Friendzone
18 Mudanças
Já fazia mais de dez minutos que eu estava sozinho em minha sala olhando aquela imensidão de edifícios à minha frente. Alguém em algum daqueles prédios estava fazendo a mesma coisa que eu, porém duvido que tão furioso.
Eu esperava ansiosamente por Lily, ela me devia explicações detalhadas do que havia sido aquela patacoada toda na sala de reunião. Meu sangue ainda fervia e eu precisava me concentrar com muita força para inspirar e expirar. Uma das coisas que mais odeio na vida é ser deixado para trás ou ser o último a saber sobre algo. E o que Lily fez? Assinou um acordo para uma fusão com uma empresa britânica sem meu consentimento. E além de tudo, sem sequer me avisar.
Uma porra de uma fusão!
A batida na porta me desconcentrou de minha fúria e não virei a cadeira para ver quem era.
— Tyler, o senhor Jameson está na linha. Você não atendeu minha ligação, então… — era Lucy.
— Não atenderei ligações hoje, Lucy.
Percebi que ela hesitou em insistir para que eu atendesse a maldita ligação, mas decidiu fechar a porta e me deixar. Eu queria que Lily entrasse por aquela porta, não Lucy. E a filha da mãe só fez isso quase uma hora depois. E eu ainda estava virado para a janela e os prédios.
— Podemos conversar? — ouvi-a fechar a porta e logo me fazer a pergunta mais idiota do dia.
— Acho que essa conversa deveria ter acontecido alguns meses atrás, não? — finalmente virei a cadeira e vi Lily encolher os ombros.
— Tyler…
— Por que fez isso comigo, Lily? E não estou perguntando como seu amigo.
Ela ainda estava parada no mesmo lugar, no caminho entre a porta e a cadeira à frente da minha mesa.
— Eu posso explicar tudo, Tyler.
— Esse é seu momento. Use-o.
Lily respirou fundo e se aproximou, logo se acomodando em uma das cadeiras.
— A ideia de ampliar nossos produtos é antiga, e não é novidade para você. Eu quis planejar algo bom o suficiente para te convencer.
— Aquilo tudo que você apresentou não foi só pra me convencer. Você já convenceu quem precisava e tudo está feito. Essa era sua explicação? Você já foi muito melhor.
— Eu sabia que isso aconteceria… — ela estava tensa e com a voz baixa, trêmula.
— Então por que fez? Ainda não consigo entender porque minha melhor amiga e sócia fez isso. Estou aqui há uma hora tentando entender por que você fez tudo isso pelas minhas costas e eu simplesmente não consigo! Você não é assim!
Eu já estava de pé e andando pela sala a essa altura. Meu sangue fervia e meu coração batia quase fora do peito. Aquilo era um ultraje, eu me sentia não só deixado de lado, mas um inútil que não servia para nada de importante naquela empresa.
E eu era só o co-fundador dessa merda toda.
— Eu estava com raiva de você! — ela se levantou ao mesmo tempo que seu tom de voz.
— Você nunca tomou decisões desse tipo baseadas em emoções, Lily. Que história é essa agora?
— Nós recebemos a proposta deles e eu não comentei com você. Nós brigamos e então eu fiquei mal e decepcionada com tudo aquilo e morrendo de raiva de você e aceitei a viagem e estava pronta para ouvir a proposta deles. Mas…
— Mas o que, Lilian?!
E então me lembrei. Nós transamos. A noite mais improvável e satisfatória da minha vida, junto da manhã mais caótica de todas. E logo na sequência ela foi viajar e por pouco não iria sem sequer me dar tchau.
Que. Porra.
— Você decidiu viajar e dizer para os britânicos babacas que nossa empresa se juntaria a deles assim de repente, e tudo porque você estava com raiva de mim? Tudo por causa daquele…
E então eu sentia que havia um caroço em minha garganta, como se tivesse engasgado. Eu culpava Lily por fugir daquele assunto, mas eu também não conseguia falar daquilo em voz alta. Não com ela.
Por que minha vida parecia escapar por entre meus dedos e se tornar um caos?
— Se passasse pela minha cabeça que essa seria sua reação eu teria voltado para casa muito antes. Eu só pensei no nosso sucesso, Tyler. Você mesmo disse outro dia que está ficando cansado dessa rotina. Essa fusão é uma novidade, trabalharemos com uma nova equipe, com novos produtos. São novos desafios pela frente, isso é perfeito para nós…
— Pra você. É perfeito pra você, que sabia de tudo. Que orquestrou tudo pelas minhas costas e do outro lado da porra do planeta.
Eu estava decepcionado com tudo aquilo, mas principalmente com ela. Era impossível entrar na minha cabeça que Lily havia feito aquilo tudo pelas minhas costas. Aquela empresa também era minha, por mais irresponsável que eu tenha sido em algum momento no passado, metade daquilo tudo era meu! E eu poderia ter concordado com tudo se soubesse da ideia, mas por que ela foi fazer isso comigo?
— Você mudou, Lily. Eu juro que não queria acreditar, mas você mudou. — dei passos para trás, me afastando dela. E aquilo tudo parecia loucura demais, mas ela parecia começar a ter lágrimas nos olhos. E podia chorar que eu não me importaria dessa vez. — Voltou de viagem com um noivo e uma empresa na bagagem. O próximo passo é me fazer assinar documentos para que você tenha todos os direitos da nossa empresa e então se mudar de vez para Londres? É isso?
— Ty…
— É isso?!
Ela se sentou de novo, com os ombros encolhidos e o rosto borrado de maquiagem.
— Olha o tipo de coisa que estou pensando da minha melhor amiga! Olha o que estou pensando depois do que você fez! Você é a pessoa que mais confio nessa vida, eu não decidi criar essa empresa toda por nada, eu decidi trabalhar nisso tudo com você porque era você! Porra, o quê que está acontecendo?
Eu sabia que Lucy estava ouvindo tudo porque eu não conseguia controlar meu tom de voz. Aquilo me tirou do sério de um jeito que eu não estava esperando. E vê-la chorar era ainda pior, pois Lily nunca chorava. Ela nunca se arrependia de suas decisões porque elas eram sempre muito bem pensadas e consultadas. Que merda aconteceu com ela dessa vez?
— E se essa droga de fusão não der certo? Se ampliar os negócios for a pior decisão de todas, quanto vamos perder nisso? — respirei fundo e tirei o casaco e o joguei na cadeira, mas acabou caindo no chão devido a distância.
Seu silêncio estava começando a me deixar ainda mais irritado. Inspirei o mais fundo possível e me aproximei dela, fiquei de joelhos e logo na altura de seu rosto. E, de repente, aquela proximidade foi uma péssima ideia. Mas aquele não era o momento de sucumbir aos meus desejos apaixonados.
Mas que porra estava acontecendo com a minha vida agora?
— Lilian, está acontecendo alguma coisa com você, é isso? Eu preciso de respostas. Você me privou delas por meses enquanto esteve em Londres e agora está aqui e não tem mais desculpas, não tem fuso horário, não tem nada! Olha para mim!
— Não está acontecendo nada. — disse ela ao levantar o rosto finalmente e limpar a maquiagem borrada.
— Ah não? O maior passo que essa empresa já deu foi você quem deu sozinha. E agora está aqui chorando porque não consegue me explicar direito o que aconteceu e como ficaremos daqui para frente. Essa não é você. Eu não conheço essa Lily.
Ela levou o tronco para frente em um segundo e ficou com o rosto a centímetros do meu. Engoli seco na hora.
— Então o que acha que aconteceu com ela?
Aquela pergunta estava cheia de tristeza e escuridão, e de um jeito que eu jamais imaginei ouvir dela. Mas criei coragem e respondi, ainda pertinho de seu rosto com lágrimas.
— Eu a perdi no dia que transei com ela, não foi?
Aquele minuto durou pelos próximos dois anos da minha vida. Lily arregalou seus olhos azuis e ficou assim por um bom tempo.
E por tudo o que é mais sagrado nesse Universo, eu só pensei aquilo. Meus pensamentos, felizmente, não se tornaram palavras.
Lily, na verdade, estava de olhos arregalados me encarando porque o que eu disse foi:
— Ela foi à Londres e nunca mais voltou.
Ela respirou fundo algumas vezes, secou o rosto e se levantou, logo saindo da minha sala sem dizer nenhuma palavra. Arremessei um porta-retrato na parede segundos depois. Ele guardava uma foto nossa de quando éramos crianças e eu amava aquela foto e amava ter aquela lembrança comigo. Aquela menininha da foto ainda era minha melhor amiga e havia se tornado uma mulher incrível e uma excelente profissional.
Porém agora era como se eu não a conhecesse. Como eu podia estar apaixonado por ela?
***
Três semanas. Nenhuma ligação, nenhum e-mail, nenhuma mensagem qualquer. Aquilo queria dizer que ela não se importava ou que sabia que eu precisava de espaço?
Eu não havia ido trabalhar em três semanas, desde minha briga com Lily no escritório. Não havíamos nos falado desde então. Era um recorde. O máximo que ficamos sem nos falar foram 13 dias, quando éramos adolescentes. Deixei-a numa festa sozinha, bêbada, e ela acabou contando a Andrew Smith que era apaixonada por ele e depois morreu de vergonha porque ele disse que não gostava dela. Eu havia prometido impedi-la de fazer algo do tipo, mas me distraí facilmente com Diana e acabamos passando boa parte da noite num quarto de alguém que eu nem sabia quem era.
Fiquei um tempão me sentindo culpado, mas Lily finalmente aceitou ouvir minhas desculpas 13 dias depois da festa e as pazes foram oficializadas depois de eu levá-la ao Taco Bell. As coisas eram tão fáceis de resolver naquela época.
Problemas adolescentes, que saudade.
Eu já estava considerando viajar por alguns dias, talvez Vermont, quando recebi uma ligação. O contato que surgiu no meu visor era do telefone da empresa, então havia grandes chances de ser Lucy. Não atendi. E se quisessem falar comigo, que viessem até mim. Se eu era tão útil para a empresa que sequer precisava saber sobre essa maldita fusão, por que eu seria útil trabalhando lá?
Passei os dias lendo e assistindo tudo o que eu tinha de atrasado. Foi perfeito. Assisti uma série sobre viagem no tempo e li três livros, um por semana. Eu poderia me acostumar facilmente com essa rotina. E Slash também. Passeamos pela cidade todos dos dias, uma vez durante o dia e outra durante a noite. Pude conversar com vizinhos e até fiz amizades com algumas crianças que brincavam pela rua, elas adoravam ver Slash desfilando suas bandanas e eu sempre parava por uns dez minutos para que pudessem brincar com ele também.
Eu precisava de férias e nem sabia. Sempre tirava um mês e viajava para algum país bem distante e nunca tive motivos para reclamar, mas eu nunca havia realmente explorado algum lugar e as pessoas das cidades. E agora que podia fazer isso na minha cidade, pela primeira vez, era surpreendentemente perfeito. Até Lily estragar tudo.
Cheguei em casa por volta das 19h, numa terça-feira, depois de uma caminhada com Slash. Ele chegou e foi direto para a caminha, que ficava perto da porta que dava para a sacada, e se deitou esparramado, enquanto eu fui à cozinha e me servi de um copo d’água e me juntei a ele na sala de estar. E foi então que vi que alguém já ocupava meu lugar no sofá.
— Já podemos resolver isso como adultos? — disse Lily, séria, com seu cabelo preso num coque firme e o rosto sem maquiagem. Ela parecia a Lily da faculdade que só usava jeans e camiseta branca.
— Se já tiver voltado a ser adulta, acho que sim, podemos. — sentei-me na outra ponta do sofá.
— Sinto muito, Tyler.
— Jura?
— É, eu juro. — ela se virou para mim, sentando-se de pernas cruzadas.
Havia algo de muito errado com ela, Lily nunca se mostrava impaciente assim em tão pouco tempo.
— Que merda, Tyler. Acha que eu teria feito tudo isso se soubesse que você reagiria assim?
E então foi minha vez de ser impaciente e sentar virado para ela. E foi quando notei que Lily estava realmente mal. Mas eu não podia ceder assim tão fácil.
— E como achou que eu reagiria? Que adoraria tudo isso? Essa empresa também é minha, Lily. Ainda não consigo acreditar que minha melhor amiga me excluiu de algo tão importante assim.
— Você nunca se mostrou interessado nos negócios, sempre quis saber das fórmulas e dos produtos e fragrâncias e mulheres. Por que que raios eu deveria pensar que você ligaria?
— O quê? De que merda você está falando? Eu nunca me importei com a nossa empresa?!
— Quantas reuniões você perdeu porque na noite anterior estava bebendo e transando com alguém que nem sequer se lembra? — havia olheiras sob seus olhos cansados.
— E isso te dá a razão em decidir fundir a nossa empresa com uns britânicos almofadinhas que nem o seu noivo?! — foi a gota d’água para mim. E para ela também. Fiquei de pé e comecei a andar de um lado para o outro como um problemático.
— Você o odeia, não é?
— Quê?
— Ah, minha nossa, eu sou tão idiota. Fiquei maluca pensando que você adoraria saber que eu vou me casar e que se daria bem com Henry, mas você o detesta. Detesta o fato de eu estar construindo uma vida que não tenha você. — foi a vez dela de ficar de pé, e agora havia lágrimas em seus olhos, mas não do tipo triste. — Você se tornou a pessoa mais egoísta que conheço, Tyler. Nem sei mais quem você é.
Lily então deu meia volta e foi em direção a saída e aquilo me partiu de um jeito que nunca senti. Ela estava decepcionada e magoada, mas eu nunca havia visto aquilo antes. Era como se eu a tivesse perdido para sempre. E não para Henry ou qualquer outro cara idiota, o que não seria tão ruim como o que vi naquele momento, mas simplesmente perdido.
— Lily, espera. — fui atrás dela. — Querer ter você na minha vida como antes é ser egoísta? Se você acha que sim, então, realmente, sou um filho da puta egoísta. Foi você quem fugiu do país por seis meses e voltou diferente. Mas se quer jogar a culpa em mim e fugir de novo, tudo bem. Já me acostumei.
***
Dois meses depois
Mãos macias passeavam por entre meus cabelos me embalando num sono perfeito. Seu perfume era adocicado na medida certa, mas não tinha minha assinatura. Era um Dior. Senti as mãos então passearem por meu pescoço, seguindo por meu peito nu. Eu estava sem camisa.
Abri os olhos finalmente e ela sorriu para mim. Eu reconheceria aquele sorriso em qualquer lugar do mundo.
— O que houve com você, querido? A vida não te tratou tão bem quanto imaginei?
Fiz força para me levantar e me arrependi no mesmo minuto, pois a tontura que tive quase me fez deitar de novo.
— O que houve? Como isso aconteceu? Como… — pisquei várias vezes me certificando de que ela realmente estava ali. — Como viemos parar aqui?
— Não me diga que também esqueceu das outras vezes que nos encontramos? Ficarei magoada. — ela riu e fez carinho no meu rosto.
E eu me lembrei das outras vezes que nos vimos, ela foi até no meu escritório. E me deu o quadro de presente. Mas como chegamos até ali? Eu estava sem camisa, deitado em seu colo, depois de beber no mínimo mais de quatro doses de uísque. Por que eu não conseguia me lembrar? E por que me sentia tão estranho?
Meu celular vibrou sobre a mesa de centro e um número desconhecido brilhou na tela. Atendi o mais rápido possível:
— Alô?
— Tyler? Sou eu, Henry.
Ugh, aquele almofadinha metido a besta.
— Sim, sou eu. No que posso ajudar?
— Lily está com você?
Bufei antes de responder:
— Não.
Já fazia mais de um mês que não nos víamos. Por que diabos ela estaria comigo?
— Por acaso sabe onde ela pode estar?
— Você é o noivo dela, é você quem deveria saber disso. Por que eu saberia? Nós não nos vemos há semanas.
Na escala de “Quão puto você fica quando alguém menciona o nome dela?” eu fui de 0 a 100 em um segundo. E com o noivo dela na linha. 10 pontos pra mim.
— Não sei, é que… você a conhece tão bem, imaginei que saberia. Ela não atende o celular e Lucy não a viu hoje a tarde. Talvez seja coisa da minha cabeça, desculpe ter te atrapalhado, agradeço a atenção.
Ah, merda, agora eu estava me sentindo mal por tê-lo tratado daquele jeito. Droga de almofadinha educado e gentil.
— Desculpe, cara… eu… — suspirei. — Se conseguir falar com ela, me avise por favor. Tentarei contatá-la também, mas não fique preocupado, não deve ser nada. Já tentou ligar para a mãe dela?
— Lucy fez isso por mim, ela não está com a mãe. Mas obrigado, te aviso se tiver notícias.
Terminei a ligação respirando fundo. Onde diabos Lily se meteu?
— Ainda fico surpresa de ver que você e Lily são amigos até hoje. — ela falou e me fez lembrar de sua presença.
Como cheguei nesse ponto da minha vida?
— Eu não ficaria. — olhei pela sala rapidamente e achei minha camisa jogada no chão, ao pé do sofá. Logo vesti-a e me levantei, indo em direção a cozinha. — Sinto muito por hoje, mas preciso sair.
— Você ainda é incrivelmente solidário quando se trata da Lily, não é? Realmente, não mudou nada.
Parei no caminho de volta a sala, com meu copo d’água na mão.
— O que quer dizer com isso?
— Ty, sejamos sinceros, você sempre fez tudo que ela quis.
E antes que pudesse perceber eu já estava na defensiva.
— Ajude-me a lembrar, por favor: por que deixei você entrar na minha vida de novo, Diana?
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