Friendzone
17 Fusão
Sempre odiei promessas, mas quando decidia fazer uma aquilo se tornava meu único objetivo. Minha promessa agora era perder os quatro quilos que eu havia ganhado nas últimas duas semanas. Isso tudo por conta do tanto de bolo de casamento e opções de buffet que experimentei com Lily.
Claro que eu amava tudo aquilo, estar perto dela o dia todo era perfeito. Ainda mais quando seu noivinho estava fora. Ele teve que voltar à Londres a trabalho, mas voltaria depois do final de semana. Era minha chance. Chance do quê exatamente eu não sabia, mas só de ter Lily sozinha para mim era uma chance de ouro.
Fomos à quatro buffets diferentes e em todos as pessoas pensaram que eu era o noivo. Se eu queria? Claro. Se eu era? Bem, nos meus sonhos.
Contudo, mesmo depois dos quatro quilos e de ser confundido com o noivo, Lily e eu iríamos ao último restaurante. Ela estava entre o primeiro e terceiro, mas precisava avaliar todas as opções, selecionar as melhores e então ir com Henry nos finalistas.
Lilian podia ser extremamente criteriosa. E irritante.
Ouvi-a bater na porta do meu escritório ao final da tarde naquela sexta-feira e logo nos aprontamos para ir. O restaurante da vez ficava no Brooklyn e demoramos uma hora para chegar já que o trânsito não colaborou nem um pouco. Enquanto estávamos no carro Lily não saiu do celular, estava pesquisando ao mesmo tempo que respondia mensagens e falava com, adivinha só, a droga do Henry.
Tudo bem, não era culpa dele ser o noivo dela. Não era culpa dele eu estar apaixonado por ela. Mas não tinha como eu gostar do cara e virar seu fã número um e tratá-lo como meu melhor amigo só porque ele era noivo dela.
Uma vez fiz careta falando dele com minha mãe e ela quase entendeu o porquê da minha implicância. Minha mãe era a primeira pessoa que não poderia saber disso.
Enfim chegamos ao restaurante e, claro, pensaram que eu fosse noivo de Lily e eu não corrigi o chef que nos apresentou o restaurante. Ele começou a fazer perguntas sobre o casamento e Lily fez o favor de responder, é claro, afinal quem estava de casamento marcado era ela. E enquanto eles pareciam entretidos no assunto, resolvi ir ao banheiro e demorei alguns minutos já que o lugar estava ocupado. Quando voltei as amostras já estavam sobre a mesa e aquilo era perfeito, pois eu estava faminto.
— Parece delicioso, o que é? — acomodei-me com o guardanapo no colo e me ajeitei na cadeira.
— Não faço ideia. O sotaque dele é tão forte que só entendi “bom apetite”. — Lily começou a rir histericamente e eu amava o fato de ela estar de bom humor naquela noite.
— Bom, vamos lá. Espero que você ame esse, pois já engordei quatro quilos só nessas idas e vindas de buffet. — parti para a primeira garfada do que me parecia ser um carpaccio estranho e sim, a aparência fazia juz ao sabor. Primeiro identifiquei o sabor como carne com um toque forte de limão siciliano, mas na terceira garfada eu já não sabia de mais nada e só precisava de um gole de água.
— Pare com isso, você está ótimo. E aposto que ama comer de graça.
Sorri ainda mastigando, pois falar de boca cheia era feio, minha mãe era capaz de aparecer do nada como uma assombração só para me lembrar disso.
— É delicioso, minha nossa! — Lily finalmente experimentou e proclamou.
— É, com certeza. Já conseguiu… — tossi um pouco com a garganta irritada. — … adivinhar que prato… — bebi mais água, mas nada parecia melhorar.
— Ty? O que foi?
Olhei para ela e minha voz não queria sair, além da minha garganta pegar fogo. Era como se eu tivesse tomado um shot de tequila e riscado um fósforo e engolido. Tudo queimava.
— Ah, meu Deus, você está ficando vermelho.
Lily tomou um gole de água e em seguida se levantou com pressa e correu até o balcão pedindo ajuda, enquanto eu não conseguia mais falar e agora era difícil até mesmo de engolir a própria saliva. O que estava acontecendo? O que tinha naquela comida?
— Ty, vamos ao hospital agora!
Arregalei os olhos sem entender nada, mas tentei seguir o que me disse e me levantei. Caminhei com um pouco dificuldade até a porta do restaurante, mas chegando lá, precisei me apoiar na parede e tentar respirar, mas estava cada vez mais difícil. E de repente entendi que eu tinha alergia a algo presente na comida. Mas que merda! E se eu morresse de falta de ar agora?
Segurei o braço de Lily com força e ela me olhou desesperada, e por alguns segundos pensei até que havia lágrimas se formando em seus olhos.
Logo me vi novamente dentro de um táxi e eu podia ouvir a voz dela tentando me guiar calmamente para um lugar tranquilo onde eu conseguia inspirar e expirar, mas minha garganta estava completamente bloqueada e a última coisa que vi foram os olhos azuis desesperados da minha melhor amiga.
***
Senti um toque distante em meu braço e então a pele quente se esfregando sobre a minha. Abri os olhos e senti que havia areia neles de tanto que ardiam.
— Ty?
Era Lily. Eu reconheceria sua voz até perdido em sonhos.
— Lil? Preciso dormir.
Eu queria perguntar o que havia acontecido.
— Ty, se sente melhor? — senti sua mão em minha bochecha e eu podia ficar ali para sempre.
Que delícia.
Sua pele era macia como uma nuvem. Mesmo eu nunca tendo experimentado o toque de uma nuvem. Será que isso existia?
Fiz força para abrir os olhos e não consegui. Eu queria vê-la.
— Lil?
— Estou aqui. — senti suas mãos em meu rosto.
— Ah, isso. — suspirei.
Eu sentia um sono absurdo, mas não queria dormir. Queria conversar com ela, precisava vê-la. Que droga havia acontecido?
— Lil, o que houve? Droga, eu não quero dormir, me ajuda. Me ajuda a sair daqui. Lily, me leva embora, por favor. Por favor.
Aquela sensação era pior do que estar bêbado. Eu estava dopado. Ou estava sonhando que estava dopado e Lily, na verdade, nem estava ali?
Puta merda!
— Lily!
— Estou aqui, Ty. — sua voz estava mais perto e não me acalmou como deveria.
Eu queria sair daquele lugar que eu nem sabia qual era. Mas que merda, o que estava acontecendo?
— Tyler, eu estou aqui. Você está bem agora, vou te levar para casa em breve. Estamos no hospital pois você teve uma forte reação alérgica. Mas vai ficar tudo bem, eu prometo.
— Quero sair daqui. Me leva embora. Isso é um hospital não é? Lily!
Ela segurou minha mão imediatamente e eu a apertei e finalmente consegui abrir os olhos, que arderam ainda mais com o brilho da luz branca que praticamente me cegou.
— Lily, me tira daqui. Você sabe que não gosto desse lugar. Por favor, Lily, por favor.
— Shh, calma. Calma, está tudo bem.
Um aperto começou a se formar no meio do meu peito, bem no centro, no coração. A angústia fez um nó se formar em minha garganta e tudo aquilo misturado ao sono absurdo que o remédio havia me dado trazia a sensação de estar prestes a morrer.
O lugar que eu mais odiava na vida era o hospital. Qualquer um.
Eu sei que é o lugar onde se salva vidas, mas eu assisti meu pai perder a vida por quase um ano inteiro e nada me encheu de tanta raiva e tristeza como ter que ir todos os dias até o hospital vê-lo melhorar para no final morrer derrotado por uma maldita doença.
Aquele lugar me dava calafrios.
Tentei reunir forças para me levantar e quase consegui ficar sentado, mas Lily reagiu rápido e passou o braço por meus ombros e sentou na beirada da cama, me abraçando logo em seguida. Ela me abraçou apertado e eu demorei algum tempo para ficar tranquilo. Eu conseguiria suportar aquele lugar por mais algumas horas com ela ali comigo.
Quando acordei sem saber quanto tempo depois, estava em minha cama coberto até o pescoço. Olhei pela janela e o céu já estava claro de novo. Lembrei de Lily e então me levantei, mas quase deitei de novo no mesmo instante com a tontura que me acometeu. Droga.
Chamei por ela antes de sair do quarto me sentindo um zumbi faminto e ouvi sua voz distante, mais uma música de fundo. Desci até a sala e ela estava no sofá com Slash deitado em seu colo enquanto assistiam clipes na MTV.
Eu queria ter aquilo todos os dias da minha vida.
Nem percebi que fiquei tanto tempo parado na escada em silêncio apenas observando enquanto ela murmurava os versos junto de uma música que eu sequer conhecia.
— Não precisava ter passado a noite aqui. — ela virou imediatamente para trás, me vendo no alto da escada.
— Precisava saber se sobreviveria até o dia seguinte.
Slash veio correndo até mim, pulando e cheirando minhas roupas. Juntei-me a ela no sofá e ele sentou entre nós, parecia não me ver há anos. Eu amava tanto cachorro desengonçado.
— Parece que acordei de um pesadelo horrível. Quanto tempo dormi?
— Dez horas, contando tudo. Chegamos de madrugada, acho que às duas e meia. Nunca fiquei tão assustada quanto ontem. — Lily havia prendido o cabelo num rabo de cavalo alto e seus olhos estavam cansados.
— Desculpe te fazer passar por isso. Você conseguiu dormir?
Ela voltou a olhar a tevê e suspirou.
— Pouco, mas está tudo bem.
Havia algo de errado com ela. Ou eu estava viajando?
— Aconteceu alguma coisa?
— Além do meu melhor amigo quase morrer de alergia por causa de um prato que poderia estar no buffet do meu casamento? Não, Ty.
Toquei Slash do sofá e ele desceu, então me arrastei para mais perto de Lily e ela olhou para mim.
— Você pode ter passado um ano inteiro longe de mim, mas eu ainda sei quando algo está errado contigo.
Lily encolheu os ombros.
— Não passei um ano fora, pare de ser exagerado.
— Foi assim que me senti, como se você tivesse ido embora por um ano inteiro. E não tente fugir do assunto, vai, o que foi?
— Está tudo bem, Tyler. São só questões do dia a dia, nada demais e nada que valha a sua preocupação.
— Vamos ver até quando vai tentar esconder isso de mim. — sufoquei a vontade de beijar sua boca e lhe dei apenas um beijo na bochecha e me levantei. — Obrigado por ontem, você foi incrível.
Tomei café da manhã sozinho na padaria da esquina, já que Lily preferiu ir embora agora que sabia com certeza que eu estava bem. A verdade é que suspeitei da sua pressa em ir para casa, Henry não estava lá e ela não tinha nada de importante a fazer no final de semana. Na verdade ela bem que poderia ter ficado e nós dois passaríamos o dia inteiro juntos como antigamente. Mas havia algo errado com Lily e a expressão que carregava no rosto não era só cansaço.
Segui meu dia comendo tudo que não tivesse camarão na composição. No fim do dia, foi isso que quase me matou. O prato que o chef do restaurante nos serviu tinha uma pequena porção de camarão impossível de ser vista, e eu jamais havia experimentado camarão em toda minha vida, por mais incrível que isso pareça. Pelo menos agora eu sabia o que evitar.
Ao final da tarde comecei a ficar estupidamente entediado. Havia passado um tempo jogando videogame, e então tentei começar uma série de crianças nos anos 80 que Lily me encheu o saco para assistir, mas acabei desistindo de continuar o segundo episódio.
Resolvi então que deveria sair, afinal, já fazia tempo demais.
Tomei um longo banho e vesti minha melhor roupa, que já não era novidade. Acho que eu precisava renovar o guarda-roupa. Borrifei meu perfume preferido algumas vezes — e por preferido me refiro ao perfume que fiz apenas para mim — e me olhei no espelho antes de sair. Eu não era o mesmo Tyler Reed de antes, mas ainda tinha algo dele em mim.
Era o suficiente.
A primeira parada foi no PJ Clarke’s, meu bar preferido. Pedi um uísque e fiquei observando o ambiente. Notei uma loira estonteante me olhando do outro lado do balcão e quando ela sorriu para mim tive certeza de que eu, definitivamente, ainda era o mesmo Tyler Reed de antes. Pensei em pedir para o garçom enviar-lhe uma bebida por minha conta, mas seria muito melhor ir até ela.
— Espero que não deteste caras diretos. — sentei no banco ao seu lado e falei olhando em seus olhos. Eu ainda não sabia se eram verdes ou azuis.
— Espero que não deteste mulheres diretas.
Ai, ai, ai…
— Tyler. — estendi a mão e ela me cumprimentou de volta.
— Monica.
— Além de linda é direta. Isso só pode ser uma armadilha das boas.
Monica tinha os cabelos curtos até os ombros, num corte reto. Tinha o rosto oval e os olhos pareciam mudar de cor o tempo todo. Verdes ou azuis, eu não me importava. Ela era lindíssima. Tinha os lábios finos assim como o nariz, e traços europeus. Quando ela esticou o braço para pegar seu martini notei a tatuagem de rosa que seguia do pulso, onde ficava o botão, até o final do antebraço. Era colorida e linda.
Sempre tive problemas com mulheres tatuadas.
Na verdade sempre tive problemas com mulheres. Elas eram todas irresistíveis.
Monica era cineasta e inteligentíssima, de um nível insuportável. Ouvi-la falar sobre qualquer coisa usando aquelas palavras difíceis que fazia parecer fáceis de aplicar me dava um tesão incrível. E realmente era direta como disse, não chegamos a ir até meu apartamento, mas o seu.
Ela tinha um olhar poderoso e eu tinha certeza que outros homens tiveram a mesma sensação de serem capturados, assim como eu tive. Monica parecia perigosa, era perfeito.
— Como é o nome dela? — ela estava sentada em sua poltrona, do outro lado de seu quarto, enquanto eu ainda estava na cama.
— Desculpe, não entendi.
— Você está aqui, mas sua mente não. E eu pude te ouvir murmurar algo, mas não consegui decifrar. — Monica fumava um cigarro e falava entre uma tragada e outra. Ela era estupidamente eloquente.
— Não tem ninguém.
— Mas é claro que tem. Não julgo quem transa com estranhos para esquecer conhecidos. Faço isso o tempo todo.
Nunca me senti tão exposto quanto naquele momento.
— Não se sente mal?
— Não. — ela deu de ombros. — Já me sinto mal o suficiente por outras coisas.
— E conseguiu esquecer a pessoa?
Ela olhou para mim e deu uma risada amarga.
— Jamais.
Que merda.
Ela prosseguiu: — Não precisa ter medo de se tornar essa pessoa. Quanto mais cedo aceitar, melhor.
Aquela frase me assombrou pelo resto da noite, que passei em claro, obviamente. Minha ideia era ter passado a noite com ela, mas depois dessa conversa e do quanto isso pesou em minha consciência e existência decidi ir embora. Peguei um táxi e desci dois quarteirões antes do meu. Algo em andar pelas ruas vazias de Nova York me deram o mínimo de paz.
Mas quando um cara estranho de capuz veio andando em minha direção essa ideia me pareceu idiota e absurda. Felizmente ele não me assaltou, devia ser só um estranho ou alguém como eu, que apreciava caminhar pela cidade sozinho e durante a madrugada. Caminhei pelo que me pareceu pouquíssimo tempo, mas suficiente para me fazer chegar a conclusão de que estava fadado a amar Lily para o resto da minha vida sem poder tê-la comigo. O meu problema nem era aceitar que talvez ela não me amasse igualmente, ou ainda que amasse outro. Meu único desejo era sua felicidade. Porém o meu maior problema era não saber por que ela fingia que aquela noite não havia acontecido.
Aquilo tudo rolou e dias depois ela estava indo para Londres e sem sequer se despedir de mim. Era impossível entender. Ou não, pois para mim era claro, ela estava fugindo.
E quando voltou me jogou a bomba no colo: estava de casamento marcado.
O que parecia ser o roteiro perfeito de um filme hollywoodiano agora havia se tornado um projetinho medíocre de baixo orçamento que não teria mais que meia dúzia de pessoas na estreia. Esse filme era a minha vida.
Domingos eram detestáveis, então me ocupei o dia todo no Brooklyn, no restaurante da minha mãe, o Melinda’s Home Cooking. Eu adorava passar a tarde por lá, observando todos naquela movimentação frenética e vendo o quanto aquilo fazia minha mãe feliz.
Ela criou coragem para investir num restaurante um ano após a morte do meu pai. Acho que o trabalho ocupa a maior parte da sua vida agora, e isso é o suficiente para não deixá-la cair numa depressão de saudade do marido. Meus pais foram casados por trinta e um anos, e passar três décadas ao lado de uma pessoa não é algo que se supera facilmente. Tem dias que sinto que não superei a morte dele, e só passei vinte e dois anos da minha vida com ele.
Fico olhando para ela através da abertura que deixa os clientes observarem a movimentação na cozinha e penso em meu pai e no quanto ele estaria feliz de ver minha mãe finalmente fazendo seu talento ser seu trabalho. Ele sempre a incentivou.
Quando eu era mais novo e pensava em relacionamentos sempre tive em mente o casamento dos meus pais. Acho que é normal para qualquer privilegiado como eu que teve seus pais morando juntos e felizes durante toda a vida. Porém quando Diana me chutou junto com o anel de noivado que lhe ofereci, toda a magia que acreditei um dia poder ter, como meus pais tiveram, foi por água abaixo. E agora eu não poderia sequer pensar que havia chance para isso ainda acontecer comigo. Era melhor conhecer outras mulheres no meio do caminho e seguir assim.
Como Monica me disse, quanto mais cedo aceitasse, melhor seria.
O restaurante fecharia à meia-noite, porém eu não ficaria até fechar, mesmo querendo muito. Eu queria poder voltar para casa com a minha mãe e conversar com ela sobre seu dia, passar um tempo assistindo o noticiário na tevê e comentando qualquer coisa sobre as notícias ou xingando políticos como a gente sempre fazia. Mas aquele era um domingo, e mesmo se eu quisesse, Lily me enviou uma mensagem sobre uma reunião importantíssima que teríamos na manhã seguinte.
Era óbvio que eu não poderia bancar o Tyler fanfarrão de antes e ficar até tarde acordado, depois ir dormir como se no dia seguinte eu não precisasse ir trabalhar cedo.
Eu havia me tornado adulto sem sequer perceber. Era estranho.
Cheguei às 07h40, o que era um milagre ridículo. Eu nem sabia porque estava em meu escritório, mas estava. Deixei minhas coisas e fui até a cafeteria para começar o dia, oficialmente.
E era tão cedo que ainda não havia café.
Comecei a procurar pelo pote onde o pó deveria estar e quando finalmente o achei quase derrubei no chão com o susto que levei ao ver Lucy se assustar com a minha presença.
— Desculpe, é que nunca te vi aqui tão cedo.
— É assustador, né? Eu sei. — respondi, rindo.
— A viagem da Lily te fez bem no final.
Dessa vez não respondi, só dei um sorrisinho falso e ela prosseguiu:
— Pode deixar que faço o café, estou acostumada a ser a primeira.
— Obrigado, Lucy. — voltei com a minha caneca para o meu escritório, mas parei e fiz uma pergunta antes de me afastar de fato: — Sabe algo sobre essa reunião importantíssima que Lily e eu temos hoje?
Lucy parou um pouco, pensando.
— Acho que é algo sobre uma apresentação. Ela foi super discreta sobre isso, na verdade, não sei muito sobre. Desculpe.
— Não precisa se desculpa, Lu. Lily é estranha e tem ficado cada vez mais estranha com o tempo.
Ela riu de mim e finalmente voltei à minha sala. Lily, a estranha, apareceu às 8h30 e pareceu mais chocada que Lucy ao me ver ali.
— A reunião será às 10h. Não precisava chegar mais cedo. — disse ela quando se sentou à frente da minha mesa.
— Então por que me pediu para chegar mais cedo?
— Porque assim você não chegaria tão atrasado.
— Sobre o que é essa reunião, afinal? Você não quis me dizer.
Lily estava lindíssima, usava um vestido preto de mangas curtas, justo na cintura e levemente pregueado na saia. Seus olhos estavam maquiados com delineado e os lábios não tinham cor, mas sequer precisavam. Eu queria beijá-los a qualquer momento. Não precisava de cor nenhum para isso, só a natural.
— Sobre minha viagem à Londres. — havia um sorriso em seu rosto que eu não via há algum tempo.
Era o sorriso de uma mulher que amava seu trabalho.
Eu adorava aquilo antes mesmo de saber de verdade o que era.
— Não pode me dar um spoiler?
— E qual a graça? Não, não posso. Só posso dizer que você vai adorar. — ela continuou sorrindo, animada.
Mais algumas horas enquanto eu fazia pesquisas sobre meu produto C e ela bateu à minha porta de novo. Era hora da esperada reunião.
Cheguei à sala e eu nunca tinha visto aquele lugar tão cheio, havia uma meia dúzia de homens de terno que falavam num sotaque britânico enquanto Lily digitava algo em seu notebook. Acomodei-me na cadeira de frente para a enorme tevê que tinha a imagem de um logo que eu não conhecia, mas que estava junto com o nosso.
Os homens de terno olharam de Lily para mim e eu os comprimentei com um bom dia. Minha sócia então começou a falar:
— Pessoal, esse é Tyler Reed, meu sócio e melhor amigo. A mente criativa por trás dos nossos melhores produtos.
Eles me cumprimentaram novamente, agora apenas com um aceno rápido e eu fiquei tímido de repente. Lily estava brilhando de felicidade e eu comecei a ficar ansioso e com as mãos suando frio sem saber do que aquilo tudo se tratava.
— Preciso começar essa apresentação dizendo que é um prazer enorme ter todos os senhores aqui conosco, finalmente, depois de tantas reuniões e discussões. E nosso projeto finalmente saiu e eu não poderia estar mais feliz de poder apresentá-lo, oficialmente, a todos vocês.
Projeto? Que projeto?
O que era aquilo?
Lily continuou a falar e agora slides passavam na tela e imagens de cosméticos em geral como hidratantes e produtos de cabelo e maquiagem pipocavam diante dos meus olhos. Eu não conseguia acompanhar direito, mas de repente todos aplaudiam e Lily estava mais reluzente do que antes, sorrindo feliz da vida e olhando para os senhores de terno.
O resumo da ópera: nossa empresa agora ampliaria sua produção muito além de perfumes, e teria uma marca de maquiagem, produtos para pele e cabelo. Isso tudo com uma fusão com uma empresa britânica.
E eu só sabia disso agora. Depois de todo esse tempo. Todo esse tempo.
A fúria cresceu em mim antes mesmo de eu sair da sala.
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