquela conversa estava me enchendo.

— Você não entende nada, só pensa em si mesmo, minha nossa. — uma risada cheia de ironia escapou de seus lábios ao mesmo tempo que mais lágrimas escorriam por seu rosto.

Quando viramos esse tipo de gente?

— Eu sou sempre o egocêntrico, blá blá, blá. Já sei disso, Lily.

Ela ficou ali para por alguns segundos, respirando. Esfriando. Parecia que seus sentimentos se esvaíam conforme o tempo passava.

— Eu escolhi ficar ao seu lado e nunca quis que soubesse disso. Acho que só te contei porque queria afirmar para mim mesma que eu estava certa em fazer isso. Eu estava certa em ter te escolhido, que não me arrependeria nunca. Que todo esforço valia a pena para ficar ao seu lado. Mas já não tenho mais certeza disso.

E, de repente, eu comecei a concordar com ela. E se estivéssemos fadados a sentir isso um pelo outro, mas nunca dar certo? E então seríamos dois infelizes financeiramente bem sucedidos.

Que merda de destino.

Aquele era o último dia de aula, uma farra total. Era o dia de assinar o anuário de todo mundo, deixar mensagens embaraçosas e tirar fotos ridículas para se envergonhar no futuro, nos reencontros quando fôssemos velhos e cansados.

Diana e eu ficamos juntos o tempo todo, conseguimos assinaturas de todos no time de futebol, das líderes de torcida e até dos nerds, pelo menos no meu anuário. Rodamos a escola toda e já estávamos cansados. Em certo ponto, fomos para o pátio e nos acomodamos em uma das mesas. Minha namorada, que eu esperava que fosse para sempre minha, estava olhando com encanto para as mensagens em seu anuário.

— Vou sentir tanta falta disso.

— Eu também. Pelo menos ficaremos juntos mesmo depois daqui.

Ela olhou para mim e sorriu de canto,escorreguei a mão até a dela e apertei E então Diana olhou para alguém longe, atrás de mim, e se levantou com pressa soltando-se de mim.

— Lily!

Ela foi ao seu encontro e me virei para vê-las, pareciam conversar sobre o anuário. As duas vieram e o anuário de Di estava completo de mensagens, não havia um espaço decente para mais, mas Lily deu um jeito mesmo assim. Quando chegou a minha vez, no entanto, havia um espaço no canto inferior esquerdo reservado para ela.

— Você escreveu "reservado para Lilian Carter", eu não acredito. — ela caiu na risada quando viu o meu anuário.

— Claro, eu não podia correr o risco. E sabia que seria difícil te encontrar, então preferi me adiantar. — ela riu comigo quando falei.

Ouvimos algumas meninas gritando de longe e, de novo, Diana correu ao encontro delas. Ela evitava ficar comigo e com Lily agora, não se engajava mais nas conversas como antes. Só notei isso quando Lily comentou e então comecei a reparar. Era um tanto estranho, pois Di não era ciumenta nem nada do tipo, além de também ser amiga da minha melhor amiga.

— Nem acredito que acabou. Parecia que duraria uma eternidade. — Lily se sentou com meu anuário e ficou batendo a caneta na folha, pensando.

— Será que vai ser assim na faculdade?

— Não vou ficar surpresa se também sentir que vai durar uma eternidade. — ela riu, ainda sem escrever nada.

— Bom, ainda estaremos juntos e vamos poder nos ajudar.

— Nem acredito nisso ainda. Não vou me livrar de você nunca.

— Como se você quisesse.

Ela riu e ficou mais alguns segundos olhando o anuário e desistiu. Disse que não conseguiria escrever nada em tão pouco tempo, então pediu para ficar ele e me entregar depois. E assim o fez. Ela me entregou na saída da escola e só fui ler ao chegar em casa.

"Você separou um espaço só pra mim, saiba que também tenho um espaço separado que é só seu, e sempre será. Você é o melhor amigo que alguém poderia ter, e eu tenho muita sorte de ser essa pessoa. Você é incrível, Ty. O mundo lá fora vai ficar pequeno pra você. Mal posso esperar para ver. Beijos, Lil."

Lily podia ser inacreditável. Eu me sentia profundamente grato e, além disso, privilegiado por ter uma melhor amiga como ela. Primeiro que era incomum para um garoto ter uma melhor amiga e não transar com ela em algum momento, ou acabar fazendo uma besteira, tipo se apaixonado e se declarando para ela em público, numa festa lotada de jovens bêbados, por exemplo.

Nossa amizade era uma das melhores coisas da minha vida, e eu pretendia manter aquilo até o fim dela.

E falhei.

Houve um ponto na minha vida que a melhor coisa nela era justamente minha amizade com Lily. Eventualmente, tempo suficiente se passou para que aquilo fosse arruinado também. Eu me sentia péssimo, não conseguia entender como havíamos chegado ao ponto de não nos entendermos mais. Éramos adultos tão problemáticos assim?

Ela ainda estava ali, de pé no meio da minha sala de estar, com os olhos avermelhados e chorosos, e de braços cruzados. A vontade que eu sentia de me aproximar e abraçá-la e beijá-la era a mesma que eu tinha de ficar no meu lugar e olhar para ela até, quem sabe, entender o que estava acontecendo e para onde iríamos em seguida.

Nunca mais seríamos amigos de novo. Nunca mais, isso era um fato.

Eu já havia entendido, e com certa facilidade depois de tanto tempo e tantos tombos, que a vida era uma sequência de transformações, positivas ou negativas, e você precisava dar um jeito de se adaptar e aprender com elas. Era preciso avaliar a situação e o problema e então traçar o caminho para onde você poderia ir, além de saber o que era necessário para chegar lá.

O cenário atual era que minha amizade com Lily havia sido arruinada desde a noite que transamos bêbados. E então a viagem dela aconteceu e nos separou por metade de um ano, o que, de alguma forma ironicamente diabólica, só nutriu um sentimento forte demais que eu nem sabia que era capaz de sentir. Eu havia me apaixonado por ela e ela por mim, ambos sabíamos disso àquela altura.

Contudo, para onde iríamos agora que éramos apaixonados, mas tínhamos essa certeza estúpida de que não daríamos certo juntos dessa forma, como um casal?

Espera aí, tínhamos?

Eu não tinha essa certeza, isso era coisa dela.

Era a insegurança dela dizendo isso.

Eu tinha sim um passado digno de desconfiança, mas aquela era Lilian Carter, minha melhor amiga de infância e da vida inteira. Além de sócia, parceira de crime, de ideias idiotas e de sorvetes e filmes trash de terror no Halloween. Eu jamais trairia sua confiança dessa forma.

Em algum momento ela se virou e andou até a porta que abria para a sacada. Fiquei tentado a ir até lá, mas permaneci no sofá. Todas aquelas lembranças, sua desconfiança, o fato de Edward ter feito com que ela decidisse entre nós dois e eu só saber disso vários anos depois... droga, aquelas coisas estavam mexendo comigo.

Aquele era, possivelmente, o momento mais caótico e estranho da minha vida. Sentimento pode ser um negócio muito complicado, mesmo a gente aprendendo que não deve ser. Dizem que o amor é pra ser fácil, tranquilo, e o que eu sentia por Lily era tudo menos isso. A ideia de que meu destino era ter esse sentimento terrivelmente forte sem poder dividi- lo com ela me aterrorizava. Eu só queria ser capaz de organizar meus pensamentos.

— Por que ainda está aqui?

Ela virou o rosto, mas não o suficiente para me olhar. Eu via apenas o seu perfil, de longe.

Eu nem sabia direito o que estava falando. Tinha uma certeza absurda de que me arrependeria depois, quando repassasse esse diálogo várias vezes mentalmente.

— Pra falar a verdade, eu não sei. — respondeu voltando a olhar a vista de NY.

— É porque ainda tem algo pelo que lutar.

E então ela se virou imediatamente, franzindo o rosto.

— Quê?

Respirei fundo e soltei o ar pela boca.

— Apesar de desconfiança sobre mim e do que a gente pode ser no futuro, você ainda está aqui. Tem algo que te faz ficar. Não tente dizer que é mentira, Lily.

— Você só pode estar brincando... — ela riu cheia de sarcasmo.

— Não, eu não estou. Nunca falei tão sério quanto agora, na verdade.

Estava começando a ficar difícil de falar olhando para ela. Não sei, as palavras estavam na minha cabeça, mas era como se elas simplesmente se dissipassem ao chegar na ponta da minha língua. Era isso que Lily fazia comigo.

Levantei num pulo e fui até ela e a abracei. Ela não me abraçou de volta por algum tempo, mas acabou me envolvendo com os braços. Meu queixo estava apoiado em seu ombro, meus olhos vidrados nas milhares de luzinhas dos prédio lá fora, e meu coração batia descompassado com o dela, eu podia senti-lo.

Seria mais fácil fazer as palavras saírem da minha boca agora que eu não tinha seus olhos enormes e sinceros me encarando. Era como estar despido quase o tempo todo.

E em algum momento do passado eu achei isso engraçado.

— Você ainda está aqui, Lily, porque não pode ignorar o que acontece entre a gente. É impossível. E é impossível simplesmente jogar tudo isso pro alto sem antes tentar.

— Tyler... — ela tentou se soltar de mim, mas continuei abraçado a ela.

Eu sabia que ela tentaria olhar para mim e começar a falar, mas eu continuei, aproveitando a onda de lucidez e coragem:

— Eu sei que tenho um histórico terrível e isso inspira tudo menos confiança, mas... — respirei fundo, de olhos fechados. — Você não é alguma mulher que conheci na minha vida adulta, nós nos conhecemos desde sempre, literalmente. Sei que te magoei no passado, quando éramos adolescentes e adultos e apenas melhores amigos, mas tudo está diferente agora. Eu não sou mais só o seu melhor amigo e, pra falar a verdade, nem quero ser.

Seus braços ficaram mais firmes, ela estava me abraçando de verdade agora. Respirei fundo de novo, deitando a cabeça em seu ombro.

— A gente não pode fazer tudo isso ser em vão, Lily. Você terminou um noivado e não foi pra ser ainda mais infeliz, não pode ser. A gente precisa tentar isso.

E então percebi que ela começou a chorar, fungou algumas vezes e se mexeu para secar o rosto, porém sem se soltar de mim.

— Eu tenho medo de estragar de vez nossa amizade, ela é importante demais pra mim. Mas... — ela fungou o nariz, de novo — Parece que não adianta mais fazer nada, já estragamos tudo.

— Não, não fala isso. — apertei mais o abraço e ele fez o mesmo. — A gente consegue fazer isso dar certo, Lily. Eu sei que a gente consegue.

Respirei fundo tentando me acalmar para, assim, conseguir acalmá-la também. Afastei-me o suficiente para segurar seu rosto em minhas mãos e encarar aquele olhar incisivo.

— A gente precisa tentar pra saber. — falei enquanto sequei uma lágrima que escorreu devagar por sua bochecha levemente rosada.

Lily puxou todo o ar que podia e respirou relaxando, devagar, o tempo todo olhando em meus olhos. Eu já me sentia mais calmo, porém ainda apreensivo com a incerteza de tudo.

— Sim, precisamos.