Friendzone

4 Bonnie e Clyde


Notas iniciais
We are back!

Termino os últimos ajustes da minha roupa, penteio o cabelo com gel e só consigo pensar em como essa festa será legendária. Pego o chapéu em cima da cama e olho o relógio: faltam quinze para as oito. Hora de buscar Bonnie.

Não faço uma surpresa tão incrível como essa desde o aniversário de vinte anos de Lily, quando fiquei a tarde toda na casa dos meus pais preparando, sozinho, um bolo de aniversário, sabor chocolate infinito. E sim, eu gosto de dar uma de mestre cuca de vez em quando, puxei minha mãe, que comanda um restaurante no Brooklyn e me fez crescer atento para não comer tudo de gostoso que preparava. Bem, de gostoso já basto eu.

Lily sempre foi uma garota simples, até hoje é assim. Eu sou o extravagante. Então, na época, achei que seria uma boa preparar um bolo e escrever o nome dela com chantilly em letra cursiva, mas que saiu quase como um borrão porque eu apenas me aventuro na cozinha, não sou nenhum Cake Boss. O que realmente importa é que ela gostou e ficou estupendamente feliz com meu esforço em agradá-la com algo que não era só comprar e embrulhar.

Lily adora essas filosofias malucas.

E agora estou aqui dirigindo um Ford V8 1934 preto e reluzente, só para fazer todo mundo olhar para mim. E me sinto o máximo quando eles olham. Se não o trânsito não estivesse tão lento, eu encarnaria o próprio Clyde e aceleraria até o limite para buscar Bonnie, minha parceira da vida toda.

O pior é que o carro não acelera muito, mas não importa, é uma surpresa para Lily e ela merece. Aposto que vai fazer a cara de sempre: incrédula no começo e depois dizendo “não acredito, Tyler, você é um desgraçado, como fez isso?”, seguido por seus sorrisos um atrás do outro e os olhinhos azuis brilhando de orgulho do melhor amigo.

Meu chapéu está no banco do passageiro, junto com minha arma de brinquedo escondida debaixo dele. Vai que alguém resolve olhar dentro do carro, acha a arma e pensa que sou um maluco que pensa ser a reencarnação do Clyde e que quer matar meio mundo? Melhor me prevenir.

Finalmente chego ao prédio onde Lily mora, também em Manhattan, mas a algumas quadras do meu prédio. Acho que morar por quase duas décadas na mesma rua, estudar na mesma faculdade e trabalhar junto comigo, a fez querer fingir que conseguiria ficar longe de mim, por isso escolheu um prédio a sete quadras do meu.

Estaciono em frente ao prédio e vejo vários olhares direcionados ao carro. Coloco o chapéu e me sinto o próprio bandido prestes a encontrar sua parceira de crime. Saio ligando para Lily e quando as pessoas que passam na rua olham do carro para mim e vice-versa, penso na ironia que é alguém que parece ter saído de um filme dos anos 30 usar um iPhone em frente a um prédio de luxo em Manhattan.

Louco, não é?

Louco mesmo é Lily não me atender, mas quando penso em ligar de novo recebo uma mensagem sua dizendo que já está descendo. Enquanto espero por ela, um garoto meio tímido vem até mim e me pede para tirar uma selfie dentro do carro — eu sei, a foto deveria ser comigo, é um absurdo — e eu até daria alguns segundos a ele para tirar a foto, mas vejo Lily surgir e passar pela entrada do prédio e isso tira toda minha atenção.

Ela é a Bonnie mais perfeita que já vi. Nunca vi muitas, aliás, nem me lembro de ter assistido ao filme, mas não importa, Lily é a mais bonita. Está vestindo uma saia marrom claro, daquelas mais compridas do que o normal, mas perfeitas para a época, e salto alto, o que ela geralmente usa quando trabalha, o que não é uma surpresa para mim. Uma blusa amarela de mangas curtas e um lenço amarrado no pescoço. A boina que usa agora tem um tom de bege, cor de areia, e a peruca loira que usa por baixo fica perfeita nela.

Lily fica linda de loira, mas com uma expressão séria demais. Parece que ainda está brava comigo por ontem, mas quando me vê vestido a caráter e o carro logo atrás de mim ela paralisa.

Eu até consigo vê-la pensando: “O que esse maluco faz parado na frente do meu prédio... Ah, é o Tyler”.

— Eu sei que você está achando que eu não te reconheci, idiota. Mas você é o único maluco capaz de aprontar uma coisa dessa.

Até tento encontrar alguma gracinha para dizer, mas ela anda até mim e para bem perto. Sorri e por um segundo esqueço que a loira na minha frente é Lily, minha melhor amiga de infância.

— Hã... Vamos?

— Espere.

Ela abre a bolsa e tira um batom vermelho e um espelhinho de dentro. Entrega-me o espelho para que eu segure enquanto passa o batom. Depois faz um biquinho e sorri para mim.

— Como estou?

— Linda.

— Obrigada Clyde, você está ótimo também. — ela pega o espelho da minha mão e o guarda de volta na bolsa junto com o batom — O que foi? Por que está me olhado desse jeito?

— Aposto que Clyde olhava assim para a Bonnie.

— Sim, sim. Vamos.

— Espera, quero uma foto!

Olho em volta e vejo que o garotinho ainda está ali, olhando embasbacado para minha Bonnie. Sorrio para ele.

— Ei, carinha, deixo você tirar sua selfie, se tirar uma foto nossa. Combinado?

Ele balança a cabeça entusiasmado e entrego meu celular para ele.

— Bonnie, você acha que as pessoas vão se assustar se eu pegar minha arma de brinquedo?

— Estamos em Nova York, Tyler. Nada assusta essas pessoas. Nem gorilas gigantes no Empire State. — ela ri.

Inclino-me para dentro do carro e pego o chapéu e a arma. Lily encosta na lataria do carro, com o braço apoiado na janela aberta, enquanto eu me sento no estribo, segurando a pistola com as duas mãos. O garotinho não parece nem um pouquinho surpreso com a arma e logo tira a foto.

— Posso tirar minha foto com você? — estou olhando a foto no celular quando ele diz isso.

— Comigo? Claro! — respondo todo sorridente agora que ele percebeu que uma foto minha vale muito mais a pena.

— Não com você, com ela.

Lily solta uma risadinha ao meu lado e isso faz o garotinho suspirar. Ela se abaixa para ficar da altura dele e, finalmente, a selfie é tirada. O problema é que de repente um monte de gente começa a parar e pedir para tirar fotos também. Pelo menos queriam uma foto minha dessa vez.

Depois de vinte minutos e meio milhão de fotos — as quais tenho certeza que serão virais na internet —, abro a porta para Lily e dou a volta rapidamente antes que apareçam outras pessoas doidas por fotos.

— Isso foi interessante.

— Gente doida.

— Acho que vou usar essa peruca mais vezes. — ela ri.

Dou a partida e logo estamos no meio do trânsito. Quando chegamos à festa, os fotógrafos ficam loucos. Entrego o carro para alguém estacionar, nem me dou o trabalho de ver quem é, estou muito ocupado segurando o braço da minha Bonnie e fazendo pose de Clyde para todos que nos olham dos pés à cabeça.

— Lily?

— O quê?

— Você está linda.

Ela sorri para mim.

— Eu sei.

— Acho que está andando muito comigo, isso parece algo que eu diria. — rimos junto.

— Típico de um leonino.

Há uma enorme fila para entrar no salão que, na verdade, é uma boate, mas hoje parece um salão cheio de gente esquisita fantasiada. Tem muita fantasia de nerd e eu não gosto disso. Quem veste uma camiseta do Batman e acha que isso é fantasia?

Por fim, passamos direto e o segurança apenas confere nossos nomes na lista vip e entramos.

— Lá vem Lily e suas baboseiras de astronomia. — falo em tom de deboche.

— É astrologia. — ela ri e me dá um tapa.

Rio mais.

— Não sou tão burro assim, eu sei que é astrologia. Mas gosto de te encher, você sabe. Esse lugar está incrível! — perco a atenção na brincadeira e começo a olhar o salão preparado para a festa. Na verdade, nas pessoas da festa. E na verdade mesmo, nas mulheres da festa. Eu não consigo me controlar, é simplesmente mais forte do que eu.

Até porque uma asiática baixinha e cheia de curvas com umas coxas de fazer qualquer homem perder a noção, fantasiada de Chun-Li, passa por mim sorrindo bem maliciosa. Fala sério, que cara não tem fetiche com asiáticas? E vestida de Chun-Li? Já sou testado nessa festa sem mal ter colocado os pés aqui.

Olho de soslaio para Lily e ela está de fato prestando atenção na festa. Na decoração, nas luzes, em tudo que eu não presto. Ela é o oposto de mim: centrada, paciente, persuasiva sem apelar para a sedução, pontual, impecável e organizada. Já eu sou organizado apenas no laboratório porque é o meu trabalho, fora isso sou mais devastador do que o Katrina. Não sou paciente com questões que não envolvam a produção de uma nova fragrância, raramente consigo convencer alguém apenas com palavras, e se for mulher, sempre tendo a tentar seduzi-las. Sendo assim, o que mais gosto na nossa amizade além do total companheirismo, é essa capacidade que um tem de completar o outro. O que falta em mim existe nela. E vice-versa.

E agora, na festa, Lily não sabe se divertir de verdade. Mas eu sei. E é aí que nos completamos mais uma vez.

— Tyler, já chega. Já é a quarta rodada! — Lily grita ao meu ouvido com a música alta demais. E ela grita mais do que suficiente porque está bêbada.

Ela é extremamente engraçada e desengonçada quando fica bêbada. Nem me lembro da última vez que a vi assim, falando alto, rindo e se divertindo sem nada que possa impedir. E além de desengonçada, quando Lily bebe assim, consigo manipulá-la com facilidade. E é claro que adoro isso.

Depois de fazer muito sucesso com nossa fantasia combinando e de muitas fotos com outros convidados cujas fantasias não estavam tão incríveis como a nossa — exceto a Chun-Li, ela está deliciosamente incrível. Um cosplay perfeito. —, minha melhor amiga, irmã de mentira e sócia, está sentada numa área mais reservada com sofás e pufes e com mais luzes claras, conversando alegremente com um jogador de futebol americano. Ele está com a camisa dos Patriots, do Brady, é claro, e com o rosto devidamente pintado com os dois risco pretos abaixo dos olhos. Ele até parece ter o porte de quarterback, e Lily parece gostar da conversa entre eles.

Essa é a minha deixa.

— Vou pegar uma bebida, vocês querem? — falo alto o suficiente e Lily demora a entender.

O fantasiado de Tom Brady olha e recusa fazendo um sinal com a mão, ele parece um cara legal. E ele tem que ser porque em breve deixarei Bonnie aqui e partirei em busca de Chun-Li. Personagens de universos totalmente diferentes, mas uma mistura às vezes é legal.

— Eu quero! Quero um... — ela para pensando e olha para o jogador à sua frente e sorri para ele. Lily nunca foi muito boa em flertar, mas quando bebe parece até eu: mestre. — Um cosmopolitan, por favor.

— Ok, senhorita Bradshaw. — rimos, sempre a chamo assim quando pede essa bebida. Durante a adolescência, Lily me obrigou a assistir a todas as seis temporadas de Sex And The City e eu a fiz prometer que ia a todos os jogos dos Knicks na temporada e assim fizemos. E até hoje sei que a bebida preferida de Carrie Bradshaw, protagonista da série, é o cosmopolitan.

Faço um aceno com a cabeça para Tom Brady e ele entende que essa é sua chance de pegar a bebida para ela e fazer seja lá o que planeja. Saio de cena e respiro fundo, animado para começar minha procura pela Chun-li. Enquanto procuro por ela, várias outras mulheres olham sorrindo para mim e algumas até me param, mas apenas faço graça, dou um sorriso e continuo minha caçada. Digo, procura. Finalmente encontro quem eu quero, ela está no bar prestes a matar cinco tequilas. Mas antes que pegue o quarto copinho eu entro na frente e viro antes, entornando a bebida num único gole.

—Nada mal, Clyde. — ela tem uma voz fininha, não sei se é por falar alto por conta da música, mas soa irritante.

—Nada mal mesmo. — sorrio de lado e me debruço na bancada. — Para quem perdeu a cabeça.

— Mas saiba que não gostei nada de você ter tomado minha dose. Se continuar assim, é você quem vai perder a cabeça daqui a pouco. — ela aperta os olhos e em seguida um sorrisinho surge no canto de seus finos lábios.

Arregalo os olhos e me aproximo um pouco mais até conseguir sentir seu perfume. Que por acaso, não fui eu que criei. Tudo bem, nem tudo é como a gente quer.

— Isso foi uma ameaça? — sorrio com malícia e ela gosta.

— Se você quiser, sim.

Dou risada e só penso em beijá-la e logo em seguida arrancar toda essa sua fantasia gamer, mas ainda não posso fazer isso.

— Tomou quantas? — pergunto apontando o último copinho de tequila.

— Três. Mas teriam sido mais se não tivesse vindo até aqui e roubado minha dose. — Chun-Li não é como a maioria das asiáticas que conheço, magrinhas e pequenininhas. Ela tem o corpo realmente parecido com o da personagem do game, tudo definido e torneado. Arrisco dizer até que ela luta na vida real.

— Tudo bem então. — chamo o garçom que está fantasiado de garçom e peço por cinco doses para mim. Não demora nada e já estão prontas bem à minha frente. — Quatro para mim e uma para você. Estou devolvendo.

— E eu devo te agradecer por isso? — ela ri jogando charme e apertando de leve os braços ao lado do corpo, fazendo com que seus seios evidenciem-se mais. Noto com facilidade porque eles são enormes.

Não sou apenas um cara de sorte, também sei escolher bem.

— Me agradeça depois. — falo ao pé do ouvido e em seguida viro minha primeira dose. Viro todas até empatar com ela e viramos a quinta e última aos risos e caretas.

Minha boca está muito seca. Tão seca que sinto como se tivesse passado o verão no Saara, sem água ou Coca-Cola. É a ressaca. Assim que olho para o lado da cama vejo Jamie dormindo e eu lembro de como a noite foi incrível. É, a Chun-Li na verdade chama-se Jamie. Como ainda me lembro do nome dela?

Levanto da cama sem demorar muito e uma dor de cabeça horrível quase me convence a deitar de novo. Sinto dores no corpo e me lembro vagamente das posições exóticas e perigosas que Jamie sugeriu e quase me bateu para fazer. Ela gosta mesmo de um contato físico. E de praticar o Kama Sutra.

Vou até o banheiro e procuro pela caixa de remédios e lá está o milagre da dor de cabeça. Em seguida vou até a cozinha e pego uma das garrafas de dois litros de água e começo a tomar. Ótimo jeito de começar um dia de ressaca. Só quando afundo no sofá da sala tomando minha água é que percebo que estou vestindo apenas cueca. Acho que tive que vesti-la e decretar o fim das acrobacias que a Chun-Li maluca queria continuar, mas não me lembro se adiantou. Ela é insaciável.

Deito a cabeça para trás, no encosto do sofá, apreciando o silêncio e a água que limpa todo meu organismo. Mas, interrompendo meu momento de paz, Jamie surge descalça e vestindo minha camisa social de Clyde e com os cabelos pretos e compridos bagunçados. Ah, a parte chata do sexo casual. Elas não querem que seja casual, mas eu quero e tenho que dizer isso bem alto e claro para todas.

Isso porque todas pedem bis, mas eu nunca quero. Por melhor que tenha sido a performance, não repito.

Ela vem até o sofá e senta no meu colo, de frente, com as pernas encaixadas na minha cintura. Por mais incrível e selvagem que ela tenha sido, e por mais excitante que seja tê-la sentada assim sobre mim, não gosto do que vem a seguir:

— O que acha de tomarmos um café da manhã juntos?

Café da manhã juntos é para casais. Ou para quem quer ser casal. E essa é a última coisa que quero.

Pisco os olhos devagar e falo sem olhar para ela:

— Não posso, tenho compromisso.

É certeiro, alguns pouquíssimos segundos depois ela se levanta e se afasta, mas percebo que me encara e eu tenho que olhar de volta.

— Tem outro compromisso ou só quer se livrar de mim?

— Jamie, eu não sou tão legal assim para você querer tomar café comigo. Só quero te livrar disso. — rio de leve e ela fica enfurecida.

— É Jennifer, seu babaca.

Era mesmo muito estranho eu ter lembrado o nome. Só acertei a primeira letra.

Alguns minutos se passam até que ela vá embora sem me dar tchau e eu consigo respirar aliviado assim que a porta do elevador fecha e ela já está longe. Escuto o sininho de Slash chegando e ele pula no sofá junto comigo. Isso me faz lembrar que a amizade e lealdade dos cães é a mais forte de todas. Uma pena que eles não sejam eternos. Porém, ver Slash e o sininho de sua coleira me faz lembrar de Lily.

Preciso ligar para ela e saber como terminou sua noite. Sei que não foi incrível como a minha, mas pode ter sido divertida. E se foi, ela vai me contar e me agradecer por ter ajudado.

Volto até o quarto desarrumado para pegar o celular, que por acaso encontro no chão, perto da minha calça social de Clyde. Destravo a tela e antes de ligar para ela, vejo que há duas mensagens de voz. E são da própria. Encosto o aparelho na orelha e começo a ouvir a primeira mensagem. Tem muito barulho em volta e acho que ela ainda estava na festa, mal consigo ouvir o que diz, a única frase que entendo bem é:

— Tyler, cadê você? Vou te matar!

Droga, isso não parecia ser um caminho para uma noite divertida com um desconhecido. Lily nunca faz isso, mas imaginei que a essa altura ela adoraria seguir meu conselho e tornar-se adepta do sexo casual.

A segunda mensagem é bem mais nítida, o barulho não existe mais e ela soa brava:

— Eu duvido que você tenha andado por toda essa boate à minha procura, mas saiba que eu fiz isso. Fiquei te procurando igual uma idiota, uma burra que ainda acredita em você. Diz, você me trocou por quem? Saiba que vou te matar assim que te vir, seu desgraçado. E só mais uma coisa: não prometa o que não pode cumprir. Não devia ter prometido não me largar sozinha no meio da festa já que não tinha intenção alguma de não fazer isso.

Eu podia sentir a tempestade chegando.

É segunda-feira, estou de volta ao trabalho, vida normal. Não liguei para Lily para pedir desculpas, fiquei em casa o resto do fim de semana descansando e agora estou em minha sala. Ela sempre chega antes de mim, mas hoje chega mais tarde. É Lucy, nossa secretária, quem me avisa. Logo em seguida vou até a sala dela e como sei que fiz besteira, bato antes de abrir a porta.

— Lily? Tem um minuto? — permaneço na porta, sei que ela vai me fuzilar e eu quero evitar que isso aconteça de perto.

— Para você não, eu não tenho um minuto. Nem dois. Nem uma hora.

Eu realmente fiz merda. Mas tenho que criar coragem e enfrentar a fera.

— Lil, eu sei que fiz merda na festa e te chateei, mas sinceramente, você não tem porque ficar tão brava comigo. Não te deixei sozinha.

— Me deixou com o jogador. Nossa, que incrível. — o humor ácido e irônico. Não gosto disso, não assim.

Entro na sala, fecho a porta e vou até sua mesa. Sento-me na cadeira à frente dela.

— Eu não te deixaria com ele se não achasse que era uma boa ideia.

— Você me deixou com ele porque achou algo para caçar. — ela me fuzila de pertinho. — Ou melhor, alguém.

— E seus recados irritados querem dizer que sua noite não foi tão boa quanto eu imaginei que seria?

— O que acha?

Respiro fundo, ela não está nada paciente. Argh, Lily faz dramas desnecessários.

— Acho que você deveria aproveitar mais a vida. Não devia ser tão séria e tão dura com as coisas. Devia se deixar levar mais, Lily. Vai acabar sozinha, sabia?

Eu não penso muito antes de falar, e quando presto atenção no que falei me arrependo no mesmo minuto.

— Como se eu precisasse de alguém para ser feliz. Muito maduro da sua parte, Senhor Adepto do Sexo Casual porque não consegue mais gostar de ninguém depois da Dianna.

— Ei! Pegou pesado agora.

— Sabe muito bem que consigo ser pior do que isso, Tyler. E você está claramente me provocando além de atrapalhar meu trabalho. — Lily olha para a tela do computador como se fosse a coisa mais interessante e importante do mundo enquanto bate a caneta na mesa. Ela só faz isso quando está nervosa.

— É por isso que você é assim, não é? Trabalha tanto que não vê as coisas boas que pode ter. Sempre te atrapalho com algum convite de festa ou outros eventos.

— E para que ir a uma festa com você se sei que serei largada sozinha porque meu melhor amigo vai correndo atrás da primeira gostosona que passa na frente dele.

— Você sabe que eu odeio quando fala de mim como se eu não estivesse aqui. — estou ficando irritado e isso não é bom.

— É, eu sei. E você — ela aponta o dedo indicador para mim. — sabe como eu odeio ser largada sozinha no meio de uma festa lotada de gente bêbada que nem conheço. E mesmo assim fez isso de novo quando prometeu não fazer.

— Quer saber, Lily? Acho que foi o melhor que fiz. Te aguentar até o fim da noite seria uma tortura. Mesmo você sendo muito mais legal quando está chapada.

Ela me olha tão furiosa que sinto meu corpo todo furado de balas, porque é isso que seu olhar parece agora, uma metralhadora. Lily então larga a caneta, apoia os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos que estão entrelaçadas uma na outra.

Isso me dá um pouco de medo, ela sempre conseguiu me amedrontar com poucos gestos e olhares.

— Então por que ainda se diz meu melhor amigo?

Eu não estava preparado para esse tipo de ironia.

— Porque nós somos melhores amigos. Deixa de ser rabugenta, Lily. Você só tem vinte e seis anos! Parece uma velha que só sabe reclamar e mandar em tudo e em todos.

— E você parece um adolescente sem noção que acha que é imortal e pode fazer tudo o que quiser. E irresponsável. — ela ainda está na mesma pose, mas sinto menos medo dela agora.

De repente sinto uma necessidade de ajudar minha amiga, de trazê-la até a parte divertida da vida.

— Mas eu posso ser assim. Lily, nós somos um dos poucos milionários com menos de trinta anos no país e enquanto eu usufruo dessa vida incrível que conseguimos conquistar, você fica aí envelhecendo estressada.

— Tyler... — ela começa a perder a pose, mas continuo sem lhe dar a chance de falar.

— Você sabe que é uma workaholic, todos sabem disso e acham que você exagera demais. Lily, você não vive para nada além do trabalho. Não aproveita sua vida, só fica dentro desse escritório em frente a esse computador e não se diverte mais.

— Claro que me divirto, não seja idiota.

— E quando foi a última vez que se divertiu? Aposto que não foi no sábado já que está toda nervosinha comigo. — adquiro uma seriedade que raramente aparece.

— Aonde quer chegar com essa conversa?

— Que logo será tarde demais para você aproveitar as coisas. E eu não falo só de aproveitar as festas e tudo de bom que temos acesso. Diz uma coisa, quem foi seu último namorado? O Edward, não é? E quando foi que vocês terminaram mesmo? Ah, na faculdade! Já faz um tempão.

— Mas que droga de conversa é essa, garoto?

Ela está ficando desconfortável. Quando me chama de qualquer coisa a não ser meu nome, está mudando de humor, mas quando é especificamente garoto a coisa não é boa.

— Tem um monte de cara por aí fazendo fila para sair com você e está sempre aqui trabalhando. Seu último namorado foi na faculdade, Lily, fala sério. Você não deixa as pessoas entrarem na sua vida, não se deixa levar por nada.

— Falou o mestre em relacionamentos. Mas já pensou que talvez eu tenha tido experiências ruins como você teve? Será que preciso mesmo falar na Dianna?

— Lily...

— É isso mesmo. Depois dela você se tornou esse galinha que dorme com uma mulher diferente a cada dia. A cada dia, Tyler! Quer me sugerir o quê? Que eu seja sua versão feminina e saia com um cara diferente a cada dia? Pois eu agradeço e recuso sua sugestão.

— Porra, por que tem que falar nela?

É só nessa parte que me concentro. Na droga da frustração que foi meu término com Dianna.

— Por que você está insinuando que eu deveria ser mais irresponsável como você e sair gastando, bebendo e transando com qualquer um.

— Seria muito bom para você fazer isso, até porque deve fazer muito tempo que não transa com ninguém. Por isso está assim, frígida.

Lily para completamente. Eu sei que peguei pesado, mas não me arrependo. Ela me provocou fundo demais.

— Não acredito que ouvi isso de você. — ela está magoada.

Passo a me arrepender no mesmo segundo, magoar Lily é algo difícil de se fazer, mas tem dias que sou mestre em fazer isso. Mas me sinto terrível depois. E o depois já chegou, me sinto péssimo.

— Lily...

— Saia.

— O quê?

— Saia da minha sala, por favor. — ela volta a olhar para o computador e então começa a digitar rapidamente como sempre faz.

— Lily, você nunca fez isso.

— Estou fazendo agora.

Fico de pé a contragosto.

— Você não sabe ouvir a verdade, não é?

— Tyler, ao contrário de você, eu realmente levo meu trabalho a sério. Preocupo-me com esta empresa e com a nossa marca. E pode deixar que continuarei cuidando de tudo enquanto você está por aí transando e aproveitando como se deve. — ela me olha sem a intenção de me matar fuzilado, o que é realmente amedrontador. — Agora saia.

Não admito ser expulso assim, ela nunca fez isso comigo.

Saio batendo a porta de propósito e não me importo com o comportamento que ela julga ser o de um adolescente sem noção. Quando foi que Lily ficou assim tão chata? A gente costumava se divertir tanto. Até mesmo quando comecei a namorar com… Dianna.

Notas finais
E agora as coisas começam a ficar realmente interessantes... O único problema é que Blue e eu estamos com uma dúvida extrema: Continuar ou Não Continuar? Ser ou Não Ser? O negócio é o seguinte: Queremos saber o que vocês, lindos fantasminhas, estão achando de Tyler e Lily. Na verdade, nós NECESSITAMOS (caso sério de abstinência de reviews) saber se vocês gostam ou odeiam. Então gente, não custa nada... Façam duas pessoas felizes :D (e ganhem um flashback sobre Dianna) Beijos.