Depois de ver Lily afirmar com a cabeça e dizer com todas as palavras que concordava em tentar fazer tudo dar certo entre nós, fomos para o sofá. Ela se aninhou toda encolhida em meu abraço, e eu a apertei contra o meu corpo o máximo que podia sem que ficasse desconfortável. Depois de um tempo só ali, respirando juntos, curtindo um a existência e presença do outro, ela jogou as pernas sobre as minhas e se aconchegou mais um pouco em meu peito. Sua cabeça estava apoiada bem no centro, o que a fazia ficar deitada sobre meu coração. Aquele era o mais tranquilo, enquanto sóbrio, que eu havia ficado em quase um ano.

Ficar ali estava confortável então nem fomos para a cama, acabamos por pegar no sono ali mesmo. Contudo, acabei acordando com dor no pescoço e só então notei que estava todo torto no sofá, enquanto ela ainda estava confortavelmente encolhida e apoiada em mim. Procurei pelo relógio que ficava na parede da cozinha e vi que passava das três da manhã. Claro que depois desse tempo todo o desconforto chegaria.

— Lil? — mexi em seu cabelo, agora quase se soltando por completo do coque, enquanto chamei seu nome baixinho. Ela resmungou ainda mais baixo, mas sequer se mexeu. — Já está tarde, não é melhor dormir o resto da noite na cama?

Esfreguei meus olhos e esperei até que minha visão não estivesse embaçada. Ela resmungou de novo, mas começou a se levantar. Seus olhos estavam um pouco inchados, acho que de sono e do choro de horas atrás. Parecia a Lily adolescente que eu às vezes ia encher o saco e acordava no meio da noite quando tinha algum problema ou não conseguia dormir. Ela me xingava e me deixava entrar em seu quarto pela janela, não conseguia ouvir o que eu dizia pois estava com muito sono e acabava dormindo enquanto eu, em algum momento, acabava por pegar no sono em seu pequeno pufe ao lado da porta.

Às vezes eu nem precisava conversar, era só estar com ela que a tempestade passava.

Lily mexeu no cabelo e acabou bagunçando-o ainda mais, o que a deixou com certo charme. Ou era só eu e minha paixão ensandecida?

— Vamos. — levantei e segurei sua mão e então fomos até meu quarto.

Ela se sentou e ficou me olhando tirar os sapatos e deitar. Vi-a sorrir e fechar os olhos e deitar em seguida, com toda calma do mundo. Aconchegou-se em meu peito mais uma vez e eu a abracei.

E antes que caísse em sono profundo mais uma vez, ouvi-a dizer, bem baixinho:

— Eu te amo, Ty.

Argh, eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance, e o que não estivesse, para amar essa mulher da forma mais justa e respeitável. Mexi-me o mínimo possível e apoiei o queixo no topo de sua cabeça, levemente de lado, e assim devo ter adormecido, afinal, acordei quase na mesma posição. Felizmente, não tão dolorido. Alguns minutos de alongamento e eu ficaria bem.

Lily ficou enrolando na cama, me olhando e sorrindo de vez em quando, meio boba e charmosa, mas ainda havia uma seriedade enorme em seus olhos. Ela me deu bom dia e eu respondi com um beijo. Algo em mim me fez murmurar um "vai ficar tudo bem" antes de abrir os olhos e decidir me levantar.

Segui para o banheiro e tomei banho torcendo para que ela decidisse fazer o mesmo enquanto eu ainda estivesse ali, mas isso não aconteceu. Quando terminei, porém, encontrei-a na cozinha esperando a cafeteira terminar o café. Slash estava ali por perto, ora cheirando Lily, ora saindo de cena para comer alguns míseros grãos de ração. Assim que me viu veio todo serelepe me cheirar e me cumprimentar como se fizesse uma semana que não me via.

— Toda vez que te vejo com ele me lembro da Janis. Minha mãe cuidou dela durante o tempo que fiquei fora e ela acabou ficando por lá mesmo. — sua voz ainda estava rouca como costumava ser pela manhã. Era como se ela só começasse a, de fato, funcionar depois do café.

— Gatos não têm coração, eu te disse.

Ela riu e então foi checar a cafeteira, que pelo jeito não havia feito seu trabalho ainda.

— Ela deve ter achado que eu a abandonei. Foi muito tempo.

Slash parou de me cheirar e foi para a sala, e logo ouvimos o sininho de um de seus brinquedos. Acomodei-me perto da bancada, num dos banquinhos que eu mal usava porque mal ficava na cozinha da minha própria casa.

— Tenho que concordar com ela, também achei que havia sido abandonado. Posso te perguntar porque ficou tanto tempo fora? Pensei que seriam apenas três meses, mas....

Ela cruzou os braços e respirou fundo, apoiando-se na pia, ao lado da cafeteira que soltava fumacinha e começava a fazer o cheiro de café invadir o espaço.

— Porque eu queria fugir de você, é óbvio.

Então aquela era a conversa. Ok, psicológico, melhor estar preparado. Aquela seria a conversa sincera sobre os seis meses separados. Eu queria tanto ouvir as respostas para minhas perguntas, mas agora que parecia perto de tê-las começava a sentir um medo esquisito.

Lily continuou:

— A viagem foi a melhor coisa que podia ter me acontecido naquele momento, porque se não fosse ela, eu teria que inventar algo para fugir de você. — ela respirou fundo e ficou me olhando enquanto a cafeteira fazia barulho. Notei que suas roupas não estavam amarrotadas nem nada, como ela fazia aquilo? — Eu não suportava a ideia de te encarar e fingir que nada havia acontecido entre nós. Era impossível pra mim, e eu sabia que não seria impossível pra você, pois sempre se deu bem nisso.

Franzi o cenho, surpreso.

— Você pensou que eu fingiria que nada aconteceu? É sério? — uma risada escapou por entre meus lábios.

Eu estava indignado, como ela pôde pensar aquilo? Se tinha uma coisa que eu jamais conseguiria ignorar e fingir que não aconteceu era justamente aquela.

— Claro que pensei, você sempre foi bom nisso, em não se apegar. E sempre demonstrou isso muito bem. Depois da Diana eu nunca te vi com alguém por mais de duas semanas, além de nunca falar de outra mulher com algum tipo de sentimento envolvido.

— Mas Lil... — eu ainda custava a acreditar. — Você não era só outra mulher, você é Lilian, minha melhor amiga de infância. Conhecemos a vida um do outro, como pôde pensar que eu iria ignorar isso com tanta facilidade?

Ela ficou com o olhar perdido e deu de ombros.

— Acho que eu só me sentia insegura demais pra te encarar. Pra encarar toda essa situação, na verdade.

— Eu não sabia como poderia te encarar depois de tudo. Não sabia lidar com o fato de ter gostado de tudo e de ter tido uma experiência tão diferente como aquela.

A cafeteira fez um barulho diferente e acho que o café estava finalmente pronto, pois ela logo tratou de achar uma caneca e se servir. Algumas colheres de açúcar e ela foi em direção a sala, comigo logo atrás. Me joguei num canto do sofá e ela na outra ponta, um de frente para o outro. A pouca fome que senti ao acordar já não sentia mais, aquela conversa era mais importante e não poderia acontecer enquanto eu comia panquecas.

Não mesmo.

— Acho que o que mais me perguntei foi "por que isso demorou tanto a acontecer?", seguido de "eu achei que isso nunca aconteceria". — disse ela, depois de um gole de café.

— Eu odiava ouvir todo mundo dizendo que seríamos um casal quando a gente ainda tinha uns quinze anos.

— Sim! — uma risada escapou de seus lábios. — Eu odiava isso também. Depois descobri que simplesmente odeio quando me dizem o que fazer e como fazer e o que vai acontecer na minha vida.

— Mas, de alguma forma, sobre isso, eles estavam certos.

Lily ficou me olhando até sorrir e então voltou a se concentrar em sua caneca de café. Fiquei ali observando-a enquanto ajeitava o cabelo atrás da orelha e de vez em quando tomava um gole de sua bebida.

Aquela era a mulher da minha vida.

— Por que isso demorou tanto a acontecer, afinal? — falei.

Ela ficou alguns segundos pensando, me pareceu. E então respondeu:

— Acho que aconteceu porque nenhum de nós pensou em nada, só fizemos. Estávamos bêbados, se lembra?

Desviei o olhar sem nem perceber.

— Sim, mas consigo lembrar de bastante coisa, mesmo sabendo que bebemos muito naquela noite.

Lily ficou em silêncio e passou a se concentrar apenas em sua caneca de café. Uma tranquilidade que eu, certamente, ainda não estava acostumado, pairou sobre e entre nós. Eu ainda custava a acreditar que ela foi apaixonada por mim na adolescência e eu por ela na infância. Era como se tudo estivesse destinado a acontecer.

Quando notei que havia terminado seu café, dei um impulso para frente e fui até a sua ponta do sofá, encaixando uma das pernas entre as suas, me apoiando com uma mão no braço do sofá e a outra no encosto. Ela riu, surpresa com a minha movimentação, e eu só me vi encantado e bobo por ela.

— Isso tudo parece um sonho, mesmo eu sabendo que não é. — falei, olhando em seus olhos. Ela segurava um sorriso. — Nunca imaginei que poderia sentir algo como sinto agora, por sua causa. Por você. Nem sei bem o que dizer ou como descrever, eu só...

Vi seu sorriso aparecer e logo desaparecer quando ela me beijou. Senti sua mão em minha nuca e sua pele estava quente e confortável, como sempre. Não demorou muito e Lily estava em meu colo, rebolando daquele jeito devagar e criminoso que só ela conseguia. Acho que até a hora do almoço já havíamos transado em mais uns três lugares diferentes da minha casa. Aquela novidade era demais, não fazia sentido esperar para explorar.

E eu me divertia pensando em como nós dois juntos éramos bons em tudo. Trabalho, estudos, sexo, amizade. Eu podia listar coisas o dia todo, mas tinha mais com o que me ocupar.

...

Lily finalmente se deixou convencer e foi até sua casa buscar algumas mudas de roupa e então ela voltaria à minha. Passamos o final de semana inteiro juntos, apaixonados e livres como nunca. Eu nunca tinha visto-a tão leve e também nunca tinha me visto tão tranquilo, além da sensação de paz e leveza, que era simplesmente perfeita. Comemos junk food e bebemos muito vinho, e a única parte que não foi divertida, obviamente, foi a ressaca na manhã de domingo. Mas até aquilo podia ser divertido ao lado dela.

Em algum momento perguntei-me se aquilo duraria ou se era mais um sonho perfeito que só era real durante o final de semana. Ela, no entanto, parecia muito mais segura de si em relação a tudo. Ainda soava magoada consigo mesma por ter deixado a situação chegar até aquele ponto e ver Henry ir embora daquela forma, mas era uma Lily muito mais forte que falava agora. Era ainda mais encantadora, quando achei que não poderia ser.

Ela sempre foi boa em superar qualquer expectativa.

De alguma forma, lidar com o fato de ter magoado alguém que gostava para, finalmente, poder ficar com quem amava, a fazia continuar e querer ficar comigo. Eu mal podia dizer qualquer palavra diante daquilo tudo, só me lembrava das palavras de Henry sobre não fazê-la sofrer como vinha fazendo nos últimos meses.

O tal outro homem por quem ela, um dia, me disse ter se apaixonado, era ninguém mais ninguém menos do que eu mesmo. Parecia ridículo agora, mas eu realmente odiei saber que havia um outro cara na jogada e que esse cara não era eu. Era como perdê-la duas vezes. Contudo, ver Lily sofrer e saber que eu tinha uma boa parcela de culpa era muito mais doloroso do que vê-la com outro.

Era simplesmente impossível mensurar a sorte que eu tinha de poder amá-la daquela forma e receber o mesmo de volta.

Ela foi para sua casa no início da noite de domingo, depois de uma longa despedida. Éramos adolescentes de novo, chegava a ser ridículo e engraçado. Teríamos a chance de nos ver no escritório no dia seguinte, mas eu ainda preferia trabalhar em casa. E, além disso, não havíamos decidido por quanto tempo manteríamos nosso relacionamento em segredo. É claro que Lily queria esperar um bom tempo e eu não me importei muito, ela tinha razão nisso. Havia acabado de sair de um noivado e agora assumiria um relacionamento com seu melhor amigo e sócio. Isso era suspeito e eu não queria que ela se sentisse desconfortável em nenhum momento em relação a nós dois.

No fim das contas, contamos apenas às nossas famílias, que adoraram a notícia, é claro, e demoramos um total de quatro meses para assumir para o resto de nossos conhecidos que agora éramos um casal. Lucy ficou mais feliz que minha própria mãe, o que foi engraçado. Só não foi tão divertido quando ela fez uma brincadeira sobre cuidar dos nossos futuros filhos. Aquilo ainda era um pouco estranho, confesso.

Cheguei a ver algumas coisas na internet sobre nós dois como um casal agora e preferi me abster de saber o que as pessoas pensavam sobre nós. Eu não precisava de nada disso, só precisava focar no meu trabalho e no meu relacionamento, que, a propósito, ia muito bem.

Por inúmeras vezes cheguei a pensar em nós dois juntos e imaginei que, se fôssemos um casal, não duraríamos muito tempo. Daí então a ideia de ser arriscado demais tentar isso, pois uma vez que se termina um relacionamento, nossa amizade estaria em risco seríssimo.

Mas não era assim, pois já estávamos juntos e bem por quase oito meses. Eu mesmo tinha que me beliscar sempre que me lembrava do tempo. Tempo esse que parecia passar muito rápido agora que Lily passava dias comigo e com Slash e participava, de vez em quando, das minhas criações.

Criamos uma coleção baseada nas quatro estações do tempo e então dedicamos boa parte do nosso tempo discutindo políticas internas da R&C e também sobre abrir o capital do empresa. Lily sempre gostou do assunto e ficava empolgada quando alguém o trazia à tona, e depois de sua viagem à Inglaterra, ela havia aprendido ainda mais sobre o assunto. Contudo, depois desses meses trabalhando com novas pautas e participando do processo criativo comigo e também com o departamento de marketing, ela começou a repensar várias questões.

Muito disso, creio eu, se devia à conversa que tivera com o pai, ainda em Los Angeles, meses atrás, depois da premiação. Quando se deu conta, ainda no aeroporto, de que havia esquecido o anel de noivado no quarto de hotel, ela voltou. Eu segui e voltei à NY, mas ela voltou ao hotel e encontrou o anel, porém acabou decidindo por ficar mais um tempo na cidade.

Lembro de como ela soava triste e, ao mesmo tempo, aliviada quando me contou isso.

Ela pagou por mais três diárias e ficou no mesmo quarto de antes. Finalmente criou coragem e ligou para o pai. Os dois marcaram de se ver no dia seguinte e passaram o dia juntos. Lily relatou que teve a conversa mais sincera de toda sua vida com o pai, era fantástico ouvir aquilo dela. Ela contou a ele o porquê de ter ficado tanto tempo afastada dele e de como ele sempre teve razão sobre ela estar fugindo de mim e do que já sentíamos um pelo outro. Lily, muito boa em fingir que nada de errado estava acontecendo, não conseguia admitir que seu pai estava certo então era melhor ignorá-lo e evitar qualquer tipo de conversa que pudesse levar a esse assunto. Afinal, como ela anunciou a viagem para Inglaterra e então voltou de casamento marcado?

Óbvio que estava tentando mentir para si mesma que estava bem e não se sentia afetada pela situação comigo.

Eu, obviamente, me sentia nas nuvens quando a ouvia falar assim sobre mim. Por um bom tempo fui responsável por suas noites mal dormidas e, de alguma forma, era bom saber que eu não fui o único.

Lily e Adam se acertaram e apesar de ela não dizer isso, eu sentia que ele havia sido parte responsável em fazê-la mudar de ideia e terminar o noivado e então considerar nosso relacionamento. O Sr. Carter era realmente incrível, eu sempre o admirei, desde criança, mas só depois de adulto comecei a entendê-lo melhor e concordar com várias de suas opiniões.

E isso era bem real, não era só porque o cara agora era meu sogro. Claro que não.

Nossas mães pareciam acostumadas com Lily e Tyler sendo um casal, e era engraçado no começo. E as duas nos trataram com tanta casualidade que pareciam saber que aquilo aconteceria muito antes de nós dois. Era absurdo, na verdade. Além das duas admitirem ter torcido para que ficássemos juntos muitos anos antes. Mas então eu comecei a namorar Diana e parecia que duraria uma vida, e então Lil conheceu Edward e as coisas pareciam certas.

Mas tudo é bastante incerto, na verdade. As coisas se encaixam com o tempo, durante todo o tempo. Acho que essa foi a lição mais valiosa que aprendi na minha vida, era perigoso ter certezas. A coisa toda, na verdade, era simples: era melhor não tê-las.

Com o tempo comecei a trabalhar mais em casa do que no escritório, sendo assim, minha rotina começou a ser muito mais regrada do que antes, por incrível que pareça. Eu conseguia até passear três vezes ao dia com Slash, ele era o mais feliz com a minha presença quase constante em casa. Eventualmente comecei a pensar em me mudar, o apartamento era grande demais e eu não sentia mais a mesma necessidade daquele espaço todo e de ter uma cobertura num dos bairros mais caros da cidade.

A verdade era que namorar Lily me trazia de volta à Terra ao mesmo tempo que me fazia flutuar para longe dela. Não fazia sentido preencher minha vida com festas e superficialidades agora que eu tinha Lily. Era justamente ela a grande razão para essa transformação toda.

Algum tempo depois...

Acordei com um cheiro de queimado e só de olhar o quarto diferente onde estava, me lembrei que aquela não era minha casa. Bem, era minha casa, minha e de Lily. Mas parecia um sonho então eu ainda não havia me acostumado.

Levantei e fui ao banheiro rapidamente, lavei o rosto e decidi descer para ver o que havia acontecido. Parei na passagem da sala para a cozinha, rindo de Lily falando sozinha com as torradas queimadas. Fiquei observando-a, desapontada por estragar o café da manhã em nosso primeiro dia morando juntos, e Slash, que vivia ao pé dela agora, ficou ali ao seu lado. Eles se olharam e ela conversou com ele:

— Eu estraguei as torradas, você viu? Só alguém muito idiota pra queimar torradas, fala sério. — ela bufou e vi Slash mexer as orelhas.

Eu estava segurando a risada até o último.

— Você quer? Talvez não esteja tão queimada pra você... — ela se abaixou e colocou a torrada na mesma altura dos olhos de Slash. Ele cheirou e cheirou, deu uma lambida ou duas, e desistiu. — Droga, nem você quer isso, fala sério.

E então não aguentei e caí na risada.

Lily levou um susto e Slash veio em minha direção abanando o rabo.

— Tyler, que susto! — ela logo começou a rir também. — Há quanto tempo está aí?

— O suficiente pra ver como você é fofa estragando o café e tentando se livrar da evidência dando para o Slash comer.

— Ugh, fala sério, como alguém é capaz de queimar torradas? Eu saí por um minuto para atender o celular e de repente a cozinha estava cheirando a queimado. — ela jogou a torrada queimada na pia e então ajeitou a mecha que caía nos olhos e a colocou atrás da orelha.

— Foi você quem recusou a torradeira super moderna que desliga sozinha. — me aproximei para um beijo de bom dia e ela fez uma careta antes de me beijar.

— Eu só queria evitar comprar tantos aparelhos que nem vamos usar direito.

Lily era milionária e ainda pensava em consumo, e agora havia começado com a ideia de consumo consciente. Confesso que, em alguns momentos, duvidava de sua existência. Como podia?

— Posso tentar não queimar as torradas?

Ela riu com minha pergunta e me beijou de novo.

— Com certeza!

Lily saiu em direção ao jardim e Slash foi atrás dela. Eles estavam muito mais próximos agora, parecia até que ela era a única dona dele. Quando ainda estávamos em meu apartamento e Lily deitava no sofá para um cochilo, ele fazia questão de deitar no sofá também, aos seus pés.

Ele nunca havia feito aquilo comigo, era absurdo.

Tomamos o café da manhã no jardim, com Slash deitado embaixo da mesa. O dia estava lindo e o sol já estava forte o suficiente para te fazer suar só de ficar parado e diretamente exposto aos seus raios. O verão estava de matar, mas agora tínhamos, além de um jardim enorme, uma piscina de fundo azulzinho igual aquelas das revistas de decoração.

E se alguém me dissesse, há um ano, que eu olharia aquela piscina e pensaria em ter crianças pelo jardim e brincando na água, crianças essas que seriam meus filhos, eu riria e duvidaria até o último. Contudo, lá estava eu fantasiando esse momento da minha vida.

Eu não tinha preferência por gênero, então ficava imaginando todas as situações possíveis, e era divertido fazer isso. Imaginei um menininho de cabelo liso e castanho escuro, de olhinhos azuis iguais aos de Lily. De repente ele teria um nariz redondinho igual o meu, e talvez seria teimoso como a mãe. E se fosse uma menina, ela poderia ser igualzinha a mim, tanto na fisionomia quanto no gênio.

Aquele era meu passatempo preferido, ficar imaginando se um dia teríamos filhos, e se sim, como seriam.

Mas pelo jeito Lily percebeu que eu estava sonhando acordado assim que voltou à mesa com seu potinho de salada de frutas.

— No que está pensando?

Estávamos juntos há pouco tempo para considerarmos filhos. Bem, pelo menos era o que eu pensava que ela pensava. Ainda tinha certo receio de tocar no assunto. Uma vez, quando estávamos no ensino médio, Lily mencionou que jamais desejaria ser mãe. Era um trabalho absurdamente sério criar outra pessoa e ela não queria tamanha responsabilidade.

E prezava por sua liberdade.

Muito já havia mudado, era fato, mas de repente ela ainda pensava assim, como eu saberia?

— Na festa de hoje. — disfarcei.

Brian daria uma festa de Halloween e dessa vez não seríamos Bonnie e Clyde, e nem seria uma festança como a do ano passado. Seríamos Super Mario e Princesa Peach. Lily queria uma fantasia ridícula e eu queria que fôssemos Batman e Mulher-Gato, mas ela ganhou a aposta e agora eu teria que usar um bigode falso ridículo. Secretamente, eu torcia para sermos convidados para alguma outra festa e então ela teria que ceder ao traje justíssimo e sexy da Mulher-Gato. Imagina só chegar numa festa com uma mulher dessa do lado?

Eu era sortudo demais, fala sério.

— Ansioso pra usar sua fantasia de encanador italiano? — ela começou a rir e então gargalhar ao ver a careta que fiz ao ouvir sua pergunta.

E é óbvio que comecei a rir logo em seguida.

— Sim, com certeza. Muito ansioso pra ficar ridículo de macacão azul e bigode. — ela estava de pé, ainda mastigando sua comida, quando puxei-a para mim e ela sentou em meu colo. — Mas vou ficar ridículo com você então está tudo bem.

Ela terminou de mastigar e fez um cara de dúvida, mas logo sorriu e me deu um beijo com gosto de morango.

— Você vai ficar uma graça de bigode, do que está falando?

— Nem tente me convencer com elogios, senhorita.

— A culpa não é minha se eu também te acho bonito assim. — ela deu de ombros e eu sorri sem que visse.

Ela se levantou com pressa, de repente, e eu não entendi bem, mas logo me lembrou que levaria Slash ao pet-shop para um banho, pois ele também iria à festa. Ele iria fantasiado de Bowser. Comecei a rir sozinho só de lembrar de quando a roupa finalmente chegou pelo correio e colocamos nele.

...

Todo mundo que esbarrava em mim na festa dava risada e elogiava Slash, ele era a grande atração da noite. As pessoas tiravam foto com ele e pediam pra tirar foto com nós três. Lily, aliás, estava uma graça de Princesa Peach. Era ficava bem de cabelo loiro também — mesmo eu gostando muito mais dela morena — e até que foi divertido me fantasiar de Mario.

Ao longo da noite, depois de algumas pessoas irem embora, Brian parou por alguns minutos e tivemos uma conversa daquelas rápidas, mas sempre sinceras, afinal, havia outros convidados ali também. Entre seus comentários, ele me disse que estava feliz por me ver tão diferente e tão bem com Lily e que podia ficar tranquilo agora que sabia que eu não corria mais risco de me envolver com alguma mulher casada e ser morto pelo marido dela.

Ainda bem que aquela conversa era só entre nós dois.

E agora que ele e a mulher estavam esperando um filho, as perguntas sobre gravidez e mudanças estavam mais em alta do que as crianças que tocavam a campainha da casa atrás de doces de Halloween. Seria interessante acompanhar Brian nessa nova fase, apesar da nossa distância de sempre.

Aquela costumava ser minha época preferida. Bem, não só minha, de Lily também. Era divertido viajar nas ideias tentando decidir que fantasia vestir e sair pelo bairro pedindo doces. E, ao observar Brian e a esposa distribuindo doces a cada dez minutos quando alguém tocava a campainha, me fazia pensar em como ele ia adorar o momento que levasse o filho para pedir doces pelo bairro.

E então eu comecei a me ver naquela situação.

Paternidade agora era uma pauta frequente na minha rotina. Confesso que tinha um certo receio daquilo tudo e de onde podia chegar. Era tempo suficiente para falar sobre isso com Lily? Será que eu não estava me adiantando muito?

— Slash vai ser sequestrado daqui a pouco, as pessoas amaram a fantasia dele. — Lily me pegou de surpresa e quase derrubei minha bebida, mas acho que disfarcei o susto.

— E eu achando que nós seríamos um sucesso. — ri de volta.

— No que está pensando?

Fiz-me de desentendido e ela continuou:

— Acha que não percebi você de canto observando a festa e as pessoas? — Lily franziu o cenho e uma de suas sobrancelhas subiram num arco perfeito.

Acho que ela nunca teve noção do quanto aquilo era automático e estupidamente atraente.

— Eu fiquei?

— Acho que está ficando velho, Ty. Contemplando as coisas e pensando na vida. — ela riu, descontraída, e me abraçou a cintura.

Abracei-a de volta e respondi:

— Acho que estou sim. Estou até pensando em filhos.

Pronto, a bomba havia sido lançada.

Houve um momento de silêncio da parte dela, já que a festa continuava e o pop adolescente dos anos noventa rolava solto na sala da casa de Brian. Senti Lily apoiar a cabeça em meu ombro e notei que ela ajeitou a peruca antes de dizer:

— E o que tem pensado exatamente?

Percebi que estávamos balançando um pouco, quase como quando estamos balançando um bebê para fazê-lo dormir.

Ah, droga, eu estava pensando demais em filhos, olha isso.

— Que agora temos uma casa que é linda com nós dois juntos nela. E Slash. Mas que ficaria ainda mais linda se tivesse nossas versões menores também.

Ela levantou o rosto e me olhou no olhos, bem fundo.

— Versões? Como em mais de um filho?

Meu coração vacilou, não vou mentir. Respondi sem respirar antes:

— Sim. Mas a gente não precisa falar disso agora nem decidir nada nesse momento, Lil. Eu juro. Eu só...

E ela ficou ali, me olhando, mas ainda abraçada a mim.

— Tudo parece estabelecido com você. Tudo. Minha vida inteira. As boas ideias começam a se tornar cada vez melhores e mais certas, se é que isso é possível. — continuei. — Percebi que só consigo pensar nisso agora porque me sinto seguro como nunca me senti. E isso só acontece porque é com você que estou e quero estar sempre.

Seus olhos brilharam de um jeito diferente que eu podia ver, mesmo naquela luz, que envolvia lágrimas. Ela então me abraçou forte, inicialmente com um braço só, mas pude ouvir quando ficou mais emocionada e envolveu-me o pescoço com os dois braços e eu fiz o mesmo. Era o encaixe perfeito, sempre.

— Eu sempre quis estar com alguém que me sentisse bem como me sinto hoje. Só não imaginava que seria meu melhor amigo. — ela afastou o rosto e me beijou, e então disse me olhando bem de pertinho. — Obrigada por isso.

E ela nem sequer precisava me dizer nada, eu sabia que estávamos alinhados para o que quer que viesse no futuro. Eu simplesmente sabia. A energia não mente, somos nós que tentamos disfarçar e mascarar as coisas. Tem dias que conseguimos, somos bem sucedidos nisso, mas a verdade sempre vem à tona e tem coisas que, com o tempo, não suportamos mais.

Eu não suportava mais a vida vazia e superficial que eu vivia antes, e de alguma forma que eu julguei ser involuntária, aquela noite em que eu e Lily ficamos aconteceu. Mas não foi involuntário, eu não consigo acreditar nisso. A nossa energia estava ali o tempo todo. Quando criança eu a vi diferente e, com o tempo, julguei ser algo passageiro e absurdo. Durante a adolescência ela me viu diferente e, com o tempo, julgou ter o coração partido ao me ver com Diana a melhor coisa que acontecera pois, assim, nossa amizade não chegaria ao fim, em algum dos cenários mirabolantes que a Lily adolescente criou.

E então adultos, sentíamos a mesma coisa, o mesmo desejo, o mesmo amor, a mesma energia. Ao mesmo tempo.

E assim seria agora.

Para sempre.

Fim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!